Um Presidente popular

A declaração de Marcelo sobre os incêndios do passado domingo foi uma muito eficaz peça retórica. É fácil prever que a enorme maioria da sua audiência concorda com a atitude de ataque ao Governo e de estigmatização de Constança Urbano de Sousa, seja à direita, ao centro ou na esquerda. Foram menos de 12 minutos de um discurso popular, uma síntese do coro que a comunicação social vinha debitando desde Pedrógão, servido com pathos pelo melhor actor da política nacional.

Acontece que, exactamente por causa dessas mesmíssimas razões, igualmente podemos ver na situação que protagonizou com excelência técnica um exagero. Um teatro. Marcelo a brincar aos chefes que não têm mediações institucionais com os cidadãos que representam. E que, portanto, misturam com arte as dimensões individuais, psicológicas, afectivas com as dimensões presidenciais, políticas, constitucionais. O texto que leu com ênfase histriónica para jornalista ver e telespectador sentir embrulha em relatos expressionistas e explorações emocionais uma tentativa de condicionamento do Governo para lá do que a Constituição lho permite. Criando um dilema donde sairá sempre a ganhar. Ganha se o Governo ceder às exigências do Presidente, porque será visto como o mais forte e poderá repetir a dose. Ganha se o Governo continuar independente da Presidência, porque será visto como uma vítima de Costa e do PS e fica com carta branca para monopolizar o calendário eleitoral legislativo e presidencial.

Se Marcelo quisesse apenas congregar na sua pessoa pública a dor indizível de quem perdeu a vida, perdeu pessoas, bens, trabalho e recordações no mar de fogo deste ano, então não teria sido tão perfeito e tão pragmático. Acima de tudo, não teria feito ameaças. Não teria vestido a pele do crítico. Não teria captado os mortos para o seu mandato. Porque qualquer um desses mortos, nessa luz e mistério da sua finitude, é maior do que todos os mandatos de todos os Presidentes da República.

Marcelo podia ter sido magnânimo, unindo o País à volta das soluções possíveis. Preferiu unir o povo à sua volta.

22 comentários a “Um Presidente popular”

  1. Valupi, apesar de ter terminado (penúltimo parágrafo) com essa frase cristã quase copiada de São Tomás de Aquino (e que só faz sentido se acreditarmos no divino … bem mas isso é outra história), não invalida que esteja contra o presidente. Pois o presidente fez isso mesmo: colocou este caso acima das triquinhas políticas. Coisa que o Valupi não tem capacidade para o fazer.
    É óbvio que o Governo tem de se remodelar. Não é por uma perspectiva meramente técnica mas essencialmente política. É a de colocar a política ao serviço das pessoas e não as pessoas ao serviço da política.
    Esta ministra está politicamente morta. Tem de haver responsabilização política. Não falo agora da responsabilização criminal, cível, disciplinar ou o que quer que se venha eventualmente a apurar. Politicamente não se pode olhar para o que sucedeu de um ponto e vista estritamente técnico. E neste caso quem fica mal é o Valupi nesta defesa desenfreada ao governo. Só corrobora e sela uma coisa: você não comenta, não dá uma opinião pessoal. Você tem como tarefa defender o governo e o PS.

  2. Muito bem, Valupi. Excelente. Este drama político não se justifica de todo, tendo ouvido as populações. É um aproveitamento. Aqueles choros e abraços ao presidente são expectáveis e ele sabe bem o seu efeito perante as câmaras. Não quero dizer que não sejam sentidos. Mas toda a gente que viveu esta tragédia aponta claramente o dedo aos incendiários, aos negligentes e até a uma acção concertada no contexto da guerra política, dada a extensão e a simultaneidade dos fenómenos.

  3. que belo poema , logo de manhã. acordou lírico , o V. . . claro que a incompetência e a baralhação de quem omanda a proteção civil , que deixa um lastro de morto civiss nunca antes vista , deve ser completamente ignorada . assim como a evaporação de um Pinhal , ex libris do país , ao cuidado do Estado , também deve ser ignorada. que inveja tens dos dotes de oratória do Marcelo , pá. é feio.

