Vamos a Nova Iorque comer umas alheiras

Portugal deve aos filhos de Itália alguns dos nossos mais amados espaços de palatização: Attilio Santini, Maria Paola Porru, Augusto Gemelli, só para referir os mais populares, mas também podemos incluir a Io Apollonni como representante desta leva imigrante que nos tem dado tanto prazer. Mas há um deles para quem a dívida de gratidão atingiu uma dimensão internacional: Michael Guerrieri. O que ele está a fazer em Nova Iorque irá valer-lhe uma condecoração qualquer num qualquer 10 de Junho.

Guerrieri já tinha inscrito o seu nome no roteiro alfacinha dos restaurantes italianos de referência com o Mezzaluna, inaugurado em 1998. Embora nunca tenha sido o meu favorito, por causa da pouca descontracção da ementa e do ambiente, a alta qualidade do que põe na mesa é indiscutível. Este triunfo não chegou para o seu espírito inventivo ficar satisfeito, longe disso. Em 2003, abriu o La Brusketta. E em 2005 criou o City Sandwich. Foi este último conceito que levou para Nova Iorque em finais de 2010, depois de um completo fiasco entre os indígenas. Resultado? Os nova-iorquinos andam maluquinhos com os sabores da morcela, do bacalhau, da alheira, da sardinha fresca, do paio, da salada de polvo e da couve-galega. Algumas críticas que têm saído são mais emocionantes para o nosso provinciano orgulho nacionalista do que medalhas olímpicas. Chegam a fazer elogios ao pão das sandes com ternura e enlevo tais como nunca fizeram, nem farão, à sua família, amigos e animais de companhia.

Qualquer empreendedor tratará bem a sua inteligência – portanto, o seu bolso – se estudar este caso a fundo. Porque estão aqui reunidos os segredos para fazer uma marca que se pode tornar global de um dia para o outro só a partir da criatividade aplicada ao património cultural português; no caso, o gastronómico. Aliás, esta marca é tão poderosa que até sobrevive imaculada a um tremendo erro de nomeação. Este City Sandwich não tem ponta por onde se lhe pegue face à experiência que o produto oferece, e seria uma sugestão trucidada em segundos em qualquer agência criativa que se preze caso aparecesse num brainstorming destinado a encontrar o nome da marca. Para contrabalançar, a ideia de dar nomes de pessoas às sandes é próxima do genial, para mais porque nascem das relações afectivas do fundador.

Se Guerrieri montar uma rede que cubra as principais cidades norte-americanas, de repente irá abrir-se um mercado gigantesco para inúmeros produtos tradicionais portugueses. Para além daqueles que serão consumidos directamente nas suas lojas, o interesse comercial por outras variantes e alternativas irá crescer com a fama e o hábito de consumir Portuguese. E se a marca sair da América para outras paragens, então, e mesmo contando com as falsificações e produções locais, este minúsculo rectângulo não terá braços suficientes para tanta procura do very tipical.

Há anos que sonho com a internacionalização do croquete e do pastel de bacalhau. Graças a este ítalo-luso-americano, deixou de ser impossível.

16 comentários a “Vamos a Nova Iorque comer umas alheiras”

  1. asilamos os reformados deluxe e dedicamo-nos aos come & bebes, há que franchisar o tasca concept nas grandes capitais, invadir os centros financeiros com roulotes de couratos e promover o body piercing com morcelas, alheiras, salpicão, sangueira e por aí a fora.
    estão à espera de quê? álvaro já nós temos.

  2. Amigo Val, eu alinho na excursão. Vou já pedir um crédito ao Banco…pode ser ao BANIF…penso eu de que. Entretanto solicito autorização para levar alguns dos que já migraram (no intervalo dos seus múltiplos afazeres) para os gabinetes de comunição dos couratos, citando o anonimo. Entretanto o sábio da Marmeleira rasga as vestes. Diga-se, em abono da verdade, que ao menos ele lançava o veneno com mais “savoir faire”. Ah, é verdade, e sabem-me dizer como estão os juros da dívida? É que a “informação” relegou essas notícias para um lugar esconso do seu “menu” quando era hábito ela estar logo á cabeça acolitada pelas trombetas dos cantigas, duques e quejandos. É a vida…

  3. Pastéis de bacalhau e croquetes, por que não? Embora me pareça que o rissol tem igualmente grande potencial, seja ele de camarão, de pescada, ou até de atum… E que dizer do genial formato da “mine”?

    Ora se um conceito tão básico como o do “hamburguer”, ou até o da “pizza” (já para não falar no do “crêpe”) se tornaram universais, não vejo por que não possam sê-lo as nossas belas sandochas e outros petiscos, que tanto encantam os estrangeiros que nos visitam (e que, felizmente, ainda não são apenas os idosos sorridentes e anafados que enxameiam e sufocam o Turismo da Madeira)…

  4. Como relatou o Porter, devemos apostar naquilo em que somos bons. Eu diria que na gastronomia regional, somos dos melhores do mundo. O relatado neste post demonstra que não temos sabido aproveitar o que de melhor temos. Os Italianos vendem vinhos ranhosos em todo o mundo! Vendem a polenta como coisa única, quando não passa de papas de milho como sabe qualquer trasmontano ou algarvio! etc e tal. Os nossos vinhos pedem meças, aos melhores do mundo, por preços de 1/3. e tem dificuldades de mercado. Só por uma única razão! Os nossos emigrantes não t^^eem orgulho nas coisas da sua pátria!

  5. pois , concordo. então os queijos ? são demais. só que as matérias prima dessas coisas estão dependentes da agricultura e pescas , não é? ou vamos importá-las ? portuguese made in china ?

  6. ó pá, atão não sabes que há toda essa coisa que falas na américa, pá, chouriços, sardinhas, atum, pastéis, lapas, o caraças, até touradas, pá, e olha que tudo bem fresquinho e saboroso pá, até há salsicha portuguesa no brequefaste, pá, ora, ora, e também vinho, pá. há de tudo, do bom e do melhor, é só askares e tens a porra das alheiras pá.

  7. ora nem mais, até podiamos ter uma frota de navios de pesca de bacalhau e transformação em pastéis, que iam vendendo pelo caminho. os sumarinos do portas faziam o abastecimento de batatas em alto mar e a cristas entretinha-se a mudar as pilhas aos pepinos.

  8. Pelo que sei do Michael, é teimoso e persistente como não há igual. E não é porque em Portugal não deram o devido valor às suas sanduiches FABULOSAS que não tentaria o sonho noutras paragens. Em Portugal, aprecia-se mais a sandes de fiambre, queijo ou mista.

  9. Este post foi escrito em colaboração com o Paulo Futre ?

    A menos que se trate do preludio de outro em que vais acusar o PSD, o BE e o PCP de terem conspirado para que tirem ao pais a esplendorosa oportunidade de vermos o Obama comprar um segundo cão de raça portuguesa ?

    Boas

  10. é isso mesmo: a alheira e os bolinhos de bacalhau têm vantagem competitiva e também um custo de oportunidade – se os outros povos gostarem e comerem muito ficam mais gordos e nós ficamos melhor no retrato das estatísticas.:-)

    (se ele provasse os meus rissóis gigantes ia querer sociedade. até porque eu também os baptizo, não é só ele.
    só não percebi bem qual é o prazer que a Io dá. qual é?) :-)

  11. ó pá, o gajo não se lembra das caras de bacalhau e das linguas, meu, bué da bom, poe-lhe uma sangria e vais ver se não andas de lado. agora um novaiorquino comer sardinhas, com espinhas, ehehe, são um povo interessante, há quem pergunte se eles falam inglês.

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