Partido Sujo e Decadente

Passos Coelho e Pacheco Pereira. Duas figuras radicalmente diferentes, mesmo antagónicas, em vários aspectos das suas personalidades públicas, ideários, trajectos profissionais e responsabilidades políticas. Contudo, ambas representam o PSD dos últimos 20 anos, de modo pleno nos últimos 10. A uni-las para lá da diversidade aparente e substancial está a mesma ausência de escrúpulos, a mesma cumplicidade com os poderes fácticos desta direita apavorada que tem orquestrado uma luta política suja e decadente.

O Pacheco é um profissional da política-espectáculo e da indústria da calúnia. Foi um quadro partidário muito importante durante todo o cavaquismo, mas nunca ninguém lhe leu uma linha acerca desse tempo e da natureza moral, ética e legal das práticas partidárias e governativas que estão associadas ao fenómeno social e criminal do BPN. Do BPN, por exemplo; por ser, no mínimo, um exemplo incontornável no seu contexto biográfico, mas o cavaquismo foi muito mais do que isso no que diz respeito à apropriação do Estado para servir interesses particulares. Voltou desasado às lides políticas para ser o principal conselheiro, e estratega a mielas com Cavaco, da campanha de Ferreira Leite para as legislativas de 2009. Desse período, ficou o modo celerado como se entregou à promoção das golpadas judiciais e mediáticas contra Sócrates, com logística e patrocínio de grupos de comunicação social, magistrados e Belém. Arrastou esse ódio a outrance até ao seu limite, tendo conseguido enfiar o focinho nos cueiros de Sócrates dentro de um cubículo na Assembleia da República. Nunca nada explicitou do que leu, nunca nada provou do que caluniou, e viu-se desmentido sem margem para dúvidas por um deputado comunista que igualmente leu o resultado dessas escutas ilegais feitas e conservadas em Aveiro com o único intuito de criar um caso político que desse a vitória ao PSD nas eleições de 2009, ou que fragilizasse fatalmente o PS e seu Governo caso os socialistas as ganhassem. Em 2017, o Ministério Público continua a seguir esse plano, como nos informa em garridas capas o seu órgão oficial. E em 2017, o Pacheco continua igualmente a mentir ao serviço da sua obsessão, como inveterado narcisista agarrado à paixão funesta onde se sonhou herói. Ontem, no meio de banalidades e evidências acerca da decadência do PSD, largou esta oração “a crítica política solitária de Manuela Ferreira Leite ao caminho de Sócrates para a bancarrota.” Trata-se de uma recriação livre da História, pois a Manela nunca se referiu ao que estava quase a acontecer, a crise das dívidas soberanas que começou pela Grécia em 2010 e viria a arrastar vários países europeus para resgates de emergência e planos especiais de financiamento. Do que a seríssima e vera senhora falava era do custo que as “gerações futuras” teriam de pagar por causa de um aeroporto por decidir e uma linha de TGV por construir nas contas de um país que, em Setembro de 2009, estava com nota AA nas agências de notação financeira. Igualmente com Ferreira Leite aprendemos que a recessão mundial de 2008 tinha sido um “abalozinho”, assim exibindo os seus pergaminhos em matéria de honestidade intelectual, decência política e cara de pau. Nem ela nem o fogoso Pacheco sonhavam com o abismo para onde a Europa iria enviar alguns países e suas populações logo ali ao virar da esquina. Se tal imaginassem, teriam posto aí todo o poder de fogo. Em vez disso, desenharam uma campanha que consistia no assassinato de carácter, na pressão mediática caluniadora e nos crimes e abusos praticados impunemente por agentes da Justiça. Apesar disso tudo, apesar da gigantesca convulsão no eleitorado socialista provocada pela tentativa de avaliar os professores, Cavaco, Manela e Pacheco perderam essas eleições.

Passos Coelho é um político cujas principais características são o oportunismo e a vacuidade. Um Zelig que em 2008 elogiava Sócrates só para assim poder atacar Ferreira Leite, e que se fantasiou como “liberal” porque essa ala fanática e ressabiada da direita estava disponível para o apoiar num momento de pânico em que a oligarquia via ruir a sua estrutura de poder bancário. Provavelmente, e dando um exemplo ilustrativo do albergue espanhol que constituiu o suporte propagandístico da maior traição aos portugueses registada em democracia, Miguel Morgado não suporta conversar mais de 15 segundos com Passos, mas a sua parceria para fornecer munição ideológica fundamentalista exibe o que esteve em causa no assalto ao poder realizado em 2011. Um operativo para todo o serviço lobista, formado na escola de Ângelo Correia e que manobrava como parceiro comercial com Miguel Relvas, com a fotogenia que faltava a Ferreira Leite e sendo o que havia de mais parecido com Sócrates em poder de imagem para colocar frente às câmaras, ia ser lançado como testa-de-ferro de um plano de vida ou de morte gizado ao mais alto nível nacional e internacional – daí os papéis de António Borges, Vítor Gaspar e Maria Luís – onde iria valer tudo para derrotar o arqui-inimigo e recuperar as vantagens perdidas com a ruína do BCP, BPN e BPP. Nunca se mentiu tanto politicamente em Portugal, e tão às descaradas, como na campanha do PSD para as eleições de 2011. E nunca se violou tão gravemente o contrato eleitoral como no Governo de Passos e Portas, naquela que foi uma tentativa de reengenharia económica e social apenas contida pela manifestação de 15 de Setembro de 2012 e pelo Tribunal Constitucional. Presidente da República, António José Seguro e comunicação social foram cúmplices de um programa de achincalhamento e depauperação dos mais pobres, da classe média, das pequenas e médias empresas. Esta violência política, assumida no registo verbal tamanha a soberba e alucinação daquela gente, foi a eleições em 2015 em condições que são abafadas quando Passos e corte reclamam vitória. Primeiro, o PSD concorreu coligado. Só por isso, ninguém do PSD pode reclamar um triunfo que se individualize. Os votos dados à PAF não foram dados ao PSD, mas sim aos dois partidos por igual. Corolário: o PS foi o partido que teve mais votos e mais deputados, embora não tantos como os da coligação. Ora, onde está hoje essa coligação? Em lado algum, apenas temos o número de deputados estabelecido pelo acordo entre as duas forças. Logo, se a PAF desapareceu após as eleições por não ter maioria parlamentar, a solução de Governo actual era a única legal, racional e politicamente possível, assim consagrando a vitória do PS em 2015. Segundo, a forma como António Costa chega a secretário-geral do PS causou alguma erosão no eleitorado socialista. Costa, para além das suas fragilidades políticas no plano da exibição da liderança, teve muito pouco tempo para sarar as feridas causadas pelo processo eleitoral interno dos socialistas. Isso, e nada que tenha relação com a preferência dos eleitores por Passos, explica também a votação das últimas legislativas. Terceiro e último, a detenção de Sócrates, preparada para ser um espectáculo televisivo e mediático esmagador, e a sua prisão, sob pretextos ilegítimos e abusivos, condicionaram profundamente a afirmação de Costa, mais o ano e processo eleitoral com o qual se sincronizou. Junte-se a este ramalhete as irresponsáveis decisões sobre a banca só para se poder festejar a “saída limpa”, assim como a obscena mentira da promessa de devolução do IRS, amplamente divulgada pela imprensa laranja. Perante este quadro, ver Passos e restantes fanáticos moribundos a berrar contra o PS não dá vontade de rir nem de chorar. Dá vontade é de pegar na mangueira.

