Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.




Este filme publicitário do medicamento Ilvico N tem passado na RTP Memória (pelo menos), e esteve disponível durante uns dias no YouTube, algures no início de Dezembro. Começa por mostrar um homem de cama, ao telefone. Este informa um colega de que vai ficar em casa por estar doente. O colega diz-lhe que, nesse caso, tratará ele das entrevistas, mostrando-se muito satisfeito com a situação. De seguida a câmara foca as coxas nuas de uma jovem mulher (na imagem). Essa mulher, ao levantar-se, exibe úbere regaço em generoso decote. O filme termina com a mulher avançando dengosa para o entrevistador, estando duas outras candidatas à espera.

Assim por alto, umas 20 pessoas terão tido influência no anúncio supra, entre pessoal do marketing, da publicidade e da produção vídeo. De acordo com uma anedota recorrente no meio publicitário, as campanhas acabam por ser aprovadas pelas esposas dos directores de marketing. Eles chegam a casa, jantam, vêem o Malato e depois mostram as propostas da agência às madames. Os directores de marketing – segundo a sabedoria forjada pelos publicitários nos anos 60, 70 e 80 (quando ainda não havia mulheres em cargos de direcção nas empresas em Portugal) – não se preocupam muito com os consumidores e a inteligência das agências, querem é ter um reclame que não os deixe ficar mal perante a esposa, filhos e amigos. Não estão para levar raspanetes ao deitar durante o período da campanha. No fundo, eles pensam (mal, muito mal) que qualquer ideia acaba por ter o mesmo efeito desde que esteja no ar o tempo suficiente (no que têm razão, mas não a razão toda). E também sabem que ainda não se inventou a máquina que consiga medir a eficácia das ideias de comunicação antes de chegarem aos consumidores (é aqui que entra o valor da agência), pelo que vale tudo (é aqui que ele é desprezado). Ora, se tal ausência de certezas acaba invariavelmente por ser colmatada pelo gosto de alguém, porque não o da esposa?


Mas nesta maravilha antropológica não deve ter sido a esposa a decidir. Talvez o director de marketing esteja solteiro, ou talvez o cargo esteja ocupado por uma mulher que tenta pensar como um homem, armadilha laboral que precisa de mais tempo para desaparecer. E assim saiu à rua, em 2008 (!!), um anúncio que faz a apologia da discriminação de género, da exploração do corpo e do assédio sexual no local de trabalho – e isto para vender comprimidos a indivíduos e famílias constipadas. É de génio.

Também podemos ver na história a insidiosa mensagem de que os trabalhadores devem ir trabalhar mesmo quando estão adoentados, pois arriscam-se a perder oportunidades de coagir sexualmente as futuras colegas ou delas recolher os préstimos abundantes e fáceis. Será uma manipulação patronal inspirada em Reich, misturando a problemática do absentismo com a dos orgasmos. O trabalhador que escolhe ficar em casa é obrigado a assumir uma dupla impotência: nem serve para trabalhar nem para cobrir.

No entanto, a interpretação que melhor dá conta da origem e finalidade deste insólito anúncio remete para Sócrates. Para mim não há qualquer dúvida: Sócrates obrigou a Merck a ser cúmplice da demagogia do Governo, produzindo uma peça publicitária que, a coberto da desculpa de vender remédios, mostra uma cena que sugere haver empresas em Portugal a contratar trabalhadores. Essa imagem é verdadeiramente obscena, chocante, e é preciso recuar a Pombal e Pina Manique para encontrar perfídia semelhante. Toda a gente sabe que em Portugal estamos no fim, é só uma questão de tempo até chegar alguém para apagar as luzes do aeroporto e fechar as fronteiras a cadeado. Só mesmo o tenebroso, maléfico e horrendo Sócrates para ainda vir encher de ilvicos os moribundos.


  1. 1 z

    que engraçado Valupi, o filme foi removido por violação dos termos de uso, diz lá

  2. 2 Manolo Heredia

    Já que estamos em maré de teoria da conspiração, queiram aceitar a minha concordância com a mesma. Tudo começou com o famigerado encontro entre Durão e Buch nas Lajes. O primeiro aceitou o lugar de PCEuropeia na condição, imposta pelo segundo, de delegar a chefia do governo a alguém próximo da Administração Americana da altura. Alguém que aceitasse comprar umas sucatas de guerra nos States e outras negociatas afins. Santana entrou então de rompante mesmo à laia de quem tem as costas muito quentes, porém não se aguentou no balanço e teve que ser substituído por outro do mesmo calibre, à portuguesa! Sócrates!
    A globalização veio mesmo para ficar, é o tio Sam que manda e é de esperar que a nova Adm EUA reponha a família Soares no poder. É que o PSD já nem tem militantes que saibam elaborar um OE. Ou melhor, têm-nos desde que paguem!

  3. 3 z

    bem Heredia, eu concordo que a cimeira das lajes só pode ter acontecido com contrapartidas políticas, aí sim não há peuqenos-almoços grátis. O resto do filme bate certo. Mas a imparidade euro-dólar é que está a provocar a escalada no MO,

    a sombra do abismo

    mas agora vou xonar

  4. 4 z

    meu Deus a ver a SIC notícias e o JMF parece uma criança entaramelada, mas ficou declarado pelo PR o reparo ao funcionamento normal das instituições, a ameaça nuklear em forma implícita,

    bem te falo eu dos sinais Valupi, sinais de fogo,

  5. 5 Milu

    Estes anúncios obedecem a um género que é reconhecido como eficaz e sê-lo-à, ainda, por muitos e longos anos, melhor ainda, até ao fim da espécie humana! Uma historieta qualquer que meta gajas desnudas ou quase é uma receita infalível! No referido anúncio foi esquecido um pormenor assaz importante! A quem se destina? Presume-se que, apenas ao consumidor de sexo masculino! Sim! É um fulano que está doente, a precisar de se curar rapidamente, para usufruir daquele emprego gostoso! Portanto, assim se depreende que, as milagrosas e benfazejas pílulas para a tosse, estão reservadas, unicamente, para os achaques masculinos! Mal concebido!
    Anúncios assim são insultos! Para todos! Mais ainda, para quem os engendra! Também não gosto de, na hora das refeições, assistir a anúncios que publicitam desodorizantes para a sanita! Está uma pessoa a comer em paz e, deste modo é impelida a lembrar-se dos incómodos odores “sanitais”!

  6. 6 Manolo Heredia

    A Faixa de Gaza é um pesadelo! é uma prisão com mais de 1 milhão de pessoas a viver em meia-duzia de Kms2. Todo o mundo devia ter vergonha do que lá se passa!. A quantidade de miúdos que se vê na televisão! qual será a taxa de fertilidade por aqueles lados! mais uma vez o problema da demografia. Depois da 2ª guerra mundial o nº de paletinianos era menos de 1/3 dos actuais! O Ocidente manda para lá comida e eles continuam calmamente a fazer meninos!

  7. 7 M

    e eles continuam calmamente a fazer meninos!

    Os irlandeses do Ulster usavam isso como arma política.

    ‘Ah!, é uma questão de dar tempo ao tempo, em breve seremos mais do que os loialistas e então se verá!’

    As coisas mudaram entretanto, não sei se a demografia ainda é vista como um trunfo indispensável pois quem continua First Minister é um unionista, o Sinn Féin apenas em segundo.

    Até quando?

  8. 8 Blondewithaphd

    E no meio disto tudo, o Ilvico cura a gripe ou não?

  9. 9 fado alexandrino

    Num anúncio o que é preciso é que as pessoas se lembrem (e falem) dele.
    Assim sendo este é exemplar.
    O exemplar do anúncio também é exemplar.

  10. 10 Valupi

    Z, pois. É pena não o podermos dissecar por aqui.
    __

    Manolo Heredia, a família Soares no poder? Ora aí está uma muito ousada, e divertida, teoria da conspiração.
    __

    Milu, bem apontado: o anúncio parece ignorar por completo a audiência feminina. Porém, desconfio que os envolvidos na peça consideram que as mulheres se identificam positivamente com a situação…
    __

    Blondwithaphd, tens aqui uma opinião especializada:

    http://diariodosul.com.pt/index.php/noticias/425
    __

    fado alexandrino, não só. Se o anúncio irritar os consumidores, não há exemplares exemplares que salvem o produto.

  1. 1 O país gripado | Splog

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