Queremos respostas

Também tencionava escrever sobre as suspeitas de fogo posto na origem do que aconteceu no passado domingo, mas em boa hora a Penélope antecipou-se. Acrescento só que, por contraste com Pedrógão, não estamos em campanha eleitoral (i) e não é possível explorar alguma suposta falha operacional que atinja o Governo (ii). Foram essas as principais motivações para o PSD aparecer então com a ideia de uma comissão independente, a que se juntou a pressão tóxica dos jornalistas engajados e desenfreados, com isso promovendo e alimentando um clima de suspeições sobre a honorabilidade, e até legalidade, na conduta passada e futura dos governantes socialistas. Como é que o sabemos? Precisamente pelo que a Penélope realça, o facto de estarmos confrontados com perdas humanas equiparáveis (pese a irredutibilidade de cada vida perdida) mas com danos financeiros, económicos, patrimoniais, sociais e ecológicos muitíssimo superiores – e com suspeitas, que se estendem à Galiza, de crime organizado. Logo, obviamente, não faltam razões para, no mínimo, desfazer essas suspeitas que causam alarme público ou enfrentar com tolerância zero criminalidade tão grave. Pelos vistos, está a faltar a proximidade de umas eleições para ajudar os partidos a pensarem no interesse nacional.

O que nos leva para o PS e o Governo. Irão muito mal, ambos, se não explicarem como é que deixaram chegar o fim-de-semana passado sem terem lançado uma campanha nacional de contenção, vigilância e iminência de desastre. Algo tão simples como haver um número nacional para pedidos e envios de informação, juntamente com um mapa digital actualizado das zonas de incêndio, vias cortadas e operações de combate aos fogos e emergência médica. Outras questões se levantam em relação aos meios legalmente disponíveis nos bombeiros, combate aéreo aos incêndios e aos recursos policiais e militares que ficaram nos quartéis. Porque a chegada das temperaturas altíssimas, que já seriam altas no pico do Verão, com o efeito crescente de seca na vegetação, a que se junta a irresponsabilidade das queimadas e o facto de estarmos perante um sábado e um domingo propícios ao seu maior número, tudo isto não carece de especial inteligência para ser visto como um perigo excepcional a pedir medidas excepcionais. Porém, entrámos nesse fim-de-semana sem qualquer sinal de alarme público a não ser o dos números das previsões meteorológicas.

Queremos saber muita coisa. Quantas ignições de domingo começaram de noite e de madrugada? Quantas foram iniciadas por queimadas? Quem responde pelo estado anterior e destruição do Pinhal de Leiria? Quantas universidades portugueses colaboram com o Estado para a prevenção e combate aos fogos florestais? Quanto custa ter uma rede de aparelhos voadores (drones, balões, zeppelins) sem piloto para detecção automática de ignições e captação de provas policiais? Como criar nas populações rurais uma cultura de prevenção contra os incendiários? Qual a verdade sobre o negócio da madeira queimada? Estas e muitas mais, evidentemente. Muitas terão resposta nas medidas que serão tomadas já amanhã em conselho de ministros. Mas a da aparente incúria ao nível da informação ao público não é das menores e extravasa o estrito âmbito dos incêndios florestais.

18 comentários a “Queremos respostas”

  1. Valupi,

    Acompanho-te no geral, mas olha que algumas das tuas questões já têm resposta. O site fogos.pt dá indicação bastante actualizada do estado de coisas e também das vias cortadas. A questão é como é que quem está debaixo de fogo e sem comunicações, acede, mas isso é outra garreia.
    Quanto aos alertas , também me parece que estavam dados. O ipma.pt tinha isso publicado, e houve jornais que o referiram, embora a tónica maior vá sempre para o “tempo de praia”. Mas, convenhamos, por muitos alertas que haja, nem isso leva as pessoas que habitam casas a aldeias ( e respectivas autarquias…) a fazer os minimos que o bom senso recomendaria., como bem se viu.
    Quanto às horas das ignições, tem cuidado e não faças como a Maria que vai com as outras. Há muitas ignições “misteriosas” que não têm grande mistério, como as produzidas pelas cabos electricos de baixa que andam por aí misturados no arvoredo. Só que, a partir de um determinado momento, fica dificil perceber se foi o cabo que entrou em curto circuito e ateou o fogo ou se foi o fogo que queimou o cabo. Na passada segunda feira tive um a cem metros de casa que começou assim, num cabo em curto circuito, à 1:30h da manhã. Mas claro que, até do ponto de vista dos interesses da incúria da edp distribuição, é mais fácil atribuir as consequenciais do enredo em que anda a rede a causas “misteriosas”.

