Tenham juizinho…

heic0916ab

O Hubble tem uma nova lente, e em Agosto obteve esta imagem. O que nos surge à frente dos olhos é um salto temporal até às origens, levando-nos 13 mil milhões de anos para trás (mais milhão, menos milhão) nos pontos vermelhos. Nunca se tinha viajado tanto no tempo, nunca se tinha visto o universo tão moço. Cada um destes pontos de luz é uma galáxia, cada galáxia tem em média 100 a 200 mil milhões de estrelas, e cada vez se descobrem mais planetas, sendo estatisticamente aceitável a sua ubiquidade estelar.

Para se apreender a enormidade do que nos cerca, dizer que se fotografou apenas um pintelho do céu visível, e que a mensagem é: se desaparecermos do mapa, ninguém vai reparar.

63 thoughts on “Tenham juizinho…”

  1. Vertiginoso, primo. Quanto ao facto de ninguém vir a reparar no nosso desaparecimento, calma: sabes lá quantos hubbles (porventura infinitamente mais potentes) não estarão neste preciso momento a olhar para nós. Apesar dessa informação poder demorar milhões de anos a chegar lá, não deixa de ser um reconforto.

    Não achas?

  2. Sonha, João Pedro, que esta imagem dá para tudo. Menos para dizer que somos uma trampa. Sinto vertigens só de pensar que somos a consciência desde bocadinho visivel de Universo…Pelo menos até ver se aparece mais alguém a dizer o mesmo.
    Parece que combinaram, para se completarem neste momento lindo do blog: o CC obriga-nos a olhar para dentro de nós e o Valupi confronta-nos com o Universo. Hoje, vou dormir com alma lavada.

  3. é tão belo, né? Dantes ficava esmagado pela insignificância agora é nela que melhor respiro, tudo o resto cheira a gravidade, junto-me à beleza dos loucos,

  4. No espaço a três dimensões qualquer coisa sobre infinito é zero. A quatro dimensões só conseguimos imaginar Deus, aquele ser que, por ser intemporal vive também no eixo dos Tempos, para traz e para a frente e vice versa, e que por isso é infinitamente poderoso, infinitamente bom e também infinitamente mau segundo o Velho Testamento (ou segundo o Alcorão).
    E viver na quinta dimensão? Nem dá para imaginar! É coisa para o Deus dos Deuses!

  5. Não deveria toda a nossa existência ser questionada a partir do ponto de vista, de qual será a nossa posição,importância no universo e mesmo na terra.
    Agimos de maneira que parece que todo o universo existe sem nenhuma outra finalidade,
    além daquela que só o homem a possa ter. Será que temos alguma importância e significação cósmica. Será que a nossa inteligência é assim tão importante,que nos torne únicos, ou será que ela é tão limitada que nem cheguemos a entender a a sua limitação?
    Será que o maravilhoso processo da evolução, que fez com que a natureza ao transcender-se criasse da matéria vida, a qual acabou por nos conduzir ao milagre da consciência, que levou o homem a auto compreender-se como pessoa e abrir-se à transcendência de si mesmo, não tenha percebido que o aparente desperdício do universo, não seja senão a sua absurda criação e existência.
    O homem não passa dum pequeno subsistema. O seu pensamento é na realidade tão limitado que só lhe permite conhecer algo do que aí se passa. tudo o que lhe está para além lhe está interditado pela sua limitação.
    Citando Jacques Monod:«O ser humano(…) tem de acordar do seu sonho milenar e reconhecer o seu abandono total, a sua estranheza radical. Ele só sabe que tem o seu lugar como um cigano à margem do universo, que é surdo para a sua música, indiferente às suas esperanças, aos seus sofrimentos e aos seus crimes».
    Com dizia Álvaro de Campos« se os deuses têm a verdade, guardem-na»

  6. Já viram alguma coisa assim? O Hubble foi o maior suçesso da pesquisa do espaço. Só quem é completamente insensivel é que pode resistir ás magnificas imagens que de lá veem.Quem é que ainda acredita que estamos sós no universo ?

  7. Bem, eu já falei com um E.T. e no Ovni dele visitei muitos planetas, só que ele pediu para eu não contar isto a ninguém na Terra. Eu agora, por ter desvendado tamanho segredo, arrisco-me a ser assassinada. Eles têm radares como nós não temos: estou feita ao bife.

  8. Isto faz-me lembrar uma pasagem de Henry David Thoreau (Walden)em que ele diz: “Podemos avaliar as nossas vidas através de mil provas simples,como, por exemplo, reflectindo sobre a ideia que o mesmo sol que amadurece os meus feijões ilumina de uma só vez um sistema de mundos como o nosso. Se me tivesse lembrado deste facto, teria evitado alguns erros. Não foi a esta luz que os cultivei”.

