Sublime jornalismo

António Guerreiro é um dos mais interessantes opinantes na indústria da opinião. Porque lê, porque pensa, porque pensa no que leu e partilha connosco as descobertas. É disto que se fazem os intelectuais, os tais seres que sobem ao mundo das ideias com a missão de regressarem ao reino das sombras para contarem o que viram. Os agrilhoados à ignorância, às aparências, não gostam dos intelectuais à pala da mania de se armarem em sabichões. E porque os intelectuais incomodam, lançam suspeitas, fazem perguntas parvas e foleiras, querem que os outros à sua volta sejam como eles sem terem o trabalho, e a glória, de se libertarem, subirem, contemplarem a imutável verdade e decidirem largar essa perfeição iluminada pelo Bem para voltarem ao convívio com os brutos. Tudo características que causam muita chatice a quem estava sonolento a olhar para uma parede. Não é fácil ser intelectual.

Em Agosto, tivemos a surpresa de ler um dos mais interessantes textos deste tão interessante intelectual – Os comentários dos leitores. Trata-se de um exercício onde se pretende dizer coisas acerca das “redes sociais” e sua incrustação nas páginas das edições digitais dos órgãos da imprensa. AG advoga que se fechem as caixas de comentários alegando que o jornalismo não resiste ao convívio com as opiniões da populaça. É uma tese que justifica recorrendo ao simplismo e ao reducionismo a mata-cavalos para efeitos de publicação da prosa, isso de haver quem vá para as caixas de comentários fazer “a exibição pública da injúria e da agressão”. Se fosse obrigado a fundamentar recorrendo a argumentos e a dados a legitimidade das suas declarações, esse nexo de causalidade entre os comentários dos leitores e a qualidade do jornalismo nesses órgãos, rapidamente ataria um lenço branco a um pau e rogaria para o deixarem em paz.

A ideia de que as caixas de comentários tinham como função apriorística a promoção de “um verdadeiro debate” é fixe, mas é concomitantemente uma candidata ao Nobel da ingenuidade, se não for o da alucinação. É preciso ter passado ao lado da invenção da World Wide Web (1994) para aterrar em 2017 com esse choradinho. De lá para cá, na academia e fora dela, já muito se escreveu sobre as dinâmicas psicológicas e sociais que se encontram invariavelmente nesses espaços de comunicação. To make de long story ultra-short, os comentadores imitam a jactância, explícita ou implícita mas inevitável, dos autores que comentam. Calhando não terem a literacia e aparato de informação e formação desses fulanos cujos textos supostamente estão a comentar (e nunca têm, nem a bilionésima parte, pois se tivessem não estariam a perder o seu precioso tempo nessas catacumbas), usam o que têm e o que são. E o resultado é esse espectáculo de “injúrias” e “agressões”, do ponto de vista do alvo, ou de “liberdade” e “expressão”, do ponto de vista do autor dos comentários. Mas qual é a finalidade? Será a da humilhação, achincalho, das vedetas na montra por aqueles que rebolam e resfolegam no armazém? Nada de nada disso, pese a antropologia das emoções e as disfunções cognitivas. O que os comentadores pretendem é tão-só conseguirem ter leitores. Exactamente o que os profissionais da opinião, e os jornalistas, pretendem. Andam todos ao mesmo, e é esse o problema que aflige o Guerreiro et alia.

Todavia, se fosse apenas por estas banalidades, o seu texto não seria um dos mais interessantes que já lhe li, sequer interessante. Acontece que deixou no parágrafo final um testemunho estupendamente insólito. Nele dirige-se a alguém que assinou um comentário com o pseudónimo “Liberal”, comentário esse que o deixou indignado. Tudo nesta passagem é extraordinário, a começar pela futilidade do teor do comentário em causa e a acabar na confissão de descontrolo afectivo, passando pela convocação do IPMA para reclamar vitória. A postura mental do famoso articulista foi tão similar à dos comentadores que invectivou nos parágrafos anteriores que o resultado, lógico, foi o de ter a caixa cheia de paixão dialógica: 96 comentários até ao dia e hora em que teclo, o que compara com a média de 3 ou 4 nos seus restantes textos. Que lhe terá corrido mal, ou bem? Sugiro que tenha sido algo como isto. Ao levar para o palco o contributo de um elemento da assistência, AG premiou esse indivíduo que é, simultaneamente, uma entidade substantivamente literária – é uma personagem. Não há forma de saber, apenas recorrendo ao meio onde se comunica, se o tal “Liberal” é mulher ou homem, com 18 ou 81 anos, ateu ou crente em Fátima, hetero ou bi ou homossexual, votante em Cavaco ou na Carmelinda Pereira, genial ou estúpido que nem um calhau, na posse de uma lucidez implacável ou a delirar por causa da medicação. Logo, estar a reagir emocionalmente a algo que essa entidade diz implica reconhecer que se está num mesmo espaço de interacção, e que se aceita o poder dessa personagem para influenciar o drama. Estes processos são aqueles que, inclusive no reino animal, estabelecem toda e qualquer “rede social”. Levar o “Liberal” para um texto do Guerreiro corresponde a consagrar as caixas de comentários como parte legítima e bondosa da produção intelectual de um dos nossos mais interessantes intelectuais. Ironia hilariante.

