Regresso à normalidade

Uma das imensas vantagens de passar uns dias fora, sem acesso a notícias e a internet, é que no regresso, enquanto nos pomos ao corrente do que se passou entretanto, temos por algumas horas a sensação de que acabámos de chegar de Marte e tudo é, por esse breve período, novidade. E o que se respira nas capas de jornais e online é uma estranha sensação de regresso à normalidade. Mas não a normalidade de estar tudo novamente bem. Não é essa que falo. É aquela normalidade que acontece quando algo de excepcional chega ao fim, e regressamos todos à nossa mediocridade. As mesmas caras de sempre com as mesmas ideias imbecis e sem futuro, as mesmas auto-importâncias vazias revelando a insignificância de quem saloiamente as exibe, as intenções gulosas de tal maneira mal disfarçadas que dá a ideia que já nem se incomodam porque isto agora é tudo nosso e vão fazer o quê. Sabemos que vão falhar, sabemos que entretanto nos vão arrastar com eles, sabemos que no entanto tudo será temporário. Dois passos para a frente, um para trás. Por muito que custe, é assim que funciona e é assim que deve ser.

Não sou grande fã de analogias de futebol, mas há uma que me parece tão óbvia que não resisto a usá-la: isto soa tudo ao periodo pós-Scolari, em que depois de alguns anos em que nada era impossível, em que o título mundial estava realisticamente ao alcance, voltámos a Queiroz e à tristeza das qualificações a custo, para gáudio de quem acusava o brasileiro de nunca ter ganho nada. Tinha-se acabado o periodo excepcional em que mostrámos aquilo que éramos capazes, para voltar à mediocridade e ao desperdício de capacidades.

Mas esse regresso não é definitivo, felizmente, porque há sempre algo que fica quando passa o turbilhão. Fica, para uns, a memória indelével desse tempo em que éramos apontados no NYT como exemplo pela inovação, e para outros, os medíocres que agora se regozijam, fica o fantasma que os vai perseguir quando não o conseguirem. Rasteiraram o campeão, mas a barra continua lá. Bastante mais alta, para todos verem. Agora saltem.

15 thoughts on “Regresso à normalidade”

  1. Assim é, Vega: nem tudo se perde. Algumas árvores foram plantadas e as sua raizes solidificaram. Um dia destes darão frutos.
    Mas é verdade, os próximos tempos serão daquela “apagada e vil tristeza” que nos é tão peculiar e onde tantos, neste País, parece que se deliciam em viver. Só que, atrás de tempo, tempo vem; melhores dias hão-de vir e uma nova esperança brilhará, assim não haja desistência na prossecução dos objectivos que se procuraram atingir, mas que agora irão hibernar por algum tempo, talvez não tanto como isso.

  2. ora ainda bem que vim aqui ler. Ando eu tão desmoralizada nestes tempos a sentir que “tínhamos uma solução e detámo-la fora”… e a ouvir o presidente, que parece agora que não se cala.. estava mesmo a precisar de olhar lá para cima e ver a barra.

  3. Vega:
    Excelente texto. A prova mais provada que somos um País amargurado e só damos valor ao que não é nosso está no segundo comentário. Se nos referimos a algo que fez levantar o nosso ego, vem logo os velhos do Restelo carpir que não foi assim mas assado.

  4. Bem vindo de volta à bloga, Vega:) Muito bem visto, é um regresso à normalidade, a essa normalidade. O que foi plantado dará frutos, e a barra de facto está alta. Agora que salte quem tanta questão fez de por em causa o país e inclusive o euro para chegar ao governo. Assim é a alternância democrática , em Portugal, na UE. Nesta UE onde o medo, o conservadorismo ganham tanto terreno. Logo numa altura em que a UE podia ser a nossa força, ou talvez por isso. Nos outros estados-membros como em Portugal, o que se passa é muito semelhante. Como dizes, agora saltem. Outros tempos virão, cabe-nos também exercer a nossa cidadania e não esmorecer.

