Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



O Público brinda-nos com uma extensão vocabular que primeiro se entranha, e depois se estranha: gangue. Porquê? Que aconteceu a quadrilha, a bando, a súcia, a corja, a grupo, a malta? Para onde foram os gatunos, os patifes, os malandros, os biltres e os vadios de Portugal? Malta que assaltava carrinhas de valores vai ser julgada em Gaia — não será mil vezes preferível à opção espúria do original? Este, que de original tem o mau gosto, veio da LUSA.

E assim temos como um gangue de jornalistas se juntou para roubar a Língua. Com esta diferença face aos malandros de Gaia: sabem-se impunes.


  1. 1 susana

    malta, nao. eu voto em “quadrilha”. alem da danc,a, dos cavalos e dos gatunos, lembra-me sempre os irmaos metralha.

  2. 2 Ana Cristina Leonardo

    Na leva de despedimentos que varreu há uns meses o Público, os revisores também foram com a água do banho

  3. 3 Vasco Figueira

    É da gangrena nas redacções. :-)

  4. 4 fv

    Valupi,

    Deixaste a monte os escroques. Ó da guarda!

  5. 5 João Pedro da Costa

    Está visto que tá na hora de voltar à minha novelita do estudo da linguagem humana verbal. :)

  6. 6 Pecola

    Isso soa-me a tradução / redacção muito mal feitinha… O jornalismo, que me perdoe quem se sentir atingido pelo meu generalismo assumido, anda mesmo pelas ruas da amargura. No outro dia queixava-me eu a um fulano ligado a um jornal sobre a falta de objectividade em determinadas notícias: “isso devia ter sido revisto por alguém da área, porque quem escreveu não faz a menor ideia do que está a falar”. Resposta: “sabes… agora já vem tudo feito das agências de notícias”… Pois, e assim continuam os malentendidos no mundo…

  7. 7 Rodrigo

    As pessoas em Portugal têm demasiados problemas em assimilar na escrita palavras de origem estrangeira que já assimilaram na linguagem oral há muito tempo. Não vejo qualquer problema na palavra “gangue”. Toda a gente diz, por quê não escrever? A língua é uma coisa viva.

  8. 8 João Pedro da Costa

    Muito bem, Rodrigo. Essa atitude conservadora apenas tem um resultado: a criação de uma distopia, isto é, o cavar de um fosso entre o registo oral e escrito de uma língua. Que é necessário, é óbvio, mas que também costuma ser o primeiro sintoma de uma língua escrita que ignora por completo os seus falantes.

  9. 9 Valupi

    Rodrigo, já assimilaste a palavra “gang” no registo oral? Mas em que contextos? Estou curioso. Se tiveres um minutinho, partilha aqui com o gangue.
    __

    Distopia? Oh, primo, eutopia. A opção pelo vernáculo quando o barbarismo é inútil ou erróneo.
    __

    A palavra “gangue” existe, é bom português; e recomenda-se… para traduzir “gang”. Simples e respeitador da vitalidade da Língua.

  10. 10 susana

    a distopia, aqui, percebo como termo excessivo: nao ha qualquer tentativa de limitar liberdades. ha situacoes dispares. tomemos “skate” como exemplo. poderiamos dizer “patinete”. a palavra existe. mas neste caso a importacao faz sentido, pois trata-se de uma actividade desportiva importada, cuja divulgacao em ingles chegou ca antes ainda da propria pratica. e quem a usa sabe que esta a usar um termo ingles. ninguem ousaria escrever “sequeite”, para traduzir a dita, quanto mais nao fosse por receio do ridiculo. agora “gang” e’ bando, ou grupo. e, aqui, a traducao limita, inclusive, a palavra, pois a circunscreve ao sentido negativo. em ingles posso dizer “I’m going out with the gang”, querendo dizer os amigos, o grupo.
    ja’ eutopia, percebo como meta-utopia. assim, falta-lhe um italico: se e’ para haver perfeicao, entao que seja perfeita.
    :p

  11. 11 João Pedro da Costa

    lol

  12. 12 Rodrigo

    Entendo que a palavra gangue, em português, encerra um significado que acrescenta mais qualquer coisa às palavras bando ou grupo, que também podem servir para colectivos de pardais ou de pessoas de bem. Gangue traz uma carga negativa, no sentido violento do termo, que as outras palavras não têm. Por isso, o seu uso faz sentido.

  13. 13 Rodrigo

    “Sequeite” também me parece idiota, já que é uma palavra mal formada à partida - trata-se apenas da transcrição com sotaque lisboeta do termo em inglês mal pronunciado. Nada contra o uso de ’skate’, no original inglês (desde que não nos estejamos a referir ao ‘patim’, que também é skate, em inglês). Mas e que tal permitir que surja a palavra “esqueite”, assim como aconteceu um dia com “esqui” (de “ski”). Patinete, no meu entender é outra coisa.

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