Os jornais não sabem o que fazer às caixas de comentários por burrice. Poderiam aproveitar essas assembleias – sempre microscópicas, mutáveis, efémeras e anódinas – para fazerem serviço cívico. Para tal, só tinham de começar por lhes dar atenção, premiando os contributos mais valiosos, agradecendo a presença desses pobres de espírito e espalhando um sentimento de pertença a uma comunidade maior e melhor. Fazer teatro, esse sublime jornalismo.

22 thoughts on “Sublime jornalismo”

  1. de facto. o que terá levado AG a elogiar tanto, citando-o, um comentário que lhe foi desagradável? é o que se chama dar letra.

  2. AG não foi exactamente fútil. Há muitos meses, semanas antes desse texto dos comentários, dera a notíca da seca de que agora todos falam e fora insultado pelo referido comentador Liberal.

    AG irritou-se com o leitor por ter dado uma notícia e por o leitor achar que não era notícia nenhuma. E a percepção dos espectadores tem um interesse não fútil.

  3. Miguel, o AG irritou-se porque alguém, que ele não faz ideia de quem seja nem em que estado estava quando escreveu o comentário ou qual era a sua intenção (podia estar apenas a gozar, por exemplo), fez uma afirmação subjectiva, particular ou errónea. Pois.

  4. moi ??? jpferra ?? moi ??? ou o Eric ?? tadinhos de nós , uns pobres de espírito. mas é nosso o reinos dos céus :)
    eu gosto imenso das caixas de comentários do la vanguardia , por exemplo . tem comentadeiros com um sentido de humor espantástico , farto-me de rir. passam a vida no gozo uns com os outros. há notícas com 5000 ( ya , 5000 ) ou mais comentários . funciona tipo chat . e não tem censura prévia , como no Público .

  5. «AG advoga que se fechem as caixas de comentários alegando que o jornalismo não resiste ao convívio com as opiniões da populaça.», …?!

    Valupi, não te li por inteiro mas, do que li na diagonal, acho que andas a apanhar bonés (e por isso não deixei de sentir alguma pena, confesso). Não tenho tempo, mas o ponto que era ali essencial tinha que ver com as croniquetas de algumas das tuas antigas paixonetas, nomeadamente do JMT de letras doiradas, e da forma como os seus comentários eram artificialmente empolados (daí se falar no «já se percebeu que» etc., ou assim). Lembra-te que, no P. online, os comentários dos leitores são moderados por outros leitores e pensa em que, durante um mais ou menos longo período, esse tipo era “o moderador” e um adulador do JMT (e do Alberto Gonçalves, acrescento) e que, pura e simplesmente, censurava ou, se aprovado por outrém, denunciava quase tudo-mas-mesmo-tudo o que lhe dava na telha.

    Do meu arquivo que passei a guardar no sótão porque, felizmente como se percebe, tive necessidade de fazer um copy dos comentários “sob moderação”, tens aqui tu e os desmiolados do Aspirina B, por supuesto, umas pequeninas mas eloquentes peças que nunca viram a luz do dia. Exactamente no artigo que linkas, deal? Enquanto isso se passava, e a vida acontecia lá fora, andavas com o desgraçado José Sócrates enfiado nos cornos.

