Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



(Como eu gosto desta minha personagem Elvira, deixo aqui um pouco mais do seu retrato. É de ter em atenção que a história se passa na viragem para o século XX. Foi sempre uma mulher com má fama na boca do povo. António era um rapaz muito querido, tocador de guitarra, já sem pai, de uma família que se julgava da melhor cepa. Provocou um terramoto em casa quando disse que queria casar com Helena, a filha, cega, de Elvira. Este é um excerto da sua primeira visita a casa delas.)

Bateu à porta com a inquietação como fronteira entre o receio e a esperança. Não se importou que os últimos olhares curiosos à luz dos restos do crepúsculo se dirigissem para si, estranhando a visita, ou talvez não, porque muita gente já teria com certeza ouvido e contado tão improvável amor.
Foi recebido com pouca surpresa, bem menos do que imaginara. Helena mexeu-se na cadeira, inquieta, enquanto ele caminhava em direcção à cozinha, mal iluminada pela luz minúscula da lamparina, que tinha a torcida, acabada de acender, reduzida ao mínimo. Para a cega eram iguais os dias e as noites, e a mãe sabia também os cantos da casa palmo a palmo sem precisar de luz ou de olhos abertos, pelo que poupava no petróleo o mais que podia. Distraíra-se, no entanto, ao recebê-lo com tão vaga claridade e, por isso, pediu desculpa e deu um pouco mais na torcida.
– Ainda está praticamente de dia. – Disse António, apenas para mostrar que nada havia a ser desculpado. Porque a verdade era que a penumbra lá de fora pouco tinha já de semelhante com a luz do dia. E a lamparina nada acrescentara ainda às sombras da noite que chegava, a não ser o pequeno clarão amarelado que iluminava pouco mais do que a si mesmo.
Estava resolvida a dificuldade de começar a conversa. Cumprimentou Helena com um simples “olá”, a que ela correspondeu, envergonhada, dizendo “olá, António”. Seguiu-se um silêncio que seria tanto mais embaraçoso quanto mais se prolongasse. Estranhava que Elvira não lhe perguntasse o que vinha fazer. Com certeza já sabia…
No prato de Helena havia duas batatas cortadas ao meio, no de Elvira nenhuma.
– Quando dei por mim, só tinha quatro batatinhas em casa. A gente amanha-se assim mesmo. – Deu sinal a António para que não fizesse comentários, e convidou por delicadeza: – És servido?
Aquela mulher era muito diferente do seu retrato falado.


  1. 1 rvn

    daniel,
    sabe-me a pouco.
    que se passa? andas a poupar nos caracteres?

  2. 2 jcfrancisco

    Falta aqui uma guitarra. Uma guitarra não é uma viola. É uma guitarra do fado. O som da guitarra ajuda a sucessão da história de amor.

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