  5. Adorado vega, qual luz de Lira que nos ilumina intensamente com a tua força e inspiração. Nem os teus 25 anos-luz de distância nos afastam do essencial. Irmão agora regressado, a tua ausência pesou sobre o meu coração e quero que te sintas de novo em casa, no conforto do amor e gratidão do coração.

    As boas novas é que existe um novo projecto grandioso em marcha e tu assumes um lugar especial nele. Por isso te quero relembrar, uma vez que os teus afazeres te impediram decerto o contacto com a boa-nova. Aqui fica de novo a carta magna do nosso futuro comum, amado e fiel irmão da luz. Aceito propostas de pequenas mudanças, antes de me mudar completamente para Paris:

    “Quanto mais vos escuto mais vos ADORO: continuam a prestar homenagem ao homem mais genial da política portuguesa, mesmo depois da injustíssima derrota que os animais rastejantes organizados sobre a forma de tsunami de merda lhe provocou, o que me sensibiliza profundamente.

    Já tenho até uma proposta para a comissão instaladora da Basílica para beatificação do Santo Sócrates (SS):

    Presidente: Vigário Mor – Valupetas

    Sacristãos: Isabel Moreira, José do Carmo Francisco, Vega9000

    Capelão: Shark e Aniper

    Acólitos: Penélope, Mário, Marco Alves, Sinhã, Ibn Erriq, S. Bagonha, José Fernandes, Carmim, Aeme, catarina, Margarido teixeira, AP Santos, edie e muitos outros amigos e fiéis.

    Para moço de recados: Manuel Pacheco e outros recém convertidos.

    A PAZ ESTEJA CONVOSCO

    EU ADORO-VOS”

  6. A barra está alta ,mais a mais quando a Drª MFL preconizou que o mafarrico nem na oposição poderia ficar ! Com Sócrates transformado em assombração ,como é que a barra não lhes há-de parecer ainda mais alta !

  7. José Oliveira, assim é realmente. Mas tenho cá a impressão que teremos que ter em mente que os frutos são o que importa quando quem não os plantou os quiser colher. Eu, pelo menos, vou ter de assistir à futura noticia da presença de Passos Coelho – se durar até lá – na inauguração da fábrica da Embraer num sítio sem objectos de fácil arremesso. É que as televisões são caras.
    ___
    Sofia C, nem mais. Obrigado pela simpatia :)

  8. Vega9000:

    Não resisti ao que aconselha sobre o positivismo no seu texto. Tomo a ousadia de enviar este vídeo, que filmei ontem num encontro de poetas levado a cabo pela Associação Cultural e Recreativa Pedaços de Nós, de Freamunde, que celebra no próximo dia 1 dez anos de existência.
    Com a colaboração da Câmara Municipal de Paços de Ferreira e a Comissão de Festas Sebastianas 2011 – que se celebram no segundo fim-de-semana de Julho – a quem endereçou convites a todas as câmaras Municipais do País para se fazerem representadas pelos seus poetas. Apareceram algumas e o evento teve efeito ao ar livre, o que prejudicou em muito, a actuação dos poetas declamadores e vários amadores que como eu o filmaram derivado ao vento que se fazia sentir e ao ruído. Quem escreveu e declamou o poema em questão não é natural e nem residente desta laboriosa terra, que tenho imenso orgulho em pertencer, mas que deu a todos nós, Freamundenses, uma lição de conhecimento e bairrismo que esta terra teve tem e terá.
    É com estas atitudes e comportamentos que o País dá um pontapé no marasmo em está mergulhado.

  9. eheheh, Valupi, é precisamente por essas que não gosto de usar alegorias de futebol. Pronto, não volta a acontecer, foi uma vez sem exemplo…
    ___
    Obrigado, mdsol. :)

  10. Ó adoro-vos, passa lá pela capela quando tiveres tempo que dou-te uma bênção daquelas que ficam gravadas na alma com o diâmetro de uma hóstia.
    Já agora, costumas ajoelhar com frequência nos teus rituais de fé?

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