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	<title>Comentários em: A liberdade da islamofobia</title>
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	<pubDate>Mon, 01 Dec 2008 20:32:15 +0000</pubDate>
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		<title>Por: compositeur de musique de film</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-39481</link>
		<dc:creator>compositeur de musique de film</dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Oct 2008 10:42:53 +0000</pubDate>
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		<description>juste un mesxage pour savoir où je pourrai joindre l'auteurn de ce blog :)</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>juste un mesxage pour savoir où je pourrai joindre l&#8217;auteurn de ce blog :)</p>
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		<title>Por: Rui</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4448</link>
		<dc:creator>Rui</dc:creator>
		<pubDate>Wed, 21 Feb 2007 20:34:37 +0000</pubDate>
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		<description>É tão bom ter a barriga cheia e criticar, o que julgamos ser inviavel e utopico, refiro-me ao Comunismo.
Os senhores neo-liberais, que presentemente detem  uma bela conta bancária, montam o belo carrinho, ultimo modelo da serie x, que dá 200 e não sei quantos, que nem se preocupam com o meio ambiente, pois acham que isso é conversa de ecologistas antiglobalização, tem tanto medo do comunismo porque? Os mesmos já o declararam morto! Por que tanto medo? Falam-do de Cuba, está a fazer 45 ou 46 anos que dura o embargo dos EUA.
</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>É tão bom ter a barriga cheia e criticar, o que julgamos ser inviavel e utopico, refiro-me ao Comunismo.<br />
Os senhores neo-liberais, que presentemente detem  uma bela conta bancária, montam o belo carrinho, ultimo modelo da serie x, que dá 200 e não sei quantos, que nem se preocupam com o meio ambiente, pois acham que isso é conversa de ecologistas antiglobalização, tem tanto medo do comunismo porque? Os mesmos já o declararam morto! Por que tanto medo? Falam-do de Cuba, está a fazer 45 ou 46 anos que dura o embargo dos EUA.</p>
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		<title>Por: Anónimo</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4447</link>
		<dc:creator>Anónimo</dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Mar 2006 09:11:40 +0000</pubDate>
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		<description>Caro Daniel,

gostei de ler que prefere uma Direita democrata a uma Esquerda Fidelista.

Podendo estar a cometer uma enorme injustica, acho que outras caras do BE nao diriam o mesmo.
</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Daniel,</p>
<p>gostei de ler que prefere uma Direita democrata a uma Esquerda Fidelista.</p>
<p>Podendo estar a cometer uma enorme injustica, acho que outras caras do BE nao diriam o mesmo.</p>
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		<title>Por: Dionisius</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4446</link>
		<dc:creator>Dionisius</dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Feb 2006 04:15:26 +0000</pubDate>
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		<description>&lt;a href="http://lib.nmsu.edu/subject/bord/laguia/" rel="nofollow"&gt;wudm&lt;/a&gt; obyo
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		<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://lib.nmsu.edu/subject/bord/laguia/" rel="nofollow">wudm</a> obyo</p>
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		<title>Por: Bravo</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4445</link>
		<dc:creator>Bravo</dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Feb 2006 00:35:11 +0000</pubDate>
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		<description>Tive uma reacção estranha a este post. Não me parece que Cristo e Moisés sejam intocáveis na Europa e Maomé motivo recorrente de galhofa, que alguém que diga uma piada sobre judeus seja imediatamente suspeito de simpatias nazis e quem maltrate os muçulmanos apenas esteja a usar da sua liberdade de expressão, que se distingam judeus e cristãos mas não "islâmicos" (por isso se fala em extremistas ou radicais ou - erradamente - fundamentalistas). Acho que está a exagerar, que não existe essa intolerância.
Mas concordo com o direito dos muçulmanos a indignarem-se (desde que pacificamente) e concordo com a não-criminalização da opinião.
Contas feitas, a islamofobia pode ser um perigo para a Europa - mas o extremismo islâmico (como vê, há quem não reduza os islâmicos a uma só categoria) é um perigo bem maior.
</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Tive uma reacção estranha a este post. Não me parece que Cristo e Moisés sejam intocáveis na Europa e Maomé motivo recorrente de galhofa, que alguém que diga uma piada sobre judeus seja imediatamente suspeito de simpatias nazis e quem maltrate os muçulmanos apenas esteja a usar da sua liberdade de expressão, que se distingam judeus e cristãos mas não &#8220;islâmicos&#8221; (por isso se fala em extremistas ou radicais ou - erradamente - fundamentalistas). Acho que está a exagerar, que não existe essa intolerância.<br />
Mas concordo com o direito dos muçulmanos a indignarem-se (desde que pacificamente) e concordo com a não-criminalização da opinião.<br />
Contas feitas, a islamofobia pode ser um perigo para a Europa - mas o extremismo islâmico (como vê, há quem não reduza os islâmicos a uma só categoria) é um perigo bem maior.</p>
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	<item>
		<title>Por: rato</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4444</link>
		<dc:creator>rato</dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Feb 2006 23:27:13 +0000</pubDate>
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		<description>isto não é uma aspirina.
isto é um supositório...
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		<content:encoded><![CDATA[<p>isto não é uma aspirina.<br />
isto é um supositório&#8230;</p>
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		<title>Por: chateado</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4443</link>
		<dc:creator>chateado</dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Feb 2006 23:25:26 +0000</pubDate>
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		<description>o que me aborrece é que aqui só se fala em comunismo.
ninguém comentou/criticou as sugestões revisionistas...
monkeys...
</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>o que me aborrece é que aqui só se fala em comunismo.<br />
ninguém comentou/criticou as sugestões revisionistas&#8230;<br />
monkeys&#8230;</p>
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	<item>
		<title>Por: João</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4442</link>
		<dc:creator>João</dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Feb 2006 23:21:27 +0000</pubDate>
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		<description>Então o PCP condena os erros do passado? E nunca aceitou as mortandades estalinistas? Estou admirado: então porque cargas de água terá o Avante erguido a voz contra o relatório de Göran Lindblad, que afirmava (espantem-se!)que o Comunismo era responsável por uma série de crimes por todo o Mundo???
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		<content:encoded><![CDATA[<p>Então o PCP condena os erros do passado? E nunca aceitou as mortandades estalinistas? Estou admirado: então porque cargas de água terá o Avante erguido a voz contra o relatório de Göran Lindblad, que afirmava (espantem-se!)que o Comunismo era responsável por uma série de crimes por todo o Mundo???</p>
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		<title>Por: Margarida</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4441</link>
		<dc:creator>Margarida</dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Feb 2006 12:29:03 +0000</pubDate>
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		<description>Rui Neves: eu nem falei dos “crimes de Estaline contra o seu próprio povo”. Eu limitei-me a responder-lhe o que é que HOJE penso de Estaline. Mas posso contar-lhe o que é que já pensei dele.

Pouco depois do 25 de Abril, era novita, um dia cheguei a casa e deparei-me com o meu irmão mais velho (e tenho 8 irmãos e este é ó único comunista) acabado de chegar do hospital, com a cabeça partida , os meus pais bastante nervosos, e todos numa grande algazarra. Perguntei o que é que se passava e quando o meu pai ia a começar a explicar que ele levara uma carga de porrada de um colega estalinista do MRPP que quase o tinha matado, na faculdade, foi interrompido por outro dos meus irmãos (este era do MRPP) com um desdenhoso “pouco se perdia, um social-fascista a mais ou a menos”, a que repliquei com uma bofetada e aos berros “começa já aqui a repressão social-fascista”. Penso que foi a minha resposta histérica que acalmou a cena, eu era das mais novas e nunca tinha levantado uma mão contra qualquer dos meus irmãos…a minha primeira impressão dum estalinista confesso, foi pois arrepiante. É que esses meus dois irmãos eram (são) umas jóias de moços, calmos, ponderados, nada agressivos. Foi a primeira vez que eu passei por uma cena tão irracional e até penso que foi isso que me fez aderir ao PCP, pouco depois. Porque senti a necessidade de intervir num partido responsável, contra fundamentalismos excessivos que até semeavam ódios no seio duma família, onde havia muitas formas diferentes de pensar mas que nas questões importantes era unida.

No PCP aprendi que desde os anos 50’s tinham condenado as arbitrariedades e os crimes cometidos em nome do socialismo e do comunismo. Eu própria testemunhei aquando dum Congresso extraordinário (salvo erro no final dos anos 80’s), da denúncia desses crimes, arbitrariedades e erros. Mais recentemente e particularmente desde as comemorações dos 60 anos sobre a derrota do nazi-fascismo, estudei com mais pormenor o período histórico que antecedeu a II Guerra Mundial, e por isso dou importância ao papel incontornável de Estaline na vitória sobre o nazi-fascismo.

Por isso é com algum nojo (às vezes), outras com alguma (indignação) que vejo que quem andou há 30 anos, de retrato do Estaline em punho, (Fernando Rosas, Major Tomé, Luís Fazenda, Pedro Soares, José Manuel Fernandes, João Carlos Espada, Francisco José Viegas, etc., etc.,) a combater (e a agredir) quem não o tinha por santo, a pedir-nos “responsabilidades” por Estaline…com tanto descaramento e espavento!

</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Rui Neves: eu nem falei dos “crimes de Estaline contra o seu próprio povo”. Eu limitei-me a responder-lhe o que é que HOJE penso de Estaline. Mas posso contar-lhe o que é que já pensei dele.</p>
<p>Pouco depois do 25 de Abril, era novita, um dia cheguei a casa e deparei-me com o meu irmão mais velho (e tenho 8 irmãos e este é ó único comunista) acabado de chegar do hospital, com a cabeça partida , os meus pais bastante nervosos, e todos numa grande algazarra. Perguntei o que é que se passava e quando o meu pai ia a começar a explicar que ele levara uma carga de porrada de um colega estalinista do MRPP que quase o tinha matado, na faculdade, foi interrompido por outro dos meus irmãos (este era do MRPP) com um desdenhoso “pouco se perdia, um social-fascista a mais ou a menos”, a que repliquei com uma bofetada e aos berros “começa já aqui a repressão social-fascista”. Penso que foi a minha resposta histérica que acalmou a cena, eu era das mais novas e nunca tinha levantado uma mão contra qualquer dos meus irmãos…a minha primeira impressão dum estalinista confesso, foi pois arrepiante. É que esses meus dois irmãos eram (são) umas jóias de moços, calmos, ponderados, nada agressivos. Foi a primeira vez que eu passei por uma cena tão irracional e até penso que foi isso que me fez aderir ao PCP, pouco depois. Porque senti a necessidade de intervir num partido responsável, contra fundamentalismos excessivos que até semeavam ódios no seio duma família, onde havia muitas formas diferentes de pensar mas que nas questões importantes era unida.</p>
<p>No PCP aprendi que desde os anos 50’s tinham condenado as arbitrariedades e os crimes cometidos em nome do socialismo e do comunismo. Eu própria testemunhei aquando dum Congresso extraordinário (salvo erro no final dos anos 80’s), da denúncia desses crimes, arbitrariedades e erros. Mais recentemente e particularmente desde as comemorações dos 60 anos sobre a derrota do nazi-fascismo, estudei com mais pormenor o período histórico que antecedeu a II Guerra Mundial, e por isso dou importância ao papel incontornável de Estaline na vitória sobre o nazi-fascismo.</p>
<p>Por isso é com algum nojo (às vezes), outras com alguma (indignação) que vejo que quem andou há 30 anos, de retrato do Estaline em punho, (Fernando Rosas, Major Tomé, Luís Fazenda, Pedro Soares, José Manuel Fernandes, João Carlos Espada, Francisco José Viegas, etc., etc.,) a combater (e a agredir) quem não o tinha por santo, a pedir-nos “responsabilidades” por Estaline…com tanto descaramento e espavento!</p>
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	<item>
		<title>Por: Rui Neves</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4440</link>
		<dc:creator>Rui Neves</dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Feb 2006 11:48:15 +0000</pubDate>
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		<description>Margarida, desculpe mas pela parte que me toca a discussão fica por aqui. Gosto muito de discutir política com pessoas que têm pontos de vista diferentes ou até muito diferentes dos meus, mas digamos que tem de haver um mínimo denominador comum para que a discussão possa existir.
Se em 2006 ainda há pessoas que põe em causa a existência dos crimes de Estaline ou defendem o regime da Coreia do Norte, não é possível ter uma discussão séria com essas pessoas. Da mesma forma, acho que não seria capaz de ter uma discussão com uma pessoa que negasse o holocausto, defendesse Hitler e entendesse que Salazar, Pinochet ou Franco até nem eram muito maus, tinham apenas uma concepção de democracia um pouco diferente da “ocidental”.
Só me resta aconselhar-lhe que diversifique um pouco as suas leituras. Ler só o avante, o gramma e outras publicações do mesmo género é capaz de lhe dar uma visão das coisas um pouco enviesada, não lhe parece?
E tenho esperança que um dia, como aconteceu com muitos outros, olhe para as coisas que tem andado aqui a escrever com uma imensa vergonha e arrependimento.