  4. Este não dá ponto sem nó. Com a obliteração de PPC – o mesmo que o havia apelidado de cata-vento – Marcelo começa a esboçar a reabilitação do bloco central e assim livrar-se da esquerdalha. É engraçado porque é verdade.

  5. O descuro de Pedrogão foi de união. Passado 3 meses não podia ser o mesmo. Haja paciência.
    Ate achei o decurso brando demais.
    Deveria mas era demitir o governo por inoperância.

  6. Vamos lá pensar fora da caixa do actual comentário político nacional. QQ intervenção politica tem no mínimo duas leituras. Só para citar um exemplo anterior, no limite até quando Sócrates se queixou de Costa na recta final da campanha autárquica pode ter ajudado ao excelente resultado do PS. Na medida em que afastou a toxidade do processo Marquês do caminho do PS. Ou também há alguém no Aspirina que conhece a fonte anónima do ZGF que garante que Costa está mesmo muito desiludido com Sócrates?

    Da mesma maneira que esta declaração do PR no limite até pode ter sido combinada com o PM. Ou Marcelo disse mesmo algo que terá desagradado assim tanto a Costa? A necessidade de afastar a Ministra? Era já sábado no Conselho de Ministros. O clarificar da 2º metade da legislatura? O tal 2º ciclo para que Marcelo já tinha apontado pós Autárquicas. Como aliás acontece sempre a meio de qq legislatura. De diferente desta vez só mesmo os incêndios. E será que chegou o diabo? E poderá este diabo influenciar assim tanto o voto dos portugueses além das muitas redacções de jornalixo? A julgar pelo último escrutínio em Pedrogão não! Ninguém beneficiaria tanto de eleições legislativas antecipadas como Costa. E ai do partido à esquerda que roesse a corda da geringonça. Independentemente do histerismo todo Costa avança para a 2ª parte da legislatura mais forte. Com uma moção de censura melhor.

    Se eu penso que foi isto que traduziu a declaração do PR? Não! Marcelo nunca passou de um pantomineiro na verdadeira acepção de palavra. Um pantomineiro desequilibrado! Um fazedor de factos. Com a agravante que quem o conhece bem sabe que nunca funcionou muito bem sob pressão. Como uma Vichyssoise. Não sabemos todos? Para quem andou 4 anos a tomar chá com o mulherio todo deste país para chegar a Bélem nunca há limites para o populismo.

    De qualquer forma e não obstante 6 meses sem pinga de chuva, claro que a estrutura de combate aos incêndios falhou. O problema é que só se pode dar ao luxo de fazer afirmações destas quem não tem qq tipo de responsabilidades governativas. Como é o caso do PR dos afectos. Nomeadamente no auge da crise! Quando é preciso manter as forças motivadas. Nomeadamente depois de privatizarmos o combate aos incêndios. Que ainda é talvez o único ponto com imensa “graça” no meio desta enorme tragédia humana que se abateu sobre Portugal.

  7. O comentador P tem toda a razao ,mas Marcelo nao e Presidente dos afectos ele e afectado , uma pessoa que politicamente nunca foi corajoso ,um desistente por natureza , agora que ninguém o pode mandar embora
    e o contradiz ,esta nas sete quintas ,faz o que quer, diz o que quer um verdadeiro cata-vento|

  8. Ora esquecem-se, uns e outros, que a soberania perdida por Portugal decorrente da integração na União Europeia e na Zona Euro não foi compensada pelo exercício competente dessa soberania, por parte das instituições europeias.

    Temos então a decadência da nossa Administação Interna, constrangida por falta de pessoal e de orçamento; a destruição económica e demográfica do interior do país e ocupação do mesmo pela monocultura do eucalipto, com as consequências bem visíveis; acresce ainda a impossibilidade de fixação de população nessas zonas, por ser impossível erguer barreiras alfandegárias que protejam as produções locais de mão-de-obra mais intensiva, que poderiam suportar uma maior densidade populacional.

