Serviço público

Num bairro que se habituou a ter medo da polícia, a ouvir "para dentro, caralho", a revistas sem motivo, a portas partidas, a balas perdidas, a ser tratado por tu, a não protestar "porque é pior" e a não fazer queixa "porque não serve de nada", a acusação do MP à esquadra de Alfragide é como uma esmola demasiado boa: o pobre quer acreditar mas desconfia. É muito tempo sem justiça nem lei, de "preto vai para a tua terra", de "cala-te se não queres levar". A sede de uma espera só se estanca na torrente. Virá ela?


“Os polícias eram deuses, agora são como nós”

5 thoughts on “Serviço público”

  1. Vivi na Damaia de Baixo durante quase 30 anos.

    Chapadas só porque sim. Roubos? todos os dias. Não se podia ter trocos no bolso, nem nada novo. Não que tivéssemos dinheiro para grandes coisas, bem entendido. Mas o que tivesse, era catado. Se não tivesse nada para catar, ficavam só pela chapada. Por mandar os óculos para o chão ou para chutar a bola para a Buraca, para lá da linha. Por isso deixámos todos de brincar na rua. Todos. Durante toda a minha adolescência e juventude, vivi com medo de andar na rua. Ficávamos em casa.

    Querem mais? Duas amigas de 14 e 15 anos violadas na escola. Fora as outras, de que se falava, mas que não conhecia. Quase todos os filhos-de-puta dos dias havia sempre qualquer coisa: pancadaria, roubos, assaltos, estradas bloqueadas (ah pois é, a paralela ao aqueduto, vinda da estação da Damaia). Da estação de Santa Cruz às Portas de Benfica, da Buraca a Alfragide. E isto só nas zonas que conheço bem. Nem estou a falar da Damaia de Cima para a Reboleira, da Secundária, etc.

    TODOS os dias. Vivia-se refém daquela merda. Durante 30 anos a minha (nossa) vida foi isto. A minha, dos meus pais, dos meus vizinhos, de quem tivesse uma lojinha ou o que quer que fosse.

    Sei muito bem o que é ter medo. Medo? Terror, aliás, terror de andar na rua, desde criança, desde os 9 anos, pelo menos, quando tinha de ir de ir para a escola em Benfica.

    E isto só aos meus. Toda a gente dali tem muitas, muitas histórias destas para contar.

    Por isso, amigos, puta que os pariu mais estes discursos. Apologéticos do quê? Das pessoas decentes que ainda lá vivem? Fujam de lá. Ou – melhor ainda – organizem-se. Denunciem o tráfico, não lhes dêem quartel, nem guarida. Porque é que o Moinho da Juventude não faz um levantamento dos locais de tráfico e dos traficantes e os entrega à polícia? Essa seria a melhor obra que poderiam fazer.

    As pessoas decentes que ali há vão de lá embora à primeira oportunidade. Custa muito? Acredito. Não podem? Não podem porquê? A miúda que comprou a casa onde vivíamos (ela vinha da Cova) é Cabo Verdiana e anda nas limpezas. Sozinha. Empréstimo da CGD. Ela pôde (e a escritura foi o melhor dia da vida dela, nas suas palavras), mas os outros não. Coitados.

    Também vi, com estes dois que a terra há de comer, polícias a levar calhauzadas vindas de todas as direções, nas entradas do 6 de Maio. Tiros? Muitos. Polícia não entra ali. Em ruas estreitas, sem “olhos amigos”, onde de qualquer porta e janela pode sair um facalhão ou uma pistola, querem o quê? Que não lhes saiam uma caralhadas? Que não tenham medo? Que não façam merda?

    Acham que estou a exagerar? É porque não têm nem puta ideia. Mas se são capazes de traçar um tão plangente retrato da Cova da Moura, talvez fosse um bom exercício perceber o que foi (é?) a vida dos mecânicos, telefonistas, operários, ladrilhadores, eletricistas… dos pobres diabos que viviam (e vivem) na zona, entalados na periferia, entre empregos mal pagos (quando os há) e o sufoco da violência e medo.

  2. a maior parte dos polícias são umas bestas . nesse bairro apenas abusam da sua natural bestialidade.. quem vai para polícia por vocação só pode ser psicopata. aliás , suicidam-se aos magotes por isso , pele psicopatia.

  3. Quem sabe do convento é quem lá está ou esteve dentro.
    Nunca existe um só lado da história.
    Comportamento gera comportamento.

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