A decadência do PSD pode ter tido o seu início com as maiorias de Cavaco, numa típica deriva para abusos de poder por parte das maiorias quando as lideranças apenas procuram o poder pelo poder. A decadência do PSD teve um momento de exuberante manifestação com a traição de Durão Barroso ao País e ao seu juramento eleitoral. Mas esta sujidade onde a política fica reduzida a assassinatos de carácter, tabloidismo militante, caluniadores profissionais, golpismo judicial-mediático e retórica de vendedores da banha da cobra implica reconhecer que talvez ainda esteja por nascer quem consiga inventar uma direita decente, inteligente e corajosa.

35 comentários a “Partido Sujo e Decadente”

  1. Excelente.
    Mas, para memória futura, é preciso dizer, explicitamente, que Passos quis (ou melhor, os que pensavam por ele) a intervenção da troika em Portugal.
    Que essa intervenção era desejo dos banqueiros, que Passos, com a sua famosa coluna pouco vertebral, venerava.
    Incluindo o Salgado, grande amigo do Cavaco, da péssima memória, e o inefável primo com nome de estilista italiano, que, devido a um arrufo, arrumou com a Casa do Espírito Santo.
    É preciso, também, que se recordem, todos os dias, das dívidas à Segurança Social, das acusações da brigada anti-fraude da União Europeia à empresa Tecnoforma, das cedências do Oceanário ao dono do Pingo Doce, ao genro do Cavaco do Pavilhão Atlântico, da venda de uma empresa pública, monopolista!, a uma empresa chinesa, da venda da TAP por parte de um governo em gestão (ainda por cima, justificada com mentiras), da venda criminosa para o país da ANA, do conselho do Cavaco, do Passos e do Carlos Costa para apostar no BES na véspera da sua falência, etc, etc, etc.
    Há muito para se falar desse tempo. Muita porcaria. Convinha que alguém fizesse e publicasse uma sebenta com os desmandos dessa gente tão miserável e poucochinha.

  2. O esforço que esta gente faz para tentar dar um ar de legitimidade a este governo.
    Já chega, pronto. O PS, a mal ou a bem, lá chegou, açambarcou o poder e mais nada. Não têm que andar a justificar o injustificável.

    Então para quê este esforço outra vez? Porque sabem que o PCP vai roer a corda.
    Das duas uma: ou o PS cede e o défice vai disparar ou a geringonça vai-se desmoronar e o PS vai tentar a maioria absoluta à custa destes dois anos de geringonça. Qualquer das hipóteses causa calafrios. Toca de preparar terreno para uma eventual campanha na procura da maioria absoluta. E nada melhor que tentar legitimar a geringonça que vai ser o sustento dessa campanha.

  3. puches, pois claro que Passos quis a Troika. Isso, pelo menos neste blogue, é dito e repetido desde Março de 2011.
    __

    eremita, partilha connosco o que achaste fascinante. Só um reparo: o aumento da dívida portuguesa a partir de 2008 não tem qualquer relação com a crise das dívidas soberanas.

  4. Os PS’s, e outros, têm inveja de Passos Coelho: quando tal parecia impossível… apareceu alguém com coragem de dizer NÃO ao senhor Salgado – Passos Coelho!

  5. frar,
    não foi dizer Não ao senhor Salgado, não. Foi mandar às urtigas o sistema bancário-segurador português e abrir uma mina para os negociantes de créditos pôdres.

  6. A defesa incansável que fazes do PS e de Sócrates é fascinante. Quanto ao reparo, é evidente que a crise das dívidas soberanas ainda teria acontecido se a nossa dívida pública não tivesse aumentado tanto a partir de 2008, mas o impacto da crise das dívidas soberanas em Portugal não teria sido tão grande se a dívida pública tivesse ficado pelos 72% de 2008.

  7. eremita, imaginando que tu, num universo paralelo, eras obrigado a justificar a “defesa” do PS e de Sócrates que declaras ser exercida por mim nestas folhas de couve, ficarias à nora. Por exemplo, neste texto. Onde é que está a “defesa de Sócrates e do PS”? É que nem sequer no espaço em branco entre as letras. Aconselho-te a fazer o exercício para não passares os dias com essa deturpação cognitiva a pesar-te na consciência.

    Quanto ao que dizes da relação entre a dívida soberana de Portugal e a crise das dívidas soberanas, estás a resvalar para o argumento do “se a minha avó estivesse viva não poderia estar morta”. O que colocou Portugal como alvo nessa crise foi a conjugação da alteração ocorrida nas agências de notação, que passaram com o caso da Grécia a penalizar drasticamente os reais desvios nas contas públicas levando a descidas de nível já sem relação com a economia real, e a situação política em Portugal, onde para a direita o boicote ao Governo era imprescindível para a tentativa de tomada do poder. Daí Cavaco ter viabilizado um Governo minoritário e Passos ter chumbado o PEC 4. It’s not rocket science.

