Pior de 2008

Pacheco Pereira representa aquilo que de pior aconteceu na sociedade portuguesa em 2008. Funciona como uma lente gravitacional, amplificando com a sua galáxia de opiniões os vícios, fraquezas e disfunções da classe política, da direita, do PSD, da oposição e da intervenção cívica profissional.

2007 tinha acabado muito bem para o Pacheco. Era a cara da resistência interna à gaia demência, a esperança de regeneração do PSD, e em Dezembro teve a coragem de publicar esta meia-denúncia sobre uma situação escabrosa. O silêncio geral que se seguiu confirma a dimensão do que deixou entrelinhas, poço sem fundo de cumplicidades que fazem parte do regime paralelo onde a corrupção e o crime ditam as leis. Infelizmente, 2008 veio desbaratar pecúlio tão promissor, num crescendo de fulanização, distorção e depressão.

O modo como este gabiru da análise política falhou o entendimento do papel histórico de Sócrates é, sob qualquer ponto de vista, espectacular. Em 2005, estava claro que Santana encerrava em desgraça o ciclo começado com a fuga de Cavaco, em 1995; primeira traição a Portugal por desresponsabilização após a entrada dos fundos europeus, e a qual levou a uma sucessão infame de governantes e líderes partidários. Não se poderia piorar, não havia nada mais radical do que a destituição de um Governo com apoio parlamentar, pelo que algo diferente começaria necessariamente após a inaudita decisão de Sampaio. E, de facto, o Governo PS saiu melhor do que a encomenda, obviamente com o contributo decisivo da maioria. Mas a grande, enorme, diferença estava na cultura altamente profissional daquele grupo governativo, apesar das naturais diferenças individuais entre ministros. A ambição reformista de Sócrates atacou um inimigo com décadas, ou séculos, de atavismo cultural e marasmo cívico, brilhantemente diagnosticado pelo José Gil pouco tempo antes. Ninguém sabia até onde se conseguiria chegar nem quais as consequências sociais das reformas. Apenas se tinha consciência, cheios de raiva e nojo, que não se podia esperar mais.


Sócrates chefiava um Governo que merecia recolher o apoio da Pátria sem condições prévias, era um Governo de salvação nacional. Este o contexto objectivo, inegável, em que entra em funções após a fraude de Guterres, a vilania de Barroso e a implosão de Santana. Todavia, apoiar um projecto político reformista não se faz só a empurrar na mesma direcção, ou a deixar passar a caravana sem ladrar. Factores críticos de sucesso serão ainda, e principalmente, as correcções de rumo e velocidade. Foi aqui que a oposição desapareceu, incapaz de ser farol quanto mais navegador. Porque a oposição não se limitava a ser parte do problema ao se excluir de ser parte da solução, ela era também um problema sem solução. À esquerda e à direita, os partidos continuaram a repetir as disfunções que tinham levado os cidadãos a ficar cada mais menos representados e cada vez mais afastados politicamente. A vergonhosa qualidade intelectiva dos quadros partidários, agravada pelas diferentes tipologias da corrupção como ecossistema das carreiras individuais, conduziram à completa ineficácia dos discursos e dos gestos políticos. E ninguém melhor do que o Pacheco para servir de microcosmo desta situação colectiva.

Nos quatro cantos da comunicação social – TV, imprensa, rádio e blogosfera – o nosso comentador favorito apregoou a notícia de ser Sócrates um político que agia contra os interesses de Portugal, tomando opções que apenas favoreciam as suas clientelas e chegando a manipular a RTP, e outros meios, de forma grosseira e chocante. Este extremismo disforme e infundado, de dinâmica emocional, conduziu célere para a irracionalidade e seu cortejo de venenosas fugas para a frente. Chegou a ensaiar a chefia estratégica do PSD de Ferreira Leite, tendo feito um esforço de sistematização para relançamento do partido. Nesse texto resumia todos os pontos considerados decisivos no intento de esfarelar os pés de barro aos facínoras. A tese tem a beleza da simplicidade: o Governo é uma grandessíssima merda, e, tirando o Pacheco, está tudo comprado ou a dormir, por isso Sócrates lá se vai safando nas sondagens. Claro que ninguém ligou pevide à lamúria esquizóide, mas o resultado do inglório e homérico exercício seria revelado semanas depois pela boca de Ferreira Leite ao ter conseguido, inacreditavelmente, ultrapassar Menezes na competição do disparate. Ninguém no PSD aproveitou fosse para o que fosse as indicações do ilustre historiador e o seu partido entretanto, em 3 meses, acabou: nem faz oposição, nem sequer sabe o que faz.

