Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



fernando-negrão.jpg

Não falou nem discursou, vociferou. Estava de peito feito. Bravo. A sala era caserna. O público, pelotão. Quis mostrar que tinha força. Que com ele não brincavam. Para mais, poupadinho, prometendo reduzir os jobes fore de bois. Mas que ia acabar a bagunça. E a pouca vergonha. Prova? O pelouro do urbanismo ficaria nas suas mãos. Prontos. ‘Táxplicadopá. O pelouro do urbanismo ia ter alguém de confiança. Para tomar conta dele, finalmente. Pessoalmente. Não era como com essa cáfila do Carmona e amanuenses, tudo já arguido ou a merecer pior sorte. Com ele, não. Arguido, sim, também, até porque começa a parecer suspeitoso ainda não se ser arguido de qualquer marosca, permitindo esse estado de pré-arguição as mais desvairadas conjecturas e maledicências. No caso dele, porém, descansai, não tinha nada a ver com o urbanismo, é coisa relativa a outra ordem de urbanidade. Daí a vantagem em ser arguido, para que se separem as águas.

O coro tentava pontuar a prestação. Mal ensaiados. O orador estava concentrado no tónus, na pujança. Tanto que se esquecia da claque. Lá se conseguiu o ruído mínimo necessário para ter sido feita política à moda destes políticos. E terminou.

Terminou, mas não acabou. A peça jornalística acrescentou os efusivos cumprimentos de Marques Mendes. Na mente do jornalista televisivo, era já chouriço para encher, suporte da locução que fechava a reportagem. Comigo, acontecia o desvelamento de uma alma. Marques Mendes estava comovido, grato pelo espectáculo. Apertava febril as mãos do candidato. O seu rosto exibia o sorriso dos beatos, aqueles que contemplam as forças superiores e se sentem levitar. E não era coisa de somenos: para o chefe do PSD, conseguir levitar tornou-se numa questão de sobrevivência.


  1. 1 João Pedro da Costa

    Eu também vi essa reportagem, primito. E foi, de facto, dos momentos mais patéticos que já vi na televisão. E a foto que ilustra o post é magnífica.

  2. 2 susana

    eu não vi. mas estou com pena. estou a vê-lo, olhos fechados, boquinha apertada e projectada para a frente, braços cruzados e pernas ligeiramente afastadas, a levitar. que bem que lhe fica.

  3. 3 Mao

    O teu texto foi o conto do pequeno filme. Não vi, mas foi como se visse.

    Bela prosa, Valupi.

  4. 4 Valupi

    Primo, é pena não ter planos do momento em que Marques Mendes cumprimentou Negrão, logo após o discurso. Foi extasiante.
    __

    susana

    Sim, ele tem tudo para ser um mestre da levitação.
    __

    Mao

    Agradeço a honrosa gentileza.

  5. 5 Too busy

    Mais um post do Valupi para se ler nas férias (se a actualidade se mantiver, pois).

  6. 6 py

    acho que não vejo tv desde o sarkophage, obrigado pelo relato.

  7. 7 blabla

    Não vi, mas é mesmo como se estivesse a ver. Fabulosa restituição! Entre aparelhos e bóis, este país é de facto um deserto - como diz o outro senhor, um deserto de competências e de qualidade neste poder e nos outros.

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