</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Margarida, desculpe mas pela parte que me toca a discussão fica por aqui. Gosto muito de discutir política com pessoas que têm pontos de vista diferentes ou até muito diferentes dos meus, mas digamos que tem de haver um mínimo denominador comum para que a discussão possa existir.<br />
Se em 2006 ainda há pessoas que põe em causa a existência dos crimes de Estaline ou defendem o regime da Coreia do Norte, não é possível ter uma discussão séria com essas pessoas. Da mesma forma, acho que não seria capaz de ter uma discussão com uma pessoa que negasse o holocausto, defendesse Hitler e entendesse que Salazar, Pinochet ou Franco até nem eram muito maus, tinham apenas uma concepção de democracia um pouco diferente da “ocidental”.<br />
Só me resta aconselhar-lhe que diversifique um pouco as suas leituras. Ler só o avante, o gramma e outras publicações do mesmo género é capaz de lhe dar uma visão das coisas um pouco enviesada, não lhe parece?<br />
E tenho esperança que um dia, como aconteceu com muitos outros, olhe para as coisas que tem andado aqui a escrever com uma imensa vergonha e arrependimento.</p>
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		<title>Por: Rui Neves</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4439</link>
		<dc:creator>Rui Neves</dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Feb 2006 11:26:56 +0000</pubDate>
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		<description>Eu nas últimas autárquicas até votei no candidato do pcp, que ganhou as eleições no meu concelho, mas recuso-me a acreditar que o meu presidente de câmara defende estaline e a coreia do norte. Recuso-me a acreditar, é inconcebível!
</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Eu nas últimas autárquicas até votei no candidato do pcp, que ganhou as eleições no meu concelho, mas recuso-me a acreditar que o meu presidente de câmara defende estaline e a coreia do norte. Recuso-me a acreditar, é inconcebível!</p>
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	</item>
	<item>
		<title>Por: Rui Neves</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4438</link>
		<dc:creator>Rui Neves</dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Feb 2006 11:23:20 +0000</pubDate>
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		<description>Margarida, a sua resposta é de uma tal gravidade que eu nem quero acreditar no que estou a ler!
Segundo percebi a Margarida entende que todos os crimes de Estaline contra o seu próprio povo não têm qualquer importância porque conseguiu derrotar os invasores nazi alemão e japonês!
Mas o que é que uma coisa tem a ver com a outra?
Para derrotar os alemães era condição necessária o terror do povo soviético, os gulags, os processos de moscovo, a morte de milhões de camponeses na Ucrânia, etc., etc., etc.?
E quem são esses supostos inimigos que ainda não lhe perdoaram a derrota que lhes inflingiu?
Eu não conheço pessoalmente nenhum militante do pcp mas recuso-me a acreditar que essas ideias são comuns entre eles. Prefiro acreditar que estas ideias só são partilhadas por pequenas franjas fanáticas e ultra-radicais. Só pensando desta forma posso manter o respeito que tenho pelo pcp, pela sua luta no combate à ditadura de Salazar, pelo seu bom trabalho desempenhado em algumas autarquias, sindicatos, etc.
</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Margarida, a sua resposta é de uma tal gravidade que eu nem quero acreditar no que estou a ler!<br />
Segundo percebi a Margarida entende que todos os crimes de Estaline contra o seu próprio povo não têm qualquer importância porque conseguiu derrotar os invasores nazi alemão e japonês!<br />
Mas o que é que uma coisa tem a ver com a outra?<br />
Para derrotar os alemães era condição necessária o terror do povo soviético, os gulags, os processos de moscovo, a morte de milhões de camponeses na Ucrânia, etc., etc., etc.?<br />
E quem são esses supostos inimigos que ainda não lhe perdoaram a derrota que lhes inflingiu?<br />
Eu não conheço pessoalmente nenhum militante do pcp mas recuso-me a acreditar que essas ideias são comuns entre eles. Prefiro acreditar que estas ideias só são partilhadas por pequenas franjas fanáticas e ultra-radicais. Só pensando desta forma posso manter o respeito que tenho pelo pcp, pela sua luta no combate à ditadura de Salazar, pelo seu bom trabalho desempenhado em algumas autarquias, sindicatos, etc.</p>
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		<title>Por: Margarida</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4437</link>
		<dc:creator>Margarida</dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Feb 2006 10:51:47 +0000</pubDate>
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		<description>Rui Neves : pergunta-me o que eu penso do Estaline. Penso que foi o presidente da URSS e do PCUS e que conseguiu – com os sacrifícios e as mortes (27 milhões!!!) dos povos soviéticos – o mais importante: derrotar os invasores nazi alemão e japonês, e deu o mais importante contributo para o fim da II Guerra Mundial. E é por isso que mais de 60 anos depois da vitória sobre o nazi-fascismo e mais de 50 anos depois da sua morte, os seus inimigos  ainda não lhe perdoaram a derrota que lhes infligiu.
</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Rui Neves : pergunta-me o que eu penso do Estaline. Penso que foi o presidente da URSS e do PCUS e que conseguiu – com os sacrifícios e as mortes (27 milhões!!!) dos povos soviéticos – o mais importante: derrotar os invasores nazi alemão e japonês, e deu o mais importante contributo para o fim da II Guerra Mundial. E é por isso que mais de 60 anos depois da vitória sobre o nazi-fascismo e mais de 50 anos depois da sua morte, os seus inimigos  ainda não lhe perdoaram a derrota que lhes infligiu.</p>
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	</item>
	<item>
		<title>Por: antipro.blogs.sapo.pt</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4436</link>
		<dc:creator>antipro.blogs.sapo.pt</dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Feb 2006 01:35:55 +0000</pubDate>
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		<description>Estive a lêr esta treta toda (menos o(s) copy/paste (da) margarida) e dou graças a uma qq entidade divina (certamente susceptível de ser ridicularizada [nem que invente um deus só meu, pronto]) por ir prá caminha, fazer um ó-ó descansado. Ó Daniel, não sei como é que aguentas esta estucha (a malta já anda a fazer apostas para o nº de comentários que este post vai ter),como é que aguentas tanta parvoeira.





PS tenho cá umas suspeitas que a margarida não existe. É uma ficção duma pita qq que não tem mais que fazer.
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		<content:encoded><![CDATA[<p>Estive a lêr esta treta toda (menos o(s) copy/paste (da) margarida) e dou graças a uma qq entidade divina (certamente susceptível de ser ridicularizada [nem que invente um deus só meu, pronto]) por ir prá caminha, fazer um ó-ó descansado. Ó Daniel, não sei como é que aguentas esta estucha (a malta já anda a fazer apostas para o nº de comentários que este post vai ter),como é que aguentas tanta parvoeira.</p>
<p>PS tenho cá umas suspeitas que a margarida não existe. É uma ficção duma pita qq que não tem mais que fazer.</p>
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	<item>
		<title>Por: Margarida</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4435</link>
		<dc:creator>Margarida</dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Feb 2006 22:49:53 +0000</pubDate>
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		<description>A indústria do anticomunismo

Por Emir Sader - Carta Maior

Um escritor judeu residente em Nova York chamou de membros da "indústria do holocausto" os que vivem às custas do massacre sofrido pelos judeus - assim como pelos comunistas e pelos ciganos, tão esquecidos. São burocratas, "intelectuais", "religiosos" que vivem da exploração do tema - literalmente vivem: ganham dinheiro, prestígio, espaço na imprensa e nas editoras.

O mesmo se pode dizer do anticomunismo. O fim da URSS e do campo socialista deixou um tipo particular de viúva: os que viviam da "guerra fria". Na Argentina, no momento da morte de Perón, um antiperonista radical - do Partido Radical - escreveu, desconsolado: "Nesse caixão vai metade da minha vida. Eu que cresci e vivi como antiperonista, o que vai ser de mim, de onde vou tirar o sentido da minha vida?" No desespero, sentia-se traído por Perón, que o abandonava à sua própria sorte.

Um comunista me dizia outro dia que se deliciava em ler a sobrevivente literatura anticomunista, porque dá a impressão que o mundo está à beira do comunismo, que os dias do capitalismo estão contados. Essa fauna encontra vários exemplares por aí, viúvas da "guerra fria", que tratam de viver do anticomunismo: colunistas de uma (ainda) bem vendida revista semanal, filho de um marqueteiro; um articulista de duvidosa existência (há quem diga que é pseudônimo de um esquerdista, que criou esse grotesco personagem para desmoralizar a direita), um editor cultural promovido por um assassino - todos personagens jurássicos, deslocados, que têm que criar o fantasma do comunismo para aparecerem como valorosos "salvadores do capitalismo", cobrando polpudos salários por esse papel que se auto-atribuem.

A mencionada revista semanal, saudosa dos tempos da bipolaridade EUA/URSS, destila periodicamente - entre capas sobre temas de saúde, de compras, de variedades, tiradas de revistas estadunidenses - seus venenos anticomunistas, de que pretende tirar proveito mostrando serviço ao grande empresariado e recebendo vantagens em troca.

Pautas como o MST, Cuba, guerrilhas, PT, Venezuela (lembram-se da grotesca matéria de capa regozijando-se do golpe contra o "ditador" Hugo Chávez, uma das maiores gafes dos últimos tempo na imprensa brasileira) alternam-se com matérias fúteis de propaganda do "american way of life".

Nesta semana, por falta de pauta - o mundo e o Brasil lhes parecem suficientemente pobres de interesse - publica-se com estardalhaço - como se sugeria nos manuais de propaganda estadunidenses da "guerra fria" para os órgãos financiados e promovidos por eles - uma pífia matéria sobre suposto financiamento das Farc ao PT.

As Farc são um prato cheio para os nostálgicos da "guerra fria". Guerrilha, América Latina, Partido Comunista, tentativa de criminalização acusando-os de "narcoguerrilhas" - sem nunca mencionar os reconhecidos vínculos do presidente colombiano com os paramilitares e, através destes, com os cartéis (nunca usaram a expressão "narcopresidente"). A matéria não apresenta nenhuma prova concreta, refugiando-se em fontes que teriam desejado não aparecer. Nada ficará quando a espuma da onda baixar. Mas a onda está feita, repercutida em todo o resto da imprensa escrita do fim de semana, com direito a desmentidos e entrevistas na televisão.

É esse o papel da imprensa da "guerra fria". Desvia-se das pautas essenciais para o povo brasileiro e para o Brasil e resta o que os monopólios privados da mídia impõem. Uma senhora idosa declara, no Estadão, que é bem atendida pelo médico cubano que a atende em uma pequena cidade de 3 mil habitantes no norte de Tocantins - onde nenhum médico da burguesia vai. Mas o artigo publicado - sem uma outra versão, como pede o manual de redação desse jornal - na Folha de S. Paulo se preocupa com a validação do diploma da primeira geração de médicos pobres no Brasil.

Supostamente preocupados com a saúde do povo brasileiro, sem se dar conta de que esses médicos vão trabalhar em cidades como essa de Tocantins, na saúde pública, e que não vão concorrer com a clientela rica dos Jardins. Se preocupam com o diploma da Faculdade Latino-americana de Medicina, em Cuba, país que têm um dos melhores índices de saúde do mundo, ao contrário do Brasil, onde predomina a medicina privada.

Mas a indústria do anticomunismo precisa levantar os fantasmas da subversão, para poder vender seus serviços para uma burguesia covarde, disposta a qualquer coisa, para não perder nem os dedos, nem os anéis.

in www.correiodobrasil.cidadeinternet.com/br

</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>A indústria do anticomunismo</p>
<p>Por Emir Sader - Carta Maior</p>
<p>Um escritor judeu residente em Nova York chamou de membros da &#8220;indústria do holocausto&#8221; os que vivem às custas do massacre sofrido pelos judeus - assim como pelos comunistas e pelos ciganos, tão esquecidos. São burocratas, &#8220;intelectuais&#8221;, &#8220;religiosos&#8221; que vivem da exploração do tema - literalmente vivem: ganham dinheiro, prestígio, espaço na imprensa e nas editoras.</p>
<p>O mesmo se pode dizer do anticomunismo. O fim da URSS e do campo socialista deixou um tipo particular de viúva: os que viviam da &#8220;guerra fria&#8221;. Na Argentina, no momento da morte de Perón, um antiperonista radical - do Partido Radical - escreveu, desconsolado: &#8220;Nesse caixão vai metade da minha vida. Eu que cresci e vivi como antiperonista, o que vai ser de mim, de onde vou tirar o sentido da minha vida?&#8221; No desespero, sentia-se traído por Perón, que o abandonava à sua própria sorte.</p>
<p>Um comunista me dizia outro dia que se deliciava em ler a sobrevivente literatura anticomunista, porque dá a impressão que o mundo está à beira do comunismo, que os dias do capitalismo estão contados. Essa fauna encontra vários exemplares por aí, viúvas da &#8220;guerra fria&#8221;, que tratam de viver do anticomunismo: colunistas de uma (ainda) bem vendida revista semanal, filho de um marqueteiro; um articulista de duvidosa existência (há quem diga que é pseudônimo de um esquerdista, que criou esse grotesco personagem para desmoralizar a direita), um editor cultural promovido por um assassino - todos personagens jurássicos, deslocados, que têm que criar o fantasma do comunismo para aparecerem como valorosos &#8220;salvadores do capitalismo&#8221;, cobrando polpudos salários por esse papel que se auto-atribuem.</p>
<p>A mencionada revista semanal, saudosa dos tempos da bipolaridade EUA/URSS, destila periodicamente - entre capas sobre temas de saúde, de compras, de variedades, tiradas de revistas estadunidenses - seus venenos anticomunistas, de que pretende tirar proveito mostrando serviço ao grande empresariado e recebendo vantagens em troca.</p>
<p>Pautas como o MST, Cuba, guerrilhas, PT, Venezuela (lembram-se da grotesca matéria de capa regozijando-se do golpe contra o &#8220;ditador&#8221; Hugo Chávez, uma das maiores gafes dos últimos tempo na imprensa brasileira) alternam-se com matérias fúteis de propaganda do &#8220;american way of life&#8221;.</p>
<p>Nesta semana, por falta de pauta - o mundo e o Brasil lhes parecem suficientemente pobres de interesse - publica-se com estardalhaço - como se sugeria nos manuais de propaganda estadunidenses da &#8220;guerra fria&#8221; para os órgãos financiados e promovidos por eles - uma pífia matéria sobre suposto financiamento das Farc ao PT.</p>
<p>As Farc são um prato cheio para os nostálgicos da &#8220;guerra fria&#8221;. Guerrilha, América Latina, Partido Comunista, tentativa de criminalização acusando-os de &#8220;narcoguerrilhas&#8221; - sem nunca mencionar os reconhecidos vínculos do presidente colombiano com os paramilitares e, através destes, com os cartéis (nunca usaram a expressão &#8220;narcopresidente&#8221;). A matéria não apresenta nenhuma prova concreta, refugiando-se em fontes que teriam desejado não aparecer. Nada ficará quando a espuma da onda baixar. Mas a onda está feita, repercutida em todo o resto da imprensa escrita do fim de semana, com direito a desmentidos e entrevistas na televisão.</p>
<p>É esse o papel da imprensa da &#8220;guerra fria&#8221;. Desvia-se das pautas essenciais para o povo brasileiro e para o Brasil e resta o que os monopólios privados da mídia impõem. Uma senhora idosa declara, no Estadão, que é bem atendida pelo médico cubano que a atende em uma pequena cidade de 3 mil habitantes no norte de Tocantins - onde nenhum médico da burguesia vai. Mas o artigo publicado - sem uma outra versão, como pede o manual de redação desse jornal - na Folha de S. Paulo se preocupa com a validação do diploma da primeira geração de médicos pobres no Brasil.</p>
<p>Supostamente preocupados com a saúde do povo brasileiro, sem se dar conta de que esses médicos vão trabalhar em cidades como essa de Tocantins, na saúde pública, e que não vão concorrer com a clientela rica dos Jardins. Se preocupam com o diploma da Faculdade Latino-americana de Medicina, em Cuba, país que têm um dos melhores índices de saúde do mundo, ao contrário do Brasil, onde predomina a medicina privada.</p>
<p>Mas a indústria do anticomunismo precisa levantar os fantasmas da subversão, para poder vender seus serviços para uma burguesia covarde, disposta a qualquer coisa, para não perder nem os dedos, nem os anéis.</p>
<p>in <a href="http://www.correiodobrasil.cidadeinternet.com/br" rel="nofollow">http://www.correiodobrasil.cidadeinternet.com/br</a></p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>Por: Rui Neves</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4434</link>
		<dc:creator>Rui Neves</dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Feb 2006 22:18:06 +0000</pubDate>
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		<description>Continua sem responder à minha questão: o que pensa a Margarida de Estaline?
</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Continua sem responder à minha questão: o que pensa a Margarida de Estaline?</p>
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	</item>
	<item>
		<title>Por: Margarida</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4433</link>
		<dc:creator>Margarida</dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Feb 2006 21:52:42 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://aspirinab.com/geral/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4433</guid>
		<description>AS CINCO DIFICULDADES PARA ESCREVER A VERDADE

Bertolt Brecht (*)

Hoje, o escritor que deseje combater a mentira e a ignorância tem de lutar, pelo menos, contra cinco dificuldades.

É-lhe necessária a coragem de dizer a verdade, numa altura em que por toda a parte se empenham em sufocá-la; a inteligência de a reconhecer, quando por toda a parte a ocultam; a arte de a tornar manejável como uma arma; o discernimento suficiente para escolher aqueles em cujas mãos ela se tornará eficaz; finalmente, precisa de ter habilidade para difundir entre eles.

Estas dificuldades são grandes para os que escrevem sob o jugo do fascismo; aqueles que fugiram ou foram expulsos também sentem o peso delas; e até os que escrevem num regime de liberdades burguesas não estão livres da sua acção.


1- A CORAGEM DE DIZER A VERDADE

É evidente que o escritor deve dizer a verdade, não a calar nem a abafar, e nada escrever contra ela.

É sua obrigação evitar rebaixar-se diante dos poderosos, não enganar os fracos, naturalmente, assim como resistir à tentação do lucro que advém de enganar os fracos.