Há uma versão superficial para o fenómeno da persistente irrelevância e inconsequência do Pacheco: elitismo. Embora se imagine aristocrata, ao Pacheco falta disciplina para ultrapassar o nível de publicista e atingir o de intelectual. Por isso repete o fado corporativo e egocêntrico, pacóvio, que é matriz nacional desde o Estado Novo: se há direita inteligente, é a dele; se há um PSD verdadeiro, é o dele; se há análise política de qualidade, é a dele; e se há blogue que valha alguma coisa, é o dele. Tudo que tenha algum valor, começa por ser dele. Garantida a posse dos recursos, permite-se abrir a porta para deixar entrar mais alguns, necessariamente muito poucos, os quais até poderão nem fazer ideia porque foram escolhidos. Eis a lógica da elite: o mérito é o resultado da eliminação da concorrência.

E há uma versão de profundidade, onde o Pacheco se revela como o funcionário que não sabe como viver sem ser à custa da fazenda pública, fado nacional. Por isso aceita ser uma vedeta da política-espectáculo, habitando no melhor dos dois mundos: não se cansa nem desgasta a governar ou chefiar, e não tem compromissos que o impeçam de criticar qualquer um dos governantes e chefes. É como aqueles empregados que fingem estar a trabalhar recorrendo à simulação de uma agitação para patrão ver. Andam a correr de um lado para o outro com papéis na mão ou batem furiosamente no teclado, mas nada produzem. Assim é o Pacheco, dentro de dias a fazer 60 anos, sem ter quem o oiça fora da legião dos zangados, dos impotentes que se assustam com a mínima alteração ao seu desespero calado. Para além da profícua e altamente valiosa investigação histórica, o seu sonho é agora apenas o de fugir para o conforto do Parlamento Europeu, Portugal que se dane. Mas curar a ressaca de tamanha frustração, causada por um Sócrates tão arrogante e incompetente que até conseguiu afrontar os profetas da desgraça e reduziu a fanicos a mitologia cavaquista, não se faz sem um acto de contrição. Se, em vez de ter perdido tempo a remar contra a corrente do tempo, tivesse assumido o combate de salvar o PSD, o Pacheco não estaria hoje a bater no fundo.

20 thoughts on “Pior de 2008”

  1. Porra valupi será necessário escrever tanto para dizer lugares comuns? A esta hora o Eça deve estar às voltas na tumba por causa desta tentativa de copia do estilo queirosiano ;-)

    Dá pena ver pessoas inteligentes como o valupi usarem estes meios para dizer mal dos outros, ainda por cima de forma torpe. Parece que é das poucas coisas que fazes bem!

    Oh Valupi, tu fazes-me lembrar aquele provérbio popular “tenha a culpa quem a tiver, quem as paga é a minha mulher”

    Coitado do Dantas!

    Começo a perguntar-me se esse teu ódio não te provoca azia?

    Já agora, o JPP de que forma vive à custa da fazenda pública?

  2. Ó Joca o unico que consegue descascar no JPP com sabedoria é o Pinto da Costa ;-)

    Mas como diria o próprio JPP essa não é a questão fundamental ;-)

    O problema do valupi é que o JPP, bem ou mal, lá vai mantendo a sua verticalidade (será que o valupi tem inveja disso?), veremos o que vais acontecer à sua posição relativamente a MFL.

    Joca aguardemos a ver se o valupi concretiza a questão da fazenda pública, mas desconfio que não !

  3. presença das formigas, trazes dois bons exemplos. Vistos de fora, parecem fracos (ou muito fracos). Vistos no conjunto governativo, funcionam. De resto, a sua fama vem de um anedotário alimentado pela superficialidade e má-fé.

    Mas é isso, qualquer Governo é um grupo heterogéneo de personalidades. E nada impede que uma qualquer figura escolhida se revele medíocre, ou má, pelas mais desvairadas razões.
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    Ibn, já resolvi o enigma que rodeia os teus comentários: andas a tirar o antigo 5º Ano dos liceus pela Internet. Mas a coisa não te está a correr bem, aposto. Por isso, vou ajudar-te: quando relacionas os “lugares comuns” com o “estilo queirosiano”, o que queres mesmo dizer à malta é que assimilaste um conjunto assaz importante de ideias novas e que, ainda por cima, achaste o texto muito bem escrito. Porém, como a tua memória só funciona por pacotes de 5 minutos, 5 minutos depois de teres lido o texto já achavas que as tais ideias estavam em ti antes da leitura. E também ficaste com a impressão de que o estilo te lembrava alguém famoso. Como de literatura só conheces dois nomes – Eça ou Saramago – apostaste, à cautela, no Eça para fazer a comparação.