    Mas, com a prestimosa ajuda da comunicação social, em breve os portugueses esquecerão a tragédia económica e social deste país. Pois há este consentimento manufacturado sobre a Europa; algo que é dogma religioso, e nunca se discute, Assim, se perguntarmos aos portugueses se estariam dispostos a suportar os sacrifícios necessários para sair da União Europeia, a grande maioria responderá que não.

    Ora, no quadro actual de soberania limitada, Portugal não vai ter capacidade para resolver este e outros problemas de adminstração interna e ordenamento territorial, Vamos continuar a ter um país com um povoamento cada vez mais concentrado nas metrópoles urbanas, com o interior ao abandono e sem recursos, humanos e de capital, para resolver os seus (muitos) problemas (que não se reduzem aos incêndios). Quanto muito — e se se conseguir organizar os parcos recursos de que (ainda) dispomos de forma efectiva e tomarmos medidas draconianas, como sendo o abandono puro e simples de parte do território— poder-se-á aspirar a mitigar alguns dos mais visíveis problemas.

    Por isso, faça-se a vontade ao CDS e ao Marcelo; pois o sacrifício da ministra bode expiatório e da geringonça tudo irá, certamente, resolver…

  9. concordo. uma catástrofe tão grande não é culpa do governo; uma catástrofe tão grande, e descontrolada, não deixa ficar mal quem faz o melhor que pode; uma catástrofe tão grande não pede aplausos e reclamações – pede soluções.

  10. Caro joãopft,

    Na realidade hoje não é possível discutir temática nenhuma em Portugal sem a consciência desse seu 1º parágrafo. Aplica-se aos incêndios como à forma como todos vimos nascer a famosa crise das dívidas soberanas. E pior, depois na gestão dessa crise.

    Muito oportunista portanto o comentário do caro.

  11. Muito lentamente, este finório do Marcelo vai começando a tirar, ou a deixar caír, a sua máscara.

    Por mim, que não votei nele, mas cheguei a ponderar votar, quanto mais cedo ela caír de podre, melhor para todos.

    Obrigado, pantomineiro.

  12. o meu Manel é que diz bem o que sinto

    «Sete séculos depois ardeu o pinhal de D. Dinis, o das “naus a haver”, morreu o verde pinho do rei poeta. Dá vontade de chorar e não consigo ficar calado.»

  13. Gostaria de ver Marcelo a gerir um dia de incêndios ( 524 segundo as estatísticas) à média de 22 incêndios por hora ! Isso é que teria sido bacano.
    Em Espanha, que é uma referencia no combate a incêndios na UE ( boa referencia, diga-se) chamam à situação na Galiza ( muito semelhante à de PG) de terrorismo incendiário e até já detetaram artefactos para atear fogos. Afirmaram que estão preparados para os incêndios e não para os incendiários e que nunca houve tantos meios de combate a incêndios em Outubro como este ano. E puseram a guardia civil a investigar aquilo a que chamam de “ações coordenadas”. Aqui fazem-se declarações . A politica não resolve tudo. E discursos como o de Marcelo, ontem, é de comentador da TVI ( que já não é)