  8. Caro Eremita, compartilho a sua opinião sobre a trabalheira do original escrita, no seu afã servil .
    Fascinating !
    Nem vale a pena rebater .
    Como se a austeridade não tivesse começado já com a parelha Sócrates/Teixeira dos Santos … e por aí adiante .
    Sócrates, na sua infinita megalomania e incomensurável incompetência política, apenas foi o iniciador do desastre a que Portugal foi conduzido . Já Passos, esse não menos incompetente, foi o miserável catalizador e o continuador que acelerou a ruína da Pátria . A par do não menos incompetente e manhoso, Portas .
    Não existe pior crime de lesa pátria do que aquele cometido por pessoas, que mesmo na desgraça que se abateu sobre a nação, prosperaram e fizeram fortuna nas ruínas . E esses existem . Miseráveis !
    Já quanto a Valupi, limita-se a repetir a lamúria do cigano sedento, a caminho do Algarve : ai que sede que eu tenho ; ai que sede que eu tinha …
    Já vem do tempo do juiz Ricardo e da máxima O imperador e o Moleiro ( do Prós e Contras, da Operação Face Oculta, em que o Zezito é fortuitamente ouvido numa comunicação ao querido amigo Vara ) .
    Já vem daí a lenga-lenga : “ ai que perseguido que Sócrates vai ser ; ai que perseguido que Sócrates está a ser ; ai que perseguido que Sócrates foi ! “

    PS : dizia-se no tempo dos meus avós “ se queres sair da morrinha, mete-te na farinha “ . Por outras palavras, se queres sair da cepa torta, se queres ir longe, e estar bem na vida, mormente, do ponto de vista monetário, mete-te no negócio da farinha – onde já ao tempo, se faziam mixórdias .
    Presentemente, dir-se-á : “ se queres estar bem na vida, arranja um lugar como assessor ou spin doctor “ .

  9. “Estas mudanças qualitativas ( Era um projecto de engenharia social, completamente alheio ao programa social-democrata do PSD,) nunca foram assumidas nos documentos oficiais do PSD.”

    Pacheco vem dizer-nos, só agora, que Passos era e é um mentiroso qualificado que enganava, por ocultação e juras de social-democracia falsas ou mentiras descaradas, as próprias estruturas do partido e consequentemente os seus militantes politicamente próximos dos fundadores.
    Nós já sabíamos há muito e muito especialmente desde a campanha para as legislativas de 2011 que Passos era um puro mentiroso mas inábil e vazio de pensamento e ideias que se limitou a assimilar o diktat da troika de que fez sua bandeira e, para dar-se ares de conhecimento económico e fingir saber o que queria mesmo depois de Gaspar bater com a porta, passou a andar a reboque do escroque Borges e da schaublina Albuquerque a insistir na destruição do tecido económico, na morte da classe média e do elevador social, na construção forçada estalinista de uma sociedade dual: proletários x elites.
    Ora Pacheco podia e devia ter-nos alertado para tal em devido tempo, mas não, armado agora em historiador vem relatar-nos o que aconteceu, o passado o que como opinador e comentarista político e, sobretudo como cidadão amigo dos portugueses, nos devia ter dito em cima dos acontecimentos que faziam sofrer e perder esperança aos portugueses sujeitos ás tropelias miseráveis de estilo moral vingativo.
    E, claro, Pacheco enterra Passos, só agora, para estabelecer uma comparação que que lhe permita fazer elevar e enaltecer Cavaco, o seu rei-sol e Ferreira Leite e Rui Rio os seus delfins velharias do cavaquismo sobrevivente. Porque o que Pacheco pretende e faz sempre nas suas análises é esconder o fundamento onde tudo começou, precisamente a causa geracional; Cavaco e o cavaquismo. E esconde porque também ele, Pacheco, está enterrado até à medula no apoio e cobertura da pior escroqueria corrupta que já houve por cá em democracia. Passos é o corolário inevitável da escola e pensamento cavaquista que pelas suas ineptas e vingativas acções, mentiras sobre mentiras para encobrir mentiras e amanhanço descarado individual da troupe cavaquista, levou os portugueses a julgar e tomar todos os políticos como “iguais” e deste modo, sob tal labéu ou chapéu comum, ficarem escondidos abrigados os verdadeiros corruptos.
    Pacheco, como ideólogo do cavaquismo e comentarista habilidoso escutado, é um dos principais responsáveis pela cobertura da plêiade de corruptos cavaquistas e transposição dessa corrupção epidémica para cima de Sócrates imolado todos os dias na praça pública como catarse, encobrimento e salvação dos verdadeiros corruptos.

  10. Valupi, parece que estamos a repetir uma discussão antiga. É a defesa óbvia e o elogio. Neste último texto, temos a tese de que os problemas de Sócrates com a justiça resultam (exclusivamente, depreende-se) de uma perseguição política e temos ainda o elogio à sua mítica capacidade de liderança. É tão óbvio para toda a gente que não vale a pena fazer disso uma discussão. Aliás, eu nem sequer te critico por isso, é mesmo (sem ironia) fascinante.

    Devo então concluir que os “reais desvios nas contas públicas” não têm responsáveis? A tua argumentação é deliciosa. Imaginemos um “blackout” a coincidir com uma greve da polícia. Há o caos na cidade e assaltos por todo o lado durante dias. O pessoal habitua-se a gamar e faz disso modo de vida; toda a gente se adapta à nova economia. Quando a luz regressa e a polícia acaba a greve, o pessoal queixa-se de que mudaram as regras a meio do jogo e que assim “não vale”. Valupi dar-lhes-ia razão. Vê lá se adivinhas quem, em 2011, disse isto, em 2011 (podes usar o Google): “”A clara mensagem da crise de dívida soberana foi a de que Portugal “tem vivido acima das suas possibilidades (…) o que o mundo está a dizer-nos é que não é possível que o País sistematicamente gaste 8 ou 9% mais do que aquilo que produz”. Enfim, também não vale a pena reeditar pela enésima vez a discussão sobre os responsáveis pela crise. Pelo menos não contes comigo, porque não discuto com quem tem visões maniqueístas e de economia parece perceber tanto como eu. Apenas te recomendo que quando repetires esses exercícios de memória sejas um pouco mais rigoroso, não reduzindo as críticas a planos para obras faraónicas que nunca chegaram a pesar no orçamento e esquecendo, por exemplo, as PPPs , que durante os governos de Sócrates superaram em número e montante o que todos os outros governos juntos fizeram de 1986 a 2004, e efectivamente são uma herança pesada, ou as reservas de dinheiro que desapareceram e o calote na saúde, que viriam a ter impacto nas dívidas de 2011 e 2012.

  11. ò marmita, essa porra dos “reais desvios nas contas públicas” têm responsáveis, o primeiro chama-se união europeia e existe um documento com instruções para enfrentar a crise do sub-prime que aconselha o estado português a fazer investimento público em força, o segundo dá pelo nome “roubalheira do bpn” levado a cabo pelos ex-ministros do cavaco e copiado pelos banqueiros que financiaram a sua campanha presidêncial e finalmente o terceiro, mais importante de todos, novamente o cavaco e a santa aliança que chumbou tudo o que havia sido combinado com a alemanha para evitar um resgate.

