Só sábios éramos bué

Nós — e quando digo “nós” refiro-me a jornalistas, analistas, colunistas, historiadores — estamos a gastar tempo de mais a caricaturá-lo e tempo de menos a compreendê-lo.


Caluniador pago pelo Público

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A clássica anedota académica tem no João Miguel Tavares a sua mais recente personificação in vivo. Este profissional das “polémicas” semanais com os alvos da sua sanha anti-esquerdolas (há quem lhe dê conversa, é o que temos e o que somos) considera-se parte de um colectivo, uma corporação, que junta jornalistas, analistas, historiadores e colunistas. Jornalistas e colunistas, enfim, passa com um bocejo porque a enorme maioria dos jornalistas portugueses o que ambiciona mesmo é verter sobre as ocas cabeças do povoléu as suas preciosas opiniões em vez de reportar factos o mais relevante e factualmente possível. Analistas e colunistas, a coisa começa a cheirar muito mal. O que será um analista para o nosso magnífico colunista? Alguém que analisa cenas com ou sem sangue, certamente, mas de acordo com que objecto de análise, metodologia e corpo teórico? Enigma que ele não irá resolver por falta de tempo, está demasiado ocupado a lutar contra a diabólica corrupção socrática. Historiadores e colunistas, eis a parolice no seu esplendor, com o caga-sentenças a equiparar-se ao cientista porque acha que a actividade de ambos se reduz exactamente ao mesmo: dizer uns disparates que lhes passem pelo bestunto e ser espertalhão o suficiente para conseguir que alguém pague por eles.

A mediocridade intelectual do JMT não o impede de ser um colunista de sucesso, daqueles que chegam à televisão e tudo, antes parece ser condição sine qua non. Estudos, discursos um bocadinho mais elaborados, estudos, procura de módica objectividade, estudos, respeito pela honra alheia, e estudos, estas características só tornam mais improvável a agilidade mental para despachar os simplismos caricaturais e sectários com que mostra serviço. Daí a satisfação exibida por este penduricalho de uma indústria que esvai de inteligência o espaço público. É tão fácil imaginar-se par dos jornalistas, analistas e historiadores. E poderia ter continuado, pois igualmente os políticos, os investigadores, os juízes, os médicos e quase todos os mecânicos automóveis o que fazem não passa do que o JMT igualmente poderia fazer se lhe pagassem: abrir a boca e falar, mexer os dedinhos e escrever.

Ele tem razão. E a culpa não é dele.

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