Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



munch025.jpg

Era uma promessa que lhe tinha feito. Havia de escrever um livro. Chegou a pôr um alarme no telemóvel: 2ª feira, 15 horas, avisar 10 minutos antes (era um nokia): “Escrever”. Assim mesmo. “Escrever”. Como se estas coisas de escrever pudessem ser programadas. Levanta-se pela manhã, toma um duche, engole os cereais e vai à bolina no seu carro que “pelo menos é seguro” e que “já não é a primeira pessoa que me diz, e até já li num livro: tem mais 28 cavalos do que diz o livro – sabes como é que é! Questões fiscais”.
E vai asinha porque não pode chegar atrasado ao seu novo emprego de escritor. O patrão é severo. Tem prazos a cumprir. Agora é um romance. Uma história de tragédia. Dois irmãos que se apaixonam um pelo outro e são obrigados a terminar a relação quando descobrem que, afinal, não são irmãos. Depois chega a hora de almoço e à tarde tem de se embrenhar numa comédia.
Há que arranjar um herói. Pode ser o terceiro irmão dos atrás avindos – e que hão-de deixar de o ser.
Que nome lhe havemos de dar? Passa este escriba pelas mesmas agruras dos pais que lhe escolheram o nome, assim como “uma espécie de pai sem o ser”.
Martim. Pronto. Pelo menos aqui não tenho quem discorde. Martim será e pouco me importa que lhe chamem Martins. Afinal as crianças são cruéis e os adultos são medíocres. Quase todos. Não podem ser todos. O próprio conceito e o simples facto de existir, como tal o impõe. Se o oposto da mediocridade, qualquer que ele seja, como de resto tudo o que é ou não é, não existisse, ou não fosse reconhecido, a própria mediocridade não existiria.

Mas já chega de conversa fiada. Vamos a coisas sérias.

Falava-vos do nosso herói! Lindo! Bela tirada: “o nosso herói”. Livro que o queira ser, deste escritor de empreitada (que não sou eu, atenção, não se esqueçam da promessa), tem de ter um princípio, um meio e um fim e, mais que tudo, tem de ter um narrador – aqui posso ser eu – que possa dizer coisas como: “o nosso herói”.

Martim. Irmão do Fulano e da Beltrana – assumi o “Beltrana”. Irmã borralheira da Fulana, a preferida, e da Sicrana, irmã do meio a quem pouco falta. Não é a sério, não se esqueçam, porque irmãos são mesmo só três - recapitulando, Martim, Fulano e Beltrana. Nesta história, sempre que não se quiser nomear alguém, Beltrana será. E assim no feminino, que fica giro. E o raio do corrector ortográfico automático quer à força mudar-lhe o género. Pois que aguente. Não é Beltrano. Nesta estória não há paneleirices, se o outro é fulano, esta tem de ser Beltrana. Bem bonda o incesto que afinal não era.

O Martim, como não pode deixar de ser, é aprendiz de feiticeiro. Genericamente: bruxo – como se intitula. Num mundo de medíocres ninguém quer ser aprendiz de nada. Vamos todos fazer de conta. Fazer de conta que somos felizes. Fazer de conta que somos experimentados. Fazer de conta que temos dinheiro. Fazer de conta que não são os nossos papás que nos sustentam. Fazer de conta que nos esfalfamos a trabalhar. Sábados, Domingos e feriados. E dizer mal do vizinho que é um calão e não trabalha nos dias de descanso - deve-lhe vir da droga. Mesmo que estejamos conscientes, e alguns não fogem a esse estado, o que só lhes deve aumentar a agrura, mesmo que estejamos conscientes que não fazemos a ponta de um corno, que é só para inglês ver e, pior que tudo, que somos, na maior parte das vezes, o nosso próprio inglês. O que interessa é que o nosso vulto apareça na fotografia, que os movimentos mecânicos do trabalho se possam vislumbrar. Mesmo que o produto de toda essa presença no local da ilusória faina não passe dum enorme flato, dado bem alto e ao vento para que ninguém possa ouvir nem cheirar.
Mesmo assim. Como num enorme auto de fé de bruxas vaidosas. E um bruxo não dorme, um bruxo não come, um bruxo não bebe, um bruxo não fode. Pois bem, este aprendiz de feiticeiro faz isso tudo e mais uma botas que sejam precisas para algum pobre ucraniano que por ai ande de pata ao léu.
E lá vai então o Martim para o escritório. Chegou. As estórias misturam-se, a do criador e da criatura. Está quase a tocar o alarme das 10 para as 10. Ele espera, pacientemente. Escrever. Tá bem, tá. Escreve tu que tens bom vagar. Eu tenho muito com que me entreter - afinal, sou o vosso herói, o protagonista desta história. Embora não me desagrade de todo a ideia de tão tonta corrente literária, não gabo a sorte de quem a quiser aproveitar. Demasiado trabalhoso e, tecnicamente, não passa de uma bela dor de cabeça. Ah, e não vende.

