Prognóstico reservado

O que se está a passar no Estados Unidos da América, neste episódio do despedimento do director do FBI, não tem paralelo com nada conhecido na história dos presidentes norte-americanos (dizem os bacanos que dizem que sabem do assunto). As parecenças com o “Watergate” desvanecem-se rapidamente quando se constata que até com Nixon havia uma matriz de racionalidade, enquanto com Trump estamos mergulhados na loucura diária (e até horária, porque ele pode ir para o Twitter desvairar a qualquer hora). Quem esteja a acompanhar a sucessão das grotescas manifestações de incompetência e alucinação por parte de Trump e da sua equipa não precisa de mais nenhuma informação para concluir que a origem do problema não é ideológica, partidária, política, criminal nem conspiracionista. Pura e simplesmente, Trump é um sujeito emocional e cognitivamente descontrolado, o qual ao longo da sua vida foi tendo oportunidades para aproveitar essas características em seu proveito no mundo dos negócios através de sucessivas burlas. Quando decidiu concorrer às eleições presidenciais, provavelmente não queria mais do que dar um golpe publicitário ligado com a oportunidade de explorar comercialmente o populismo reinante na América e no Mundo com o lançamento posterior de um canal televisivo. Depois, constatando que a comunicação social ficava toda ao seu serviço mesmo quando o atacava e tentava ridicularizar, limitou-se a ir esticando a corda como se estivesse apenas a lidar com uma audiência televisiva viciada em “escândalos” e entretenimento. A fórmula passou por destruir todas as regras que foram seguidas durante décadas na estratégia eleitoral. Trump colou-se aos racistas, aos misóginos, aos russos. Trump atacou a outrance o próprio Partido Republicano, os Bush, Mitt Romney, John McCain. Trump gozou com deficientes, com os pais de um soldado americano morto no Iraque, com um juiz de ascendência mexicana. Trump ameaçou os americanos latinos, os americanos muçulmanos e os americanos socialmente marginalizados. Por causa de uma tempestade perfeita contrária aos interesses de Hillary Clinton, onde ironicamente uma das peças-chave da sua derrota se deve a uma decisão altamente suspeita de James Comey, o resultado das eleições colocou na Casa Branca um autêntico chanfrado dos cornos.

A democracia nasceu do desenvolvimento intelectual de um certo povo que tinha inscrito na sua mitologia fundadora a conexão entre o poder guerreiro e o poder da palavra. É essa a lição da Ilíada, e são esses os factos da realidade política da Atenas de Sólon, Clístenes e Péricles – a qual era, igualmente, a Atenas dos filósofos, esses seres que gostam mais de perseguir a verdade do que exibi-la pendurada e morta. Logo, há uma interdependência entre a democracia enquanto ideal que coloca o poder no mais fraco dos autónomos, o cidadão, e as condições em que essa autonomia pode originar acções políticas, condições essas nascidas da identidade, da experiência e da inteligência. Obviamente, estas condições só ocorrem num dado território, com uma dada demografia e respectiva economia. Porém, tiveram de passar centenas de milhares de anos para que um certo tipo de primatas tivesse criado esta tão sofisticada e revolucionária forma de usar o poder comunitário a que chamamos democracia. E depois de ter aparecido esteve vários séculos enterrada no esquecimento, prova da sua fragilidade. Quando nos últimos anos correlacionamos a erupção dos populismos nascidos das crises económicas e transformações sócio-culturais com os ataques ao conceito e modelo da democracia não estamos apenas a repetir clichés para encher conversas, a vitória de Trump é a exuberante prova da causalidade em causa: eleitorados alienados por retóricas identitárias fundadas no medo e no culto do autoritarismo favorecem políticos que apenas precisam de mentir com talento histriónico. Esses políticos, caso triunfem desse modo, não se irão converter à democracia depois de agarrarem o poder. Porque a democracia, na sua essência, é um culto da liberdade, enquanto o populismo de todas as formas e feitios é uma manipulação da estupidez colectiva. A estupidez dos outros pode ser usada em proveito próprio recorrendo à hipocrisia, já a liberdade dos outros exige a humildade – e a coragem – de colocar a inteligência ao serviço daqueles que nada nos devem nem ficarão a dever.

Trump prometeu resolver todos os problemas económicos, sociais e políticos dos EUA assim que fosse empossado. Era tudo simples e imediato. E os outros governantes e políticos, todos os outros que assumiram funções públicas antes dele, eram corruptos e incompetentes, garantiu na TV. O resultado está à vista. Estamos a ser cobaias numa experiência médica que nos poderá matar ou imunizar.

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20 comentários a “Prognóstico reservado”

  1. A paranóia de Trump só encontra paralelo na paranóia dos seus adversários políticos. Passam os dias aos berros vem aí a Rússia, depois daquele ter levado a votos, na sua campanha, a proposta de enterrar as hostilidades que foderam meio mundo nos últimos 30 anos. Azar dos azares, nem ele próprio se leva a sério.

  2. Continua a prognosticar Valupia que vais cair direitinha no regaço da Hillara e quem sabe mais pela calada da noite no de Clinton.

  3. “Porque a democracia, na sua essência, é um culto da liberdade, enquanto o populismo de todas as formas e feitios é uma manipulação da estupidez colectiva.”

    Quase perfeito, Valupi. De acordo totalmente.
    É a ignorância dos fundamentos mais poderosos e mais preciosos da Democracia, entre eles sobressai a possibilidade de viver e conviver segundo elevados graus de liberdade individual e colectivo, que é possível o populismo mais rasteiro, básico, miserável e anti-lógico à maneira mágica de um vendedor de banha da cobra cura todos os males do mundo. Parecia impossível há anos, em pleno Séc. XXI isto poder acontecer. Mas acontece, precisamente, porque na prática os meios de comunicação, especialmente a TV, se tornou uma fonte criativa de realidades virtuais que, para ignorantes à maneira dos homens na Caverna de Platão, impôem sombras e aparências como realidades. E mesmo quando ainda racionalmente restem algumas dúvidas os já apanhados e prensados pela mensagem de falsas realidades não saem dela e já só pensam e racionalizam dentro desse falso quadro mental.
    Claro que, muitas outras subjectividades, são precisas estar reunidas para que se objective a eleição de um indivíduo do calibre de um Trump. No caso da Coreia do Norte as TV mostram a louca surrealidade do regime instalado e até os ignorantes percebem o “modus” da forma como tal sistema de loucos é imposta pelo terror. No caso Trump um povo letrado e habituado ao uso das liberdades, e talvez por isso ousou experimentar um louco na Casa Branca para mexer “revolucionariamente” ( como diz o cabeçudo pacheco) com o “status” pouco brilhante há muito instalado, acreditando tal pedrada no charco seria benéfica perante a actual estagnada situação.
    Acreditaram num louco mentiroso e troca-tintas que prometia fechar-se entre fronteiras e sair de todas as guerras e agora arriscam ter à porta ou no seu grande quintal, a qualquer momento, uma guerra nuclear de imprevisíveis consequências para eles e para o resto do mundo.
    O inferno também é uma realidade virtual em que muitos acreditam e, a continuarmos a vender realidades virtuais aos povos, um dia damo-nos conta que já vivemos no inferno sobre a Terra.

  4. sim , claro , o Trump chegou ao poder porque até ele era tudo uma maravilha para o coitado do cidadão criado para todo serviço. o mea culpa tarda em sair da boca dos democromos , tarda pois . queres ver que se acham inocentes do actual estado do mundo? é cada insulto à inteligência das pessoa, , God . dai-me paciência , please.

  5. MUITA GENTE AINDA NÃO PERCEBEU QUE UM PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS TEM PODERES LIMITADOS E SUBJUGADOS, NÃO VALE NADA, NÃO MANDA NADA, NÃO TEM PODER NENHUM SENÃO PARA ADMINISTRAÇÃO DO EXPEDIENTE CORRENTE E PARA FAZER O QUE É PRECISO QUANDO LHE DITAM. E NO PRIMEIRO DIA EM QUE PISOU A CASA BRANCA COMO PRESIDENTE, TELEFONARAM-LHE A DIZER COMO ERA A BATIDA, QUE REGRAS TINHA QUE CUMPRIR SOBRE PENA DO FATAL TIRO NOS CORNOS, O BONECO OBAMA E OS BONECOS ANTERIORES SABIAM-NO BEM, A RÚSSIA É O INIMIGO E NÃO HÁ DISCUSSÃO E A CHINA QUE SE PÔS A JEITO TEM DE FAZER O QUE É PRECISO. RESTA AS FAKE NEWS E A FIÇÃO HOLLYWOODESCA PARA NOS ENTRETER.

  6. Mais uma vez se comprova como alguém comprovadamente inteligente, culto e informado consegue, por vezes, ser confrangedora e assustadoramente burro, sectário, ignorante, superficial e leviano, numa relação com a realidade factual ao nível da que o correio da manha exibe de cada vez que fala de José Sócrates.

    A treta do gozo de Trump com os deficientes, alegadamente imitando um jornalista com limitações físicas, foi há muito desmascarada como a treta que é, como se (com)prova aqui:

    https://www.youtube.com/watch?v=9m7iA7QZBi4

    A treta de que no encontro entre Serguei Lavrov e Donald Trump, na Casa Branca, teria sido vedada a entrada aos jornalistas americanos e autorizada apenas a presença de um fotógrafo russo é também apenas isso: UMA COMPROVADA TRETA. Nesse encontro foi autorizada a presença de dois fotógrafos: o famigerado russo (ainda a digerir a última criancinha comida de escabeche) e, como não podia deixar de ser, um fotógrafo americano, que registaram o acontecimento em pé de igualdade.

    São dois exemplos dos milhares de “fake news” com que as máfias diariamente nos bombardeiam e tentam condicionar, com a prestimosa colaboração de gente “esclarecida” como tu, que na aldrabice colabora acrítica e levianamente. Fake news, aldrabices ou mentiras, o facto a reter é que propalá-las faz de ti um mentiroso. Ou então, e verifico-o com alguma mágoa, tens (pelo menos) uma coisa em comum com o presidente da Amérdica: estás cada vez mais loura/o.

  7. Seres tu loura/o ou mentiroso não invalida, porém, o lamentável facto de que Trump deitou para o lixo, num ápice, algumas aparentes boas intenções em termos de política externa, pacificando relações com a Rússia e travando e revertendo a submissão americana à agenda mafiosa do reino terrorista saudita e do não menos terrorista Qatar. É fundamentalmente da agenda destes dois que resulta a desgraça vivida pela Síria, vítima de uma tentativa de desmembramento que possibilite a passagem (num dos “bantustões” que daí resultem, controlado por afilhados do reino fundamentalista) de um oleoduto e um gasoduto que facilitem a chegada ao mercado energético europeu da negra “hortaliça” dos gatos gordos terroristas do Golfo.

    Que isso se faça à custa de milhares de mortos e estropiados é apenas um pormenor, é claro, e podes sempre culpar o Assad, o “regime” do dito, o Irão, o Putin ou o caralho. Que os terroristas do reino saudita e do Qatar tenham provocado e financiado esta desgraça apenas porque o Assad lhes negou a passagem em território sírio de um oleoduto e gasoduto que ia fazer concorrência ao que ele próprio (em 2009) projectou e anunciou ir construir em parceria com o Irão e o Iraque, é outro pormenor. O Trump deu uma cambalhota de 180 graus porque se cagou de medo das máfias coligadas de merceeiros do armamento, petrolíferas e burocratas dos serviços de informações enquistados na manjedoura do Estado. E não é um pormenor ter-se ele apercebido de que, continuando a mijar fora do penico, levava um tiro nos cornos em três tempos, com a autoria do infausto acontecimento expeditamente atribuída ao DAESH, à Al-Qaeda, ao Assad, ao Hezbollah, ao Irão, aos russos ou, mais uma vez, ao caralho, sabe-se lá se não a todos eles ao mesmo tempo. A “criatividade” da cambada e o amorfismo acrítico do pagode afogado em fake news, com a prestimosa colaboração dos valupis deste mundo, são garantia suficiente de que a coisa seria engolida sem a mínima dificuldade.

    Pobre Trump, provavelmente nem se apercebe de que, dada a sua fama (e proveito) de instável, a cambalhota que deu não é garantia de segurança, estabilidade nos negócios e continuidade dos lucros para a coligação mafiosa, pelo que o comprimido de chumbo no meio da testa continua uma forte possibilidade.

  8. E chega a ser patético, caro fakelupi, que quase assumas como tuas as dores de trogloditas ultra-reaccionários “ofendidos” pelo Trump, como o fundamentalista cristão Mitt Romney ou o idiota John McCain, incensado como herói graças ao duvidoso mérito de ter sido agarrado à mão e feito prisioneiro pelos vietnamitas que acabara de bombardear com napalm e outras geringonças humanitárias. Recentemente, enriqueceu o currículo com a glória maior de, em visita à Síria à revelia do Governo legítimo do país, se ter feito fotografar ao lado de um “combatente da liberdade” que, nos intervalos da luta contra o “regime” (vade retro!), tinha o salutar hábito de postar no Facebook fotos heróicas em que se exibia, por exemplo, a trincar (literalmente!) o coração acabado de arrancar do cadáver de um soldado sírio aprisionado, torturado e assassinado.

  9. Paranóia atrás de paranóia. Washington Post faz sombra ao Correio da Manhã em manipulação e elaboração de factóides ao serviço dos seus objectivos políticos particulares. Só não partilha informação sobre fundamentalistas terroristas quem não está interessado no seu combate. Estes, sim, são traidores.

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