Linhas vermelhas e regras d’oiro: radiografia de um nulo

Seguro

Animado, certamente, por uma crescente preocupação com a sua posição de Secretário Geral o rumo do país, António José Seguro por estes tempos desdobra-se em aparições e entrevistas, num esforço para mostrar finalmente ao país que existe. A mais recente é uma longa entrevista ao DN, onde o líder do PS acaba por demonstrar, involuntariamente, quase todas as razões que o levaram à frágil posição onde agora se encontra.
A entrevista é politicamente correcta, não se desviando um milímetro da imagem que gosta de projectar de líder sereno, bem educado, com uma honestidade acima de qualquer suspeita e muito, muito, ó mas tão muito responsável. Toda a entrevista é, também por isso, enfadonha e um exercício de vazio absoluto.
Repare-se nas contradições presentes: na mesma entrevista, critica o “enorme aumento de impostos” que conduz a uma espiral recessiva, ao mesmo tempo que “não está em condições de prometer” que os baixa. São maus e têm péssimas consequências, mas são para continuar. Ou seja, não sabe o que fazer. Ou aliás, sabe que não os baixa, mas não o diz directamente. Não se compromete com uma posição.

O mesmo sobre os cortes propostos. Ao mesmo tempo que denuncia uma politica de “cortes, cortes, cortes” que não resultam e questiona o valor de 4 mil milhões proposto também, pasme-se, pergunta porquê naqueles itens e não noutros, tipo defesa ou justiça, que ele acharia mais adequados. Ou seja, os cortes são errados, uma politica que só conduz aos mesmos resultados desastrosos, mas também tem propostas para efectuar esses mesmos cortes, logo assume a necessidade de os fazer. Mais uma vez, posições claras, nada.
Sobre o relatório do FMI, para além de demonstrar que não gosta e não concorda, nada. Desmontar e denunciar um dos estudos mais incompetentes e desonestos que este país já viu? Não é com ele. Não gosta por ser demasiado duro, não porque, subentende-se, o que lá está esteja tecnicamente errado. Linda defesa.
Ao mesmo tempo que denuncia o OE 2012 como fonte do agravamento da crise e das condições de vida, gaba-se de ter contribuído para a “estabilidade” através da abstenção, para assegurar a “credibilidade externa”. Onde é que já ouvi isto? Ah, claro, há um primeiro-ministro que dá a maior importância às avaliações externas, independentemente das politicas serem erradas. Pelos vistos, não está sozinho na subserviência ao estrangeiro. É este que vai renegociar com os nossos parceiros? O que fará ele ao primeiro “nein”? Bem, a isso ele responde. Diz assim o líder que lutará por nós: “os nossos parceiros sabem que, se amanhã houver uma mudança de governo, eu, como Primeiro-Ministro, continuarei a honrar todos os compromissos do estado português”. Da minha parte, perfeitamente esclarecido. Creio que na Alemanha também.
Isso explica talvez a desmesurada importância dada à “estabilidade” como um bem em si mesmo. Importante para, pelos vistos, prosseguir uma politica errada durante toda uma legislatura. Ou seja, não quer ser acusado, por alguma razão que me escapa, de contribuir para a queda de um governo cujas politicas levam o país ao desastre. Excepto se passarem “linhas vermelhas”. Se forem laranjas, está tudo bem.
Mas o mais grave vem no fim, quando se fala do regresso aos mercados. Em nenhum lado a sigla BCE é sequer mencionada como factor, muito menos principal. Quando acontecer, será fruto de um “trabalho colectivo” de que ele, claro, fez parte. Ou seja, pressentindo um êxito do governo a curto prazo, em vez de o desmontar e explicar porque é que esse êxito está perfeitamente desligado das politicas erradas que antes critica, encosta-se ao “designio nacional” para receber uma parte dos louros. Como também o faz em relação ao 15 de Setembro, quando, tirando a proclamação de mais uma linha vermelha – via Carlos Zorrinho – esteve ausente em parte incerta. Como também o envio do OE2012 para o tribunal Constitucional, a que se opôs. Etc, etc. O padrão é claro. E não é bonito.
Quanto ao “crescimento”, ficamos também esclarecidos. Um Banco de Fomento, desligado da CGD para não ter balcões – por alguma razão isso parece ser o principal motivo – e injectar 12 mil milhões na economia. Onde, quais as áreas, como, isso não diz. Talvez seja de helicóptero. Ah, e “captar investimento estrangeiro” (Álvaro), “fomento das exportações” (Passos, Álvaro) e “produção nacional” (Jerónimo de Sousa). Diferença para as prioridades deste governo? Zero. Até o comboio de mercadorias é igual.
Ou seja, o que oferece Seguro? Uma politica “responsável” e de gente séria. Pedinchar melhor aos parceiros europeus, mas sem os ofender. Investir 12 mil milhões, que não existem ainda, em coisas a anunciar. Umas medidas que podem consultar “no site da Presidência do PS”. E um comboio de mercadorias.
Pouco? Acho que mesmo isso é ser optimista. Boa sorte com essa “maioria absoluta”.

15 thoughts on “Linhas vermelhas e regras d’oiro: radiografia de um nulo”

  1. Muito bem, Vega.
    Esse poltrão impreparado com ar de sonso ainda não quis perceber por que não sobe o PS nas sondagens.

