Notas soltas de um debate

Estive ontem num debate local sobre a situação económica com dois jovens deputados do PS, Pedro Nuno Santos e Pedro Delgado Alves. Fui pela primeira vez a um evento destes movido por uma curiosidade que tinha já há algum tempo: o que é que se fala e como é que se discute esta crise e a situação do país dentro do próprio partido, num contexto mais afastado das luzes dos holofotes e do combate na arena politica. Ou seja, o que é que o PS pensa disto quando fala entre os seus, quais são os caminhos que aponta, que opções vê? E sobretudo, qual é a estratégia? Há sequer uma, para além das banalidades e soundbites debitadas regularmente por Seguro e Zorrinho? Do “temos que apostar no crescimento” sem explicar bem como é que lá se chega? Das medidas pontuais?
Note-se que apesar de ser militante (inscrevi-me já há uns anos, quando Durão Barroso ganhou) a minha actividade nesse campo tem sido praticamente nula, por isso esta é um aspecto da discussão do qual estou afastado. Sei o que qualquer um sabe lendo jornais, blogues ou redes sociais (e um ou outro contacto com gente de dentro), mas pouco mais. Não me desagradava essa posição até agora, sendo que na vida partidária activa deve estar gente com bastante mais talento do que eu, mas a completa ausência de respostas, estratégia e de orientação por parte do PS começa a desesperar. Não pode ser só aquilo, o PS não pode resumir-se a esta mediocridade insalubre, mesmo que iluminada pontualmente por algumas intervenções,  que passa cá para fora. Por isso fui. Fui ver com os meus olhos e sobretudo, ouvir. E saí de lá com sentimentos contraditórios.
Sem entrar em grandes detalhes sobre o que se falou, para não aborrecer, deixo algumas notas (evidentemente com reservas. Foi um debate, com dois deputados):

  • Parece-me há plena consciência dentro do PS sobre a gravidade da situação em que nos encontramos e sobre a catástrofe que 2013 anuncia, bastante mais do que a direcção deixa transparecer cá para fora.
  • Há também um diagnóstico correcto sobre o caminho que nos trouxe até aqui, que continua muito ausente do discurso oficial, e sobre as consequências económicas e sociais da estratégia do governo e troika, que tem sido falado mas não com a veemência suficiente.
  • Dito isto, há boas ideias para uma futura estratégia a seguir, sobretudo na parte da renegociação do MoU, algumas até que nunca ouvi mencionadas antes. Mas por enquanto são ideias soltas, sem estarem agarradas a nenhum caminho claro e definido.
  • Nota-se também o sentimento de algum desânimo, pessimismo, de andar a correr atrás dos acontecimentos. Não só com a situação adversa no país, mas, ainda mais grave, com a própria UE.
  • Isto é muito potênciado pelo sentimento generalizado que o PS devia estar a liderar o debate, mas não está. E não está porque embora haja ideias e talento, muito talento, óbvios no que ouvi ontem, não há estratégia para o país, um grande desígnio que possa absorver e filtrar as ideias que existem.
  • O debate mencionou, muito de longe e a distância segura, o elefante na sala: a hipótese de saída do Euro. Mas parece-me que continua a ser assunto tabu. Já o disse e reafirmo: não pode ser, tem de ser discutido, porque não há estratégia de renegociação que possa evitar esse assunto. Ou então andamos a pedinchar “solidariedade” ou a esperar que os ventos mudem. E se não mudarem tão depressa? E se a resposta a uma renegociação, ao estilo do que aconteceu na Grécia, for “não” seguido de “têm aqui mais medidas de austeridade”?
  • Há também um debate a fazer, em paralelo, sobre o que significa um PS e uma esquerda moderna. Ouvi coisas com que concordei, outras que discordei absolutamente. Mas dá a ideia que a esquerda continua num eterno periodo de transição, ainda um bocado abalada com um mundo novo globalizado e hiper-competitivo, e agarrada a alguns preconceitos antigos, como uma velha desconfiança face ao capitalismo que continua presente. Em tipos como o Alegre não me surpreende, em tipos novos sim. O tempo não volta para trás, por isso é pegar na realidade de agora, diferente dos anos 50, e abraçá-la. Tentar retirar daí as maiores vantagens. A direita não tem dúvidas nenhumas. Nenhumas. E por isso passa a mensagem.

Uma nota final, esta mais vaga e se calhar injusta: saí de lá também com o sentimento que não há uma plena consciência, pelo menos nos dois deputados presentes, do real poder que um partido do arco da governação pode ter, mesmo na oposição. Ainda não somos o PASOK, e é muito provável que o próximo governo seja PS. Isto dá às ideias e opções que se façam em público uma força que o BE, por exemplo, não tem. Ainda. Porque todos sabem que, num futuro mais ou menos breve, o PS volta ao governo e pode aplicá-las. Vocês são poder. Usem-no.