Desagradar aos que tudo possuem equivale a renunciar seja o que for.

Renunciar ao salário do seu trabalho equivale por vezes a não poder trabalhar, e recusar ser célebre entre os poderosos é muitas vezes recusar qualquer espécie de celebridade.

Para isso precisa-se de coragem. As épocas de extrema opressão costumam ser também aquelas em que os grandes e nobres temas estão na ordem do dia.

Em tais épocas, quando o espírito de sacrifício é exaltado ruidosamente, precisa o escritor de muita coragem para tratar de temas tão mesquinhos e tão baixos como a alimentação dos trabalhadores e o seu alojamento.

Quando os camponeses são cobertos de honrarias e apontados como exemplo, é corajoso o escritor que fala da maquinaria agrícola e dos pastos baratos que aliviariam o tão exaltado trabalho dos campos.

Quando todos os altifalantes espalham aos quatro ventos que o ignorante vale mais do que o instruído, é preciso coragem para perguntar: vale mais porquê?

Quando se fala de raças nobres e de raças inferiores, é corajoso o que pergunta se a fome, a ignorância e a guerra não produzem odiosas deformidades.

É igualmente necessária coragem para se dizer a verdade a nosso próprio respeito, sobre os vencidos que somos.

Muitos perseguidos perdem a faculdade de reconhecer as suas culpas. A perseguição parece-lhes uma monstruosa injustiça.

Os perseguidores são maus, dado que perseguem, e eles, os perseguidos, são perseguidos por causa da sua virtude. Mas essa virtude foi esmagada, vencida, reduzida à impotência.

Bem fraca virtude ela era! Má, inconsistente e pouco segura virtude, pois não é admissível aceitar a fraqueza da virtude como se aceita a humidade da chuva.

É necessária coragem para dizer que os bons não foram vencidos por causa da sua virtude, mas antes por causa da sua fraqueza.

A verdade deve ser mostrada na sua luta com a mentira e nunca apresentada como algo de sublime, de ambíguo e de geral; este estilo de falar dela convém justamente à mentira.

Quando se afirma que alguém disse a verdade é porque houve outros, vários, muitos ou um só, que disseram outra coisa, mentiras ou generalidades, mas aquele disse a verdade, falou em algo de prático, concreto, impossível de negar, disse a única coisa que era preciso dizer.

Não se carece de muita coragem para deplorar em termos gerais a corrupção do mundo e para falar num tom ameaçador, nos sítios onde a coisa ainda é permitida, da desforra do Espírito.

Muitos simulam a bravura como se os canhões estivessem apontados sobre eles; a verdade é que apenas servem de mira a binóculos de teatro.

Os seus gritos atiram algumas vagas e generalizadas reivindicações, à face dum mundo onde as pessoas inofensivas são estimadas.

Reclamam em termos gerais uma justiça para a qual nada contribuem, apelam pela liberdade de receber a sua parte dum espólio que sempre têm partilhado com eles.

Para esses, a verdade tem de soar bem. Se nela só há aridez, números e factos, se para a encontrar forem precisos estudos e muito esforço, então essa verdade não é para eles, não possui a seus olhos nada de exaltante.

Da verdade, só lhes interessa o comportamento exterior que permite clamar por ela. A sua grande desgraça é não possuírem a mínima noção dela.

2- A INTELIGÊNCIA DE RECONHECER A VERDADE

Como é difícil dizer a verdade, já que por toda a parte a sufocam, dizê-la ou não parece à maioria uma simples questão de honestidade.

Muitas pessoas pensam que quem diz a verdade só precisa de coragem. Esquecem a segunda dificuldade, a que consiste em descobri-la. Não se pode dizer que seja fácil encontrar a verdade.

Em primeiro lugar, já não é fácil descobrir qual verdade merece ser dita. Hoje, por exemplo, as grandes nações civilizadas vão soçobrando uma após outra na pior das barbáries diante dos olhos pasmados do universo.

Acresce ainda o facto de todos sabermos que a guerra interna, dispondo dos meios mais horríveis, pode transformar-se dum momento para o outro numa guerra exterior que só deixará um montão de escombros no sitio onde outrora havia o nosso continente.

Esta é uma verdade que não admite dúvidas, mas é claro que existem outras verdades. Por exemplo: não é falso que as cadeiras sirvam para a gente se sentar e que a chuva caia de cima para baixo.

Muitos poetas escrevem verdades deste género. Assemelham-se a pintores que esboçassem naturezas mortas a bordo dum navio em risco de naufragar.

A primeira dificuldade de que falamos não existe para eles, e contudo têm a consciência tranquila. "Esgalham" o quadro num desprezo soberano pelos poderosos, mas também sem se deixarem impressionar pelos gritos das vítimas.

O absurdo do seu comportamento engendra neles um "profundo" pessimismo que se vende bem; os outros é que têm motivos para se sentirem pessimistas ao verem o modo como esses mestres se vendem.

Já nem sequer é fácil reconhecer que as suas verdades dizem respeito ao destino das cadeiras e ao sentido da chuva: essas verdades soam normalmente de outra maneira, como se estivessem relacionadas com coisas essenciais, pois o trabalho do artista consiste justamente em dar um ar de importância aos temas de que trata.

Só olhando os quadros de muito perto é que podemos discernir a simplicidade do que dizem: "Uma cadeira é uma cadeira" e "Ninguém pode impedir a chuva de cair de cima para baixo". As pessoas não encontram ali a verdade que merece a pena ser dita.

Alguns consagram-se verdadeiramente às tarefas mais urgentes, sem medo aos poderosos ou à pobreza, e no entanto não conseguem encontrar a verdade.

Faltam-lhe conhecimentos. As velhas superstições não os largam, assim como os preconceitos ilustres que o passado frequentemente revestiu de uma forma bela.

Acham o mundo complicado em demasia, não conhecem os dados nem distinguem as relações. A honestidade não basta; são precisos conhecimentos que se podem adquirir e métodos que se podem aprender.

Todos os que escrevem sobre as complicações desta época e sobre as transformações que nela ocorrem necessitam de conhecer a dialéctica materialista, a economia e a história.

Estes conhecimentos podem adquirir-se nos livros e através da aprendizagem prática, por mínima que seja a vontade necessária.

Muitas verdades podem ser encontradas com a ajuda de meios bastante mais simples, através de fragmentos de verdades ou dos dados que conduzem à sua descoberta.

Quando se quer procurar, é conveniente ter-se um método, mas também se pode encontrar sem método e até sem procura. Contudo, através dos diversos modos como o acaso se exprime, não se pode esperar a representação da verdade que permite aos homens saber como devem agir.

As pessoas que só se empenham em anotar os factos insignificantes são incapazes de tornar manejáveis as coisas deste mundo.

O objectivo da verdade é uno e indivisível. As pessoas que apenas são capazes de dizer generalidades sobre a verdade não estão à altura dessa obrigação.

Se alguém está pronto a dizer a verdade e é capaz de a reconhecer, ainda tem de vencer três dificuldades.

3-A ARTE DE TORNAR A VERDADE MANEJÁVEL COMO UMA ARMA

O que torna imperiosa a necessidade de dizer a verdade são as consequências que isso implica no que diz respeito à conduta prática. Como exemplo de verdade inconsequente ou de que se poderão tirar consequências falsas, tomemos o conceito largamente difundido, segundo o qual em certos países reina um estado de coisas nefasto, resultante da barbárie. Para esta concepção, o fascismo é uma vaga de barbárie que alagou certos países com a violência de um fenómeno natural.

Os que assim pensam, entendem o fascismo como um novo movimento, uma terceira força justaposta ao capitalismo e ao socialismo (e que os domina). Para quem partilha esta opinião, não só o movimento socialista, mas também o capitalismo teriam podido, se não fosse o fascismo, continuar a existir, etc. Naturalmente que se trata de uma afirmação fascista, de uma capitulação perante o fascismo. O fascismo é uma fase histórica na qual o capitalismo entrou; por consequência, algo de novo e ao mesmo tempo de velho. Nos países fascistas, a existência do capitalismo assume a forma do fascismo, e não é possível combater o fascismo senão enquanto capitalismo, senão enquanto forma mais nua, mais cínica, mais opressora e mais mentirosa do capitalismo.

Como se poderá dizer a verdade sobre o fascismo que se recusa, se quem diz essa verdade se abstêm de falar contra o capitalismo que engendra o fascismo? Qual será o alcance prático dessa verdade?

Aqueles que estão contra o fascismo sem estar contra o capitalismo, que choramingam sobre a barbárie causada pela barbárie, assemelham-se a pessoas que querem receber a sua fatia de assado de vitela, mas não querem que se mate a vitela. Querem comer vitela, mas não querem ver sangue. Para ficarem contentes, basta que o magarefe lave as mãos antes de servir a carne. Não são contra as relações de propriedade que produzem a barbárie, mas são contra a barbárie.

As recriminações contra as medidas bárbaras podem ter uma eficácia episódica, enquanto os auditores acreditarem que semelhantes medidas não são possíveis na sociedade onde vivem. Certos países gozam do raro privilégio de manter relações de propriedade capitalistas por processos aparentemente menos violentos. A democracia ainda lhes presta os serviços que noutras partes do mundo só podem ser prestados mediante o recurso à violência, quer dizer, aí a democracia chega para garantir a propriedade privada dos meios de produção. O monopólio das fábricas, das minas, dos latifúndios gera em toda a parte condições bárbaras; digamos que em alguns sítios a democracia torna essas condições menos visíveis. A barbárie torna-se visível logo que o monopólio já só pode encontrar protecção na violência nua.

Certas nações que conseguem preservar os monopólios bárbaros sem renunciar às garantias formais do direito, nem a comodidades como a arte, a filosofia, a literatura, acolhem carinhosamente os hóspedes cujos discursos procuram desculpar o seu país natal de ter renunciado a semelhantes confortos: tudo isso lhes será útil nas guerras vindouras. É licito dizer-se que reconheceram a verdade, aqueles que reclamam a torto e a direito uma luta sem quartel contra a Alemanha, apresentada como verdadeira pátria do mal da nossa época, sucursal do inferno, caverna do Anticristo? Desses, não será exagerado pensar que não passam de impotentes e nefastos imbecis, já que a conclusão do seu blá-blá-blá aponta para a destruição desse pais inteiro e de todos os seus habitantes (o gás asfixiante, quando mata, não escolhe os culpados).

O homem frívolo, que não conhece a verdade, exprime-se através de generalidades, em termos nobres e imprecisos. Encanta-o perorar sobre "os" alemães ou lançar-se em grandes tiradas sobre "o" Mal, mas a verdade é que nós, aqueles a quem o homem frívolo fala, ficamos embaraçados, sem saber que fazer de semelhantes ditames. Afinal de contas, o nosso homem decidiu deixar de ser alemão? E lá por ele ser bom, o inferno vai desaparecer? São desta espécie as grandes frases sobre a barbárie. Para os seus autores, a barbárie vem da barbárie e desaparece graças à educação moral que vem da educação. Que miséria a destas generalidades, que não visam qualquer aplicação pratica e, no fundo, não se dirigem a ninguém.

Não nos admiremos que se digam de esquerda, "mas" democratas, os que só conseguem elevar-se a tão fracas e improfícuas verdades. A "esquerda democrática" é outra destas generalidades-álibís onde correm a acoitar-se as pessoas inconsequentes, isto é, os incapazes de viver até as últimas consequências as verdades que quer a esquerda, quer a democracia contêm. Reclamar-se alguém da "esquerda democrática" significa, em termos práticos, que pertence ao grupo dos ineptos para revolucionar ou conservar as coisas, ao clã dos generalistas da verdade.

Não é a mim, fugido da Alemanha com a roupa que tinha no corpo, que me vão apresentar o fascismo como uma espécie de força motriz natural impossível de dominar. A escuridade dessas descrições esconde as verdadeiras forças que produzem as catástrofes. Um pouco de luz, e logo se vê que são homens a causa das catástrofes. Pois é, amigos: vivemos num tempo em que o homem é o destino do homem.

O fascismo não é uma calamidade natural, que se possa compreender a partir da "natureza" humana. Mas mesmo confrontados com catástrofes naturais, há um modo de descrevê-las digno do homem, um modo que apela para as suas qualidades combativas.

O cronista de grandes catástrofes como o fascismo e a guerra (que não são catástrofes naturais) deve elaborar uma verdade praticável, mostrar as calamidades que os que possuem os meios de produção infligem às massas imensas dos que trabalham e não os possuem.

Se se pretende dizer eficazmente a verdade sobre um mau estado de coisas, é preciso dizê-la de maneira que permita reconhecer as suas causas evitáveis. Uma vez reconhecidas as causas evitáveis, o mau estado de coisas pode ser combatido.

4- DISCERNIMENTO SUFICIENTE PARA ESCOLHER OS QUE TORNARÃO A VERDADE EFICAZ

Tirando ao escritor a preocupação pelo destino dos seus textos, as usanças seculares do comércio da coisa escrita no mercado das opiniões deram-lhe a impressão de que a sua missão terminava logo que o intermediário, cliente ou editor, se encarregava de transmitir aos outros a obra acabada.

O escritor pensava: falo e ouve-me quem me quiser ouvir. Na verdade, ele falava e quem podia pagar ouvia-o.

Nem todos ouviam as suas palavras, e os que as ouviam não estavam dispostos a ouvir tudo o que se lhes dizia. Tem-se falado muito desta questão, mas mesmo assim ainda não chega o que se tem dito: limitar-me-ei aqui a acentuar que "escrever a alguém" tornou-se pura e simplesmente "escrever".

Ora não se pode escrever a verdade e basta: é absolutamente necessário escrevê-la a "alguém" que possa tirar partido dela. O conhecimento da verdade é um processo comum aos que lêem e aos que escrevem.

Para dizer boas coisas, é preciso ouvir bem e ouvir boas coisas. A verdade deve ser pesada por quem a diz e por quem a ouve. E para nós que escrevemos, é essencial saber a quem a dizemos e quem no-la diz.

Devemos dizer a verdade sobre um mau estado de coisas àqueles que o consideram o pior estado de coisas, e é desses que devemos aprender a verdade.

Devemos não só dirigir-nos às pessoas que têm uma certa opinião, mas também aos que ainda a não têm e deviam tê-la, ditada pela sua própria situação. Os nossos auditores transformam-se continuamente!

Até se pode falar com os próprios carrascos quando o prémio dos enforcamentos deixa de ser pago pontualmente ou o perigo de estar com os assassinos se torna muito grande.

Os camponeses da Baviera não costumam querer nada com revoluções, mas quando as guerras duram demais e os seus filhos, no regresso, não arranjam trabalho nas quintas, tem sido possível ganhá-los para a revolução.

Para quem escreve, é importante saber encontrar o tom da verdade. Um acento suave, lamentoso, de quem é incapaz de fazer mal a uma mosca, não serve. Quem, estando na miséria, ouve tais lamúrias, sente-se ainda mais miserável. Em nada o anima a cantilena dos que, não sendo seus inimigos, não são certamente seus companheiros de luta.

A verdade é guerreira, não combate só a mentira, mas certos homens bem determinados que a propagam.

5- HABILIDADE PARA DIFUNDIR A VERDADE

Muitos, orgulhosos de ter a coragem de dizer a verdade, contentes por a terem encontrado, porventura fatigados com o esforço necessário para lhe dar uma forma manejável, aguardam impacientemente que aqueles cujos interesses defendem a tomem em suas mãos e consideram desnecessário o uso de manhas e estratagemas para a difundir.

Frequentemente, é assim que perdem todo o fruto do seu trabalho. Em todos os tempos, foi necessário recorrer a "truques" para espalhar a verdade, quando os poderosos se empenhavam em abafá-la e ocultá-la.