  9. não me digas que tens assim um apelido tão engraçado Claudia! Apelido no Brasil é alcunha. Aquela pomba está magnífica. No feriado fui ver a Paula Rego, tem lá uma parte que parece bd, Alice in Wonderland – gostei, mas não encandeei. Gosto mesmo é do Van Gogh e dos impressionistas no geral e ainda doutros,

    agora vou passar ao quase vazio, o melhor sítio que conheço, o sopro ligeiro

  10. Primo, se há Hubbles infinitamente mais potentes apontados para nós, isso não altera a dimensão da coisa. Somos uma formiga num formigueiro, entre incontáveis formigueiros.

    Todavia, não retiro da evidência um lamento, é ao contrário: gloriosa a contemplação do real.

  11. Sim, claro. Mas a solidão não advém do facto de sermos formigas. Se desaparecermos, sabe-se lá que consequências isso trará para esse universo infindo? E, de facto, nada nos garante que algum não dará por isso.

    Há duas formas de olhar o céu. Uma é reparar no espaço “infinito” que nos separa das estrelas. Outra é perceber que entre cada espaço vazio cabe outro céu cheio de estrelas (e assim sucessivamente). Eu olho para ele dessa segunda maneira.

  12. Se olhas para ele dessa maneira, nesse “continuum”, mais improvável será a nossa importância. Que tem o infinito a recolher do finito?

    A formiga não está só. Vive no formigueiro, e deslumbra-se com a descoberta de tantos outros formigueiros. Em suma, quem filosofa, quem se lança na voragem do pensamento, nunca está só. Daí a expressão clássica: “o consolo da filosofia”.

  13. A filosofia tem a particularidade de estimular o nosso pensamento e de colocar activos os processos do conhecimento. Pode não “consolar”. Nalguns casos até desconsola. Mas coloca-nos (a todos) nos trilhos do real.

    Não estou certa que seja importante termos “importância” no universo. Fundamental é mantermos a nossa função de elementos dum determinado universo. Fundamental é percebermos que à custa de querermos ter importância no universo, estamos a destruir o nosso mundo.

  14. NESTE MOMENTO NADA MAIS INTERESSA QUE NÃO SEJAM AS ESCUTAS .

    O XEQUE MATE A SOCRATES É OBVIO ..

    QUEREMOS AS ESCUTAS AGORA E QUEREMOS SOCRATES NA RUA ! AGORA !

  15. Estava aqui a pensar para com os meus botões que a temática do céu estrelado é recorrente em muitas vertentes. É algo que nos faz sonhar e pensar no infinito, no mistério. Estava a recordar-me de um filme de David Lynch que começa e acaba com um céu estrelado e o vídeo recente dos Black Eyed Peas, Meet me halfway. E deve haver certamente mais referências, só que as desconheço, ou não me recordo delas.

  16. Val e Sinhã

    A filosofia, enquanto desconstrução do real, provoca agitação e agustia aos que trabalham para manter o que existe. Foi este o sentido que quis dar ao “desconsolo”

    Adimito que da forma como está escrito não conduza a esta interpretação.

  17. Ah, isso sim, Carmen. A filosofia faz-nos viajar e coloca-nos desafios radicais. Por aí, é um obstáculo – mas o qual está ao serviço do nosso crescimento, tão grande consolo.

  18. filosofar: examinação da existência; saber pensar; prazer. em suma: crescimento intelectual – que bom e que desconsolo

    (não fosse, este, o mais fácil de adquirir e manter).

  19. Sinhã,

    Não estou certa que filosofar seja isso.

    Assim como também não me parece que o crescimento intelectual seja fácil de adquir

  20. quem passa pelos ainda tenros porquês e continua, vida fora, inquieto – inquieto permanece, pensador, pelo prazer do exame da sua – e do mundo – existência

    (esta sabedoria – da inquietação dos inquietos – fácil (por fazer parte da pele inquieta) é um, apenas um, dos patamares do crescimento que, sozinho, não chega. a irmã do crescimento intelectual é feminina: chama-se emoção.

  21. Carmen Maria

    Não me parece nada que a filosofia seja a «desconstrução do real». A filosofia não é mais que o “olhar” da nossa inteligência, da nossa razão sobre o «real» em que estamos mergulhados. E, portanto, nunca “olhamos” de fora, embora pareça. Também é por isso que, tal como muito bem diz o Val, não existe a dualidade razão/emoção. O nosso pensamento brota das próprias raízes do universo que somos. Eu sei que parece absurdo dizer que esta estrutura molecular altamente organizada que somos cada um de nós produz a nossa mente, o nosso espírito. Por aqui se vê como sabemos tão pouco, ainda, sobre o que é «ser corpo». Quando se aprofunda o assunto, acabamos por descobrir que estamos tão longe de entender o que é «ser corpo» como entender esse Universo de biliões de galáxias. Alguém disse que cada um de nós é um micro-cosmos. Apesar de tudo, cosmos.
    Quanto a mim não restam dúvidas que filosofar consola tanto e deslumbra tanto como olhar o pôr-do-sol em tarde morna da primavera. Ou o tapete de mil cores, das folhas caídas deste Outono.