  12. eremita, pois é. Trata-se de uma repetição. E, tal como nas anteriores, nada demonstras, apenas tens para apresentar a tua subjectividade. Dizeres que, no texto acima, reduzo a Operação Marquês a uma perseguição política não passa do teu preconceito (leia-se: pré-conceito). Onde é que isso está dito, sequer sugerido? Em lado nenhum. O que digo, e os factos assim o sugerem como a hipótese mais provável, é que adentro do processo judicial que envolve Sócrates foram tomadas decisões que violam a lei, violam os seus direitos e configuram um aproveitamento político. Tu que, pelos vistos, perdes o teu rico tempo a ler o que escrevo, de certeza, então, que já tropeçaste em repetidas afirmações minhas onde atesto haver todas as razões para se investigar Sócrates. Se o MP não o fizesse não estaria a cumprir a sua missão. Mas no que escrevo acima não é essa a matéria em análise, antes a forma como se deteve e prendeu Sócrates e qual a lógica política subjacente ou associada. Ou seja, estou interessado no Estado de direito e na qualidade da democracia. Para ti, isto não passa da “defesa de Sócrates e do PS”, como se apenas admitisses juízos morais sobre a conduta de Sócrates e aceitasses descontraído e feliz o uso do aparelho judicial para a luta política partidária. Ou seja, tens automatismos cognitivos que patrulham a tua identidade, perseguindo e expulsando qualquer informação que possa pôr em causa a tua convicção: Sócrates é criminoso e tudo o que lhe está a acontecer é merecido. É por isso que tens acabado invariavelmente estas estimulantes discussões com explosões emocionais de frustração.

    Quanto a dizeres que estou a fazer um elogio à “mítica capacidade de liderança” de Sócrates, isso não será já um problema vinícola? É que me limito a descrever algo consensual, as fragilidades na expressão da liderança por parte de Costa. Tal como consensual é o poder carismático de Sócrates, algo que explica em parte os ódios suscitados. Falar disso não é “defender” Sócrates, muito menos ser apoiante do que ele fez com essa característica psicológica e social.

    O que deves concluir sobre os “reais desvios nas contas públicas” pode ser mais ou menos objectivo. És livre para escolher em que terreno o mundo te parece mais bonito. Se for menos objectivo, então começas por deturpar o que os teus interlocutores estejam a dizer. No caso, não consta que tenha afirmado não precisarmos de identificar os responsáveis. És tu que colocas essa intenção em mim pelas mesmas razões pelas quais achas que qualquer crítica à Operação Marquês tem de ser uma defesa de Sócrates. Ora, duvido muito – tanto que tu próprio já o antecipas – que tenhas interesse em discutir a questão do que aconteceu às contas públicas entre 2007 e 2011 com objectividade. Mas imaginemos que sim, nem que seja só num parágrafo.

    Começando pelas PPP, qual é a fonte da tua informação? Um panfleto do PSD? Seja qual for, há uma característica das PPP assinadas nos Governos de Sócrates que importa recordar: elas só começariam a ser pagas vários anos mais tarde. Era por isso mesmo que, no ataque de Ferreira Leite, a ameaça era colocada nas “gerações futuras”, dado que os investimentos não teriam influência orçamental nos anos imediatamente a seguir. De seguida, qual é o problema com as PPP? Não são um instrumento legítimo para o desenvolvimento de um país? Tens alguma reflexão a respeito ou papagueias a propaganda desmiolada? A respeito das “reservas de dinheiro que desapareceram ” e do “calote na saúde” não sei do que falas, mas estou muito interessado em aprender contigo. Chuta esses dados, please. Vou só à questão das regras que se alteraram. Pela analogia que trazes, é óbvio que não fazes ideia do que estou a falar. Mas, para além dessas, as das agências de notação financeira que alteraram a partir de 2010 os seus critérios de avaliação de um modo que muito contribuiu para o agravamento e alastramento do problema, outras regras igualmente mudaram sem que o Governo tivesse qualquer responsabilidade nisso: o perímetro da dívida passou a incluir, a partir de 2008, a dívida de certas empresas públicas que estavam de fora. O ponto aqui não é o de se fazer a história dessa dívida nessas empresas, antes o de ter sido racional que os Governos anteriores se regessem pelas regras então em vigor. Só na baixa política, ainda por cima vinda de quem fez exactamente o mesmo, é que tal conduta foi nefasta. Pelo contrário, era o que havia a fazer pois os números das execuções governamentais em qualquer parte do mundo são sempre uma mistela de aritmética com ficção.

    Trazes o Teixeira dos Santos num excerto onde julgas encontrar algum consolo. O meu conselho é: lê o Teixeira dos Santos todo.

  13. «É tão óbvio para toda a gente que não vale a pena fazer disso uma discussão.», alcoolismo e grave (ainda não li o post).

  14. Seria muito bom que não seja O Passos Coelho a rir por último.

    Cuidado com a geringonça «costista» não nos esbarre a todos e tenha que vir outra qualquer troica e outro qualquer «passos»
    salvar a jangada.

    O Jerónimo pode vi a pôr a cgtp em campo! depois é que são elas!

    Depois não é o diabo, passa a sermesmo o «passos» ao quadrado.

  15. Nunca a direita salvou este país do que seja.
    Aliás, a origem da crise financeira de 2008 assenta precisamente num dos (ainda) dogmas da direita: vigiar à distância que as financeiras são boazinhas e querem o nosso bem.
    O resto, no que a resgates diz respeito, é ver o dinheiro ilegalmente tirado do país no pós 25 de abril e nos disparates da AD (com o ministro Cavaco à cabeça), que o Soares e o Mota Pinto, mal passavam 6 meses de Governo já cá a tinham.
    Convém não deixar que as mentiras se sedimentem no imaginário das pessoas.

  16. Como compreenderás, não te acompanho no interesse pela análise psicanalítica do carisma de Sócrates, pois não temos o mesmo fascínio pela figura.Mas limitas-te a reciclar a velha ideia – propagandeada pelo próprio Sócrates – de que a direita começou a invejar o líder forte da esquerda durante o estado de graça do seu primeiro governo. Não há nada de novo no que escreves e no paralelo que fazes com PP, mas a persistência é… fascinante.

    Não discordo das críticas que fazes ao Ministério Público. Quanto ao contributo de outras forças para a situação em que Sócrates se encontra, nomeadamente o papel de Pacheco Pereira, parece-me uma ideia forçada. Aliás, a tua embirração com JPP é de tal grau que só me resta partir do princípio de que não estás a ser objectivo.

