Seguro, és enorme

Na entrevista de Seguro dada ao Público encontramos este momento que pede batatinhas:

- Outra ideia feita sobre si é a de que esteve seis anos na sexta fila do Parlamento, durante os governos de José Sócrates. E que esteve agora três anos sem se demarcar. Quando arranca a campanha, começa a criticar mais abertamente. Há quem o acuse de cinismo.

- Pauto-me por uma enorme coerência. Sobre a sexta fila: mas a direcção anterior convidou-me para qualquer outra função? Quando me convidou, disse que sim. Convidaram-me para fazer a reforma do Parlamento, penso que o PS saiu prestigiado com essa reforma. Convidaram-me para ser presidente da Comissão da Educação. E considero ter tido um papel muito importante no diálogo com os professores numa altura difícil em que um governo do PS não tratou bem os professores. Fui presidente da Comissão de Economia. Por três vezes fui convidado a aceitei ser cabeça de lista num círculo eleitoral que não era um qualquer: foi em Braga. Digam-me para que é que fui desafiado e tivesse recusado. Eu não enjeito nenhum do passado do PS, mas também não trago nenhum passado de volta. Estive concentrado foi na construção do futuro, de respostas concretas para os problemas dos portugueses. Estou a ser coerente com a responsabilidade de um dirigente do PS.

Começa logo pelo começo. Seguro não apenas se pauta, qual maestro ou virtuoso do seu destino, pela coerência, esse ideal supremo de todos os moralistas e da maior parte dos gramáticos. Isso seria poucochinho, curto, tão-só humano. Nele a coerência é enorme. Ora, nós sabemos que Seguro só promete o que sabe ser capaz de cumprir. Essa característica, por inerência ontológica, estende-se aos seus actos de fala. Se nos diz que algo em si é enorme, então o melhor é que nos apressemos a acreditar na enormidade em causa sob pena de achar que estamos a chamá-lo de mentiroso e depois ficar muito aborrecido. Acontece que as palavras têm uma história, e que essa história é fonte da sua semântica. No caso, o vocábulo “enorme” transmite na sua etimologia a ideia de negação da “norma”. “Enorme”, portanto, é tudo aquilo que viola a norma, a normatividade e a normalidade, tudo aquilo que será imprevisto, incomensurável ou irracional. Logo, o par “enorme coerência” é um oxímoro – e um dos mais hilariantes das últimas décadas por vir de quem vem.

O gosto pelos registos contraditórios, quiçá manifestação de um entrelaçamento sináptico a provocar tilt no córtex frontal, continua a bom ritmo nas frases seguintes. Ficamos a saber que Seguro foi convidado, em simultâneo, para se limitar ao pousio na “sexta fila” e para uma série de actividades da maior importância: reforma do Parlamento, presidente da Comissão de Educação, presidente da Comissão de Economia, três vezes cabeça de lista por Braga. Sim, não lhe deram um ministério, e esse é um dos factores que melhor explicam ter o passaroco saído finalmente da gaiola para o ajuste de contas, mas atente-se no que Seguro tem a dizer de Seguro: prestigiou o PS com a reforma do Parlamento, teve “um papel muito importante no diálogo com os professores”, isto, ó gentes, “numa altura difícil em que um governo do PS não tratou bem os professores”, foi “cabeça de lista num círculo eleitoral que não era um qualquer”. Foda-se, pá. E mais não fez porque não o deixaram. Há que tempos que já podíamos ter limpado as ruas dos sem-abrigo todos, por exemplo – e este é um exemplo em, deixa cá pensar, para aí 80. Desde meados de 2005, pelo menos, que já podíamos ter separado a política dos negócios e estaríamos agora a viver num país higienizado, mas a “direcção anterior” não quis. A filha-da-puta.

Não espanta, pois, que o parágrafo acabe no mesmo registo paradoxal com que se iniciou e desenvolveu. E lá veio a passivo-agressiva bandeira do “não enjeito nenhum do passado do PS, mas também não trago nenhum passado de volta“. O notável chefe de família que tinha acabado de trazer o passado de volta para enaltecer a sua pessoa e o famigerado secretário-geral conhecido por não defender nenhuma das políticas da “direcção anterior” deram as mãos e abraçaram-se efusivamente. O passado de Seguro, confessa o próprio para o caso de alguém não ter percebido, consistiu afinal na construção do seu futuro, a procura das “respostas concretas”. Mas esta perspectiva abre uma possibilidade quântica, a de que o futuro de Seguro consista na construção do seu passado, então feito do achamento das “perguntas abstractas” sintomaticamente em falta no seu presente. Tal probabilidade levaria a uma nova formulação do estribilho:

“Não mereço representar o passado do PS, mas também não trago nenhum desse passado comigo. Ah, e tenho uma enorme coerência. Enorme.”

7 thoughts on “Seguro, és enorme”

  1. deram-lhe varios cargos não governativos,mas importantes,e por isso foi para a sexta fila comer pasteis com a belem.fez a reforma do parlamento.o melhor dessa reforma foi a alteraçao que introduziu nos debates para tramar jose socrates.por ultimo o unico passado que ele gostar de evocar é o seu, (privado)e por isso aquando a sua eleiçao para secretario geral do ps, numa entrevista ao expresso se não estou enganado,disse que conheceu a sua mulher a experimentar a dança do varão.boa!

  2. A pequenez de Seguro é enorme. Seguro é inseguro. É de uma coerência incoerente. É de um futuro passado.
    Um tudo que é nada.
    Um Oxímoro excelente.

  3. Como não tenho paciência para ler entrevistas do
    Tozé, basta-me as reportagens e intervenções gra-
    vadas para apreciar a vacuidade do personagem!
    Mas, dá para ver que leu alguns dos livros do faci-
    litador relvas com “a construção do futuro e a pro-
    cura de respostas concretas”, está em linha com “a
    busca do conhecimento permanente” !!!

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