Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Como há uns amigos que confessam gostar destas histórias, aqui deixo outra, o mais próximo possível do modo como me foi narrada. O José Zélia foi das pessoas que mais me abençoaram na vida, pois de cada vez que eu ou qualquer outro lhe oferecia um copinho de vinho, incluindo minha mulher quando ia tomar café e o encontrava à espera de uma boa acção, ele punha as mãos num jeito muito característicos e exclamava: “Alminha santa!” Era tão magro que tentar a descrição pareceria um exagero. E não havia uma única dessas almas, santas ou não, que não gostasse dele. Vivia com uma irmã também solteira, seu anjo da guarda.
Notas- “pial” ou piar, amassaria, o que agora se diz bancada da cozinha.
* * *
O senhor prefessor vá-me desculpar, mas eu já contei isto ao senhor Adelino, sê sogro, e ele ri-se que fou misteres. Eu já sou velhinho, a cabeça já não aguenta munto, bebi dous copinhos e fiquei logo tonto. Cheguê a casa, Maria não tava, mas a sopinha tava sôbelo pial, peguê na binquinha, assantê-me e comi tudo nuns arages. Quando acabê de comer, vou pra me alevantar e dê uma grandessíssima cabamdela pr’aquele meo do chão. Ó senhor prefessor, fiquê pr’ali a esgatanhar alguns cinque menutres, já tinha as unhas negras cmà terra da cozinha, e pensê “ó Senhor Santo Cristo queride, se aquela putcha de merda chega agora, tou desgraçado”. Esgatanhê, esgatanhê, e não saía do memo lugar. Ó senhor professor, de repente eu sinti abrir a porta e disse “ó Senhor Santo Cristo, cá vem aquela putcha de merda, tou desgraçado.” Ela vi-me naquele trestalho, pegou-me na gadelha e apuxou, apuxou. O senhor prefessor desculpe, mas ê nã tinha onde agarrar, agarrê-le na marreca e apuxê. Ela gritou “tá-me doendo, cara de macaco”. E ê disse “tamam me tã doendo, putcha de merda, tamam me tá doendo”.


  1. 1 claudia

    LOL Está de mais, Daniel!!!

  2. 2 rvn

    daniel,
    Digno de ovação. De pé, caraças!

  3. 3 Lia

    Ah, “Alminha Santa”,ah, “escritinha santa” que tanto delicias, embora hoje alguma coisa “tamam me tã doendo”.

  4. 4 Daniel de Sá

    Cláudia, Rui, Lia, vocês são adoráveis.
    Lia, espero, sinceramente, que essa dor seja passageira. E, como isto tem andado um pouco morto (não sei o que se passa com os meus superiores do Aspirina), vou oferecer-te outra história. Acabei de a escrever, não era para ir já, mas, devido ao tal silêncio dos outros, vou “postá-la”. Prometo calar-me por uns dias, para não cansar.

  5. 5 luis eme

    Grande “trambolhão” literário do Zé, e sobretudo, do Daniel…

Leave a Reply





Aspirina box

Arquivos mensais

Pharmácias

As Ruínas Circulares
afixe (RIP)
BdE I (RIP)
BdE II (RIP)
de vagares...(RIP)
A invenção de Morel
Sociedade Anónima (RIP)

 

Farmácias de Serviço

 

100 nada
31 da Armada
A aba de Heisenberg
Abrupto
O Acidental (RIP)
Adufe.pt
A Gaveta do Paulo
Agridoce
Alexandre Soares Silva
Almocreve das Petas
Amor e Ócio
António Sousa Homem
Arrastão
As Ruínas Circulares
Atlântico
Avatares de um desejo
O Avesso do Avesso
Babilônia
Babugem
Bada Bing!
Bandeira ao Vento
Barnabé (RIP)
a barriga de um arquitecto
Beco das Imagens
Blasfémias
Bomba Inteligente
Bombyx mori
Bonfim
Blogue dos Marretas
Blogo Social Português
Cabra de Serviço
Caderno de Verão
Caixa de Costura
Canhões de Navarone
Cão de Guarda
Casa de Cacela
Casmurro (RIP)
A causa foi modificada
Causa Nossa
O céu sobre Lisboa
Charquinho
Cibertulia
cinco dias
Cocanha
A Coluna Infame (RIP)
Complexidade e Contradição
Confissão do Silêncio
Conta Natura
Contra a Corrente
Coroas de Pinho
Crítico Musical
Crónicas Matinais
Cruzes Canhoto (RIP)
Daedalus
Daily Make-up
Da literatura
Desesperada Esperança
A Destreza das Dúvidas
Diário Ateísta
É a Cultura, Estúpido!
Em Busca da Límpida Medida
Enresinados
Epicentro
A Ervilha Cor de Rosa
Esplanar
Esquerda Republicana
Estado Civil
a.estrada:
Estrangeiros no Momento
Eternuridade
Floresta do Sul
Fora do Mundo (RIP)
FotoBen
Frangos para fora
french kissin'
Fuga para a Vitória
Fumaças
O funcionamento de certas coisas
garedelest
Gato Fedorento
Geração Rasca
Glória Fácil
Grande Loja do Queijo Limiano
Grupo do Pato
Hipatia
Homem a Dias
:Ilhas
O Insurgente
Intermitências da Corte
A Invenção de Morel
Janela Indiscreta (RIP)
Janela Para o Rio
João Pereira Coutinho
Klepsy´dra
A Lâmpada Mágica
Laranja Amarga
Last Tapes
letra minúscula
Letratura
Malfadado
Mar Salgado
Margens de Erro
Mas certamente que sim!
Meditação na Pastelaria
melancómico
A Memória Inventada
Memória Virtual
A Metamorfose
Miniscente
Modus Vivendi
Muro Sem Vergonha (RIP)
A montanha mágica
Nada Niente
A Natureza do Mal
O Observador
Ó Faxavor...
A Origem do Amor
A Origem das Espécies
Palombella rossa
O Pastelinho
Pastoral Portuguesa
Pedro Chagas Freitas
pequeno blogue do Grande Terramoto
Periférica
pesadelo sem ar condicionado
Pólis & Etc.
Ponto e Vírgula (RIP)
Ponto Media
Pópulo
Portal Galego da Língua
A Praia
Quartzo, Feldspato & Mica (RIP)
Quase Famosos
read me very carefully
Renas e Veados
Rimbaud Warrior
Rititi
Rua da Judiaria
Ruialme
seta despedida
Silêncio
Solvstäg
Sound + Vision
Tempo Contado
Os Tempos que Correm
Tomara-que-caia
Três Pastelinhos
True Lies
Um blog sobre Kleist
O verso dos versos
Vício de Forma
Vidro Duplo
Vistalegre
Voz do Deserto
what do you represent
The world as we know it


© 2006/07 Aspirina B | Powered by TubarãoEsquilo | Editado com Wordpress | afinado por Paulo Querido | Topo