    Vamos então às PPPs. Um mea culpa, a começar: os governos de Sócrates só são responsáveis por cerca de 1/3 das PPP (a tabela que vi estava errada). .A única fonte sobre as PPP que li com alguma atenção (mas há uns anos, reconheço) foi o ensaio de Alfredo Marvão Pereira sobre os investimentos públicos em Portugal. Foi publicado na colecção da FFMS, pelo que não sei se consideras a fonte um panfleto, mas talvez me possas dizer qual é a tua fonte para manteres uma visão tão cândida das PPPs. Lanças duas perguntas, ambas inúteis, pois o que está em causa não é se a PPP é um instrumento legítimo mas sim se é feita de um modo que defenda o interesse público. Ora, parece haver algum consenso, tanto no Parlamento (que exclui apenas os deputados do PS da legislatura anterior), na imprensa especializada, na academia e no Tribunal de Contas de que foram feitas demasiadas PPPs (basta comparar com outros países) e/ou que são vários os exemplos de PPPS que lesam o Estado (nomeadamente as PPP rodoviárias), muito provavelmente por uma combinação de factores, incluindo a tentação política para mostrar obra sem impacto imediato nas contas públicas (no caso das PPP de Sócrates, a coisa foi calibrada para começar a ser paga ao fim de duas legislaturas completas, na lógica de que então se iniciaria outro ciclo político), maus estudos de viabilidade económica (quando são feitos), a incompetência dos técnicos do Estado na negociação destes contratos e a dependência de consultores externos. As únicas pessoas que vejo a defender as PPP rodoviárias são as que as criaram e, pelos vistos, o voluntarioso Valupi.

    Os dados sobre as “reservas” e o “calote” estão num post do Insurgente. Essencialmente, trata-se de explicar por que motivo em 2011 e 2012 o aumento da dívida foi muito maior do que o défice. https://oinsurgente.org/2014/02/03/a-falacia-do-aumento-da-divida-publica/

    Quanto à dívida, com franqueza, não me parece que nenhum dos dois seja uma autoridade na matéria, que é suficientemente complexa para que duas “narrativas” sejam aparentemente defensáveis. Provavelmente, pensas que o pec4 teria safado o país, etc., etc. Nunca será uma discussão conclusiva. Mas o que escreves sobre a irrelevância do aumento da dívida para a exposição de Portugal à crise é absurdo e a defesa das políticas de Sócrates muito contestável, porque a partir do momento em que a dívida passou os 60% não era aconselhável continuar a fazer o que todos tinham feito até então. O país foi-se pondo a jeito para a catástrofe.

    As declarações de Teixeira dos Santos não trazem nenhum consolo. Vão contra o que escreves, é só. Ler o Teixeira dos Santos todo? Deves pensar que tenho muito tempo livre.

  17. É preferível escolher um partido “sujo e decadente” do que outro que tenha ex dirigentes que foram presos e que enriqueceram ilicitamente.

  18. eremita, não precisamos de ir a correr sacar uma licenciatura em economia ou ciência política para discutir com mínimos de proveito intelectual esta questão da dívida pública e da sua relação com a crise das dívidas soberanas. Até porque os argumentos de autoridade de nada valem num terreno, o político, onde apenas se pode almejar à mais convincente narrativa. Basta-nos a cultura geral.

    Ora, se a cultura geral usada for a dos fogareiros, podemos até relacionar a temática do carisma com Freud. Tudo para efeitos de redução do interlocutor à sua irrefutável condição de psicanalisado. Porém, não consta que Max Weber tivesse necessidade dessa muleta para dissertar sobre um tema que já vem dos fundilhos da antiguidade, e que é “lana caprina” da antropologia e da psicologia evolucionista (pelo menos): o carisma é um atributo que confere eficácia e alcance nas chefias de grupos. Pondo de outro modo, é impossível ter interesse por política e desinteresse pela temática do carisma. Pelo que vamos parar à tua peculiar situação: pareces interessado em discutir a acção política de Sócrates e persegues alvoraçado as projecções que lanças sobre quem nem sequer precisa de elaborar sobre a coisa para ser carimbado como “fascinado” por fulano ou beltrano. Diria que és tu quem teria mais a ganhar na ida ao divã.

    A temática das PPP de Sócrates esgotou-se quando Paulo Campos foi ao programa de José Gomes Ferreira e o deixou a apanhar bonés. A última frase que lhe saiu, ao pulha, foi algo como “Voltaremos a falar disto numa próxima oportunidade”. Até hoje ainda não apareceu. Aqui está o meu relato, o qual responde às deturpações que voltas a trazer sobre a matéria: http://aspirinab.com/valupi/o-gomes-ferreira-ja-foi-servido-tragam-agora-o-medina-carreira-e-o-marques-mendes/

    Em lado algum defendi ser uma irrelevância o estado das contas públicas em 2011. O que recordo, por ser factual, é a história do resgate. Tu, aparentemente, ou não conheces essa história ou, por a conheceres, preferes abafá-la. Nessa história, o resgate era evitável (pelo menos, no imediato – portanto, seria de elementar lógica aproveitar essa oportunidade). E nessa história, o resgate foi o meio para uma alteração de poder através de debochadas mentiras, não foi a melhor solução para os interesses nacionais e da população – ao contrário.

    A citação que fazes do Teixeira dos Santos, se bem a entendo, pretende validar a tese de que os Governos de Sócrates é que são os culpados pela entrada da Troika por causa do seu vício gastador em auto-estradas entregues ao Grupo Lena e congéneres com vista a permitir ao engenheiro passar dois meses num apartamento em Paris com azulejos ao seu gosto. É mais ou menos isto a que aludes, certo? Pois ao te recomendar que leias o Teixeira dos Santos todo apenas te convido a não ficares agarrado a essa esquelética passagem. Junta-lhe, no mínimo, um bocadinho mais de molho: http://aspirinab.com/valupi/os-socraticos-uma-historia-de-sucesso/

    Esse discurso de Teixeira dos Santos, se fosse por ti escutado ou lido na íntegra com o que hoje se sabe, até faria com que corresses o risco de acordar socrático no dia seguinte.

  19. “A temática das PPP de Sócrates esgotou-se quando Paulo Campos foi ao programa de José Gomes Ferreira e o deixou a apanhar bonés.” Esgotou-se? Tens noção da figura que fazes? Francamente, não me tires a vontade de continuar a ler o Aspirina B. Peço-te para defenderes as PPP rodoviárias e a tua resposta é uma entrevista do JGF ao Paulo Campos? Mas tu pensas que ausência de prova de corrupção ou até a ausência de corrupção basta para concluir que os contratos foram bons para o país? Estás completamente formatado pela Operação Marquês, pá. Muda de registo, pelo menos comigo (votei Sócrates, votei Costa, nunca votei à direita). Descobre-me uma pessoa sem ligação ao PS e que não esteve envolvida na negociação que defenda os contratos. Uma pessoa. Nem te peço que te dês ao trabalho de escrever sobre o assunto. Envia-me o link.