    Quanto à fazenda, fica-te bem teres feito a pergunta. É o que deves fazer mais vezes, perguntar quando não entendes qualquer aspecto da realidade circundante. Cá vai a ansiada resposta: directamente, através dos seus cargos de deputado na Assembleia da República e no Parlamento Europeu, como alto funcionário de organismos públicos e ainda como professor; indirectamente, através do papel de analista político na indústria da política-espectáculo.
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    Joca, sábias palavras.

  4. Gostei de Pacheco Pereira em tempos idos. Admirei particularmente a sua coragem e frontalidade quando, contra a tónica prevalecente e bem-pensante desse tempo, discordou ruidosamente dos bombardeamentos da O. T. A. N. sobre Belgrado, em 99.

    Últimamente, contudo, sinto-me por completo desfasado da sua perspectiva política e analítica. Lamento a perda e é tudo quanto a essa personagem.

  5. Ó Valupi, e tu o que fazes da vida? Com um bocado de jeito também és prof. e vives da “fazenda pública” por dares umas aulas…que palhaçada…

    Resumindo:
    Meus senhores,
    só é suficientemente isento para dar a sua opinião sobre qualquer assunto aquele que, por herança, sorte ou qualquer outro método licito que não implique trabalho, tenha adquirido fortuna suficiente para que possa viver de rendimentos próprios.

    Aqueles que trabalham para o estado (especialmente os professores) não podem falar de nada, visto que “vivem da fazenda pública” e, se apesar de estarmos numa democracia isto lhes dá o direito de opinarem, a moral Valupiana proibe este tipo de manifestações.

    Bom 2009!

  6. Oh homem, pelos vistos a coisa afectou-te, tem clama, conta até dez, vai fazer um chazito da tília que isso passa!

    Chegaste a essas conclusões todas acerca de minha pessoa sozinho ou tiveste ajuda? Se foi sozinho, aconselho-te a procurar ajuda, se pelo contrário tiveste ajuda, então deves procurar outra, pois, essa estorva mais do que apoia. Mas sempre te posso ir dizendo que ainda tu não fazias ideia o que era um bit (se é que já sabes) já eu usava a Internet, por isso, julgo que segundo a tua escala, nessa matéria seria catedrático!

    Bom, não tenho que defender o JPP que ele safasse bem por si só. É que tu de forma torpe deixas no ar e ideia que vive suportado pelo OE sem fazer nada, ora, como tu próprio reconheces é mentira. Foi deputado mas já não é. “alto funcionário de organismos públicos”? de que falas? Pela tua lógica, também tu, directa ou indirectamente, vives da fazenda pública.

    Não foi o JPP que recusou um cargo na Unesco só porque não estava de acordo com o governo de então? Claro que tu ignoras estes facto para facilitar a tua sanha persecutória!

    Nunca ouviste dizer que a inveja é a arma dos incompetentes? Vê lá, eu sei isso só com a 4ª classe!

    Já agora, é algum mal viver da fazenda pública? Não consta que o Almerindo Marques ou o camarada Vara, ou a tia Edite ou o amigo Coelho tenham “coxo” só por viverem da fazenda.

  7. Aconselho o Valupi(que raio de nome!) a ler o que diz hoje o José Gil sobre Sócrates e o governo.Mas é sempre bom ouvir alguém falar bem deste nosso (des)governo sem ser numa assembleia geral ou conselho de administração de uma empresa pública ou privada intervencionada pelo estado(ou banco).Só se esqueceu de dizer o tal Valupi que é da esquerda moderna.Por mim prefiro o neoliberalismo assumido do JPP do que o encapotado da “esquerda moderna”.

  8. O ano do Pachecão não foi inteiramente mau. Publicou agora a história dos comunistas pró-chineses (não confundir com proxenetas) de Portugal, mas só até 1965, não fosse ter que falar de si próprio. É obra recheada de informação curiosa e espera-se que não tendenciosa, como os seus comentários políticos.

  9. Para quem ainda ache que o pior de 2008 é o Pacheco Pereira e não o regime socretino em que vivemos.

    No país do faz-de-conta
    Ler com atenção.

    Este país do faz-de-conta é cada vez mais uma anedota pegada. Ora atentem lá nesta coisa vinda no Diário da República nº 255 de 6 de Novembro 2008:

    EXEMPLO 1
    No aviso nº 11 466/2008 (2ª Série), declara-se aberto concurso no I.P.J.
    para um cargo de “ASSESSOR”, cujo vencimento anda à ronda de 3500 EUR
    (700 contos). Na alínea 7:…
    ” Método de selecção a utilizar é o concurso de prova pública que consiste na … Apreciação e discussão do currículo profissional do candidato.”