    _____

    Este comentário foi censurado, e faz parte das dezenas que têm sido impunemente censurados pelos moderadores a seu belo prazer sem que exista qualquer fundamento para isso. Alguém do jornal poderia esclarecer o assunto, e mesmo o António Guerreiro poderia fazer uma avaliação sobre o teor dos comentários censurados no seu próprio artigo, e nem era preciso ir mais longe para se compreender como o seu artigo é inteiramente certeiro. «Liberal, vergonha (e humildade: para além das perseguições e de aparentemente não ter mais nada para fazer o que você escreve, na sua substância, não se aproveita quase nada).» Vi depois que sou referido, responderei talvez se me aprouver mas não quero deixar de dizer que o mencionado moderador-censor o faz de uma forma moralmente indigna aliás.

    XXXXXXXXX: alguém está neste momento a censurar a caixa de comentários do artigo do António Guerreiro.

    Meus senhores, através de meios alternativos os responsáveis pelo jornal já sabem pelo menos por mim o que se passa por aqui (e espero que revelem quem está presumivelmente a censurar a caixa de comentários do artigo do António Guerreiro).

    Adenda, em tempo. Do que se passou no artigo de António Guerreiro, tive possibilidade de informar já hoje os responsáveis. Acrescento apenas que para os leitores a sério (com dois dedos de testa!), a troca de comentários infantis a que se dedicaram hoje de manhã alguns dos moderadores do P. online enquanto iam censurando todos os leitores (eu, por exemplo) cabem perfeitamente no perfil que lhes é traçado e que os desnudou. Pior: o tal Liberal andou umas horas a alinhavar uma das insanidades em que é especialista (que retalhou em múltiplos comentários, depois), postou-a e vigilantemente ficou a olhar orgulhoso para o resultado da parca inteligência que mais uma vez exibiu. Quem assim procede na caixa de comentários de um dos melhores cronistas deveria ser expulso daqui, é o mínimo.

    Nota, de agorinha e de hoje. E assim aconteceu, houve uma limpeza quase geral (e a importância do artigo do António Guerreiro é este, e é muito maior do que tu pensas, do que te entretens a sonhar e do que, está bom de ver, escrevinhaste sobre o assunto).

  6. AG estava certamente preocupado com algo mais premente que o enganou nesse dia que debitou para o “público” uma catalinária contra os comentários e, por consequente contra a Democracia.
    Pois não é esta que promove a existência de um arco de partidos de opiniões muitas vezes contraditórias e opostas segundo visões políticas, sociais ou simplesmente de uma visão de futuro logo ali que nos parecem verdadeiras mentiras ou deslocações de realidade absurdas e aberrantes!
    Não é a Democracia que dá um voto de valor igual a cada cidadão seja ele ignorante, demente, decadente, oportunista, calculista ou vingativo ou em qualquer caso sempre muito longe do conhecimento político, sociológico-filosófico de AG?
    Qual o mal de AG dialogar, ou se quiser não ligar, com alguém ignorante mas que, mesmo assim et pour cause, pode elaborar um pensamento estupidamente fora do canôn mas pertinente!
    Creio, AG estava, nesse dia em estado de dia não.

  7. Valupi, Enganas-te. E a hermenêutica dá para muitos sofismas. Podemos achar 1001 intenções atrás dos textos de um qualquer comentador, mas o que lá escrito é uma e uma coisa. AG exemplifica. Amostra uma figura tipo dos tempos que correm. É todo um tipo potenciado pela chegada dos trumps e que há muito se estabeleceu. O comentador ignorante, cultural, cívica e intelectualmente desqualificado que ainda assim vai para as caixas do comentário dos outros poluir, como antes fazia nos cafés ou nos táxis.

  8. Ó Zé Neves, canôn tem ressonâncias bíblicas pá!
    (conheces o Abraham-não-o-do-rabinho-entre-as-pernas mas o original, o Canaan pai do Canaanites, ou estes gajos foram todos teus contemporâneos?)

    Nota, filantrópica. «Creio, AG estava, nesse dia em estado de dia não», também eu sou um tipo que crê em algo mas que esteja, preferencialmente, bem virgulado.

  9. então e não pode ir, Miguel? e isso é da responsabilidade do AG? e, sendo marioneta dos liberais que possam aparecer, fica irritado e dá-lhe um artigo? ser trol compensa?

