Um par de jarras à sombra

Pedro MexiaQuando Paulo Rangel inventou essa expressão ["asfixia democrática"] havia alguns casos, nomeadamente respeitantes à liberdade de imprensa, que eu acho que faziam algum sentido.

[…]

Pedro Mexia Acho que quando ela apareceu, cunhada por Paulo Rangel, fazia algum sentido...

João Miguel TavaresTira lá o algum!

Pedro Mexia... fazia sentido, sim!...

Governo Sombra

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Em 2007 – 2 0 0 7 – Paulo Rangel, num discurso na Assembleia da República onde se celebrava o 25 de Abril – 2 5 d e A b r i l – acusou o Governo e a sua Maioria de serem os causadores de um estado de “claustrofobia democrática”. Esta expressão viria a ter um fulgurante destino, tendo sido usada com toda a força na campanha da direita em 2009, então transformada em “asfixia democrática”, e ainda em 2011, 2015 e 2017. Provavelmente, e enquanto PSD e CDS mantiverem lideranças decadentes, a expressão continuará a ser usada como tropo folclórico sempre que esta direita estiver na oposição.

O sucesso da fórmula deve muito, se não for tudo, ao nó cego conceptual mergulhado numa calda de irracionalidade onde medra. Claustrofobia? Claustroquê? E democrática? Portanto, legítima? Mas, ‘pera aí, claustrofobia? É mesmo essa a palavra que querem usar? E asfixia? Asfixia porque a direita em 2007, em 2008, em 2009, em 2010, em 2011, em 2012, em 2013, em 2014, em 2015, em 2016 e nestes dois primeiros meses de 2017 dispõe de um império ao seu serviço na comunicação social, não havendo memória de qualquer dos seus direitos cívicos e políticos ter sido diminuído, sequer ameaçado? A mera sugestão de que o país da Impresa, da Cofina, da TVI do casal Moniz, do Público do Zé Manel, do DN do Marcelino, da TSF do Baldaia, da Renancença, do Sol e da RTP da Judite de Sousa e do Rodrigues dos Santos acolheria passivo e débil a pressão de um Governo socialista para beliscar as liberdades de imprensa e de expressão é hilariante ou demente ou ambas. No entanto, a direita portuguesa enfiou-se de cabeça nessa estratégia para as eleições de 2009, com os resultados conhecidos.

Na última edição do Governo Sombra, logo ao início, há um diálogo em que o Pedro Mexia reconhecia que o programa não passava de um exercício de chicana, ideia que provocou o protesto do João Miguel Tavares. O clima do trecho era de tranquila bonomia, mas deixava ver características importantes dos protagonistas. O Pedro intelectualmente honesto, lúcido, e o João fanático, pacóvio. Mais à frente, temos o paleio que cito acima. O Mexia está a justificar o uso político de uma imbecilidade sem revelar que casos são esses que lhe dão sentido. O Tavares comporta-se como cão de fila, mordendo-lhe as canelas para que ele seja tão sectário e bronco como a sua augusta pessoa.

Do JMT nada há a esperar. É apenas alguém que tem conseguido encher o bolso neste meio da indústria da calúnia, repetindo os clichés do populismo do tempo. Mas quanto ao PM há mais para contar. Ele igualmente se alimenta da indústria da calúnia, só que pretende passar por intelectual. Isto é, acerca do Mexia podemos ter alguma confiança de que lê livros, coisa que o seu colega do lado esquerdo não oferece. Isso leva-o para um currículo que ostenta os tais livros da sua autoria, artigos do foro literário às carradas, a Cinemateca, isto e aquilo, e agora a função de consultor do Presidente da República. É um fulano influente, importante, pelo menos muito mais importante e influente do que a minha vizinha do 4º esquerdo.

Eis a cena: aposto os 10 euros que tenho no bolso em como este senhor não seria capaz de apontar sequer um caso para justificar a retórica primária da claustrofobia/asfixia que, em 2017, continua a usar para difamar adversários políticos. Qual a importância disso? A que cada um quiser dar. Com este apontamento: quão mais cultos formos menos tolerantes seremos com a hipocrisia sectária das vedetas.

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16 comentários a “Um par de jarras à sombra”

  1. Muito bem dito.
    Muito bem pensado.
    Cortante e elegante.
    As criaturas não merecem.
    Há um que se baba e ri alarve, há outro pudim mental e mais um outro que anda às voltas para acertar no humor que há muito vendeu ao maldizer pago.

  2. …como se os comunas e chuchas equerdalhinhas tivessem um pingo de elegância, boas maneiras. Vê-se quando arregaçam as manguinhas para não fazer nada, e marcham aziados por causa da proximidade dos pacóvios que votam neles.

  3. Paulo Rangélio, a matrafona demoncrata La La Land qwertina, um asno badameco ao serviço das Junk/Fake/Food news das “5ªas feiras” que melhor serve de fio dental ao guarda roupa da bafienta Casa das Bruxas à Lapa que se encontra à beira do trespasse democrático liquidatário.
    R.I.P. Matrafonus Rangélicus

  4. «Isto é, acerca do Mexia podemos ter alguma confiança de que lê livros, coisa que o seu colega do lado esquerdo não oferece. Isso leva-o para um currículo que ostenta os tais livros da sua autoria, artigos do foro literário às carradas, a Cinemateca, isto e aquilo, e agora a função de consultor do Presidente da República. É um fulano influente, importante, pelo menos muito mais importante e influente do que a minha vizinha do 4º esquerdo.», grande elogio Valupi (um fã qualquer do Governo Sombra não diria melhor, ou melhor um fã confesso do Pedro Mexia não diria melhor, eu por mim apenas daria uma bicada na minha vizinha gorda do 2.º direito).