    O resto não fica esquecido, mas agora não tenho tempo.

  20. eremita, claro que não tens tempo. Nunca tens tempo quando te aparecem os factos à frente e eles contradizem as tuas insinuações. A entrevista consiste no confronto entre o mais assanhado e deturpador dos jornalistas na área de economia, especialista em corrupção socrática, com uma das figuras mais achincalhadas dos Governos de Sócrates. Tens ali uma hora de factos contra factos. Se tivesses tempo para gastar com ela, poderias tentar fazer o que o Gomes Ferreira não conseguiu: provar as suas calúnias.

    Entretanto, o tua última linha de trincheira, numa conversa que começou com o “disparo da dívida pública em 2008”, é a ausência de um coro público que elogie as PPP, e só as rodoviárias?!… Realmente, estás demasiado empestado pela propaganda da direita para conseguires discutir este assunto com objectividade.

    Não voto PS, a não ser num caso de extrema necessidade. Não votei em 2005, nem em 2009. Votei em 2011, para exclusiva resistência no Parlamento perante o que aí vinha. Mas voltei a não votar em 2015.

  21. fascinante é achar que o zézito tinha carisma. a não ser que carisma seja outra palavra para narigão.
    Érase un hombre a una nariz pegado,
    Érase una nariz superlativa,
    Érase una alquitara medio viva,
    Érase un peje espada mal barbado

    Era un reloj de sol mal encarado.
    Érase un elefante boca arriba,
    Érase una nariz sayón y escriba,
    Un Ovidio Nasón mal narigado.

    quevedo era muito engraçado :)

  22. 1. Factos? Insisto. Encontra uma pessoa que não esteja directamente envolvida nas PPP rodoviárias e as defenda de forma lógica e convincente. Transformares uma crítica às PPP numa discussão sobre “calúnias” ilustra bem os esquemas mentais maniqueístas (“empestado pela propaganda de direita…”) em que te viciaste. O BE e o PCP são partidos de direita? O Tribunal de Contas está dominado pela direita? Manuel Caldeira Cabral é de direita? Todos os auditores são de direita? Sabes o estas pessoas escreveram e disseram sobre as PPP rodoviárias? Sabes quem assinou os contratos da Lusoponte? Será que em algum lado escrevi que o contrato da Lusoponte é virtuoso e apenas as PPP rodoviárias de Sócrates são más?

    Insisto. Faz a defesa das PPP pondo de lado as insinuações caluniosas de jornalistas e sei lá mais quem, porque não foi essa a crítica que eu fiz. Se continuares a não aceitar o repto, só me resta concluir que não percebes nada do assunto ou que não te dá jeito dar razão a quem critica as PPP como um péssimo negócio para o Estado (e não parte necessariamente para as insinuações de corrupção que tanto jeito te dão). Boa sorte.

    2. Queres mais factos? Explica a diferença entre o défice e o aumento da dívida em 2011. Parece que te esqueceste desse detalhe que tanto despertou a tua curiosidade.

    Depois vamos ao resgate, não está esquecido.

    Afinal, quem tem medo dos factos?

  23. Certo Valupi.
    José Sócrates só pode ser o político português pós 25 de Abril com mais carisma, maior competência governativa, maior e melhor aceitação dos seus pares internacionais incluíndo a poderosa Merkl.
    Primeiro Ministro de Portugal que deixou mais ciência, mais investigação, mais modernidade.
    O mais votado de sempre.
    Por isso a batuta do gang da mediocridade não esmorece.
    Não lhe perdoa o continuar a ser para muitos desejo de o saber liberto deste nojento e longuíssimo julgamento da pasquinagem, tvs, folhas e rádio-fonias dando voz à matilha que o teme por o saber superior.
    Não ficarão a salvo do ridículo com sua repetida cassete mentirosa e caluniosa numa investigação de encomenda e justiça a soldo sem limite de tempo pejada de truques e acrescentos tirados da cartola de alexandres&cia.
    Um fim de história é urgente para tranquilidade de cabeças sãs de gente de bem que não esquece o arrepio da longa e sinistra noite de sirenes e assalto ao Aeroporto com prisão ilegal de longos meses.
    É preciso ser muito especial para sair de cabeça erguida e mais forte que nunca.

  24. eremita, não sei onde foste buscar a ideia de que defendo as PPP. No texto que encima esta página não foi, certo? Nos meus comentários daí para baixo também não, certo? Mas tu a 5 de Outubro de 2017, às 13:10, introduziste a sigla, e logo para despejares uma falsidade (uma de várias acerca das PPP). Limitei-me a dar-te informação factual a respeito, quando ainda acreditava que estavas a discutir a correlação entre os Governos de Sócrates e o pedido de resgate: que as PPP socráticas não tinham tido qualquer influência no que se passou em 2011 para que Portugal fosse obrigado ao Memorando.

    Só que tu, sem avisares, mudaste de assunto. Pelos vistos, o solitário assunto que neste momento te interessa é relativo à minha capacidade para te apresentar uma certa pessoa, sem qualquer ligação discernível às PPP rodoviárias, que as defenda. Este teu desafio é absurdo, pois não me compete ter esse trabalho, para começar, e porque parte de um pressuposto que só existe na tua cachimónia, o de que defendo as PPP, para terminar.

    O que se passa é que não ataco as PPP só por serem PPP. Tal seria uma manifestação de imbecilidade. O que sei é que tal instrumento é usado em vários países por razões bondosas: os Estados conseguem mais e mais fácil investimento para as suas obras públicas. Também sei que, com PPP ou sem elas, qualquer decisão de qualquer Governo é passível de ser questionada, por boas ou más razões. Por boas, porque pode ter erros, pode ter ilegalidades ou pode não ter sido um exemplo da excelência que se pretende na esfera pública. Por más, porque se usam como arma de arremesso em contexto eleitoral, sendo distorcidos os seus objectivos, processos e custos. É exactamente por isso que te convido – mas só quando tiveres tempo – a veres o debate entre o Gomes Ferreira e o Paulo Campos. O jornalista está a defender o mesmo que tu, embora sendo simultaneamente mais focado e mais amplo no ataque. Para ele, todas as PPP de Sócrates são nefastas e/ou corruptas e foi por causa delas que Portugal foi obrigado a pedir um resgate de emergência. É esta a primeira bojarda que lança contra o Paulo Campos assim que abriu as hostilidades. Quem tiver tempo para apreciar as respostas de Campos verá que o famoso caça-socráticos vai ficando cada vez mais encostado às tábuas através da apresentação de factos.