  2. vai ser difícil correr com esta nódoa sem uma derrota eleitoral. o gajo minou aparelho do partido com apoiantes para garantir a liderança e não vai largar a oportunidade de ser primeiro ministro, cargo em que já investiu bués de laca.

  3. Não tarda muito, com este SG, o PS acaba ultrapassado nas sondagens. Cometeu dois erros irreparáveis: recusou a herança governativa do PS (e os militantes que o elegeram deviam ter suposto que ele ia seguir esse percurso) e não exigiu ser parceiro nas negociações das alterações ao memorando após cada avaliação, assinado pelo “seu” governo (pois…a verdade é que o governo PS-Sócrates nunca foi o dele!). Era o memorando do PS,PSD,CDS e não do governo. Como as oisas corriam pessimamente, PSD e CDS atiravam-lhe à cara que o memorando era da responsabilidade do PS. Pois mesmo assim, a nulidade do Seguro não reagiu quando o “memorando do PS” estava a ser celindrado em cada renegociação. Numa palavra: Seguro nem sabe o que quer nem o que está a fazer como lider da oposição. Está a desmoralizar a esquerda, colocando-a ao nível de Passos/Relvas. Quanto mais tempo o PS demorar a defenestrá-lo, maior será o rombo na credibilidade dos políticos em geral e do PS em particular.

  4. Muito bem,

    Esta na altura de alguém perceber no PS que “alternativa” não pode significar “mais do mesmo”…

    Boas

  5. O que mais me arrepiou foi o garantir que tinha surpresas… Como se os portugueses não desconfiassem de surpresas, tantas ela são diariamente. Ideias ? Zero! Percebe-se porque não passa dos 34%…Eleição de novo leader e congresso já, antes que os famigerados mercados comecem a emprestar dinheiro de tal forma, que qualquer traque politico, se possa chamar de crise. PPC está a apostar nisso… e a troika também.
    É urgente uma mudança de liderança no PS !

  6. Desconfio que ninguém na realidade se quer tornar chefe da gestão de massa falida que é este país. Mas para andarem por lá a “assessorar o chefe” e a sacar o guito enquanto alguém dá a cara, não devem faltar candidatos.

    Não se aumenta (ainda mais, lol) impostos, não se corta na despesa: buuum bye bye euro

    Aumentar impostos? aah, pois a economia está de rastos e existe um tal de Laffer (que rima com laughter).

    Cortar na despesa? aah pois ao quadrado – o facto é que mais de metade dos portugueses vive do Estado e alterar isso não é simples – são muitos votos e de pessoas muito importantes, nomeadamente os reformados no activo.

    Cortar na dívida “odiosa”? pois, ver a primeira linha do bye bye Euro. É que para os ditos mercados dívida é dívida. E Portugal não foi propriamente o caso de uma população de um qq país do 3º mundo em que um ditador fez as negociatas que quis com a sua pandilha…

    Esperar “compaixão” do norte da Europa? aaah, ver “Grécia” e “Lagarde” para ficarmmos elucidados sobre a “solidariedade europeia” (diga-se, que compreensivelmente – também não temos visto muita gente a demosntrar grande solidariedade com a dívida da Madeira, sendo esta até território mais ou menos nacional).

    Pois…

    Mas o mundo pula e avança – o que ontem era impensável, hojé é normal e amanhã obrigatório.

  7. Gostava apenas de lembrar ao comentador Pyros que a grécia já teve dois haircuts, dois, e até vêr continua no euro.
    O que o leva a pensar que se começarmos a dar murros na mesa é bye bye euro?!
    Se calhar as coisas não são tão simples assim.E acredite, o murro terá de ser dado, mais cedo ou mais tarde, pois a trajectória que a nossa economia segue levará sem dúvida á falencia total. Por mim, quanto mais cedo pusermos termo á espiral recessiva melhor.Até os credores ganharão com isso, pois em breve terão de escolher : ou haircut ou bancarrota. E aqui sim, não há alternativa.

  8. É verdade que teve dois haircuts – e eventualmente até terá um terceiro. Mas não é verdade que tenha dado um murro na mesa – quem ameaçava isso era o Syriza – que “ia rasgar o memorando”. Os haircuts foram acordados- ou antes desenhados – pela Troika. E os gregos fizeram os cortes (não exactamente os que a Troika “aconselhou”, mas gritado e esperneando fizeram cortes).

    Até o Hollande, da “toda poderosa” (apenas e somente em termos de autoimagem) França entrou armado em leão e ficou cordeirinho.

    Nós, tal como os gregos, não damos murro algum porque estamos agarrados pelos “cojones”. Mas, acredita, pelo menos por enquanto, estamos bem melhores que eles. Mas a doutrina da dor ainda vai no adro.

    Sim, se a trajectória se mantiver a economia continuará em recessão. Mas isso não causa muitos dilemas aos alemães – ver o ponto referente à “compaixão”.

    Faremos haircuts? – é possível, até diria provável – mais ou menos disfarçados (acredito que disfarçados), mas quando e da forma que quem tem o guito achar que deve ser feito. E após mais uns cortezinhos e aumentos de impostos. “Vocês têm SNS – nein problem, kaput. Poupar muito Euro!” (ok, um pouco de exagero)

    Existe saida? Existe. Mais não é fácil. E não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe.

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