  22. Ainda para a Carmen Maria

    Se tentarmos «desconstruir» o real, acabaremos por ficar com uma mão-cheia de conceitos abstractos e vazios. Ao contrário, se nos dermos conta da sua «presença» e o pensarmos na sua virgindade tal como se nos apresenta, saboreamo-lo com um pensamento emocionado. Como quem estende a mão e colhe uma maçã madura.
    O que é intrigante, mas não inquietante , é termos percebido que nós é que estamos em «construção» há um bom par de anos-luz…

  23. Os ideólogos da republica portuguesa, quando destronaram a monarquia, “desconstruiram uma realidade” e deram inicio à construção de outra.

    Desconstruir implica também, obviamente, uma reconstrução. O que acontece em muitos casos é que nessa reconstrução participam actores que não conseguem depurar totalmente o passado, logo, exercendo as influências inevitáveis desse mesmo passado na reconstrução que se está tentando efectuar.

  24. Eu tenho a certeza ( sei que estou a ser ousada) que a filosofia nos faz desejar, Val, mas não creio que nos faça viajar, como disseste anteriormente.

  25. Viajar nesse sentido aqui referido pelo Mário, a viagem da descoberta do real, do conhecimento, mas também a das experiências interiores, onde viajamos ao encontro de nós próprios e do mistério que somos. Essa é uma viagem que ultrapassa os limites do espaço e do tempo, Carmim.

  26. então não veio cá um artolas
    armado em gabarolas
    que disse que sou palhaça
    tudo menos caso sério
    que venho pra te ridicularizar
    quem é não sei
    é mistério
    sei que o mandei cagar

    :-)

  27. Carmim
    falas de uma desconstrução e de uma reconstrução muito restritas e, nesse aspecto, o que dizes está bem dito. Quando, porém , nos referirmos a desconstruir-construir-reconstruir a realidade, em termos estritamente filosóficos só podemos mesmo falar em viajar no comboio do conhecimento onde a filosofia é o ilustre e consciente passageiro, encantado com um panorama a perder de vista, avisando constantemente que a verdade adquirida pouco mais é que uma afirmação constante da ignorancia do que está para lá do horzonte. Tão imenso e profundo é o real.
    Pensa nesta simples analogia: “desconstrói” um copo de água e ficarás com uma porção de óxigénio para duas de hidrogénio. Apesar de não teres criado nada de novo (…), fizeste uma linda viagem à boleia do conhecimento. Mas em si mesmos, aqueles dois gases, agora separados, nunca te dariam a mínima ideia de um oceano de ondas e espuma, das nuvens e da chuva, das montanhas de neve, dos rios e lagos. Nem sentirias jamais o prazer de beber a água cristalina de uma fonte da montanha.
    Com isto quero apenas dizer que já temos, e tivemos desde sempre, ao nosso alcance, a realidade mais preciosa. Como no jardim do Eden da mitologia, basta estender a mão e comer do fruto da arvore do conhec

  28. Bem, talvez possamos entender a filosofia como uma aspirina, que para estar no tom, deve ser B. Ou talvez a possamos entender como um romantismo poético que nos projecta o Espirito para o transcendental. Nunca ignoro, quando se fala de filosofia, estas vertentes culturais que a filosofia congrega e que considero importantes .

    Acontece que a raiz da filosofia está na capacidade que determinados personagens, com mais ou menos “ousadia”, tiveram de influenciar o rumo da historia por via de divulgarem ideias de ruptura, algumas das quais, mais tarde, vieram a tornar-se verdades cientificas insofismáveis, cujos contributos foram decisivos para o progresso das sociedades.

  29. Para mim, a raiz e essencia da filosofia é a capacidade de nos admirarmos perante o real, interrogar-nos sobre o mundo que somos e procurar respostas. E essas respostas tanto podem passar pela invenção da roda e por uma organização sábia da sociedade, como pela elaboração de complicados sistemas de pensamento. E muitos costumam confundir sistemas filosóficos com a própria filosofia, quando, na verdade, uma coisa é a história do pensamento gerado pela procura da sabedoria (filosofia) e outra o encantamento da alma humana perante a realidade sem limites e através da qual o nosso pensamento procura, uma vez e outra e outra, avançar. Apercebeu-se o homem, desde a antiguidade, que a Sabedoria é “propriedade dos deuses” e que nós podemos tão somente caminhar no seu encalço, apaixonados por ela.
    O filósofo terá, naturalmente, alma de poeta. Filósofo foi Pessoa que entendeu, perfeitamente, como fácil foi «cumprir-se o Mar», desbravando-lhe todas as rotas. Dificil mesmo é a tarefa que vamos ter sempre pela frente: «Falta cumprir Portugal». Pois é.As rotas da vida dos portugueses entrelaçam-se com as rotas da Humanidade e do Universo. E com uma realidade bem mais vasta que a imensidão dos mares.

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