  2. muito bem . também gostava de saber quem são os responsáveis pela evacuação das populações . ou não há ninguém que faça esse serviço ?

  3. MRocha, não houve nenhum alerta especial das autoridades. Não houve nenhuma preparação para uma emergência com um grau de probabilidade elevado. Não houve uma campanha nas televisões e rádios para um especial cuidado e vigilância nesse fim-de-semana.

    Quantos às ignições, o interesse diz respeito ao seu número e às suspeitas que correm, seja por paranóia ou mero bom senso, acerca da existência de crime em larga escala.

  4. Valupi,

    Alerta: quando o IPMA ( que é uma “autoridade”, certo ? ) informa que há “risco máximo de incêndio”, qual é o “alerta especial” que fica em falta ?
    Preparação : mas então se a fase Charlie ( a de mais alto nivel de prontidão )já tinha sido prorrogada até 15 Out, que preparação extra faltava ?
    Divulgação: TV’s e rádio precisaram de alguma ordem do governo para divulgar ad nausea os riscos da passagem do IRMA pela Flórida ? Não é verdade que o assunto que ocupou a CS na ultima semana foi apenas a passagem do Ophelia pelos Açores ?

    Resumindo: haverá muitas culpas em tudo isto, mas tenhamos ao menos o bom senso de admitir que é de elementar justiça reparti-las um pouco por todos, incluindo por aqueles que as pagaram com a vida.

  5. Falta pouco para passar a segundo plano esta dos incêndios.
    As armas de Tancos já “apareceram”.
    O Estádio da Luz está vasculhado.
    Sócrates sempre nas 1ªs páginas
    A Geringonça vai aprovar os cães à mesa, porque o patrono também votou nos matrimónios do bloco, nos feriados do PS e
    nos 4 € do pcp.
    No meio de tanta coisa interessante, os incêndios depressa vão ser apagados.

  6. https://www.publico.pt/2017/10/20/culturaipsilon/opiniao/os-azeiteiros-excelentissimos-1789186?page=/opiniao-estacao-meteorologica&pos=1&b=list_section

    Este artigo que A Guerreiro publicou hoje no Público, serve bem como base para comentar a procura de “respostas” a que este post alude. De há algum tempo a esta parte instalou-se na sociedade uma espécie de analfabetismo funcional que tem como consequência prática a ilacção de que somos todos crianças e o paternalismo do estado é essencial ao nosso bem estar individual e colectivo. Lamento, mas para esse peditório não dou.

  7. MRocha, o IPMA, suspeito, não governa o País. Tens de rever umas noções básicas de comunicação pública e sociologia de massas para atinares com o que está em causa nesta questão.
    __

    JRodrigues, larga o vinho.

  8. JRodrigues, existe uma qualquer perturbação (momentânea?) nessa cabeça.

    Explica lá onde é que o António Guerreiro alude sequer por um grama que seja à trapalhada que chamas o «analfabetismo funcional que tem como consequência prática a ilacção de que somos todos crianças e o paternalismo do estado é essencial ao nosso bem estar individual e colectivo», até porque a terra, o olival e o lagar e mais os tipos que pagaram o projecto arquitectónico é privadíssimo? Aliás, quer dizer o contrário disso mesmo (ou seja, que quem vive na cidade se tornou em mais dos “analfabetos funcionais”).

    _________

    Nota. Como, eventualmente, te referes ao parágrafo final facilito-te a resposta. Onde está ali o que tu acha(va)s que… estava?