Tocou o alarme, toca a escrever.
“Era uma vez um cabrito montês”


  1. 1 catarina

    Gostei imenso antes, gosto imenso agora.

  2. 2 Valupi

    Sem dúvida, um bom exercício de escrita.

  3. 3 T

    Que filha da mãe de ritmo. Adorei. Deixa-me perguntar uma coisa, saíu de enfiada ou foi texto trabalhado?

  4. 4 susana

    de gato maltês a cabrito montês. gostei antes, gostei mais agora. :)

  5. 5 afixe

    Penso que a Susana já te respondeu, T. O ritmo talvez seja o original, mas mudei meia dúzia de vírgulas.

  6. 6 afixe

    Boa memória, Susaninha. Bem hajam.

  7. 7 LR

    Qwert, qwert!

  8. 8 afixe

    Já nem me lembrava desse. É que essa versão é bem mais recente. QWERT

Leave a Reply





Aspirina box

Arquivos mensais

Pharmácias

As Ruínas Circulares
afixe (RIP)
BdE I (RIP)
BdE II (RIP)
de vagares...(RIP)
A invenção de Morel
Sociedade Anónima (RIP)

 

Farmácias de Serviço

 

100 nada
31 da Armada
A aba de Heisenberg
Abrupto
O Acidental (RIP)
Adufe.pt
A Gaveta do Paulo
Agridoce
Alexandre Soares Silva
Almocreve das Petas
Amor e Ócio
António Sousa Homem
Arrastão
As Ruínas Circulares
Atlântico
Avatares de um desejo
O Avesso do Avesso
Babilônia
Babugem
Bada Bing!
Bandeira ao Vento
Barnabé (RIP)
a barriga de um arquitecto
Beco das Imagens
Blasfémias
Bomba Inteligente
Bombyx mori
Bonfim
Blogue dos Marretas
Blogo Social Português
Cabra de Serviço
Caderno de Verão
Caixa de Costura
Canhões de Navarone
Cão de Guarda
Casa de Cacela
Casmurro (RIP)
A causa foi modificada
Causa Nossa
O céu sobre Lisboa
Charquinho
Cibertulia
cinco dias
Cocanha
A Coluna Infame (RIP)
Complexidade e Contradição
Confissão do Silêncio
Conta Natura
Contra a Corrente
Coroas de Pinho
Crítico Musical
Crónicas Matinais
Cruzes Canhoto (RIP)
Daedalus
Daily Make-up
Da literatura
Desesperada Esperança
A Destreza das Dúvidas
Diário Ateísta
É a Cultura, Estúpido!
Em Busca da Límpida Medida
Enresinados
Epicentro
A Ervilha Cor de Rosa
Esplanar
Esquerda Republicana
Estado Civil
a.estrada:
Estrangeiros no Momento
Eternuridade
Floresta do Sul
Fora do Mundo (RIP)
FotoBen
Frangos para fora
french kissin'
Fuga para a Vitória
Fumaças
O funcionamento de certas coisas
garedelest
Gato Fedorento
Geração Rasca
Glória Fácil
Grande Loja do Queijo Limiano
Grupo do Pato
Hipatia
Homem a Dias
:Ilhas
O Insurgente
Intermitências da Corte
A Invenção de Morel
Janela Indiscreta (RIP)
Janela Para o Rio
João Pereira Coutinho
Klepsy´dra
A Lâmpada Mágica
Laranja Amarga
Last Tapes
letra minúscula
Letratura
Malfadado
Mar Salgado
Margens de Erro
Mas certamente que sim!
Meditação na Pastelaria
melancómico
A Memória Inventada
Memória Virtual
A Metamorfose
Miniscente
Modus Vivendi
Muro Sem Vergonha (RIP)
A montanha mágica
Nada Niente
A Natureza do Mal
O Observador
Ó Faxavor...
A Origem do Amor
A Origem das Espécies
Palombella rossa
O Pastelinho
Pastoral Portuguesa
Pedro Chagas Freitas
pequeno blogue do Grande Terramoto
Periférica
pesadelo sem ar condicionado
Pólis & Etc.
Ponto e Vírgula (RIP)
Ponto Media
Pópulo
Portal Galego da Língua
A Praia
Quartzo, Feldspato & Mica (RIP)
Quase Famosos
read me very carefully
Renas e Veados
Rimbaud Warrior
Rititi
Rua da Judiaria
Ruialme
seta despedida
Silêncio
Solvstäg
Sound + Vision
Tempo Contado
Os Tempos que Correm
Tomara-que-caia
Três Pastelinhos
True Lies
Um blog sobre Kleist
O verso dos versos
Vício de Forma
Vidro Duplo
Vistalegre
Voz do Deserto
what do you represent
The world as we know it


© 2006/07 Aspirina B | Powered by TubarãoEsquilo | Editado com Wordpress | afinado por Paulo Querido | Topo