    EXEMPLO 2
    No Aviso simples da pág. 26922, a Câmara Municipal de Lisboa lança concurso
    externo de ingresso para COVEIRO, cujo vencimento anda à roda de
    450EUR (90 contos) mensais. “…
    Método de selecção:
    Prova de conhecimentos globais de natureza teórica e escrita com a
    duração de 90 minutos. A prova consiste no seguinte:
    1. – Direitos e Deveres da Função Pública e Deontologia Profissional;
    2. – Regime de Férias, Faltas e Licenças;
    3. – Estatuto Disciplinar dos Funcionários Públicos.
    Depois vem a prova de conhecimentos técnicos: Inumações, cremações,
    exumações, trasladações, ossários, jazigos, columbários ou cendrários.
    Por fim, o homem tem que perceber de transporte e remoção de restos mortais.
    Os cemitérios fornecem documentação para estudo. Para rematar, se o candidato tiver:
    – A escolaridade obrigatória somará 16 valores;
    – O 11º ano de escolaridade somará 18 valores;
    – O 12º ano de escolaridade somará 20 valores.
    No final haverá um exame médico para aferimento das capacidades
    físicas e psíquicas do candidato.

    ISTO TUDO PARA UM VENCIMENTO DE 450 EUROS MENSAIS!

    Enquanto o outro, com 3,500!!! Só precisa de uma cunha.

    Vale a pena dizer mais alguma coisa?
    Este regabofe do socialismo de plástico tem que ter um fim.
    Urge que se mostre indignação.
    Basta de cinismo e de hipocrisia!

    José Sócrates é o pior de 2008

  10. Marco Alberto Alves, é o sentimento de muitos.
    __

    Jose Nunes, desejo-te um 2009 excelente.
    __

    A. de Anónimo, desejo-te um 2009 excelente.

    Também já fui professor na escola pública, mas não agora.

    O que está em causa é o facto de Pacheco se servir do Estado como um privilegiado, daí estar a tentar ir para o Parlamento Europeu.
    __

    Ibn, se foi deputado, a reforma de deputado já lá mora, fora outras. E o que está em causa é a tentativa de ir para o Parlamento Europeu. Quantos cidadãos têm acesso a esse tipo de mordomias?

    Quanto ao caso da Unesco, é apenas um caso que não vem ao caso. O seu trajecto profissional tem outros cargos noutros organismos públicos.
    __

    GL, concordo muito contigo.
    __

    Zé Coimbra, o que o José Gil diz hoje de Sócrates não retira uma vírgula à importância do que disse de Portugal em 2005. Mas não temos de concordar com ele agora só porque concordámos outrora.

    Quanto ao que tu pensas de Sócrates, do Governo e do PS, boa sorte para as eleições.
    __

    Nik, o ano para o Pacheco pode ter sido bom, mas para Portugal a sua atitude e comportamento político foram miseráveis.

  11. “O seu trajecto profissional tem outros cargos noutros organismos públicos”

    E que lugares são esses? diz-me que eu não sei!

    “… se foi deputado, a reforma de deputado já lá mora, fora outras.” Sim as deles e de todos que cumpriram os mandatos suficientes para as obter, se aproveitou o sistema vigente não fez mais que os demais, certo? como aqueles exemplos que te citei mas que tu deixaste passar, pois esses são amigos, e os amigos não têm defeitos só virtudes!

    “Quanto ao caso da Unesco, é apenas um caso que não vem ao caso.” Claro que é apenas um caso, mas um caso que demonstra o cárter das pessoas. Claro que não vem ao caso, não fosse o caso de te estragar-te a argumentação!

  12. “Aconselho o Valupi(que raio de nome!) a ler o que diz hoje o José Gil sobre Sócrates e o governo.”

    Gosto de José Gil e muito gostei de ler “O Medo de Exisitir”. Mas tenho para mim que ele, de uns tempos para cá, está um bocado choné. Li uma entrevista que deu ao CM há uns dias e achei que não dizia coisas com coisa. Não inscreve.

  13. valupi, quanto ao vinho, sabes tenho pensado o mesmo, mas depois de uma garrafita de tinta roriz de 2000 da Adega Cooperativa de V.N. de Foz Côa percebo porque não o largo!!!

    Quanto ao que interessa, mais uma vez quando se te pede para concretizar foges como o diabo da cruz, será porque? Porque não consegues sair do registo de discurso insidioso e insinuante à boa moda BE? Será que de facto agora como em outras discussões não tens factos que sustentem o discurso?

    Como chamaria tua a uma pessoa que faz afirmações que não consegue concretizar?

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