16 comentários a “Notas soltas de um debate”

  1. se a europa, à qual pertecemos e de onde não podemos sair geográficamente, não tem solução para o problema e a alemanha anda a empurrar os seus problemas para cima dos parceiros mais fracos, achas que podemos fazer o quê? greves gerais e porrada à porta do parlamento, talvez? vê a entrevista do amado à judite, uns postes abaixo, pode ser te ajude a arrumar ideias.

  2. Obrigado Vega9000,

    Posts como este, informativo, claro e objectivo, dão uma ideia do que deviam ser os blogues : um espaço de debate construtivo.

    Concordo plenamente com o que dizes sobre a saida do Euro. Como tu, considero que seria uma catastrofe, mas não vejo como pode sair algo de positivo de um debate que não encara claramente esta alternativa. Afinal, as politicas seguidas em nome da construção do Euro estão a traduzir-se por consequências igualmente catastroficas…

    Quanto ao que dizes sobre o arcaismo das posições que exprimem reservas em relação ao “capitalismo”, tenho mais duvidas. Não percebo porque é que essas posições têm logo que ser conotadas com irrealismo, ou com uma postura passeista de revolucionario de trazer por casa, que teima em querer fazer de novo a revolução soviética, por natureza avessa a qualquer racionalidade economica ou radicalmente incompativel com as pretensas exigências da realidade do mundo de hoje.

    A logica “economica”, ou “capitalista”, ou como lhe queiras chamar, existe e penso que ninguém o ignora, nem sequer os autênticos comunistas (muito pelo contrario).

    O ponto é que ela não seja utilizada para impedir a logica redistributiva de funcionar, sendo que a redistribuição so tem consequências positivas de um ponto de vista economico. Infelizmente, é exactamente a isso (impedir a redistribuição) que vêm aqueles que se reclamam da “logica da economia capitalista de hoje”, em nome de uma concepção teologica e aberrante da ciência economica, cujas conclusões são alias completamente desmentida pela propria historia economica.

    Não so considero que não ha nada arcaico nesse discurso, que lembra que o capitalismo deve ser regulado, mas não vejo bem como pode haver uma alternativa realista de esquerda que não passe por ai…

    Boas

  3. ignatz, baixar os braços é que não. Há sempre, sempre alternativas. E não sou grande fã do Amado para essas questões. É peixe de águas demasiado profundas.
    ___
    joão viegas, o sentimento que noto em muita esquerda, mesmo PS, é a de querer “controlar” o capitalismo por desconfiança dos seus efeitos e do seu funcionamento. É vista em muitos círculos – e desconfio que no teu também – quase como um “mal necessário”. E, como ouvi ontem, um saudosismo dos tempos em que as coisas eram mais simples. Já não são. Tenho até um post em construção, há meses, sobre isso, mas não tenho ainda talento suficiente para o terminar. Mas pode resumir-se nesta ideia: a esquerda pode beneficiar imenso abraçando sem hesitações a economia de mercado e livre-iniciativa precisamente porque esta beneficia imenso, e prospera, com a esquerda. E acho que isto não é pensado assim.

  4. não se trata de baixar os braços, mas agir no momento certo com ideias exequíveis e não andar a disparar em todas as direcções. falei no amado pela sua lucidez na análise daquilo que te apoquenta. podemos sempre descarregar as frustrações na polícia de intervenção ou chamar nomes aos políticos nas manifes da cgtp e depois voltar a votar coelho porque o outro é um nabo.

  5. Caro Vega,

    Tens razão, é mesmo essa ideia de uma pretensa incompatibilidade entre a “esquerda” e a “economia de mercado” que acho uma ideia completamente errada. Eu não tenho nenhuma dificuldade em aceitar que a “ecomonia de mercado” e a livre “iniciativa privada” representam um bem, fonte de progresso e de criação de riqueza.

    Mas é ilusorio acreditar que elas so podem ter efeitos benéficos e que, livradas a si proprias, permitem resolver todos os males. Quando não são devidamente reguladas, acabam por destruir os seus efeitos benéficos, e mesmo por pôr em causa os principios basicos do seu funcionamento : afinal, até os economistas que se reclamam do liberalismo admitem que devem existir regras, por exemplo para impedir a formação de monopolios…

    O que é perigoso, e profundamente errado, em meu entender, é considerar que qualquer tentativa de regular a economia de mercado e a iniciativa privada é, em essência, uma negação da economia de mercado…

    Boas

  6. Falar na saida do euro,faz tanto sentido, como a discussão sobre uma possivel vitoria do sporting no campeonato nacional . Não está na agenda,e falar nisso agora era dar trunfos aos inimigos da ue.

  7. Caro NunoCM,

    Repare que eu sou a 100 % europeista.