    Obviamente, a política não se reduz aos factos nem estes têm sentido sem uma interpretação, sem uma narrativa. Do que consigo perceber do que vais dizendo, há quem critique as PPP rodoviárias em vários quadrantes políticos e sob vários pontos de vista. Pois bem, e então? Qual é a tua narrativa? Ainda é a de que foram duas ou três auto-estradas, que alguns consideram mal negociadas ou inúteis, que nos levaram em 2011 para a bancarrota? Se sim, deliras. Se não, do que falas?

    Quanto à diferença entre o défice e o aumento da dívida em 2011, algo que terás encontrado algures e que te agradou sobremaneira, explica tu. Quero aprender contigo.

  25. A certa altura, perguntaste: “De seguida, qual é o problema com as PPP? Não são um instrumento legítimo para o desenvolvimento de um país? ” Eu respondi. É estranho que agora me acuses de mudar de assunto. A tua única defesa parece ser uma entrevista do Paulo Campos ao JGF (que vi na altura e não me parece ser preciso ver outra vez). Nesta conversa, JGF é um espantalho que te dá muito jeito e tenho tentado que saias dessa zona de conforto de combate à calúnia, mas vejo que não és capaz. Como não és capaz de reconhecer o que pessoas de todos os quadrantes e com formação técnica infinitamente superior à tua (e à minha) dizem e escrevem sobre as PPP rodoviárias. Essa casmurrice é negação pura. Adiante.

    A diferença que parece já não te interessar assim tanto está explicada no link que indiquei e podes ler o que lá está escrito.

    Nunca escrevi que foram as PPP que nos levaram à ruína. Seria bastante estúpido, tendo em conta os termos do contrato, como sabes. Apenas critiquei os exemplos patetas de críticas ao investimento público dos governos de Sócrates que atribuíste a Ferreira Leite. A questão de fundo era sobre a génese da bancarrota e os seus responsáveis. Sobre este assunto, tenho muitas dúvidas, mas ainda hoje deixarei aqui umas ideias, sem recurso a História virtual, que nada esclarece. Para mim, a discussão vale como oportunidade de aprender alguma coisa sobre o assunto, não necessariamente contigo, mas com as leituras a que esta discussão me obriga.

  26. eremita, só falei das PPP porque tu trouxeste o assunto. Tu é que as deste como parte da “herança” que estaria na origem do resgate e da austeridade. Portanto, trazes o assunto, dizes falsidades a respeito e ainda me transformas em defensor do que nunca defendi. Neste contexto, achei que terias proveito em estudar melhor a questão. O pugilato entre o Gomes Ferreira e o Paulo Campos expõe toda a matéria de forma clara e aferível – sendo, ainda por cima, um excelente espectáculo televisivo. Se reclamas ter visto na altura, então é ainda mais bizarro que continues a reproduzir a propaganda mentirosa a respeito das PPP.

    Depois temos a insistência estapafúrdia no argumento de autoridade. Acaso me leste a reclamar algum conhecimento técnico sobre as PPP, seja lá qual for a dimensão em causa? Invocares críticas a que aludes por atacado não é refutável, mas só porque não há nada para refutar. Que importa que existam críticas às PPP para a discussão sobre as causas do resgate? O que estás a fazer é apenas uma associação, não uma correlação. Se tens formação científica, não podes ignorar esse erro. Ou, então, não se trata de um erro, como comecei por interpretar correctamente. Porém, não és capaz de defender esse nexo, pelo que passaste para uma manobra de diversão, queres falar de outra coisa: da minha incapacidade para te indicar alguém – purificado, à prova de qualquer interesse pessoal em PPP – que pudesses ler e ouvir. Bom, na verdade, arrisco uns quantos nomes, já que tanto insistes. E vou repetir a tua fórmula, indicando-os também por atacado: todas as populações locais, todos os profissionais, todos os viajantes e todos os turistas que já usufruíram, estão a usufruir e vão usufruir dessas obras. Eis a gente que procuras.

    Quanto ao artigo do Insurgente, não há nada de especial para dizer. O autor conta uma história. Nessa história, omite informação a seu gosto e realça informação a seu gosto. E o exercício pode-se caricaturar assim: tudo o que Sócrates decidiu gastar quando era primeiro-ministro foi uma irresponsabilidade e uma demência porque eu não gosto deste tipo; parte substancial do que Passos Coelho decidiu gastar foi por culpa do Sócrates, um tipo de que eu não gosto. Ou por outras palavras, a retórica ali aplicada toma como ilegítimas as políticas dos Governos socialistas, as suas opções de investimento, e apaga as circunstâncias em que tais políticas foram exercidas, a sua lógica face ao programa eleitoral e visão ideológica, assim como face aos factores económicos e políticos externos (crise mundial, inversão de políticas na Europa) que condicionaram abruptamente a governação em Portugal entre 2008 e 2011.

    Acho a tua colagem a esse texto completamente ingénua.

  27. PPP’s, Troika, Bancarrota, …, tornaram-se excelentes “bengalas discursivas” para quem tem o “alvo” bem definido, pois factos e contextos não interessam, perante o valor “demonstrativo” da imensa ignorância que campeia sobre aqueles assuntos.

  28. A minha falsidade foi um lapso meu que reconheci prontamente. Podes insistir nisso em todos os teus comentários e até a negrito, mas não me parece relevante. Tens de ter presente que não me lembro de ter escrito uma linha sobre a crise e tu não fazes outra coisa há vários anos.

    Só referi que a dívida começou a disparar em 2008 e depois mencionei as PPP porque no teu post contas uma história. Nessa história, omites informação a teu gosto e realças informação a teu gosto. A referência às PPP acabou por ser útil, pois não foste capaz de as defender, nem de as atacar. Ora, essa tua incapacidade em concordar com o que TODA a gente não directamente envolvida nas PPP rodoviárias diz sobre esses negócios é mais um sinal do teu maniqueísmo. Quanto à recusa em discutires o artigo do Insurgente, outros que concluam quem anda a fugir dos factos, se é que mais alguém lê esta discussão.