  14. Marcelo arengou às massas. E num discurso com acentos dialectais característicos do Eixo Cascais/Lisboa, bem como de algumas zonas de Santa Maria de Belém, falou. Disse coisas que um Presidente “pode e deve dezer”. Não dizendo todavia muitas outras que um Presidente também “pode e deve dezer”. A direita rejubilou. Após a retirada para Massamá de Pedro Passos Coelho, a dita já não está entregue a si própria. O filho pródigo regressou. Os comentadores, analistas e politólogos, comentam, analisam e “politigam”, ainda incrédulos com a dádiva que lhes caiu no impoluto regaço. A Magnífica Reitora da Universidade Católica deu vida a um fundo, denominado Papa Francisco, destinado às vítimas dos criminosos incêndios ( a adjectivação é minha) e o Patriarca D. Manuel Clemente zurziu o governo e a sua incompetência. A Igreja retoma (?) a prática assistencialista da qual tanto se queixava o finado Bispo de Setúbal D. Manuel Martins. Sugiro entretanto à Magnífica Reitora a criação de um outro fundo, talvez com o nome de D. Oscar Romero para iguais destinos de solidariedade cristã. Na próxima terça-feira irá discutir-se a moção de censura patrocinada por uma ex-ministra da agricultura que promulgou a lei do eucalipto em 2013. As vítimas de décadas da incúria esperam e exigem que o governo e os partidos que o apoiam legislem no sentido de mudanças profundas nas causas estruturais do flagelo que são os incêndios em Portugal. Veremos então a reacção da direita. O uso deste acontecimento para fins que não passam necessariamente pelo respeito das vítimas é quase tão criminoso como a omissão em desvendar o que realmente está na origem dos incêndios em Portugal e conduziu a esta incomensurável tragédia. Pede-se a demissão da ministra (já se demitiu). As carpideiras do costume elevam a fasquia e já exigem a exoneração do governo. É a vez de António Costa e da solução que gerou serem dignos do momento não se demitindo e governando para o futuro. Os mortos e as vítimas exigem-no. Os vivos têm esse direito que é ao fim e ao cabo viver num país digno. Então será talvez a altura de Marcelo voltar a falar ao país dizendo aquilo que um Presidente “pode e deve dezer”.

  15. Valupi, tens duas peças de retórica sucessivas.
    A do primeiro-ministro António Costa, miserável e que levanta questões fundamentais sobre a capacidade política de quem o escreveu ou reescreveu. A do presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, sem “marcelices” mas com conta, peso e medida (e nem tenho a certeza de que assim pudesse ser!). O resto é o teu gosto intelectual por te entalares sozinho, ou quase que por aqui também há idiotas para tudo.

    Nota, importantíssima. Ainda não pesquisei, mas vi ontem na capa do P. que houve dirigentes (?) e ministros do governo PS que se agitaram. Este é um excelente case study para se perceber como actualmente se processa a condução política do governo e do partido, e oxalá hajam novidades.

  16. MILAGRE! ALELUIA! Passos Coelho diz que sentiu “vergonha”, palavra consabidamente inexistente no seu dicionário e, provadamente, conceito para ele mais difícil de entender do que a teoria da relatividade em mandarim. Mais difícil ainda, e por isso mais milagroso, sentiu vergonha não por alguma coisa que fez, mas por aquilo que outros fizeram. Se milagre não é, certamente que só a física quântica conseguirá explicar fenómeno tão inusitado. E, na passada, solucionaremos outros fascinantes mistérios do universo, até hoje esquivos pra caraças, não menos inusitados do que este. Estaremos nós à beira de tratar por tu as ondas gravitacionais, o bosão de Higgs, quiçá a ainda mais complexa questão de como as colchas e reposteiros do Palácio de Belém se transformaram em vestidos de Maria Cavaco Silva? Haja fé, haja esperança, nem tudo está perdido, oremos!

  17. Marcelo é o nosso consagrado campeão da hipocrisia e do cinismo e grande inventor de factos politicos. Mais uma vez não desiludiu os ses fãs. A mim, nunca me enganou .

  18. Além de kitsh como alguém que muito sabe já disse, o homem é direitola e vai começar a fazer o trabalhinho que lhe compete.
    Lua de mel terminou!!!
    O Dr. Costa vai precisar dos amigos que pôs de lado.
    A Galiza a ferro e fogo não deu origem a piroseiras de D. Filipe VI que sabe ser um verdadeiro Chefe de Estado.
    O marcelo é kitsh e direitolas.

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