Confúcio falsificou um velho calendário histórico nacional, apenas lhe alterando algumas palavras. Quando o texto dizia: "o senhor de Kun condenou à morte o filósofo Wan por ter dito frito e cozido", Confúcio substituía "condenou à morte" por "assassinou".

Quando o texto dizia que o Imperador Fulano tinha sucumbido a um atentado, escrevia "foi executado". Com este processo, Confúcio abriu caminho a uma nova concepção da história.

Na nossa época, aquele que em vez de "povo",diz "população", e em lugar de terra", fala de "latifúndio", evita já muitas mentiras, limpando as palavras da sua magia de pacotilha.

A palavra "povo" exprime uma certa unidade e sugere interesses comuns; a "população" de um território tem interesses diferentes e opostos.

Da mesma forma, aquele que fala em "terra" e evoca a visão pastoral e o perfume dos campos favorece as mentiras dos poderosos, porque não fala do preço do trabalho e das sementes, nem no lucro que vai parar aos bolsos dos ricaços das cidades e não aos dos camponeses que se matam a tornar fértil o "paraíso".

"Latifúndio" é a expressão justa: torna a aldrabice menos fácil. Nos sítios onde reina a opressão, deve-se escolher, em vez de "disciplina", a palavra "obediência", já que mesmo sem amos e chefes a disciplina é possível, e caracteriza-se portanto por algo de mais nobre que a obediência.

Do mesmo modo, "dignidade humana" vale mais do que "honra": com a primeira expressão o indivíduo não desaparece tão facilmente do campo visual; por outro lado, conhece-se de ginjeira o género de canalha que costuma apresentar-se para defender a honra de um povo, e com que prodigalidade os gordos desonrados distribuem "honrarias" pelos famélicos que os engordam.

Ao substituir avaliações inexactas de acontecimentos nacionais por notações exactas, o método de Confúcio ainda hoje é aplicável.

Lénine, por exemplo, ameaçado pela polícia do czar, quis descrever a exploração e a opressão da ilha Sakalina pela burguesia russa. Substituiu "Rússia" por "Japão" e "Sakalina" por "Coreia".

Os métodos da burguesia japonesa faziam lembrar a todos os leitores os métodos da burguesia russa em Sakalina, mas a brochura não foi proibida, porque o Japão era inimigo da Rússia.

Muitas coisas que não podem ser ditas na Alemanha a propósito da Alemanha, podem sê-lo a propósito da Áustria. Há muitas maneiras de enganar um Estado vigilante.

Voltaire combateu a fé da Igreja nos milagres, escrevendo um poema libertino sobre a Donzela de Orleans, no qual são descritos os milagres que sem dúvida foram necessários para Joana d'Arc permanecer virgem no exército, na Corte e no meio dos frades.

Pela elegância do seu estilo e a descrição de aventuras galantes inspiradas na vida relaxada das classes dirigentes, levou estas a sacrificar uma religião que lhes fornecia os meios de levar essa vida dissoluta.

Mais e melhor deu assim às suas obras a possibilidade de atingir por vias ilegais aqueles a quem eram destinadas. Os poderosos que Voltaire contava entre os seus leitores favoreciam ou toleravam a difusão dos livros proibidos, e desse modo sacrificavam a polícia que protegia os seus prazeres.

E o grande Lucrécio sublinha expressamente que, para propagar o ateísmo epicurista confiava muito na beleza dos seus versos.

Não há dúvida de que um alto nível literário pode servir de salvo-conduto à expressão de uma ideia. Contudo, muitas vezes desperta suspeitas. Então, pode ser indicado baixá-lo intencionalmente.

É o que acontece, por exemplo, quando sob a forma desprezada do romance policial, se introduz à socapa, em lugares discretos, a descrição dos males da sociedade.

O grande Shakespeare baixou o seu nível por considerações bem mais fracas, quando tratou com uma voluntária ausência de vigor o discurso com que a mãe de Coriolano tentou travar o filho, que marchava sobre Roma: Shakespeare pretendia que Coriolano desistisse do seu projecto, não por causa de razões sólidas ou de uma emoção profunda, mas por uma certa fraqueza de carácter que o entregava aos seus velhos hábitos.

Encontramos igualmente em Shakespeare um modelo de manhas na difusão da verdade: o discurso de Marco António perante o corpo de César, quando repete com insistência que Brutus, assassino de César, é um homem honrado, descrevendo ao mesmo tempo o seu acto, e a descrição do acto provoca mais impressão que a do autor.

Jonathan Swift propôs numa das suas obras o seguinte meio de garantir o bem-estar da Irlanda: meter em salmoura os filhos dos pobres e vendê-los como carniça no talho.

Através de minuciosos cálculos, provava que se podem fazer grandes economias quando não se recua diante de nada. Swift armava voluntariamente em imbecil, defendendo uma maneira de pensar abominável e cuja ignomínia saltava aos olhos de todos. O leitor podia-se mostrar mais inteligente, ou pelo menos mais humano que Swift, sobretudo aquele que ainda não tinha pensado nas consequências decorrentes de certas concepções.

São consideradas baixas as actividades úteis aos que são mantidos no fundo da escala: a preocupação constante pela satisfação de necessidades; o desdém pelas honrarias com que procuram engodar os que defendem o país onde morrem de fome; a falta de confiança no chefe quando o chefe nos leva a todos à catástrofe; a falta de gosto pelo trabalho quando ele não alimenta o trabalhador; o protesto contra a obrigação de ter um comportamento de idiotas; a indiferença para com a família, quando de nada serve a gente interessar-se por ela.

Os esfomeados são acusados de gulodice; os que não têm nada a defender, de cobardia; os que duvidam dos seus opressores, de duvidar da sua própria força; os que querem receber a justa paga pelo seu trabalho, de preguiça, etc.

Numa época como a nossa, os governos que conduzem as massas humanas à miséria, têm de evitar que nessa miséria se pense no governo, e por isso estão sempre a falar em fatalidade. Quem procura as causas do mal, vai parar à prisão antes que a sua busca atinja o governo.

Mas é sempre possível opormo-nos à conversa fiada sobre a fatalidade: pode-se mostrar, em todas as circunstâncias, que a fatalidade do homem é obra de outros homens. Até na descrição de uma paisagem se pode chegar a um resultado conforme à verdade, quando se incorporam à natureza as coisas criadas pelo homem.

RECAPITULAÇÃO

A grande verdade da nossa época (só seu conhecimento em nada nos faz avançar, mas sem ela não se pode alcançar nenhuma outra verdade importante) é que o nosso continente se afunda na barbárie porque nele se mantêm pela violência determinadas relações de propriedade dos meios de produção.

De que serve escrever frases corajosas mostrando que é bárbaro o estado de coisas em que nos afundamos (o que é verdade), se a razão de termos caído nesse estado não se descortina com clareza? É nossa obrigação dizer que, se se tortura, é para manter as relações de propriedade.

Claro que ao dizermos isso perdemos muitos amigos; aqueles que são contra a tortura porque julgam ser possível manter sem ela as relações de propriedade (o que é falso).

Devemos dizer a verdade sobre as condições bárbaras que reinam no nosso país a fim de tornar possível a acção que as fará desaparecer, isto é, que transformará as relações de propriedade.

Devemos dizê-la aos que mais sofrem com as relações de propriedade e estão mais interessados na sua transformação, ou seja: aos operários e aos que podemos levar a aliarem-se com eles, por não serem proprietários dos meios de produção, embora associados aos lucros e benefícios da exploração de quem produz. E, é claro, devemos proceder com astúcia.

Devemos resolver em conjunto, e ao mesmo tempo, estas cinco dificuldades, já que não podemos procurar a verdade sobre condições bárbaras sem pensar nos que sofrem essas condições e estão dispostos a utilizar esse conhecimento.

Além disso, temos de pensar em apresentar-lhes a verdade sob uma forma susceptível de se transformar numa arma nas suas mãos, e simultaneamente com a astúcia suficiente para que a operação não seja descoberta e impedida pelo inimigo.

São estas as virtudes exigidas ao escritor empenhado em dizer a verdade.


(*) Texto de 1934. Tradução de Ernesto Sampaio.
Publicado no Diário de Lisboa de 25/Abr/82.

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		<content:encoded><![CDATA[<p>AS CINCO DIFICULDADES PARA ESCREVER A VERDADE</p>
<p>Bertolt Brecht (*)</p>
<p>Hoje, o escritor que deseje combater a mentira e a ignorância tem de lutar, pelo menos, contra cinco dificuldades.</p>
<p>É-lhe necessária a coragem de dizer a verdade, numa altura em que por toda a parte se empenham em sufocá-la; a inteligência de a reconhecer, quando por toda a parte a ocultam; a arte de a tornar manejável como uma arma; o discernimento suficiente para escolher aqueles em cujas mãos ela se tornará eficaz; finalmente, precisa de ter habilidade para difundir entre eles.</p>
<p>Estas dificuldades são grandes para os que escrevem sob o jugo do fascismo; aqueles que fugiram ou foram expulsos também sentem o peso delas; e até os que escrevem num regime de liberdades burguesas não estão livres da sua acção.</p>
<p>1- A CORAGEM DE DIZER A VERDADE</p>
<p>É evidente que o escritor deve dizer a verdade, não a calar nem a abafar, e nada escrever contra ela.</p>
<p>É sua obrigação evitar rebaixar-se diante dos poderosos, não enganar os fracos, naturalmente, assim como resistir à tentação do lucro que advém de enganar os fracos.</p>
<p>Desagradar aos que tudo possuem equivale a renunciar seja o que for.</p>
<p>Renunciar ao salário do seu trabalho equivale por vezes a não poder trabalhar, e recusar ser célebre entre os poderosos é muitas vezes recusar qualquer espécie de celebridade.</p>
<p>Para isso precisa-se de coragem. As épocas de extrema opressão costumam ser também aquelas em que os grandes e nobres temas estão na ordem do dia.</p>
<p>Em tais épocas, quando o espírito de sacrifício é exaltado ruidosamente, precisa o escritor de muita coragem para tratar de temas tão mesquinhos e tão baixos como a alimentação dos trabalhadores e o seu alojamento.</p>
<p>Quando os camponeses são cobertos de honrarias e apontados como exemplo, é corajoso o escritor que fala da maquinaria agrícola e dos pastos baratos que aliviariam o tão exaltado trabalho dos campos.</p>
<p>Quando todos os altifalantes espalham aos quatro ventos que o ignorante vale mais do que o instruído, é preciso coragem para perguntar: vale mais porquê?</p>
<p>Quando se fala de raças nobres e de raças inferiores, é corajoso o que pergunta se a fome, a ignorância e a guerra não produzem odiosas deformidades.</p>
<p>É igualmente necessária coragem para se dizer a verdade a nosso próprio respeito, sobre os vencidos que somos.</p>
<p>Muitos perseguidos perdem a faculdade de reconhecer as suas culpas. A perseguição parece-lhes uma monstruosa injustiça.</p>
<p>Os perseguidores são maus, dado que perseguem, e eles, os perseguidos, são perseguidos por causa da sua virtude. Mas essa virtude foi esmagada, vencida, reduzida à impotência.</p>
<p>Bem fraca virtude ela era! Má, inconsistente e pouco segura virtude, pois não é admissível aceitar a fraqueza da virtude como se aceita a humidade da chuva.</p>
<p>É necessária coragem para dizer que os bons não foram vencidos por causa da sua virtude, mas antes por causa da sua fraqueza.</p>
<p>A verdade deve ser mostrada na sua luta com a mentira e nunca apresentada como algo de sublime, de ambíguo e de geral; este estilo de falar dela convém justamente à mentira.</p>
<p>Quando se afirma que alguém disse a verdade é porque houve outros, vários, muitos ou um só, que disseram outra coisa, mentiras ou generalidades, mas aquele disse a verdade, falou em algo de prático, concreto, impossível de negar, disse a única coisa que era preciso dizer.</p>
<p>Não se carece de muita coragem para deplorar em termos gerais a corrupção do mundo e para falar num tom ameaçador, nos sítios onde a coisa ainda é permitida, da desforra do Espírito.</p>
<p>Muitos simulam a bravura como se os canhões estivessem apontados sobre eles; a verdade é que apenas servem de mira a binóculos de teatro.</p>
<p>Os seus gritos atiram algumas vagas e generalizadas reivindicações, à face dum mundo onde as pessoas inofensivas são estimadas.</p>
<p>Reclamam em termos gerais uma justiça para a qual nada contribuem, apelam pela liberdade de receber a sua parte dum espólio que sempre têm partilhado com eles.</p>
<p>Para esses, a verdade tem de soar bem. Se nela só há aridez, números e factos, se para a encontrar forem precisos estudos e muito esforço, então essa verdade não é para eles, não possui a seus olhos nada de exaltante.</p>
<p>Da verdade, só lhes interessa o comportamento exterior que permite clamar por ela. A sua grande desgraça é não possuírem a mínima noção dela.</p>
<p>2- A INTELIGÊNCIA DE RECONHECER A VERDADE</p>
<p>Como é difícil dizer a verdade, já que por toda a parte a sufocam, dizê-la ou não parece à maioria uma simples questão de honestidade.</p>
<p>Muitas pessoas pensam que quem diz a verdade só precisa de coragem. Esquecem a segunda dificuldade, a que consiste em descobri-la. Não se pode dizer que seja fácil encontrar a verdade.</p>
<p>Em primeiro lugar, já não é fácil descobrir qual verdade merece ser dita. Hoje, por exemplo, as grandes nações civilizadas vão soçobrando uma após outra na pior das barbáries diante dos olhos pasmados do universo.</p>
<p>Acresce ainda o facto de todos sabermos que a guerra interna, dispondo dos meios mais horríveis, pode transformar-se dum momento para o outro numa guerra exterior que só deixará um montão de escombros no sitio onde outrora havia o nosso continente.</p>
<p>Esta é uma verdade que não admite dúvidas, mas é claro que existem outras verdades. Por exemplo: não é falso que as cadeiras sirvam para a gente se sentar e que a chuva caia de cima para baixo.</p>
<p>Muitos poetas escrevem verdades deste género. Assemelham-se a pintores que esboçassem naturezas mortas a bordo dum navio em risco de naufragar.</p>
<p>A primeira dificuldade de que falamos não existe para eles, e contudo têm a consciência tranquila. &#8220;Esgalham&#8221; o quadro num desprezo soberano pelos poderosos, mas também sem se deixarem impressionar pelos gritos das vítimas.</p>
<p>O absurdo do seu comportamento engendra neles um &#8220;profundo&#8221; pessimismo que se vende bem; os outros é que têm motivos para se sentirem pessimistas ao verem o modo como esses mestres se vendem.</p>
<p>Já nem sequer é fácil reconhecer que as suas verdades dizem respeito ao destino das cadeiras e ao sentido da chuva: essas verdades soam normalmente de outra maneira, como se estivessem relacionadas com coisas essenciais, pois o trabalho do artista consiste justamente em dar um ar de importância aos temas de que trata.</p>
<p>Só olhando os quadros de muito perto é que podemos discernir a simplicidade do que dizem: &#8220;Uma cadeira é uma cadeira&#8221; e &#8220;Ninguém pode impedir a chuva de cair de cima para baixo&#8221;. As pessoas não encontram ali a verdade que merece a pena ser dita.</p>
<p>Alguns consagram-se verdadeiramente às tarefas mais urgentes, sem medo aos poderosos ou à pobreza, e no entanto não conseguem encontrar a verdade.</p>
<p>Faltam-lhe conhecimentos. As velhas superstições não os largam, assim como os preconceitos ilustres que o passado frequentemente revestiu de uma forma bela.</p>
<p>Acham o mundo complicado em demasia, não conhecem os dados nem distinguem as relações. A honestidade não basta; são precisos conhecimentos que se podem adquirir e métodos que se podem aprender.</p>
<p>Todos os que escrevem sobre as complicações desta época e sobre as transformações que nela ocorrem necessitam de conhecer a dialéctica materialista, a economia e a história.</p>
<p>Estes conhecimentos podem adquirir-se nos livros e através da aprendizagem prática, por mínima que seja a vontade necessária.</p>
<p>Muitas verdades podem ser encontradas com a ajuda de meios bastante mais simples, através de fragmentos de verdades ou dos dados que conduzem à sua descoberta.</p>
<p>Quando se quer procurar, é conveniente ter-se um método, mas também se pode encontrar sem método e até sem procura. Contudo, através dos diversos modos como o acaso se exprime, não se pode esperar a representação da verdade que permite aos homens saber como devem agir.</p>
<p>As pessoas que só se empenham em anotar os factos insignificantes são incapazes de tornar manejáveis as coisas deste mundo.</p>
<p>O objectivo da verdade é uno e indivisível. As pessoas que apenas são capazes de dizer generalidades sobre a verdade não estão à altura dessa obrigação.</p>
<p>Se alguém está pronto a dizer a verdade e é capaz de a reconhecer, ainda tem de vencer três dificuldades.</p>
<p>3-A ARTE DE TORNAR A VERDADE MANEJÁVEL COMO UMA ARMA</p>
<p>O que torna imperiosa a necessidade de dizer a verdade são as consequências que isso implica no que diz respeito à conduta prática. Como exemplo de verdade inconsequente ou de que se poderão tirar consequências falsas, tomemos o conceito largamente difundido, segundo o qual em certos países reina um estado de coisas nefasto, resultante da barbárie. Para esta concepção, o fascismo é uma vaga de barbárie que alagou certos países com a violência de um fenómeno natural.</p>
<p>Os que assim pensam, entendem o fascismo como um novo movimento, uma terceira força justaposta ao capitalismo e ao socialismo (e que os domina). Para quem partilha esta opinião, não só o movimento socialista, mas também o capitalismo teriam podido, se não fosse o fascismo, continuar a existir, etc. Naturalmente que se trata de uma afirmação fascista, de uma capitulação perante o fascismo. O fascismo é uma fase histórica na qual o capitalismo entrou; por consequência, algo de novo e ao mesmo tempo de velho. Nos países fascistas, a existência do capitalismo assume a forma do fascismo, e não é possível combater o fascismo senão enquanto capitalismo, senão enquanto forma mais nua, mais cínica, mais opressora e mais mentirosa do capitalismo.</p>
<p>Como se poderá dizer a verdade sobre o fascismo que se recusa, se quem diz essa verdade se abstêm de falar contra o capitalismo que engendra o fascismo? Qual será o alcance prático dessa verdade?</p>
<p>Aqueles que estão contra o fascismo sem estar contra o capitalismo, que choramingam sobre a barbárie causada pela barbárie, assemelham-se a pessoas que querem receber a sua fatia de assado de vitela, mas não querem que se mate a vitela. Querem comer vitela, mas não querem ver sangue. Para ficarem contentes, basta que o magarefe lave as mãos antes de servir a carne. Não são contra as relações de propriedade que produzem a barbárie, mas são contra a barbárie.</p>
<p>As recriminações contra as medidas bárbaras podem ter uma eficácia episódica, enquanto os auditores acreditarem que semelhantes medidas não são possíveis na sociedade onde vivem. Certos países gozam do raro privilégio de manter relações de propriedade capitalistas por processos aparentemente menos violentos. A democracia ainda lhes presta os serviços que noutras partes do mundo só podem ser prestados mediante o recurso à violência, quer dizer, aí a democracia chega para garantir a propriedade privada dos meios de produção. O monopólio das fábricas, das minas, dos latifúndios gera em toda a parte condições bárbaras; digamos que em alguns sítios a democracia torna essas condições menos visíveis. A barbárie torna-se visível logo que o monopólio já só pode encontrar protecção na violência nua.</p>
<p>Certas nações que conseguem preservar os monopólios bárbaros sem renunciar às garantias formais do direito, nem a comodidades como a arte, a filosofia, a literatura, acolhem carinhosamente os hóspedes cujos discursos procuram desculpar o seu país natal de ter renunciado a semelhantes confortos: tudo isso lhes será útil nas guerras vindouras. É licito dizer-se que reconheceram a verdade, aqueles que reclamam a torto e a direito uma luta sem quartel contra a Alemanha, apresentada como verdadeira pátria do mal da nossa época, sucursal do inferno, caverna do Anticristo? Desses, não será exagerado pensar que não passam de impotentes e nefastos imbecis, já que a conclusão do seu blá-blá-blá aponta para a destruição desse pais inteiro e de todos os seus habitantes (o gás asfixiante, quando mata, não escolhe os culpados).</p>
<p>O homem frívolo, que não conhece a verdade, exprime-se através de generalidades, em termos nobres e imprecisos. Encanta-o perorar sobre &#8220;os&#8221; alemães ou lançar-se em grandes tiradas sobre &#8220;o&#8221; Mal, mas a verdade é que nós, aqueles a quem o homem frívolo fala, ficamos embaraçados, sem saber que fazer de semelhantes ditames. Afinal de contas, o nosso homem decidiu deixar de ser alemão? E lá por ele ser bom, o inferno vai desaparecer? São desta espécie as grandes frases sobre a barbárie. Para os seus autores, a barbárie vem da barbárie e desaparece graças à educação moral que vem da educação. Que miséria a destas generalidades, que não visam qualquer aplicação pratica e, no fundo, não se dirigem a ninguém.</p>
<p>Não nos admiremos que se digam de esquerda, &#8220;mas&#8221; democratas, os que só conseguem elevar-se a tão fracas e improfícuas verdades. A &#8220;esquerda democrática&#8221; é outra destas generalidades-álibís onde correm a acoitar-se as pessoas inconsequentes, isto é, os incapazes de viver até as últimas consequências as verdades que quer a esquerda, quer a democracia contêm. Reclamar-se alguém da &#8220;esquerda democrática&#8221; significa, em termos práticos, que pertence ao grupo dos ineptos para revolucionar ou conservar as coisas, ao clã dos generalistas da verdade.</p>
<p>Não é a mim, fugido da Alemanha com a roupa que tinha no corpo, que me vão apresentar o fascismo como uma espécie de força motriz natural impossível de dominar. A escuridade dessas descrições esconde as verdadeiras forças que produzem as catástrofes. Um pouco de luz, e logo se vê que são homens a causa das catástrofes. Pois é, amigos: vivemos num tempo em que o homem é o destino do homem.</p>
<p>O fascismo não é uma calamidade natural, que se possa compreender a partir da &#8220;natureza&#8221; humana. Mas mesmo confrontados com catástrofes naturais, há um modo de descrevê-las digno do homem, um modo que apela para as suas qualidades combativas.</p>
<p>O cronista de grandes catástrofes como o fascismo e a guerra (que não são catástrofes naturais) deve elaborar uma verdade praticável, mostrar as calamidades que os que possuem os meios de produção infligem às massas imensas dos que trabalham e não os possuem.</p>
<p>Se se pretende dizer eficazmente a verdade sobre um mau estado de coisas, é preciso dizê-la de maneira que permita reconhecer as suas causas evitáveis. Uma vez reconhecidas as causas evitáveis, o mau estado de coisas pode ser combatido.</p>
<p>4- DISCERNIMENTO SUFICIENTE PARA ESCOLHER OS QUE TORNARÃO A VERDADE EFICAZ</p>
<p>Tirando ao escritor a preocupação pelo destino dos seus textos, as usanças seculares do comércio da coisa escrita no mercado das opiniões deram-lhe a impressão de que a sua missão terminava logo que o intermediário, cliente ou editor, se encarregava de transmitir aos outros a obra acabada.</p>
<p>O escritor pensava: falo e ouve-me quem me quiser ouvir. Na verdade, ele falava e quem podia pagar ouvia-o.</p>
<p>Nem todos ouviam as suas palavras, e os que as ouviam não estavam dispostos a ouvir tudo o que se lhes dizia. Tem-se falado muito desta questão, mas mesmo assim ainda não chega o que se tem dito: limitar-me-ei aqui a acentuar que &#8220;escrever a alguém&#8221; tornou-se pura e simplesmente &#8220;escrever&#8221;.</p>
<p>Ora não se pode escrever a verdade e basta: é absolutamente necessário escrevê-la a &#8220;alguém&#8221; que possa tirar partido dela. O conhecimento da verdade é um processo comum aos que lêem e aos que escrevem.</p>
<p>Para dizer boas coisas, é preciso ouvir bem e ouvir boas coisas. A verdade deve ser pesada por quem a diz e por quem a ouve. E para nós que escrevemos, é essencial saber a quem a dizemos e quem no-la diz.</p>
<p>Devemos dizer a verdade sobre um mau estado de coisas àqueles que o consideram o pior estado de coisas, e é desses que devemos aprender a verdade.</p>
<p>Devemos não só dirigir-nos às pessoas que têm uma certa opinião, mas também aos que ainda a não têm e deviam tê-la, ditada pela sua própria situação. Os nossos auditores transformam-se continuamente!</p>
<p>Até se pode falar com os próprios carrascos quando o prémio dos enforcamentos deixa de ser pago pontualmente ou o perigo de estar com os assassinos se torna muito grande.</p>
<p>Os camponeses da Baviera não costumam querer nada com revoluções, mas quando as guerras duram demais e os seus filhos, no regresso, não arranjam trabalho nas quintas, tem sido possível ganhá-los para a revolução.</p>
<p>Para quem escreve, é importante saber encontrar o tom da verdade. Um acento suave, lamentoso, de quem é incapaz de fazer mal a uma mosca, não serve. Quem, estando na miséria, ouve tais lamúrias, sente-se ainda mais miserável. Em nada o anima a cantilena dos que, não sendo seus inimigos, não são certamente seus companheiros de luta.</p>
<p>A verdade é guerreira, não combate só a mentira, mas certos homens bem determinados que a propagam.</p>
<p>5- HABILIDADE PARA DIFUNDIR A VERDADE</p>
<p>Muitos, orgulhosos de ter a coragem de dizer a verdade, contentes por a terem encontrado, porventura fatigados com o esforço necessário para lhe dar uma forma manejável, aguardam impacientemente que aqueles cujos interesses defendem a tomem em suas mãos e consideram desnecessário o uso de manhas e estratagemas para a difundir.</p>
<p>Frequentemente, é assim que perdem todo o fruto do seu trabalho. Em todos os tempos, foi necessário recorrer a &#8220;truques&#8221; para espalhar a verdade, quando os poderosos se empenhavam em abafá-la e ocultá-la.</p>
<p>Confúcio falsificou um velho calendário histórico nacional, apenas lhe alterando algumas palavras. Quando o texto dizia: &#8220;o senhor de Kun condenou à morte o filósofo Wan por ter dito frito e cozido&#8221;, Confúcio substituía &#8220;condenou à morte&#8221; por &#8220;assassinou&#8221;.</p>
<p>Quando o texto dizia que o Imperador Fulano tinha sucumbido a um atentado, escrevia &#8220;foi executado&#8221;. Com este processo, Confúcio abriu caminho a uma nova concepção da história.</p>
<p>Na nossa época, aquele que em vez de &#8220;povo&#8221;,diz &#8220;população&#8221;, e em lugar de terra&#8221;, fala de &#8220;latifúndio&#8221;, evita já muitas mentiras, limpando as palavras da sua magia de pacotilha.</p>
<p>A palavra &#8220;povo&#8221; exprime uma certa unidade e sugere interesses comuns; a &#8220;população&#8221; de um território tem interesses diferentes e opostos.</p>
<p>Da mesma forma, aquele que fala em &#8220;terra&#8221; e evoca a visão pastoral e o perfume dos campos favorece as mentiras dos poderosos, porque não fala do preço do trabalho e das sementes, nem no lucro que vai parar aos bolsos dos ricaços das cidades e não aos dos camponeses que se matam a tornar fértil o &#8220;paraíso&#8221;.</p>
<p>&#8220;Latifúndio&#8221; é a expressão justa: torna a aldrabice menos fácil. Nos sítios onde reina a opressão, deve-se escolher, em vez de &#8220;disciplina&#8221;, a palavra &#8220;obediência&#8221;, já que mesmo sem amos e chefes a disciplina é possível, e caracteriza-se portanto por algo de mais nobre que a obediência.</p>
<p>Do mesmo modo, &#8220;dignidade humana&#8221; vale mais do que &#8220;honra&#8221;: com a primeira expressão o indivíduo não desaparece tão facilmente do campo visual; por outro lado, conhece-se de ginjeira o género de canalha que costuma apresentar-se para defender a honra de um povo, e com que prodigalidade os gordos desonrados distribuem &#8220;honrarias&#8221; pelos famélicos que os engordam.</p>
<p>Ao substituir avaliações inexactas de acontecimentos nacionais por notações exactas, o método de Confúcio ainda hoje é aplicável.</p>
<p>Lénine, por exemplo, ameaçado pela polícia do czar, quis descrever a exploração e a opressão da ilha Sakalina pela burguesia russa. Substituiu &#8220;Rússia&#8221; por &#8220;Japão&#8221; e &#8220;Sakalina&#8221; por &#8220;Coreia&#8221;.</p>
<p>Os métodos da burguesia japonesa faziam lembrar a todos os leitores os métodos da burguesia russa em Sakalina, mas a brochura não foi proibida, porque o Japão era inimigo da Rússia.</p>
<p>Muitas coisas que não podem ser ditas na Alemanha a propósito da Alemanha, podem sê-lo a propósito da Áustria. Há muitas maneiras de enganar um Estado vigilante.</p>
<p>Voltaire combateu a fé da Igreja nos milagres, escrevendo um poema libertino sobre a Donzela de Orleans, no qual são descritos os milagres que sem dúvida foram necessários para Joana d&#8217;Arc permanecer virgem no exército, na Corte e no meio dos frades.</p>
<p>Pela elegância do seu estilo e a descrição de aventuras galantes inspiradas na vida relaxada das classes dirigentes, levou estas a sacrificar uma religião que lhes fornecia os meios de levar essa vida dissoluta.</p>
<p>Mais e melhor deu assim às suas obras a possibilidade de atingir por vias ilegais aqueles a quem eram destinadas. Os poderosos que Voltaire contava entre os seus leitores favoreciam ou toleravam a difusão dos livros proibidos, e desse modo sacrificavam a polícia que protegia os seus prazeres.</p>
<p>E o grande Lucrécio sublinha expressamente que, para propagar o ateísmo epicurista confiava muito na beleza dos seus versos.</p>
<p>Não há dúvida de que um alto nível literário pode servir de salvo-conduto à expressão de uma ideia. Contudo, muitas vezes desperta suspeitas. Então, pode ser indicado baixá-lo intencionalmente.</p>
<p>É o que acontece, por exemplo, quando sob a forma desprezada do romance policial, se introduz à socapa, em lugares discretos, a descrição dos males da sociedade.</p>
<p>O grande Shakespeare baixou o seu nível por considerações bem mais fracas, quando tratou com uma voluntária ausência de vigor o discurso com que a mãe de Coriolano tentou travar o filho, que marchava sobre Roma: Shakespeare pretendia que Coriolano desistisse do seu projecto, não por causa de razões sólidas ou de uma emoção profunda, mas por uma certa fraqueza de carácter que o entregava aos seus velhos hábitos.</p>
<p>Encontramos igualmente em Shakespeare um modelo de manhas na difusão da verdade: o discurso de Marco António perante o corpo de César, quando repete com insistência que Brutus, assassino de César, é um homem honrado, descrevendo ao mesmo tempo o seu acto, e a descrição do acto provoca mais impressão que a do autor.</p>
<p>Jonathan Swift propôs numa das suas obras o seguinte meio de garantir o bem-estar da Irlanda: meter em salmoura os filhos dos pobres e vendê-los como carniça no talho.</p>
<p>Através de minuciosos cálculos, provava que se podem fazer grandes economias quando não se recua diante de nada. Swift armava voluntariamente em imbecil, defendendo uma maneira de pensar abominável e cuja ignomínia saltava aos olhos de todos. O leitor podia-se mostrar mais inteligente, ou pelo menos mais humano que Swift, sobretudo aquele que ainda não tinha pensado nas consequências decorrentes de certas concepções.</p>
<p>São consideradas baixas as actividades úteis aos que são mantidos no fundo da escala: a preocupação constante pela satisfação de necessidades; o desdém pelas honrarias com que procuram engodar os que defendem o país onde morrem de fome; a falta de confiança no chefe quando o chefe nos leva a todos à catástrofe; a falta de gosto pelo trabalho quando ele não alimenta o trabalhador; o protesto contra a obrigação de ter um comportamento de idiotas; a indiferença para com a família, quando de nada serve a gente interessar-se por ela.</p>
<p>Os esfomeados são acusados de gulodice; os que não têm nada a defender, de cobardia; os que duvidam dos seus opressores, de duvidar da sua própria força; os que querem receber a justa paga pelo seu trabalho, de preguiça, etc.</p>
<p>Numa época como a nossa, os governos que conduzem as massas humanas à miséria, têm de evitar que nessa miséria se pense no governo, e por isso estão sempre a falar em fatalidade. Quem procura as causas do mal, vai parar à prisão antes que a sua busca atinja o governo.</p>
<p>Mas é sempre possível opormo-nos à conversa fiada sobre a fatalidade: pode-se mostrar, em todas as circunstâncias, que a fatalidade do homem é obra de outros homens. Até na descrição de uma paisagem se pode chegar a um resultado conforme à verdade, quando se incorporam à natureza as coisas criadas pelo homem.</p>
<p>RECAPITULAÇÃO</p>
<p>A grande verdade da nossa época (só seu conhecimento em nada nos faz avançar, mas sem ela não se pode alcançar nenhuma outra verdade importante) é que o nosso continente se afunda na barbárie porque nele se mantêm pela violência determinadas relações de propriedade dos meios de produção.</p>
<p>De que serve escrever frases corajosas mostrando que é bárbaro o estado de coisas em que nos afundamos (o que é verdade), se a razão de termos caído nesse estado não se descortina com clareza? É nossa obrigação dizer que, se se tortura, é para manter as relações de propriedade.</p>
<p>Claro que ao dizermos isso perdemos muitos amigos; aqueles que são contra a tortura porque julgam ser possível manter sem ela as relações de propriedade (o que é falso).</p>
<p>Devemos dizer a verdade sobre as condições bárbaras que reinam no nosso país a fim de tornar possível a acção que as fará desaparecer, isto é, que transformará as relações de propriedade.</p>
<p>Devemos dizê-la aos que mais sofrem com as relações de propriedade e estão mais interessados na sua transformação, ou seja: aos operários e aos que podemos levar a aliarem-se com eles, por não serem proprietários dos meios de produção, embora associados aos lucros e benefícios da exploração de quem produz. E, é claro, devemos proceder com astúcia.</p>
<p>Devemos resolver em conjunto, e ao mesmo tempo, estas cinco dificuldades, já que não podemos procurar a verdade sobre condições bárbaras sem pensar nos que sofrem essas condições e estão dispostos a utilizar esse conhecimento.</p>
<p>Além disso, temos de pensar em apresentar-lhes a verdade sob uma forma susceptível de se transformar numa arma nas suas mãos, e simultaneamente com a astúcia suficiente para que a operação não seja descoberta e impedida pelo inimigo.</p>
<p>São estas as virtudes exigidas ao escritor empenhado em dizer a verdade.</p>
<p>(*) Texto de 1934. Tradução de Ernesto Sampaio.<br />
Publicado no Diário de Lisboa de 25/Abr/82.</p>
<p>Este artigo encontra-se em <a href="http://resistir.info" rel="nofollow">http://resistir.info</a></p>
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	</item>
	<item>
		<title>Por: DALTON</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4432</link>
		<dc:creator>DALTON</dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Feb 2006 21:18:53 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://aspirinab.com/geral/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4432</guid>
		<description>Há aqui uma coisa que eu ainda não percebi: vocês não têm outros interesses na vida? É só cubas, coreias e estalines?
Malta, descontraiam um bocado, vão beber um copo a algum sítio em vez de passar a noite nisto!
Que deprimente!

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		<content:encoded><![CDATA[<p>Há aqui uma coisa que eu ainda não percebi: vocês não têm outros interesses na vida? É só cubas, coreias e estalines?<br />
Malta, descontraiam um bocado, vão beber um copo a algum sítio em vez de passar a noite nisto!<br />
Que deprimente!</p>
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	</item>
	<item>
		<title>Por: Rui Neves</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4431</link>
		<dc:creator>Rui Neves</dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Feb 2006 20:57:59 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://aspirinab.com/geral/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4431</guid>
		<description>Margarida, toda a gente sabe os crimes que Hitler cometeu, nomeadamente contra os soviéticos, mas eu gostava era que me dissesse o que pensa de Estaline.
Gostava de ter a sua opinião, não um artigo do avante ou do antónio vilarigues.
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		<content:encoded><![CDATA[<p>Margarida, toda a gente sabe os crimes que Hitler cometeu, nomeadamente contra os soviéticos, mas eu gostava era que me dissesse o que pensa de Estaline.<br />
Gostava de ter a sua opinião, não um artigo do avante ou do antónio vilarigues.</p>
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		<title>Por: Margarida</title>
		<link>http://aspirinab.com/visitas-antigas/daniel-oliveira/a-liberdade-da-islamofobia/#comment-4430</link>
		<dc:creator>Margarida</dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Feb 2006 20:51:28 +0000</pubDate>
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		<description>Jorge Messias

«Barba Ruiva» e as igrejas russas

No Tribunal de Nuremberga que julgou os principais criminosos de guerra nazis, foi lido um curto despacho da Chancelaria do III Reich com o seguinte texto: «Ficha Barba Ruiva. O Fuhrer decidiu o começo de "Barba Ruiva" para 22 de Junho de 1941». Quase simultaneamente, Hitler assinou o seguinte decreto: «Nomeio o Reichsleiter Alfred Rosenberg meu delegado para a resolução de todos os problemas relacionados com as regiões do centro da Europa. Vinte de Abril de 1941, Adolf Hitler.» Milhões de seres humanos foram, assim, condenados à morte e ao sofrimento.

Esta nomeação para um alto lugar de direcção da Operação Barba Ruiva apenas dizia respeito à organização de certos aspectos do gigantesco assalto de destruição e saque dos recursos das populações e do Estado soviético. Ficavam de lado os aspectos puramente militares e policiais, da competência da Wermacht, das SS e das polícias controladas pela Gestapo e pelos serviços secretos. Com um sentido operacional tipicamente germânico, Rosenberg dividiu imediatamente os imensos territórios do Leste em comissariados do Reich dirigidos por quadros nazis dotados de plenos poderes. Toda a riqueza criada na vastidão que separava a Polónia dos Urais seria encaminhada para a Alemanha. Privadas da indústria, da agricultura e da pesca, do comércio ou da transformação dos minérios, caberia às populações russas inventar o modo de se auto-abastecerem sem recursos e de sobreviverem enquanto pudessem.
Do Reich nazi chegaria, entretanto, uma torrente de colonos alemães que assumiriam a posse permanente dos recursos e das terras produtivas.

Este plano de invasão, destruição e desmantelamento da URSS, partia de outra certeza dos estrategas nazis. As repúblicas soviéticas constituíam um autêntico mosaico de populações, etnias, crenças e credos, culturas, tradições tendências políticas. Os dirigentes nacional-socialistas dispunham de minuciosos «dossiers» sobre a matéria, organizados pelos serviços secretos, pelas universidades ou pelos intelectuais russos dissidentes. Acreditavam serem capazes de dividir para reinar, lançando minorias contra minorias. Os meses e anos que se seguiram à violação da pátria soviética vieram provar que, afinal, esses cálculos estavam errados. Primeiro, porque o conhecimento que os nazis tinham da avaliação dos outros povos perdia toda a lucidez, anulada pelo mito racista do super-homem ariano. Depois, por subestimarem os sentimentos de unidade pátria das populações da Rússia. E, ainda, por não terem entendido a capacidade de recuperação, resistência, organização e liderança do Partido Comunista soviético.
As profundas contradições estratégicas dos dirigentes nazis foram-se tornando evidentes. Queriam seduzir as minorias religiosas e étnicas mas as exigências de guerra, em matérias-primas e em recursos humanos e materiais, bem como o cumprimento dos curtos prazos exigidos pelos Altos Comandos, reclamavam das hordas fascistas a imposição do terror. Centenas de igrejas e conventos de diferentes cultos foram saqueadas e os seus tesouros seculares seguiram o caminho do Grande Reich Alemão. Milhares de sacerdotes (só polacos, foram mais de 3000 ) tiveram o trágico fim de tantos outros patriotas, queimados, enforcados, fuzilados ou exterminados em campos como os de Dachau, Auschwitz, Buchenwald ou Bergen-Belsen.
Os nazis não faziam distinção entre os diferentes credos. Lançavam fogo às barbas de um rabi judeu ou crucificavam-no, com a mesma indiferença com que fuzilavam no «muro preto» um padre católico ou ortodoxo ou enforcavam um fundamentalista religioso. Debalde se pode procurar uma ideologia nazi. Um nazi-fascista pertence, por definição, a uma organização rigidamente baseada no princípio das chefias (o fuhrerprinzip) que lhe fornece planos de acção claros e imediatos, com tarefas definidas e individualizadas. Quando assim acontece, um nazi sente-se bem. Tal como os jesuítas, o nazi nunca discute as decisões dos seus chefes. Obedece às ordens, mesmo que estas envolvam a prática de crimes intoleráveis. E encontra, deste modo, a sua paz de espírito. A ideologia, para ele, é fraqueza desprezível.
Assim, de acordo com as determinações de Berlim, quando se iniciaram as operações militares de invasão da URSS e os exércitos nazis conseguiram avanços fulminantes, impôs-se a necessidade de policiar rapidamente os grandes espaços resultantes da deslocação da linha da frente militar. Os objectivos dessa tarefa eram múltiplos e imediatos: destruição de qualquer forma de resistência armada, apropriação de todos os valores do património russo e abertura de grandes áreas esvaziadas de população, de forma a permitir a instalação dos colonos germânicos. Criaram-se, pois, na retaguarda da frente, os chamados destacamentos especiais, constituídos por bandos de assassinos altamente disciplinados. Estes contingentes eram recrutados entre nazis fanáticos, criminosos comuns, soldados da Wermacht retirados da frente de combate, polícias e membros das SS e da Gestapo. Em Dezembro de 1941, cinco meses após a violação das fronteiras soviéticas, 34 mil judeus tinham sido exterminados em Kiev (muitos deles enterrados vivos), após a queda da cidade, e as «unidades especiais» procediam a fuzilamentos maciços, preferencialmente de comunistas, sindicalistas, intelectuais, sacerdotes, comissários políticos e administrativos, numa palavra, daqueles que, de qualquer modo, pudessem vir a enquadrar e a organizar as massas camponesas e operárias. Escusado seria procurar nesses crimes uma motivação ideológica. Os nazis matavam, roubavam e torturavam, só porque tinham recebido uma ordem dos seus chefes. Agiam em cumprimento estrito da vontade das chefias. Em meia dúzia de meses, concluiu o Tribunal de Nuremberga, as unidades especiais abateram mais que um milhão de cidadãos soviéticos. Na região de Smolensk foram assassinadas cerca de 125 000 pessoas. Na área de Leninegrado, 172 000. Em torno de Estalinegrado, 140 000. Na Crimeia, os nazis obrigaram 144 000 soviéticos a subir para barcaças que, depois, rebocaram para o alto mar e afundaram. Na região de Adesa, 300000 homens, mulheres e crianças, foram chacinados. A II Guerra Mundial deu lugar, nos territórios soviéticos, à destruição deliberada de 1760 igrejas do rito ortodoxo grego, de 237 templos católico-romanos, de 532 sinagogas judaicas e de vários locais de peregrinação como, por exemplo, Kiewo-Paherskaja, Lavra ou Nowy Jerusalém. Museus importantes, nomeadamente os de Tolstoi e de Tchaikowski, foram dinamitados.
A morte, a doença, a fome, as epidemias e as destruições atingiam, indiferentemente, crentes e ateus, leigos e religiosos, comunistas e anticomunistas, criando, contrariamente ao que os nazis pretendiam, uma grande unidade entre o povo soviético. Ficou célebre a frase proferida em Estalinegrado pelos heróicos defensores da cidade: «Não há terra para além do Volga!», significando que a retirada perante os invasores, nem sequer podia ser admitida. Este sentimento era comum à esmagadora maioria do povo russo.

A posição patriótica das principais igrejas

Os generais e os dirigentes nazis enganaram-se, ainda, noutra avaliação decisiva, ao acreditarem que o mundo religioso russo iria agarrar com mãos ambas a ideia da destruição do regime soviético. A leitura nazi do mito da libertação continua a ser proposta nos tempos actuais. Mas os nazis acreditaram na sua própria propaganda, erro que os déspotas têm de evitar.
Na era czarista só uma igreja, a Ortodoxa, era consentida pelo poder imperial. Todos os outros credos foram banidos e perseguidos. A tal ponto chegava a intolerância oficial que o Código do Império Russo estipulava que «se os pais baptizarem os seus filhos numa igreja diferente da Ortodoxa ou os educarem segundo os ritos de outras igrejas cristãs, serão condenados a penas de um ou dois anos de prisão». Os czares atribuíam à Igreja Ortodoxa subsídios superiores a 50 milhões de rublos, valor bem superior ao da verba destinada à Educação. Os salários das centenas de milhares de padres e monges eram pagos directamente pela Coroa.
Quando se deu a Revolução Bolchevista de Outubro, em 1917, todo este panorama mudou drasticamente. Um dos primeiros decretos do governo provisório, a Declaração dos Direitos dos Povos da Rússia, estabelecia, no mês de Novembro, que «todos os privilégios e limitações religiosas e nacionais são abolidas». A partir de então, todos os cultos, comunidades e tendências religiosas eram iguais perante a lei. As igrejas ficavam separadas do Estado e proibia-se, nas escolas públicas, a exibição de emblemas ou de outros sinais confessionais e de culto.
Tal como é inevitável no quadro das transformações democráticas de fundo, uma parte do clero ortodoxo reagiu mal à perda de privilégios. Durante pouco mais de dez anos, as relações entre o governo comunista e a igreja foram tensas. Mas o poder soviético manteve e alargou as garantias dadas, ao passo que a hierarquia ortodoxa foi aceitando as novas características da sociedade russa. Quando a barbárie nazi procurou destruir a URSS, funcionavam, em todo o território da União, milhares de templos e instalações religiosas ortodoxas, muçulmanas, católicas romanas, uniatas, luteranas, baptistas, judaicas, budistas, metodistas, etc. Todas elas tinham estruturas orgânicas diferentes entre si, livremente estabelecidas pelas respectivas comunidades, todas elas completamente autónomas do Estado Soviético.
Todo este imenso universo crente cerrou fileiras e apoiou a resistência ao invasor teutónico. Mesmo no período do avanço acelerado das tropas nazis, mesmo quando as comunidades religiosas ficavam em território ocupado e os templos eram incendiados, conhecem-se actos heróicos de coragem e de firmeza, dos muitos sacerdotes e leigos que desafiaram a morte e a tortura.
Houve excepções, evidentemente, como a do colaboracionismo da Igreja Católica Uniata, mas que representaram casos isolados. Sem dúvida que a fúria nazi acabaria por provocar uma aproximação entre as igrejas e a sociedade comunista.
Ainda a guerra estava no seu auge, em 1943, verificou-se um encontro histórico ente Estaline e os três mais altos dignitários da Igreja Ortodoxa, Mons. Serge, Guarda do Trono Patriarcal, Mons. Alexis, Metropolita de Leninegrado, e Mons. Nicolas, Metropolita de Kiev. Repare-se que, nessa altura, em 1943, Kiev ainda estava nas mãos dos nazis e Leninegrado permanecia cercada. Desta reunião no Kremlin, saiu a convocação de um Concílio Geral, o qual teve lugar em 7 de Setembro, dele resultando a eleições de um Metropolita de Moscovo como figura máxima da Igreja Ortodoxa Russa. A igreja ortodoxa mantinha abertos ao culto, nessa altura de grandes riscos e sacrifícios, 20 mil templos, 67 mosteiros, 8 seminários, 3 academias teológicas e dispunha de 31 000 sacerdotes ordenados. Quanto à questão polémica de se saber se existia ou não, na URSS, liberdade religiosa, estes números podem falar por si.