    Sobre o resgate, não tenho uma “narrativa”. A tua já sabemos qual é, mas toda a verborreia que tens produzido não é convincente e serviu apenas para te dar um ar de Pedro Silva Pereira “on steroids” e provavelmente reforçar as tuas próprias convicções. Referes-te ao chumbo do PEC 4 quase como um golpe de Estado e é delicioso o contraste com a tua argumentação criativa para legitimar a geringonça – que era desnecessária, de resto, mas foi o teu momento diácono Remédios. Ora, que eu saiba, o que aconteceu em 2011 foi apenas política. E a recusa do Parlamento em passar o PEC 4 foi apenas um episódio de uma longa sucessão de causas que acabariam por dar origem ao resgate. Isolá-lo pode ser muito útil para vitimizar o PS, mas neste artigo (http://pascal.iseg.utl.pt/~depeco/wp/wp262012.pdf), que me parece ser um relato objectivo do que aconteceu, sem “narrativas” partidárias, e nesta cronologia fina (https://www.publico.pt/2011/04/06/politica/noticia/cronologia-como-portugal-chegou-ao-pedido-de-resgate-1488628) do pedido de resgate creio que fica demonstrado que não há um único “culpado” e que Sócrates andou uns tempos em completa negação. É claro que, para ti, estas fontes devem ser “propaganda de direita”. Também não dei com nenhuma demonstração convincente de que o PEC 4 teria sido suficiente para evitar o resgaste. A impressão que fica é a de que se perdeu tempo precioso e que o PS (talvez por estar em minoria, mas não sabemos) não soube lidar com a tempestade; provavelmente, qualquer outro partido ou governante, com aquele défice, aquela dívida e aqueles juros, não teria feito melhor. Mas tua frase “Só um reparo: o aumento da dívida portuguesa a partir de 2008 não tem qualquer relação com a crise das dívidas soberanas” é mesmo extraordinária. O dilúvio não chegou apenas quando os “ratings” caíram a pique, como sugeres, pois os juros da dívida começaram a subir vertiginosamente em 2010 e o país já não se estava a financiar em condições. Em Janeiro de 2011, meses antes do chumbo do PEC 4, Krugman considerava ruinosa a taxa de juro da dívida portuguesa.

    A dívida estava a aumentar desde 2000. Se os primeiros anos do século foram de instabilidade política, o PS teve depois maioria absoluta em 2005 e pôde governar quase uma legislatura inteira sem crise internacional (não chegou cá logo em 2008, por vários motivos), mas não pôs o país a crescer como cresceu nos anos 90. É claro que podemos sempre remontar à adesão ao euro ou invocar a nossa pobreza endémica, mas não era possível continuar a acumular dívida indefinidamente sem pôr o país em risco de ficar de rastos com uma crise financeira internacional. Um PS minoritário teve depois o azar de levar com a crise. “It’s not rocket science”, mas, como António Costa um dia lembrou, cada um deve lutar pela “sua verdade”, mesmo que, neste caso, essa verdade se traduza numa oportunidade perdida para rever e melhorar de forma profunda a política de investimento público.

  29. eremita, não creio que mais alguém leia esta conversa. Vantagens de se escrevinhar nas catacumbas.

    A economia é uma ciência social. Qualquer decisão económica de qualquer governo não é puramente matemática nem cientificamente demonstrável através de experiências em laboratório, antes é interpretada de acordo com os pontos de vista políticos, e subjectivos, em compita na actualidade. Ora, por maioria de razão, dada a sua gravidade e importância histórica, algo como o resgate de 2011 em Portugal é um campo de disputa interpretativo. No caso, a opinião largamente maioritária, de acordo com a impressão empírica que recolho no meu consumo da comunicação social, é a de que a responsabilidade está exclusivamente, ou principalmente, no Governo em exercício aquando do pedido de ajuda externa. Tu vieste comentar um texto onde, dentro dessa vasta temática, critico uma ideia do Pacheco Pereira em que ele atribui a Ferreira Leite uma intenção que me parece obviamente ilegítima. E na tua crítica começaste por ser sarcástico (o “fascinante”) e ambíguo (o “reparo”). Foi isso que nos trouxe para este ping-pong.

    Nenhum dos dois vai convencer o outro, como era previsível e o andamento dos argumentos consolidou. No entanto, tiveste de corrigir algumas das tuas informações, e mais ficaram por corrigir. Também não consegues passar do argumento de quantidade (“todos dizem não sei quê”) e aposto que não tens bases teóricas suficientes para analisares as correlações entre o défice e a dívida que me mandas ler no texto de um fanático do Insurgente. Já agora, e na mesma lógica, aproveito para te recomendar a leitura do Marco Capitão Ferreira: http://expresso.sapo.pt/blogues/bloguet_economia/economia_quarta/2017-10-04-Um-histerismo-deliberado-

    Mas mesmo que fosses capaz de te mover com fluidez nas águas dos conceitos da economia dos Estados e dos mercados da dívida, tal não faria de ti um possuidor da verdade, como não faz de ninguém, inclusive dos prémios Nobel. Pelo que me cinjo àquilo para que apenas precisamos de respeito pela inteligência própria para aferir: pedir o resgate era a única solução para os problemas de financiamento que afligiam Portugal em Março de 2011? Não, é a imediata resposta. Havia outra solução, negociada com os parceiros europeus, com a Comissão Europeia e com o Banco Central Europeu, a qual tinha o público apoio de Merkel. Essa solução poderia falhar, claro, mas igualmente poderia ter chegado para se esperar por 2012 e pelo efeito Draghi. Nunca o saberemos, mas todos sabiam, em 2011, que a haver um resgate de emergência tal teria custos económicos e sociais que seriam evitados com (i) a aprovação do PEC 4 e (ii) um Governo socialista em vez do “liberal” Passos Coelho.

    Qual é a parte neste argumento que contestas?

  30. Nenhuma parte. Porque é uma especulação impossível de refutar. Não lhe chamaria um argumento, é “uma narrativa”.

  31. O ermita não refuta a “narrativa” . Mas Loução, sim. Esse não tem dúvidas de que a aprovação do pec iv de nada adiantaria. Vai até mais longe, quando afirma que é graças ao chumbo do dito que hoje temos a gerigonça. Fantástico.

  32. eremita, não lhe chamarias argumento mas é um argumento. E dos mais simples que é possível elaborar. Com base em factos, isso de haver um PEC 4 que tinha o apoio da Europa e que se destinava a resolver no imediato o problema do financiamento de Portugal, o raciocínio apenas pede que se escolha o mal menor. Entre as duas soluções, PEC ou resgate, saber qual é o mal menor do ponto de vista do interesse nacional não pede qualquer especulação, pede apenas elementar honestidade intelectual.

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