Mestre João Bernardo era sapateiro e ferrador. Foi em sua casa que se jogou o último desafio de sueca na serra.
Com a partida de mestre João Bernardo, no dia seguinte, não ficariam na aldeia mais do que três homens: o tio Amadeu, o Joaquim Torre Velha e Manuel Cordovão. Por isso aquele serão de sueca e despedida teve honras de mutismo em velório que nem os cálices de aguardente animaram.
Os parceiros haviam sido sorteados dando uma carta a cada um. Manuel e o Joaquim Torre Velha ficaram com as duas mais baixas, e por isso formaram equipa.
Para evitar uma indefinida sucessão de partidas em que os que estivessem em desvantagem invocassem o seu direito à desforra, foi combinado que a disputa terminaria quando uma das equipas alcançasse seis vitórias.
Partida a partida, a sequência de vitórias e derrotas não deu a nenhum dos pares uma vantagem superior a uma até ao quatro igual. Depois, Manuel e o Torre Velha ganharam as últimas duas com facilidade.
Ao jogar a derradeira carta, sabendo que a vitória estava assegurada, Manuel sentiu uma tristeza tão grande como se aquela fosse a maior derrota da sua vida. De cada vez que partia alguém, a tristeza era tanto maior quanto menos gente restava na aldeia. E parecia que os que se despediam, indo, sentiam o mesmo e na mesma proporção que os que diziam adeus, ficando.
Os outros dois passaram a recordar aquele último serão como se tivesse sido uma das noites mais importantes da sua vida.
Num fim de dia, em que conversavam à porta da casa do Torre Velha, Manuel tirou um baralho da algibeira, embaralhou bem, disse àquele que partisse e mandou que o tio Amadeu desse cartas como se mestre João Bernardo estivesse ali. “És maluco”, disse o velho, no entanto obedecendo. Manuel pegou num envelope, meteu-lhe dentro as dez cartas restantes e explicou: “Vou mandar estas cartas ao mestre João Bernardo. O senhor Joaquim jogue uma, para eu lhe dizer e ele decidir qual a carta que há-de jogar.”
Perante o pasmo deles, explicou. Cada um guardaria as suas cartas, esperando a resposta do companheiro distante. Quando ela chegasse, juntar-se-iam os três e completariam a vaza. Depois, começariam outra e Manuel Cordovão escreveria novamente a dizer como fora. “Isso nunca mais acaba!” disse o velho Amadeu, mas mais em jeito de satisfação que de censura.
Cada resposta vinda da América demorava pelo menos duas semanas a chegar. Então os três homens juntavam-se em casa do Joaquim Torre Velha, e esperavam com ansiedade a revelação da carta devolvida. Às vezes o serão de sueca não passava disso mesmo: Manuel abria o envelope, punha na mesa, em cima das outras três, a carta enviada por mestre João Bernardo, e, se era este que ganhava a vaza, arrumavam as suas e esperavam mais duas semanas. Quando era a vez de ele dar cartas, prevenia com antecedência se queria virar trunfo por baixo ou por cima, e o velho Amadeu dava por ele. Mas ficavam felizes como se não faltasse ninguém.
O velho Amadeu adoeceu quando estavam empatados a duas partidas, mas ele ia ganhando a quinta por três a um. Ainda aguentou o suficiente para viver até à penúltima vaza, que ganharia, e o jogo também, se mestre João mandasse um trunfo para cortar um rei jogado pelo Torre Velha. Não veio o trunfo. Mas Manuel trocou uma carta sua e mostrou-a ao quase moribundo como sendo a do companheiro. “Vocês ganharam, tio Amadeu.” O velho sorriu, feliz. Pela última vez, o velho Amadeu sorriu. Para que ele sorrisse durante mais uma partida, Manuel seria capaz até de roubar ouro.
Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.


E agora,Daniel? O que hei-de dizer, se repito sempre o mesmo?
A tua escrita transporta-me sempre ao passado e à minha infância e à minha aldeia de menina onde também se jogava às cartas na casa das Britos, os homens em silêncio, numa concentração de honra, como se a própria vida se jogasse em cada cartada; as mulheres rezando o terço ou adiantando o trabalho do dia por nascer ou dando da mamar às crias.
A minha mãe era professora em Milhazes e quando despontava o mês de Março,mudávamos para lá, para uma quinta que o regedor punha à disposação da professora que ia reforçar a preparação para os exames.
Saudades desse tempo até às lágrimas.
Como sempre, lindo, este texto do livro que tarda. Para a semana vou ao Porto ver se consigo mais depressa o meu Pastor das Casas Mortas.
Linda tanbém a poesia que tenho lido.Ironia e gracejo, às vezes,e outras ternura de Nega flô, a tua escrita é água de deuses.
Abraço.
Espantosamente simples e, contudo, espantosamente lindo. Comoveu-me intensamente. Como é que eu ainda não tinha dado consigo?
Adoro vir aqui e encontrar coisas assim ,e como o post anterior. Aquece-me a alma , reconforta-me, e liga-me a coisas que eu pensava esquecidas de todos.
Lia
Cometeste um pecado venial. Em correio particular dir-te-ei qual foi.
Também para as outras duas simpáticas comentadoras: Obrigado. O que mais vos desejo é que ganhem sempre no jogo da vida.
Eu pela minha parte tenho feito o possível por não pecar embora não concorde com o catecismo que criou o mandamento. Belo texto e muito bem achado este jogo.