    [….]

    Mudemos de assunto: as campanhas a favor de medidas que desacelerem o aquecimento da Antártida não estão a ser muito bem sucedidas. Entretanto, na Europa e muito especialmente no seu extremo ocidental, as reacções químicas do fogo e as reacções políticas misturaram-se e estão a provocar um perigo global. E de repente, confrontados com problemas tão arcaicos como os da água e do fogo, começamos a descobrir que talvez nunca tenhamos sido modernos.

  9. Muito bem, Valupi, o IPMA não governa. Mas não é em função da informação do IPMA que estão definidas as interdições legais ? Até onde têm de ir as redundâncias ? No dia de hoje, por alerta de biotoxinas pelo IPMA , está interdita a apanha de bivalves no sotavento algarvio. Que sugeres que o governo deveria fazer em termos de redundância junto do consumidor ?

  10. O “fato” de “idiota urbano” que A. Guerreiro descreve, serve na perfeição aos que tanto gostam de alardear a a sua ignorância na blogosfera. E há temas, como este dos incêndios, em que a indigência intelectual atinge níveis orgiástico. O disparate reproduz-se de forma pavloviana. O “idiota urbano” sabe tanto do assunto como de meteorologia. Ainda assim acha que tem de achar qualquer coisa, mas o que “acham” tem equivalente na sustentabilidade ao lagar de Ferreira – só serve para ilustrar má-consciência.

  11. JRodrigues, volto a perguntar-me o mesmo e aroveito para te dar um boião de papinha que chegou a hora do jantar.

    1. «Nota. Como, eventualmente, te referes ao parágrafo final facilito-te a resposta. Onde está ali o que tu acha(va)s que… estava?», onde estava a tua cabeça afinal?

    2. A António Guerreiro é de Santiago do Cacém, e sabe do que fala porque, sendo urbano literal e intelectualmente, vai muitas vezes à terra na carreira como antes se dizia. E di-lo, intelectualizando a charneca alentejana como actualmente nenhum outro ser vivo nado ou criado em terras do Além-Tejo o consegue fazer. Mais te digo: aquelas preocupações ambientais são um tópico muitas vezes presente na coluna que ele mantém no Ípsilon, e que teve o seu momento alto numa enorme discussão a que os bétinhos que tanto se indignam com a paisagem da comunicação social portuguesa (o Valupi e os mocinhos d’Os Truques, para não ir mais longe) permaneceram quietos a olhar para um palácio (e nem percebi se deram por ela, na verdade). Eu tomei parte na discussão, e fico por aqui. Entretanto, se visses com olhos de ver o mundo perceberias que um algo gigante mudou no número de comentários que eram artificialmente empolados nas garatujas que o JMT vai fazendo.

    Aqui e ali, aprende qualquer coisinha:
    a. https://www.publico.pt/2017/08/11/culturaipsilon/opiniao/os-comentarios-dos-leitores-1781684 (por falar em comentários dos leitores desapareceram ali pelo menos duas centenas!).

    e

    b. https://www.publico.pt/2017/10/21/politica/opiniao/grande-grande-marcelo-1789687 (hoje o rapaz tem 11 comentários e portanto fica abaixo do Aspirina B, imagine-se!)

    [Adeus, e juizinho.]

  12. Adenda, ainda.

    Era uma bela utopia: abrir os sites dos jornais e revistas aos comentários dos leitores, promovendo assim o debate, a troca de argumentos, a socialização do saber, o ideal democrático de uma esfera pública alargada e cada vez mais esclarecida, conforme ao projecto moderno de uma sociedade transparente. Resultou, afinal, numa forma tenebrosa de obscurantismo e fomentou a exibição pública das reacções intelectualmente primárias e socialmente reprovadas, como são a injúria e a agressão.», o Valupi nada tem a dizer sobre «o número de comentários que eram artificialmente empolados nas garatujas que o JMT vai fazendo» no P. em papel? E não há por aqui nenhum ser pensante que diga algo sobre este excerto de prosa do António Guerreiro?

    [Tudo isto é estranho, menino.]

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