    Julgo que podemos dirigir exactamente a mesma critica à opçao contraria, a de nao falar, ou de nem sequer pôr a hipotese de falar, numa saida do Euro.

    Apresentar o Euro (ou alias a construçao de uma Europa federal) como um assunto que nem se discute, e disqualificar por sistema quem levanta duvidas, isso é que, creio eu, fornece os argumentos mais eficazes aos tristes Farages desta Europa, que ja perceberam como podem fazer fortunas politicas mercê da frustraçao e da incompreensao reinantes em época de crise.

    Acho razoavel defender que, muito pelo contrario, quanto mais claramente colocaremos os dois termos da alternativa, com os seus custos respectivos, mas também com os seus limites respectivos, mais ganharemos em clarividência, em eficacia e em coerência nas escolhas politicas que fizermos.

    E, mais uma vez, eu acredito profundamente que, tanto para Portugal como para os outros paises Europeus, incluindo a Alemanha, a via mais razoavel é (de muito longe) a do Euro, e dos custos que ele supoe.

    So temos a perder em fugir à questao dos custos, que é o que fazemos quando achamos sacrilego levantar a questao, logica, imperativa, da alternativa…

    Boas

    (Bolas, consegui dizer quatro vezes, em quatro paragrafos distintos, exactamente a mesma coisa, se isso nao é coerência…)

  8. é melhor ter socialistas a distribuir capitalismo do que comunas a distribuir miséria. gostave de te ver alimentar a família com os discursos escolhidos do gerómino e a vestir os putos com as homílias seleccionadas do louceiro.

  9. “é melhor ter socialistas a distribuir capitalismo do que comunas a distribuir miséria.”

    O que significa “socialistas” (entre aspas, porque penso que esteja a falar dos adeptos do clube) a distribuir capitalismo?

  10. oh zé! tens andado distraído e ainda não deste pelo aburguesamento do proletariado. deves pensar que o campesinato da malveira se mudou para apartamentos na reboleira com financiamento do pcp e que os filhos viraram dótores nas univerdades da rda, o serviço nacional de saúde é franchising cubano e as reformas pagas com pitrol russo, autoestradas com tecnologia albanesa e viaturas cedidas gratuitamente pela associação de amizade portugal-correia da morte, o muro de berlim foi transferido para a palestina por falta de espaço para expansão desta atracção turística e que somos todos uma cambada conas que adormece a ler gerómino e acorda a recitar louceiro. vê o link abaixo, pode ser que te dê ideias. versão não traduzida para não te assustares.

    https://www.youtube.com/watch?v=IltS4FWrwxM&feature=related

  11. Zé,dá graças a deus por poderes dizer o que te vai nessa alma.num regime tipo albanes ou sovietico,andavas de”bico calado”. o que diz a cartilha por onde te orientas, infelizmente não tem nada a ver com a realidade. não chegou o muro cair?.Quanto mais residual se tornar, o pcp e o bloco mais triste fica a direita,pela perda de influencia dos seus” aliados naturais” para derrubar governos do ps.

  12. Nuno CM,já quando é o ps a votar com a direita como no orçamento 2011, pecs e outras leis já não criticas pois não? Coerencia é lixada

  13. Apetece-me dizer “até que enfim!”Já tardava um post assim.Não desvalorizando o que por aqui se vai escrevendo, precisamos de intervençoes como esta do Vega como de pão para a boca! E que raras sao.
    Excelente post, a abrir caminhos de debate e reflexao. Começa a ser tempo de nos deixarmos de conversas sobre as pequenezes da vida como chonés e companhia lda e de nos concentrarmos no que verdadeiramente importa. Os tempos mudaram e os desafios estão aí à porta. Como mudarmos nós também? O que queremos para o futuro?

    Saltaram-me à vista duas ideias. Em primeiro a necessidade de justificação para a presença numa actividade do partido de que se é militante. Não comungo da ideia “sendo que na vida partidária activa deve estar gente com bastante mais talento do que eu”. Os partidos afastaram-se das pessoas (ou afastaram as pessoas) e isso é uma das razões para esta situação ao estilo “tempestade perfeita” que vivemos hoje. Se acreditamos na democracia então está na hora de intervir e para quem nao vê solução no arremesso do calhau, contribuir para a mudança dentro dos partidos é o único caminho. Claro que esta é uma estrada de duas vias e também tem que partir de dentro das organizações partidárias a reflexao acerca da necessidade de renovação e de cativar militancia. Mas podemos sempre dar o primeiro passo.
    Em segundo o parágrafo sobre o que significa uma esquerda moderna. É urgente despir os preconceitos e começar a sacudir o pó e os dogmas. Há muito que a direita percebeu isto e actualizou o discurso. E a mensagem passa. É preciso que passe, também, a mensagem da esquerda.

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