No Tribunal de Nuremberga que julgou os principais criminosos de guerra nazis, foi lido um curto despacho da Chancelaria do III Reich com o seguinte texto: «Ficha Barba Ruiva. O Fuhrer decidiu o começo de "Barba Ruiva" para 22 de Junho de 1941». Quase simultaneamente, Hitler assinou o seguinte decreto: «Nomeio o Reichsleiter Alfred Rosenberg meu delegado para a resolução de todos os problemas relacionados com as regiões do centro da Europa. Vinte de Abril de 1941, Adolf Hitler.» Milhões de seres humanos foram, assim, condenados à morte e ao sofrimento.

Esta nomeação para um alto lugar de direcção da Operação Barba Ruiva apenas dizia respeito à organização de certos aspectos do gigantesco assalto de destruição e saque dos recursos das populações e do Estado soviético. Ficavam de lado os aspectos puramente militares e policiais, da competência da Wermacht, das SS e das polícias controladas pela Gestapo e pelos serviços secretos. Com um sentido operacional tipicamente germânico, Rosenberg dividiu imediatamente os imensos territórios do Leste em comissariados do Reich dirigidos por quadros nazis dotados de plenos poderes. Toda a riqueza criada na vastidão que separava a Polónia dos Urais seria encaminhada para a Alemanha. Privadas da indústria, da agricultura e da pesca, do comércio ou da transformação dos minérios, caberia às populações russas inventar o modo de se auto-abastecerem sem recursos e de sobreviverem enquanto pudessem.
Do Reich nazi chegaria, entretanto, uma torrente de colonos alemães que assumiriam a posse permanente dos recursos e das terras produtivas.

Este plano de invasão, destruição e desmantelamento da URSS, partia de outra certeza dos estrategas nazis. As repúblicas soviéticas constituíam um autêntico mosaico de populações, etnias, crenças e credos, culturas, tradições tendências políticas. Os dirigentes nacional-socialistas dispunham de minuciosos «dossiers» sobre a matéria, organizados pelos serviços secretos, pelas universidades ou pelos intelectuais russos dissidentes. Acreditavam serem capazes de dividir para reinar, lançando minorias contra minorias. Os meses e anos que se seguiram à violação da pátria soviética vieram provar que, afinal, esses cálculos estavam errados. Primeiro, porque o conhecimento que os nazis tinham da avaliação dos outros povos perdia toda a lucidez, anulada pelo mito racista do super-homem ariano. Depois, por subestimarem os sentimentos de unidade pátria das populações da Rússia. E, ainda, por não terem entendido a capacidade de recuperação, resistência, organização e liderança do Partido Comunista soviético.
As profundas contradições estratégicas dos dirigentes nazis foram-se tornando evidentes. Queriam seduzir as minorias religiosas e étnicas mas as exigências de guerra, em matérias-primas e em recursos humanos e materiais, bem como o cumprimento dos curtos prazos exigidos pelos Altos Comandos, reclamavam das hordas fascistas a imposição do terror. Centenas de igrejas e conventos de diferentes cultos foram saqueadas e os seus tesouros seculares seguiram o caminho do Grande Reich Alemão. Milhares de sacerdotes (só polacos, foram mais de 3000 ) tiveram o trágico fim de tantos outros patriotas, queimados, enforcados, fuzilados ou exterminados em campos como os de Dachau, Auschwitz, Buchenwald ou Bergen-Belsen.
Os nazis não faziam distinção entre os diferentes credos. Lançavam fogo às barbas de um rabi judeu ou crucificavam-no, com a mesma indiferença com que fuzilavam no «muro preto» um padre católico ou ortodoxo ou enforcavam um fundamentalista religioso. Debalde se pode procurar uma ideologia nazi. Um nazi-fascista pertence, por definição, a uma organização rigidamente baseada no princípio das chefias (o fuhrerprinzip) que lhe fornece planos de acção claros e imediatos, com tarefas definidas e individualizadas. Quando assim acontece, um nazi sente-se bem. Tal como os jesuítas, o nazi nunca discute as decisões dos seus chefes. Obedece às ordens, mesmo que estas envolvam a prática de crimes intoleráveis. E encontra, deste modo, a sua paz de espírito. A ideologia, para ele, é fraqueza desprezível.
Assim, de acordo com as determinações de Berlim, quando se iniciaram as operações militares de invasão da URSS e os exércitos nazis conseguiram avanços fulminantes, impôs-se a necessidade de policiar rapidamente os grandes espaços resultantes da deslocação da linha da frente militar. Os objectivos dessa tarefa eram múltiplos e imediatos: destruição de qualquer forma de resistência armada, apropriação de todos os valores do património russo e abertura de grandes áreas esvaziadas de população, de forma a permitir a instalação dos colonos germânicos. Criaram-se, pois, na retaguarda da frente, os chamados destacamentos especiais, constituídos por bandos de assassinos altamente disciplinados. Estes contingentes eram recrutados entre nazis fanáticos, criminosos comuns, soldados da Wermacht retirados da frente de combate, polícias e membros das SS e da Gestapo. Em Dezembro de 1941, cinco meses após a violação das fronteiras soviéticas, 34 mil judeus tinham sido exterminados em Kiev (muitos deles enterrados vivos), após a queda da cidade, e as «unidades especiais» procediam a fuzilamentos maciços, preferencialmente de comunistas, sindicalistas, intelectuais, sacerdotes, comissários políticos e administrativos, numa palavra, daqueles que, de qualquer modo, pudessem vir a enquadrar e a organizar as massas camponesas e operárias. Escusado seria procurar nesses crimes uma motivação ideológica. Os nazis matavam, roubavam e torturavam, só porque tinham recebido uma ordem dos seus chefes. Agiam em cumprimento estrito da vontade das chefias. Em meia dúzia de meses, concluiu o Tribunal de Nuremberga, as unidades especiais abateram mais que um milhão de cidadãos soviéticos. Na região de Smolensk foram assassinadas cerca de 125 000 pessoas. Na área de Leninegrado, 172 000. Em torno de Estalinegrado, 140 000. Na Crimeia, os nazis obrigaram 144 000 soviéticos a subir para barcaças que, depois, rebocaram para o alto mar e afundaram. Na região de Adesa, 300000 homens, mulheres e crianças, foram chacinados. A II Guerra Mundial deu lugar, nos territórios soviéticos, à destruição deliberada de 1760 igrejas do rito ortodoxo grego, de 237 templos católico-romanos, de 532 sinagogas judaicas e de vários locais de peregrinação como, por exemplo, Kiewo-Paherskaja, Lavra ou Nowy Jerusalém. Museus importantes, nomeadamente os de Tolstoi e de Tchaikowski, foram dinamitados.
A morte, a doença, a fome, as epidemias e as destruições atingiam, indiferentemente, crentes e ateus, leigos e religiosos, comunistas e anticomunistas, criando, contrariamente ao que os nazis pretendiam, uma grande unidade entre o povo soviético. Ficou célebre a frase proferida em Estalinegrado pelos heróicos defensores da cidade: «Não há terra para além do Volga!», significando que a retirada perante os invasores, nem sequer podia ser admitida. Este sentimento era comum à esmagadora maioria do povo russo.

A posição patriótica das principais igrejas

Os generais e os dirigentes nazis enganaram-se, ainda, noutra avaliação decisiva, ao acreditarem que o mundo religioso russo iria agarrar com mãos ambas a ideia da destruição do regime soviético. A leitura nazi do mito da libertação continua a ser proposta nos tempos actuais. Mas os nazis acreditaram na sua própria propaganda, erro que os déspotas têm de evitar.
Na era czarista só uma igreja, a Ortodoxa, era consentida pelo poder imperial. Todos os outros credos foram banidos e perseguidos. A tal ponto chegava a intolerância oficial que o Código do Império Russo estipulava que «se os pais baptizarem os seus filhos numa igreja diferente da Ortodoxa ou os educarem segundo os ritos de outras igrejas cristãs, serão condenados a penas de um ou dois anos de prisão». Os czares atribuíam à Igreja Ortodoxa subsídios superiores a 50 milhões de rublos, valor bem superior ao da verba destinada à Educação. Os salários das centenas de milhares de padres e monges eram pagos directamente pela Coroa.
Quando se deu a Revolução Bolchevista de Outubro, em 1917, todo este panorama mudou drasticamente. Um dos primeiros decretos do governo provisório, a Declaração dos Direitos dos Povos da Rússia, estabelecia, no mês de Novembro, que «todos os privilégios e limitações religiosas e nacionais são abolidas». A partir de então, todos os cultos, comunidades e tendências religiosas eram iguais perante a lei. As igrejas ficavam separadas do Estado e proibia-se, nas escolas públicas, a exibição de emblemas ou de outros sinais confessionais e de culto.
Tal como é inevitável no quadro das transformações democráticas de fundo, uma parte do clero ortodoxo reagiu mal à perda de privilégios. Durante pouco mais de dez anos, as relações entre o governo comunista e a igreja foram tensas. Mas o poder soviético manteve e alargou as garantias dadas, ao passo que a hierarquia ortodoxa foi aceitando as novas características da sociedade russa. Quando a barbárie nazi procurou destruir a URSS, funcionavam, em todo o território da União, milhares de templos e instalações religiosas ortodoxas, muçulmanas, católicas romanas, uniatas, luteranas, baptistas, judaicas, budistas, metodistas, etc. Todas elas tinham estruturas orgânicas diferentes entre si, livremente estabelecidas pelas respectivas comunidades, todas elas completamente autónomas do Estado Soviético.
Todo este imenso universo crente cerrou fileiras e apoiou a resistência ao invasor teutónico. Mesmo no período do avanço acelerado das tropas nazis, mesmo quando as comunidades religiosas ficavam em território ocupado e os templos eram incendiados, conhecem-se actos heróicos de coragem e de firmeza, dos muitos sacerdotes e leigos que desafiaram a morte e a tortura.
Houve excepções, evidentemente, como a do colaboracionismo da Igreja Católica Uniata, mas que representaram casos isolados. Sem dúvida que a fúria nazi acabaria por provocar uma aproximação entre as igrejas e a sociedade comunista.
Ainda a guerra estava no seu auge, em 1943, verificou-se um encontro histórico ente Estaline e os três mais altos dignitários da Igreja Ortodoxa, Mons. Serge, Guarda do Trono Patriarcal, Mons. Alexis, Metropolita de Leninegrado, e Mons. Nicolas, Metropolita de Kiev. Repare-se que, nessa altura, em 1943, Kiev ainda estava nas mãos dos nazis e Leninegrado permanecia cercada. Desta reunião no Kremlin, saiu a convocação de um Concílio Geral, o qual teve lugar em 7 de Setembro, dele resultando a eleições de um Metropolita de Moscovo como figura máxima da Igreja Ortodoxa Russa. A igreja ortodoxa mantinha abertos ao culto, nessa altura de grandes riscos e sacrifícios, 20 mil templos, 67 mosteiros, 8 seminários, 3 academias teológicas e dispunha de 31 000 sacerdotes ordenados. Quanto à questão polémica de se saber se existia ou não, na URSS, liberdade religiosa, estes números podem falar por si.

Avante, Edição nº 1638, de 21/04/2005

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		<content:encoded><![CDATA[<p>Jorge Messias</p>
<p>«Barba Ruiva» e as igrejas russas</p>
<p>No Tribunal de Nuremberga que julgou os principais criminosos de guerra nazis, foi lido um curto despacho da Chancelaria do III Reich com o seguinte texto: «Ficha Barba Ruiva. O Fuhrer decidiu o começo de &#8220;Barba Ruiva&#8221; para 22 de Junho de 1941». Quase simultaneamente, Hitler assinou o seguinte decreto: «Nomeio o Reichsleiter Alfred Rosenberg meu delegado para a resolução de todos os problemas relacionados com as regiões do centro da Europa. Vinte de Abril de 1941, Adolf Hitler.» Milhões de seres humanos foram, assim, condenados à morte e ao sofrimento.</p>
<p>Esta nomeação para um alto lugar de direcção da Operação Barba Ruiva apenas dizia respeito à organização de certos aspectos do gigantesco assalto de destruição e saque dos recursos das populações e do Estado soviético. Ficavam de lado os aspectos puramente militares e policiais, da competência da Wermacht, das SS e das polícias controladas pela Gestapo e pelos serviços secretos. Com um sentido operacional tipicamente germânico, Rosenberg dividiu imediatamente os imensos territórios do Leste em comissariados do Reich dirigidos por quadros nazis dotados de plenos poderes. Toda a riqueza criada na vastidão que separava a Polónia dos Urais seria encaminhada para a Alemanha. Privadas da indústria, da agricultura e da pesca, do comércio ou da transformação dos minérios, caberia às populações russas inventar o modo de se auto-abastecerem sem recursos e de sobreviverem enquanto pudessem.<br />
Do Reich nazi chegaria, entretanto, uma torrente de colonos alemães que assumiriam a posse permanente dos recursos e das terras produtivas.</p>
<p>Este plano de invasão, destruição e desmantelamento da URSS, partia de outra certeza dos estrategas nazis. As repúblicas soviéticas constituíam um autêntico mosaico de populações, etnias, crenças e credos, culturas, tradições tendências políticas. Os dirigentes nacional-socialistas dispunham de minuciosos «dossiers» sobre a matéria, organizados pelos serviços secretos, pelas universidades ou pelos intelectuais russos dissidentes. Acreditavam serem capazes de dividir para reinar, lançando minorias contra minorias. Os meses e anos que se seguiram à violação da pátria soviética vieram provar que, afinal, esses cálculos estavam errados. Primeiro, porque o conhecimento que os nazis tinham da avaliação dos outros povos perdia toda a lucidez, anulada pelo mito racista do super-homem ariano. Depois, por subestimarem os sentimentos de unidade pátria das populações da Rússia. E, ainda, por não terem entendido a capacidade de recuperação, resistência, organização e liderança do Partido Comunista soviético.<br />
As profundas contradições estratégicas dos dirigentes nazis foram-se tornando evidentes. Queriam seduzir as minorias religiosas e étnicas mas as exigências de guerra, em matérias-primas e em recursos humanos e materiais, bem como o cumprimento dos curtos prazos exigidos pelos Altos Comandos, reclamavam das hordas fascistas a imposição do terror. Centenas de igrejas e conventos de diferentes cultos foram saqueadas e os seus tesouros seculares seguiram o caminho do Grande Reich Alemão. Milhares de sacerdotes (só polacos, foram mais de 3000 ) tiveram o trágico fim de tantos outros patriotas, queimados, enforcados, fuzilados ou exterminados em campos como os de Dachau, Auschwitz, Buchenwald ou Bergen-Belsen.<br />
Os nazis não faziam distinção entre os diferentes credos. Lançavam fogo às barbas de um rabi judeu ou crucificavam-no, com a mesma indiferença com que fuzilavam no «muro preto» um padre católico ou ortodoxo ou enforcavam um fundamentalista religioso. Debalde se pode procurar uma ideologia nazi. Um nazi-fascista pertence, por definição, a uma organização rigidamente baseada no princípio das chefias (o fuhrerprinzip) que lhe fornece planos de acção claros e imediatos, com tarefas definidas e individualizadas. Quando assim acontece, um nazi sente-se bem. Tal como os jesuítas, o nazi nunca discute as decisões dos seus chefes. Obedece às ordens, mesmo que estas envolvam a prática de crimes intoleráveis. E encontra, deste modo, a sua paz de espírito. A ideologia, para ele, é fraqueza desprezível.<br />
Assim, de acordo com as determinações de Berlim, quando se iniciaram as operações militares de invasão da URSS e os exércitos nazis conseguiram avanços fulminantes, impôs-se a necessidade de policiar rapidamente os grandes espaços resultantes da deslocação da linha da frente militar. Os objectivos dessa tarefa eram múltiplos e imediatos: destruição de qualquer forma de resistência armada, apropriação de todos os valores do património russo e abertura de grandes áreas esvaziadas de população, de forma a permitir a instalação dos colonos germânicos. Criaram-se, pois, na retaguarda da frente, os chamados destacamentos especiais, constituídos por bandos de assassinos altamente disciplinados. Estes contingentes eram recrutados entre nazis fanáticos, criminosos comuns, soldados da Wermacht retirados da frente de combate, polícias e membros das SS e da Gestapo. Em Dezembro de 1941, cinco meses após a violação das fronteiras soviéticas, 34 mil judeus tinham sido exterminados em Kiev (muitos deles enterrados vivos), após a queda da cidade, e as «unidades especiais» procediam a fuzilamentos maciços, preferencialmente de comunistas, sindicalistas, intelectuais, sacerdotes, comissários políticos e administrativos, numa palavra, daqueles que, de qualquer modo, pudessem vir a enquadrar e a organizar as massas camponesas e operárias. Escusado seria procurar nesses crimes uma motivação ideológica. Os nazis matavam, roubavam e torturavam, só porque tinham recebido uma ordem dos seus chefes. Agiam em cumprimento estrito da vontade das chefias. Em meia dúzia de meses, concluiu o Tribunal de Nuremberga, as unidades especiais abateram mais que um milhão de cidadãos soviéticos. Na região de Smolensk foram assassinadas cerca de 125 000 pessoas. Na área de Leninegrado, 172 000. Em torno de Estalinegrado, 140 000. Na Crimeia, os nazis obrigaram 144 000 soviéticos a subir para barcaças que, depois, rebocaram para o alto mar e afundaram. Na região de Adesa, 300000 homens, mulheres e crianças, foram chacinados. A II Guerra Mundial deu lugar, nos territórios soviéticos, à destruição deliberada de 1760 igrejas do rito ortodoxo grego, de 237 templos católico-romanos, de 532 sinagogas judaicas e de vários locais de peregrinação como, por exemplo, Kiewo-Paherskaja, Lavra ou Nowy Jerusalém. Museus importantes, nomeadamente os de Tolstoi e de Tchaikowski, foram dinamitados.<br />
A morte, a doença, a fome, as epidemias e as destruições atingiam, indiferentemente, crentes e ateus, leigos e religiosos, comunistas e anticomunistas, criando, contrariamente ao que os nazis pretendiam, uma grande unidade entre o povo soviético. Ficou célebre a frase proferida em Estalinegrado pelos heróicos defensores da cidade: «Não há terra para além do Volga!», significando que a retirada perante os invasores, nem sequer podia ser admitida. Este sentimento era comum à esmagadora maioria do povo russo.</p>
<p>A posição patriótica das principais igrejas</p>
<p>Os generais e os dirigentes nazis enganaram-se, ainda, noutra avaliação decisiva, ao acreditarem que o mundo religioso russo iria agarrar com mãos ambas a ideia da destruição do regime soviético. A leitura nazi do mito da libertação continua a ser proposta nos tempos actuais. Mas os nazis acreditaram na sua própria propaganda, erro que os déspotas têm de evitar.<br />
Na era czarista só uma igreja, a Ortodoxa, era consentida pelo poder imperial. Todos os outros credos foram banidos e perseguidos. A tal ponto chegava a intolerância oficial que o Código do Império Russo estipulava que «se os pais baptizarem os seus filhos numa igreja diferente da Ortodoxa ou os educarem segundo os ritos de outras igrejas cristãs, serão condenados a penas de um ou dois anos de prisão». Os czares atribuíam à Igreja Ortodoxa subsídios superiores a 50 milhões de rublos, valor bem superior ao da verba destinada à Educação. Os salários das centenas de milhares de padres e monges eram pagos directamente pela Coroa.<br />
Quando se deu a Revolução Bolchevista de Outubro, em 1917, todo este panorama mudou drasticamente. Um dos primeiros decretos do governo provisório, a Declaração dos Direitos dos Povos da Rússia, estabelecia, no mês de Novembro, que «todos os privilégios e limitações religiosas e nacionais são abolidas». A partir de então, todos os cultos, comunidades e tendências religiosas eram iguais perante a lei. As igrejas ficavam separadas do Estado e proibia-se, nas escolas públicas, a exibição de emblemas ou de outros sinais confessionais e de culto.<br />
Tal como é inevitável no quadro das transformações democráticas de fundo, uma parte do clero ortodoxo reagiu mal à perda de privilégios. Durante pouco mais de dez anos, as relações entre o governo comunista e a igreja foram tensas. Mas o poder soviético manteve e alargou as garantias dadas, ao passo que a hierarquia ortodoxa foi aceitando as novas características da sociedade russa. Quando a barbárie nazi procurou destruir a URSS, funcionavam, em todo o território da União, milhares de templos e instalações religiosas ortodoxas, muçulmanas, católicas romanas, uniatas, luteranas, baptistas, judaicas, budistas, metodistas, etc. Todas elas tinham estruturas orgânicas diferentes entre si, livremente estabelecidas pelas respectivas comunidades, todas elas completamente autónomas do Estado Soviético.<br />
Todo este imenso universo crente cerrou fileiras e apoiou a resistência ao invasor teutónico. Mesmo no período do avanço acelerado das tropas nazis, mesmo quando as comunidades religiosas ficavam em território ocupado e os templos eram incendiados, conhecem-se actos heróicos de coragem e de firmeza, dos muitos sacerdotes e leigos que desafiaram a morte e a tortura.<br />
Houve excepções, evidentemente, como a do colaboracionismo da Igreja Católica Uniata, mas que representaram casos isolados. Sem dúvida que a fúria nazi acabaria por provocar uma aproximação entre as igrejas e a sociedade comunista.<br />
Ainda a guerra estava no seu auge, em 1943, verificou-se um encontro histórico ente Estaline e os três mais altos dignitários da Igreja Ortodoxa, Mons. Serge, Guarda do Trono Patriarcal, Mons. Alexis, Metropolita de Leninegrado, e Mons. Nicolas, Metropolita de Kiev. Repare-se que, nessa altura, em 1943, Kiev ainda estava nas mãos dos nazis e Leninegrado permanecia cercada. Desta reunião no Kremlin, saiu a convocação de um Concílio Geral, o qual teve lugar em 7 de Setembro, dele resultando a eleições de um Metropolita de Moscovo como figura máxima da Igreja Ortodoxa Russa. A igreja ortodoxa mantinha abertos ao culto, nessa altura de grandes riscos e sacrifícios, 20 mil templos, 67 mosteiros, 8 seminários, 3 academias teológicas e dispunha de 31 000 sacerdotes ordenados. Quanto à questão polémica de se saber se existia ou não, na URSS, liberdade religiosa, estes números podem falar por si.</p>
<p>No Tribunal de Nuremberga que julgou os principais criminosos de guerra nazis, foi lido um curto despacho da Chancelaria do III Reich com o seguinte texto: «Ficha Barba Ruiva. O Fuhrer decidiu o começo de &#8220;Barba Ruiva&#8221; para 22 de Junho de 1941». Quase simultaneamente, Hitler assinou o seguinte decreto: «Nomeio o Reichsleiter Alfred Rosenberg meu delegado para a resolução de todos os problemas relacionados com as regiões do centro da Europa. Vinte de Abril de 1941, Adolf Hitler.» Milhões de seres humanos foram, assim, condenados à morte e ao sofrimento.</p>
<p>Esta nomeação para um alto lugar de direcção da Operação Barba Ruiva apenas dizia respeito à organização de certos aspectos do gigantesco assalto de destruição e saque dos recursos das populações e do Estado soviético. Ficavam de lado os aspectos puramente militares e policiais, da competência da Wermacht, das SS e das polícias controladas pela Gestapo e pelos serviços secretos. Com um sentido operacional tipicamente germânico, Rosenberg dividiu imediatamente os imensos territórios do Leste em comissariados do Reich dirigidos por quadros nazis dotados de plenos poderes. Toda a riqueza criada na vastidão que separava a Polónia dos Urais seria encaminhada para a Alemanha. Privadas da indústria, da agricultura e da pesca, do comércio ou da transformação dos minérios, caberia às populações russas inventar o modo de se auto-abastecerem sem recursos e de sobreviverem enquanto pudessem.<br />
Do Reich nazi chegaria, entretanto, uma torrente de colonos alemães que assumiriam a posse permanente dos recursos e das terras produtivas.</p>
<p>Este plano de invasão, destruição e desmantelamento da URSS, partia de outra certeza dos estrategas nazis. As repúblicas soviéticas constituíam um autêntico mosaico de populações, etnias, crenças e credos, culturas, tradições tendências políticas. Os dirigentes nacional-socialistas dispunham de minuciosos «dossiers» sobre a matéria, organizados pelos serviços secretos, pelas universidades ou pelos intelectuais russos dissidentes. Acreditavam serem capazes de dividir para reinar, lançando minorias contra minorias. Os meses e anos que se seguiram à violação da pátria soviética vieram provar que, afinal, esses cálculos estavam errados. Primeiro, porque o conhecimento que os nazis tinham da avaliação dos outros povos perdia toda a lucidez, anulada pelo mito racista do super-homem ariano. Depois, por subestimarem os sentimentos de unidade pátria das populações da Rússia. E, ainda, por não terem entendido a capacidade de recuperação, resistência, organização e liderança do Partido Comunista soviético.<br />
As profundas contradições estratégicas dos dirigentes nazis foram-se tornando evidentes. Queriam seduzir as minorias religiosas e étnicas mas as exigências de guerra, em matérias-primas e em recursos humanos e materiais, bem como o cumprimento dos curtos prazos exigidos pelos Altos Comandos, reclamavam das hordas fascistas a imposição do terror. Centenas de igrejas e conventos de diferentes cultos foram saqueadas e os seus tesouros seculares seguiram o caminho do Grande Reich Alemão. Milhares de sacerdotes (só polacos, foram mais de 3000 ) tiveram o trágico fim de tantos outros patriotas, queimados, enforcados, fuzilados ou exterminados em campos como os de Dachau, Auschwitz, Buchenwald ou Bergen-Belsen.<br />
Os nazis não faziam distinção entre os diferentes credos. Lançavam fogo às barbas de um rabi judeu ou crucificavam-no, com a mesma indiferença com que fuzilavam no «muro preto» um padre católico ou ortodoxo ou enforcavam um fundamentalista religioso. Debalde se pode procurar uma ideologia nazi. Um nazi-fascista pertence, por definição, a uma organização rigidamente baseada no princípio das chefias (o fuhrerprinzip) que lhe fornece planos de acção claros e imediatos, com tarefas definidas e individualizadas. Quando assim acontece, um nazi sente-se bem. Tal como os jesuítas, o nazi nunca discute as decisões dos seus chefes. Obedece às ordens, mesmo que estas envolvam a prática de crimes intoleráveis. E encontra, deste modo, a sua paz de espírito. A ideologia, para ele, é fraqueza desprezível.<br />
Assim, de acordo com as determinações de Berlim, quando se iniciaram as operações militares de invasão da URSS e os exércitos nazis conseguiram avanços fulminantes, impôs-se a necessidade de policiar rapidamente os grandes espaços resultantes da deslocação da linha da frente militar. Os objectivos dessa tarefa eram múltiplos e imediatos: destruição de qualquer forma de resistência armada, apropriação de todos os valores do património russo e abertura de grandes áreas esvaziadas de população, de forma a permitir a instalação dos colonos germânicos. Criaram-se, pois, na retaguarda da frente, os chamados destacamentos especiais, constituídos por bandos de assassinos altamente disciplinados. Estes contingentes eram recrutados entre nazis fanáticos, criminosos comuns, soldados da Wermacht retirados da frente de combate, polícias e membros das SS e da Gestapo. Em Dezembro de 1941, cinco meses após a violação das fronteiras soviéticas, 34 mil judeus tinham sido exterminados em Kiev (muitos deles enterrados vivos), após a queda da cidade, e as «unidades especiais» procediam a fuzilamentos maciços, preferencialmente de comunistas, sindicalistas, intelectuais, sacerdotes, comissários políticos e administrativos, numa palavra, daqueles que, de qualquer modo, pudessem vir a enquadrar e a organizar as massas camponesas e operárias. Escusado seria procurar nesses crimes uma motivação ideológica. Os nazis matavam, roubavam e torturavam, só porque tinham recebido uma ordem dos seus chefes. Agiam em cumprimento estrito da vontade das chefias. Em meia dúzia de meses, concluiu o Tribunal de Nuremberga, as unidades especiais abateram mais que um milhão de cidadãos soviéticos. Na região de Smolensk foram assassinadas cerca de 125 000 pessoas. Na área de Leninegrado, 172 000. Em torno de Estalinegrado, 140 000. Na Crimeia, os nazis obrigaram 144 000 soviéticos a subir para barcaças que, depois, rebocaram para o alto mar e afundaram. Na região de Adesa, 300000 homens, mulheres e crianças, foram chacinados. A II Guerra Mundial deu lugar, nos territórios soviéticos, à destruição deliberada de 1760 igrejas do rito ortodoxo grego, de 237 templos católico-romanos, de 532 sinagogas judaicas e de vários locais de peregrinação como, por exemplo, Kiewo-Paherskaja, Lavra ou Nowy Jerusalém. Museus importantes, nomeadamente os de Tolstoi e de Tchaikowski, foram dinamitados.<br />
A morte, a doença, a fome, as epidemias e as destruições atingiam, indiferentemente, crente