Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Durante alguns dias, a terra tremera com frequência. Uns pequenos soluços, uns ligeiros solavancos, mas nisto o que se imagina assusta mais do que a realidade. Bastava um gato passear-se no telhado, uma porta mover-se com um sopro de vento, e logo se gritava “ai Jesus!”, como se já fosse tremor ou terramoto, fim do Mundo ou juízo final. António quase nunca dera por nada, ocupado no trabalho ou dormindo profundamente.
O Manuel Pimentel amarrara o cão, com uma espadana, ao pé do galinheiro, para vigiar os pintos de uma ninhada nova. Estava o dia já mais tornado em noite do que crepúsculo, e as galinhas deitadas, quando apareceu um gato mesmo na cara do zeloso vigilante, que não o fez por menos: com um grito de guerra atirou-se na direcção do inimigo rebentando a frágil amarra, saltou o curral do porco em sua perseguição, subiu para o forno, do forno para as telhas, e, como a rua era ligeiramente a descer e as casas desciam em altura numa proporção semelhante, a fuga e a perseguição aconteceram até à última, num remover e quebrar de telhas que, dentro, ecoavam como um desastre em acto. Estando os sentidos atentos a todo o aviso de tremor, as portas foram-se abrindo uma a uma, com famílias inteiras a virem para a rua aos gritos de “Louvado seja Deus!”, “Credo em cruz, Santo Nome de Jesus!” e outras jaculatórias de imprecação e temor. A Branca, mulher do Manuel Pimentel, percebendo o que se passava nos telhados de cada um, e já temendo que, sabida a verdade e denunciados os culpados humanos pelo seu silêncio comprometedor, lhes viessem cobrar a conta do prejuízo, mandou com sentido de obediência imediata: “Vai lá, Manuel, vai louvar também a Nosso Senhor, se não queres trabalhar toda a semana para pagar as telhas.”


  1. 1 fmv

    Daniel,
    «E outras jaculatórias de imprecação e temor». Fico em pulgas para sabê-las.
    De resto, «um desastre em acto» também já assusta.
    Belo texto.

  2. 2 rvn

    âncio,
    Gostei das outras, mas essa do ‘desastre em acto’ guardei para o futuro. É a segunda que saco e guardo aos aspirínicos. A primeira? ‘Cada palavra é um alçapão’; que de resto já usei, todo vaidoso.

  3. 3 Daniel de Sá

    Fernando
    Aqui te dou um exemplo de “jaculatória” de imprecação. Há um rapaz (agora homem de idade madura) que estava com outros num lugar muito concorrido nas horas de nada fazer, um muro da rua da Ponte, aqui na Maia, quando a terra começou a tremer. Saltaram todos para o chão, uns com jaculatórias a sério, outros calados, e ele também saltou. Olhando para o muro, que vibrava, disse, na sua voz meio gaga: “Sai-te, mula, que nunca mais paras de tremer.”
    Rui, e os direitos de autor? Eu, por mim, não os reclamo, mas não sei o que dirão os responsáveis pelo Aspirina.

  4. 4 rvn

    daniel,
    Reconheço-lhes o direito, mas não lhes pagarei os direitos nem que me façam ministro da saúde. Muito menos, nesse caso.

  5. 5 Daniel de Sá

    Tens razão, Rui. Isto aqui é serviço público de saúde, com SAP.

  6. 6 susana

    telúrico relato.

    e isto não só tem sap, tem su e atendimento domiciliário.

  7. 7 Valupi

    Gostei muito, Daniel. E folgo em saber que nos Açores (se não erro) as mulheres instigam os maridos a fugir às responsabilidades, no que revelam moderno e sofisticado desembaraço social.

  8. 8 jcfrancisco

    A história é uma delícia como delicioso é o pimentão que colocam sobre os bifes aí na Maia, ou seja, quando fazem petiscos divinais com o ar de quem quase pede desculpa por ser a desenrrascar… A Geografia é mais importante do que a História, ja o disse antes Vitorino Nemésio montado no seu cavalo «casquilho».

  9. 9 Daniel de Sá

    Amigos, não tive trabalho nenhum em criar esta história. Os protagonistas ainda são vivos. (Excepto o cão e o gato.) Os nomes são reais, e, para que não se pense mal de mim, previno de que pedi licença para fazer uso da história quando e onde quisesse. Foi numa crise em Setembro de 1966, que eu não apanhei porque tinha ido para a tropa nesse mesmo mês.

  10. 10 z

    está bem giro Daniel, às tantas é à conta dessas aflições que vcs falam tão engraçado aí. Essa do bife com pimentão é que já me deixou a augar (com o frio virei vaca canibal, ando a dar-lhe na picanha, mas tenho a compreensão do Dalai Lama). Também comem torresmos por aí? Não falo dos torresmos de vinha d’alhos do Faial que isso é mais o que a gente aqui chama entrecosto bem passado.

    sou gamado em torresmos e queijo de cabra

  11. 11 z

    e em gatos também

  12. 12 Daniel de Sá

    Z
    Torresmos dos verdadeiros? Daqueles que são feitos da barriga do porco, que tem carne e banha? Há ainda quem faça. Há umas semanas comi deles que me deliciei. E tambémm fazem desses outros, de vinha de alhos. Quanto ao queijo de cabra, meu amigo, com uma pimentinha…
    Aproveito para explicar o uso da pimenta, ou malagueta, em S. Miguel. Essa pimenta é a africana, que deu nome a uma das zonas de costa, tal como há a Costa dos Escravos ou a do Marfim. Era a mais barata, por ser de perto. E, salgada, comida com pão, dá a impressão de saciedade facilmente. Por esta ser uma ilha com muita gente pobre, foi sempre muito usada, até para comer mesmo só com pão. Em Santa Maria, há algumas receitas tradicionais que nem sequer pimenta desta levam. As fabulosas sopas do Espírito Santo são temperadas apenas com sal, hortelã e endro (o que no Continente, embora pouco conhecido, é chamado funcho-bastardo). Nas outras ilhas, talvez pela proximidade de Angra, onde havia a Provedoria das Armadas, é mais frequente do que aqui o uso das especiarias orientais.

  13. 13 z

    também gosto muito dessa pimentinha, no queijo branco, esse até acho que é de vaca. Em Timor é que tem lá um ‘ai-manas’ que até deitei fumo dos ouvidos

    e uma vez no Méxixo comi uma coisa verde que parecia inocente e fiquei em estado abrasivo generalizado que não te digo nada, vá lá que nesse tempo bebia cerveja

  14. 14 rvn

    z, daniel,
    Chega dessa conversa. Que querem, afinal? Esmagar-me de saudades, atiçar-me a gula até ao salivanço?
    ( o queio branco é de cabra, lá na terrinha, z, e “comi uma coisa verde que parecia inocente” é uma grande frase; em qualquer parte do mundo)

  15. 15 z

    pois hoje é mesmo queijinho de Nisa e torresmos, com pão de centeio, e um estufadinho de grão com barriga de porco fumada e alecrim que andei o dia todo a lamber-me

  16. 16 Daniel de Sá

    Ó Z, até nisso, meu caro? Pois tenho cá em casa o último de três queijinhos de Nisa, e o primeiro foi quase todo comido com pão de centeio. Claro, e, para condizer, um vinho quente do Alentejo.

  17. 17 z

    pois meu caro, acho que não fica bem fazer publicidade aqui, mas tem umas caixinhas de torresmos bem bons aqui no meu pingo doce, e um queijo de cabra de palhais que também é um petisco. Deve-se rematar com uma caixinha de mirtilos por causa do Castrol, senão ficamos gtx

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