    Nota, e agora? Agora tenho de ler o post todo para lhe apanhar o sentido, pois por estou a seguir todos os passos da tua técnica literária em que se consegue observar uma delicadeza apenas ao alcance de um bom cirurgião que consegue distinguir entre as tripas do paciente qual é verdadeiramente a causa da sua doença. Sabe-se que há doenças e pronomes do demónio, aprendam.

  5. Está boa a tua prosa, Valupi, mas, sem desmerecimento para o anfitrião, o que na conversa supra me encheu as medidas foi este naco do Primaveraverão: “e mais um outro que anda às voltas para acertar no humor que há muito vendeu ao maldizer pago”. Fórmula magistral, caríssimo poliestações, para descrever a pobre galinha tonta que factura chulando a aura engraçadenta que lhe sobrou do passado. A Matemática, ciência exacta, não conseguiria melhor.

    Não tenho qualquer dúvida de que o pobre mercenário, que de estúpido não tem nada, se apercebe bem da caução “pluralista” que a sua presença confere à tertúlia direitola, a somar à caução intelectualosa, mas não menos direitola, do “pudim mental”. Porque a estrela da companhia, caros paroquianos, é sem dúvida “o que se baba e ri alarve”. É sempre desta caricatura de jagunço de terceira a mensagem, o recado principal, e faria pena, se não provocasse vómitos, a bonomia com que o pobre idiota útil vendido ao maldizer pago lhe tolera o rosnar e os ganidos de cada vez que a sua pseudo-esquerdilhice castrada deixa antever a assustadora mas fugaz sombra de um espermatozóide solitário.

  6. Quando a expressão foi utilizada pela primeira vez havia uma acção judicial movida pelo 1° ministro contra um editorialista, mediocre, mas ainda assim legitimo titular do direito de expressão. Portanto quando nasceu, a expressão, exagerada embora, correspondia a uma preocupação legitima e, tanto quanto me lembro, a acção judicial do 1° ministro gorou-se. O facto de a expressão ter sobrevivido até hoje apenas mostra que a acção era disparatada, não so juridicamente mas também politicamente.

    Que tristes palhaços como o J M Tavares tenham ficado a dever a sua notoriedade a esta lamentavel anedota é triste e diz muito acerca do nosso pais. Mas isto deve-se acima de tudo a pessoas incapazes de ser coerentes e consequentes com os principios de que se reclamam, que vão atras de qualquer idiotice, mesmo quando lhes caberia dizer aos seus amigos e aliados que estão a disparatar.

    Boas

  7. o dr. valerico melhor andaria se lesse tantos livros como o mexia e não passasse a vida a chafurdar no lamaçal exibindo e trazendo aqui ao blog os maiores cagalhões que por lá encontra. este blog e o seu maior protagonista são só o reverso de uma deprimente medalha. es um merdas valerico.

  8. Joaquim Camacho e o efeito das palavras e suas camadas quando percebidas com inteligência e elevado humor.
    Uma honra e uma superior risada.

  9. primaveraverão
    1 DE MARÇO DE 2017 ÀS 11:05
    Joaquim Camacho e o efeito das palavras e suas camadas quando percebidas com inteligência e elevado humor.
    Uma honra e uma superior risada, …?!

    primaveraverão e Camacho, larguem as pedras (que é daí que vem a vossa “superior risada”, decerto).

  10. joão viegas, há dois problemas no que dizes. O primeiro consiste neste facto: Sócrates processou JMT em 2009, por causa de um texto de 2009. Vou deixar que tentes sozinho perceber o teor do problema, e leva o tempo que quiseres. Apenas me interessa que chegues lá sozinho, sem cábulas. O segundo é relativo ao Estado de direito. Segundo o que escreves, existir um cidadão que se sente difamado e caluniado ao ponto de recorrer à Justiça para defender o seu nome corresponde a uma qualquer forma de ataque à liberdade de expressão. Nesta matéria, obviamente, não vais conseguir chegar lá sozinho. Pelo que te deixo o conselho: inscreve-te num curso de Direito e pede ajuda aos professores, aos colegas e até aos funcionários da limpeza no caso de não encontrares mais alguém disponível para te explicar o problema.

  11. 1/ Gap 2007-2009, OK, mas como tu proprio dizes no post, so a partir de 2009 é que a expressão ganhou relevância e se não tem sido a questão do processo de 2009, provavelmente hoje ninguém recordaria a boca do deputado do PSD (como é que ele se chama ?). Seja como for, neste ponto tens razão.

    2/ Não era um cidadão qualquer mas o 1° ministro, e como tal tinha a obrigação de saber que enquanto responsavel politico estava particularmente exposto e sujeito a ser criticado na imprensa, e que os limites da liberdade de expressão não se podiam entender no seu caso como idênticos aos que se impõem habitualmente. Isto faz toda a diferença, como é obvio.

    Boas

  12. ehehehehe “superior risada”…magistral pacovice, um pouco como o “impichemente”…deve ser da pronúncia das “donas ” da “RT”. Ui, se o Lavelle tomasse atenção a Portugal…era a risada do ano…

  13. joão viegas, “faz toda a diferença, como é óbvio”, pois faz seu palerma. a liberdade de expressão e da crítica e de opinião diversa, não se confunde com a liberdade da calúnia, da maledicência e da imputação torpe de factos falsos.

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