  10. «Vi depois que sou referido, responderei talvez se me aprouver mas não quero deixar de dizer que o mencionado moderador-censor o faz de uma forma moralmente indigna aliás.», para quem não percebeu à primeira, nem à segunda?, tratava-se aqui de um comentário que tinha sido censurado pelo tipo. Ele que, depois, me respondia ao estilo de um fdp por algo que mais ninguém conhecia (e outras denúncias de outrem houve, iguais).

    Ou seja, por ali permaneciam a toda a hora como quem estava em casa ou encostados ao balcão da taberna.

  11. Olha Eric não só coloquei mal as virgulas como não é canôn, como escrevi, mas sim cânon.
    E tu enganas-te com a referência a ressonâncias bíblicas pois o termo cânon é um termo puramente grego derivado do modelo de medidas relativas retiradas do corpo humano pelo escultor grego Policleto e que se tornou em toda a Grécia Classica, e até hoje creio, o cânon (modelo) universal para escultores, arquitectos, etc.
    Nos “comentários” escritos de memória e imediata à leitura, sem consulta, interessa sobretudo o conteúdo do parecer ou opinião impressa e não tanto o pormenor da virgula, do acento, do erro ortográfico ou de tecla.
    Penso eu.

  12. Eric, não te preocupes tanto com as vírgulas.
    Preocupa-me mais em tornar inteligível o q transcrever que desisti de tentar perceber qm diz o quê no teu texto de dia 28 de novembro às 18:37.

  13. José Neves, tem calma pá!

    Poderia enviar-te directamente para o Ciberdúvidas, mas há uma regra simples que se aprende nas bancas onde se vende fruta e, nas outras, onde se compra peixe fresco nos mercados e nas praças da província e também nas lojas gourmet, a saber: existindo uma tradução que não é nada extravagante pós-Acordo Ortográfico (o cânone, simples e de resto com uma longa tradição na academia portuguesa seja no domínio do Direito que se ensinava na Universidade de Coimbra ou no das Letras na republicana Universidade de Lisboa e que muito diz a nós portugueses que somos um país de poetas desde as cantigas de amigo ao das de escárnio e maldizer… acabando no analfabetismo de quem se arrasta penosamente pelas TV’s e nos jornais sejam, ou não, os/as amantes do Valupi!), tradução e tal, deve utilizar-se a dita até para não se fazer má-figura perante os tipos como eu, tu e ele.

    Nem apresentar desculpas que não foram pedidas, pois sabe-se que, com uma benzedura de tradição Valupiana de quem vos atura!, e ao contrário do Abraham-do-rabinho-entre-as-pernas que teve medo duma gaija pelos vistos estás desculpado.

  14. Ah, lembrei-me do gourmet por causa das SciencesPo (e lá nos divertíamos com mais umas escutas do Domingos Farinho a explicar ao José Sócrates que, em grego, aparentemente se escreve canon com acento circunflexo por ali ou por acolá).

    Aliás, estou a imaginar:
    – Sim, sim, sem acento que é canon em francês!
    (diz o Farinho)
    – Que caralho do filho da puta do António Costa que é um panhonha do Partido, foda-se pá e mais o António Seguro e a Joana Amaral Dias e o Correio da Manhã e a Felícia Cabrita!, mas isso não são as máquinas de fotocópias?
    – …
    – Está lá, senhor professor? Está aí alguém?

  15. Esse tal Liberal, em conluio com alguém responsável pelo forum do jornal, promoveu a destruição do forum do Jornal Público que chegou a ser o melhor da Península Ibérica.
    O que não foi por acaso, foi um trabalho iniciado com a entrada do David Diniz e que há vários meses não funciona, de forma propositada.

  16. Não pá, sou muita estúpido e tu tens dificuldade com as aspas e com a educação de ligar o texto (que é enorme) com conectores que o tornem imediatamente inteligível. Corrigires os outros com tretas q toda a gente percebeu é uma coisa, mas já não chegas para atentar na xulipa no próprio olho.

  17. Conectores
    Xutos & Pontapés

    A carga pronta metida nos conectores
    Adeus aos meus amores que me vou
    P’ra outro mundo
    É uma escolha que se faz
    O passado foi lá atrás

    Miguelinho, conectores?
    LOLOL

  18. não ligue , Miguel , nem toda a gente está a par da importância dos conectores , ou marcadores do discurso , na tradução da língua valupiana para português corrente :) ;)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *