Para quê fazer jornalismo quando é tão mais fácil fazer um filme?

O Público encarregou Cristina Ferreira de um híbrido onde a propósito de alguns factos e de muitos pseudo-factos se largam opiniões, preferências, intenções. Por exemplo:

“Pouco mais de um ano depois de ter assumido o cargo em São Bento, José Sócrates e Ricardo Salgado vão traçar agendas paralelas. Mas, claro, quando se ganha muito poder, às vezes perde-se o rumo. E com o tempo o relacionamento tornou-se uma bomba-relógio.”

A jornalista não só tem uma forte convicção acerca dos efeitos que o poder causa na manutenção do rumo, seja lá o que a prosa queira dizer, como desenvolveu uma teoria que abarca as dinâmicas do relacionamento bombástico. Isto não é jornalismo porque o jornalismo não é isto. Poderá ser psicologia, ficção ou até astrologia. Mas é vendido como jornalismo porque está ao serviço de um intento calunioso.

“A estratégia estava lançada. A 2 de Março de 2007, mais de 50% dos accionistas presentes em assembleia geral travaram a desblindagem dos estatutos da PT, a condição de sucesso da OPA. Para dar força à decisão do centro de comando liderado por Granadeiro, José Sócrates instruiu Armando Vara, dirigente socialista (arguido na Operação Marquês) e vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos (com 6% da PT), para votar ao lado do BES e da Ongoing. E foi assim que a Sonae perdeu a guerra.”

Por “a estratégia estava lançada” a autora do texto remete implicitamente para o que escreveu nos parágrafos anteriores. Acontece que os parágrafos anteriores não revelam estratégia alguma, antes se resumindo a ser um conjunto de insinuações manhosas coladas com cuspo. A parte em que se diz que “José Sócrates instruiu Armando Vara” será muito provavelmente crime até prova em contrário. O remate “E foi assim que a Sonae perdeu a guerra.” é um delicioso momento de humor involuntário. Esqueceu-se a artista de incluir nesta reportagem de guerra o telefonema de Paulo Azevedo para Sócrates, não desmentido pelo primeiro, onde a Sonae tentou que o Governo abandonasse a sua imparcialidade na OPA e favorecesse uma das partes. Pormenores, enfim.

“Para um primeiro-ministro pode ser muito enaltecedor aparecer a promover uma megaoperação transnacional. Para festejar o acordo Oi-PT, José Sócrates ofereceu um banquete em São Bento, onde compareceram, entre outros, Ricardo Salgado, Carlos Jereissati, Otávio Azevedo, Henrique Granadeiro e Zeinal Bava. Hoje, todos condenados, detidos, constituídos arguidos ou visados em investigações. Para o jantar foram convidados ministros, um deles, Pedro Silva Pereira.”

Bem lembrado, o Pedro Silva Pereira. Quando é que vai de ramona para Évora? Se Sócrates é o maior criminoso da História de Portugal, como a gente séria não se cansa de berrar, e se este Pedro era unha com carne com o cabrão, como é que é possível que esteja à solta e tenha o desplante de aparecer a dizer coisas na comunicação social em vez de estar fechado em casa a vergastar-se até ao osso? Já agora, alguém acredita que o Augusto Santos Silva também ignorasse o estado de sistemática e desvairada roubalheira que Sócrates impôs como cultura nos Governos que chefiou? Pois é, ainda vamos ter mais 20 ou 30 anos de Operação Marquês até conseguirmos tornar o ar respirável.

“Semanas depois, em Lisboa, os dois principais arguidos da Operação Marquês, José Sócrates, e do Lava-Jato, Lula da Silva, não escondiam a cumplicidade que os unia, exposta, a 23 de Outubro de 2013, quando Sócrates convidou Lula e Mário Soares para apresentarem o seu livro Confiança no Mundo — Sobre a Tortura em Democracia.”

É sabido que os maiores criminosos do Mundo não resistem a expor as suas cumplicidades no lançamento dos respectivos livros. Isto é lana caprina há séculos no meio académico.

“A 24 de Julho de 2014, ao aparecer em Cascais, na Boca do Inferno, para transportar Ricardo Salgado para o DCIAP, em Lisboa, o MP dava um sinal: ninguém seria poupado. Nem os poderosos. Meses depois, seria a vez de José Sócrates ser detido no âmbito da Operação Marquês.”

Ena! Uau! Desta vez nem os poderosos são poupados! Uau! Ena! Os poderosos! Que felicidade! Abaixo os poderosos! Poderosos para a prisão! Ah, que alívio vivermos num país onde, finalmente, os poderosos estão a ter o tratamento que merecem! É lindo, morte aos poderosos!

“Hoje, os principais “actores” deste filme, mesmo os que se julgavam acima da lei, estão, de um modo ou de outro, a prestar contas à justiça.”

Cristina Ferreira sabe quais são os actores do seu filme que se julgavam acima da lei. Privilégios de ter sido a guionista, a produtora e a realizadora do tal filme. Só é pena que esteja a concorrer com ele na categoria “documentário” onde não poderá ser avaliado pelo júri.

Sócrates respondeu com “Não vem ao caso”*, onde elenca factos e deduções a partir dos mesmos e da experiência directa que reclama nas situações em causa. Seria então de esperar, diz-nos o bom senso embrulhado em cristalina ingenuidade, que o Público aproveitasse a ocasião para desmontar a argumentação socrática ou, pelo menos, para estabelecer um confronto legítimo que permitisse aos leitores um acrescento de informação e inteligência sobre matérias tão complexas e ambíguas dados os factores objectivos e subjectivos na berlinda. Só que não, limitaram-se a carimbar o texto de Sócrates como sendo a sua versão e nada mais acrescentaram. Será isto jornalismo de referência, sequer jornalismo? Não, isto é a exploração mediática de uma crença na culpabilidade de um grupo de pessoas envoltas em processos judiciais de desfecho imprevisível. Donde, não ser do interesse do jornal chegar a uma verdade alternativa àquela que se esforça por promover.

Estranho? Nada. Este é o mesmo jornal que, dias depois da OPA ter sido chumbada, no início de Março de 2007, iniciou uma campanha de assassinato político de Sócrates publicando aquilo que estava a guardar na gaveta, fosse porque não prestava de acordo com critérios jornalísticos que respeitem o seu código deontológico ou para não interferir com os interesses da Sonae. José Manuel Fernandes ficaria, a partir daí, com a obsessão de destruir Sócrates e tudo fez para tal enquanto teve o Público como instrumento de ataque. E não será a lermos o semi-pasquim que alguma vez ficaremos a saber porquê.

14 comentários a “Para quê fazer jornalismo quando é tão mais fácil fazer um filme?”

  1. Não só o Publico não aproveitou para desmontar os argumentos de Sócrates, como H Monteiro, no Expresso, nos vem dizer que, mesmo que pertinentes, tais argumentos não merecem consideração, pois têm origem em alguém que, invocando agora a independência do jornalismo, não a terá respeitou qd Monteiro era director do coiso e pretendeu publicar não sei o quê sobre uma tal licenciatura fora d’horas. E é espantoso como este tipo de lógica faz o seu caminho, uma vez que já a ouvi a várias pessoas. Resumindo: deixemos-nos de detalhes e passemos ao que interessa, a saber, a Felgueiras em directo a meio metro do sitio onde o outro foi executado pelos Mossos, perdão, quero dizer abatido, com 12 tiros à queima-roupa.

  2. O filme já tresanda. Mas pelo menos agora, além da realizadora deste episódio, passamos também a conhecer os produtores da saga, a boa da Sonae (a vítima dos poderosos, oh tadinha!)

  3. O que é facto é que, sem a prestação de José Sócrates, julgariamos ter jornalistas a escrever nos jornais. Não saberiamos estarem estes infestados de romancistas de baixo calibre ao serviço de interesses particulares que pretendem condicionar o poder sem passar pela urna de voto.

  4. “Jornalismo” será então a merda que você faz, que é “contra-jornalismo” partidário, restando saber se você é pago em posts, postas de pescadas ( ou robalos ) ou em fotocópias ( a preto e branco ) já que no seu fraco entender, os outros ( caso da grande jornalista que apouca ) serão pagos em fotocópias a cores .

  5. Este é sim o serviço de bom jornalismo que o Aspirina B presta para aliviar a doença espalhada pelos serventes mal pagos de pasquins com fim único de intoxicar repetidamente, anos a fio, a tese que todos abraçaram com sofreguidão.
    O grande vazio dum jornalismo sério para desmontar com classe a pasquinagem urge.
    O mercado está todo em aberto.

  6. PARABENS Valupi! Esta análise do que a comunicação social tradicional escreve é muito útil.
    Uma investigação simples de fazer e muito útil seria a de, para cada jornal, rádio, etc, listar
    quem são os actuais principais proprietários e os anteriores. E ainda em quais governos
    cada um desses tinha interesses que foram ou não atendidos pelos governantes.
    Como exemplo, no Brasil, durante muitos anos, a TV GLOBO anunciava
    “o que não dá no noticiário da Globo não é notícia”. Os bons jornalistas de Brasilia diziam:
    “o que dá na Globo duas vezes é para encobrir as verdadeiras notícias”.
    Quando o governo Collor de Mello negou um empréstimo a Globo para um projeto
    faraónico, ela fez uma enorme campanha contra ele, até derrubá-lo por quase-impeachment.
    POR QUE É QUE A ALTICE QUER COMPRAR A TVI? Para calar quem? Ou derrubar quem?

  7. «Cristina Ferreira sabe quais são os actores do seu filme que se julgavam acima da lei. Privilégios de ter sido a guionista, a produtora e a realizadora do tal filme. Só é pena que esteja a concorrer com ele na categoria “documentário” onde não poderá ser avaliado pelo júri.» Confesso que comecei a ter pena da qualidade dos posts no Aspirina B, e neste percebe-se porquê.

    Nota. Nem preciso de ler em detalhe o que escreveu o José Sócrates, como eu sei, tu sabes Valupi, o MP e todos as outras pessoas à excepção de uma dúzia de desmiolados o ex-PM não sabe escrever e, ainda menos, ordenar as ideias e deixá-las num papel.

  8. Adenda, em tempo. Só uma nota: a mim não me interessa o que os outros escrevem em nome do José Sócrates sobre o seu passado governamental longínquo, e que depois conseguem publicar nos jornais. Nem me interessa nada, confesso!, o presente do typo, mas sei que será bastante provável que o encontrarei num futuro mais ou menos distante. Não numa Pizzaria ou nas Docas, mas através dos ecos que chegarem à opinião pública sobre as sessões do julgamento da Operação Marquês.

    Como, eis a pergunta que eventualmente me interessará.

  9. Valupi, não te melindres com quem escreveu essas cenas verdadeiras.
    Não precisas de admitir que são do melhor que tens por aqui (embora esta comparação seja desnecessária porque há por aqui uma série pequenina de desmiolados…), vá coraggio.

  10. Fazer um filme leva tempo, custa muito dinheiro e é visto por elites do coro pelo que não acrescenta ignorância à igorância, não multiplica nem reproduz o engano, pois chega a muito poucos e não atinge a grande “massa” ignorantizada pelo jornalismo e tv que há.
    Assim todos os serventes do dono pelo jornalismo prefere escrever diariamente guiões, narrativas, roteiros e ficções para filmes que fazer filmes.
    A ‘Altice’ também já viu que por cá o melhor para ela é ser dona dum altice meio de propaganda e ataque a quem não lhe vá à mão: Costa pôe-te a pau!

  11. E um nojo a situação da actual comunicação-social. Nem um sequer dos orgãos de informação, quer escrita quer televisiva ou radiofónica é independente dos grandes interesses económico-financeiros. Estou em dizer que hoje a dita “comunicação social está tão, ou mais, controlada do que durante a ditadura em que havia censura. Porque, nesse tempo, pelo menos, existiam alguns jornais independentes que, por vezes e através de subtis meios- entendidos, ainda conseguiam fazer passar algumas verdades e, principalmente, existiam verdadeiros JORNALISTAS INDEPENDENTES, capazes de afrontar os censores e a perseguição da ditadura, quantas e quantas vezes presos pela PIDE, mas sempre lutando pela sua deontologia profissional e pelos seus ideais democráticos. Infelizmente, hoje, mais não temos do que uns tantos escribas, às vezes nem sequer bem pagos, a pesporrar nesses pasquins aquilo que os seus donos, os que lhes compraram a consciência, lhes mandam escrevinhar. Com algumas (muito poucas) honrosas excepções.

  12. Henrique Monteiro, o inesquecível director do semanário que se recusou a publicar a peça jornalística mais importante da última década – a prova insofismável da inventona das escutas de Belém – veio agora tentar dar lições sobre censura (!!??), independência dos jornalistas, etc. Claro que era muito mais importante insinuar que o diploma de Sócrates era ilegal porque tinha sido registado a uma hora tardia do que expor a moscambilha mafiosa de Cavaco, Fernando Lima e Zé Manel Fernandes, perpetrada pouco antes de umas eleições e com o óbvio fim de as influenciar.

    Monteiro leu a recente resposta de Sócrates ao Público e não questionou nenhum dos seus argumentos, mas simulou um chilique ao ler o parágrafo final, em que Sócrates aponta a indignidade do jornalismo e da jornalista do Público, descaradamente “ao serviço dos interesses económicos dos proprietários”. Porém, também em relação a esse parágrafo, Monteiro omitiu completamente a substância dos argumentos a atirou-se de cabeça a um ataque ad hominem. É o que acontece quando os argumentos faltam aos mais reles opinadores: põem de lado a substância do caso, esquecem os argumentos e atacam a pessoa com a navalha mais sebosa que tiverem à mão.

    Ficámos, assim, totalmente sem saber o que Monteiro pensa sobre a independência e isenção do jornalismo do Público à luz daquela abjecta reportagem de 11 páginas que o pasquim da Sonae publicou ao serviço dos instintos vingativos dos seus donos. Se calhar não pensa nada, como um vulgar imbecil. Mas se pensa alguma coisa e se recusa a dizê-lo, por recear consequências desfavoráveis para a sua própria carreira, então é pior que um imbecil.

  13. por falar em filme, nem sei como anda a saga da operação marquês. quer dizer, sei que anda mais para menos do que para mais a avaliar pelos 20 ou 30 anos que sinda temos pela frente. :-)

    (o meu PC anda marado e não consigo ler o artigo. mas a Cristina Ferreira não é a Cristina Ferreira esganiçada, pois não?)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *