Pacheco Pereira e o lubrificante

Na continuação das bengaladas do nosso amigo Rui Vasco Neto, também quero molhar a sopa. Lobo Xavier, António Costa e Pacheco Pereira exibiram, no último Quadratura do Círculo, três posições prototípicas em relação à blogosfera: a utilitária, a ignorante e a ressabiada. Lobo Xavier disse o óbvio: os blogues são bons porque são úteis, seja para a busca de informação ou diversão. Compete a cada um descobrir quais interessam e porquê. António Costa mostrou ser um bimbo: emitiu juízos de valor cuja origem é apenas emocional, provando que não sabia do que estava a falar. E Pacheco Pereira repetiu a cassete: que era uma chatice a blogosfera não se restringir ao seu blogue e a mais um ou dois que ele aprovasse. Estas posições espelham o actual entendimento da classe política sobre a blogosfera, talvez nestas exactas correspondências distributivas.

Esta conversa de café não mereceria especial atenção, em condições normais. Mas as condições foram anormais, pois se discutiu o escândalo das casas da Câmara de Lisboa imediatamente antes do paleio sobre os blogues. Ora, não se pode falar do caso das casas sem iluminar a dimensão corruptora que envolve a prática política em todos os níveis do seu exercício. Trata-se de um fenómeno geral, extenso no tempo e no espaço, e é um tabu para todos os envolvidos – grupo onde se incluem os agentes, os cúmplices e os coniventes por conhecimento. A anormalidade está nisto de se quebrar o silêncio e ter os responsáveis a discursar sobre a matéria. Vejamos o que disse Pacheco Pereira:

A nossa política está quase no grau zero.
Toda a gente sabe que as casas na CML são distribuídas, em 40%, para pagar favores políticos, de relações de amizade e proximidade.
A mecânica dos pequenos favores, da cunha, é o lubrificante das estruturas intermédias dos partidos, com peso importante no poder autárquico.
Todas as Câmaras que tenham património para distribuir terão problemas semelhantes.
Todos os presidentes da CML, de António Costa até ao Abecassis, sabiam que este processo ocorria.
A nossa Administração Pública está cheia de favores, prebendas, de que ninguém fala.
O problema de fundo é a cultura da cunha e do favor que invade partidos e Administração Pública.
É uma situação estrutural da Câmara que não pode ser atribuída a nenhum partido em particular.
Eu estive 5 anos no Parlamento Europeu. Seis meses antes de me vir embora é que eu vim a saber duas mil ou três mil maneiras de ganhar mais dinheiro no PE, todas legais, todas mantidas em segredo, transmitidas uns pequenos truques aqui, uns pequenos truques acolá. O que acontece com estes casos é que os que estão dentro – é por isso que o problema também das estruturas partidárias é importante – os que estão no sítio, e os que conhecem os mecanismos, chamam os outros. E portanto há aqui um insight, há aqui um conhecimento interior, que circula por estas instituições, que – exactamente porque não há concursos públicos, a coisa nunca vem a público ou quando vem a público já está dirigida a alguém – que permite esta cultura de favores e de cunhas. [neste ponto, Carlos Andrade interrompe para dizer Temos de avançar…]


Quando Pacheco Pereira acabou de falar, a formação do quadrado mantinha-se: à sua esquerda estava um jurisconsulto, dirigente partidário, autarca, professor universitário, gestor, administrador e autor; à sua frente estava o ex-Ministro da Administração Interna, actual Presidente da CML e braço-direito de Sócrates desde longa data; à sua direita estava um ex-director da TSF e jornalista profissional. Pois nenhum destes lídimos representantes do poder empresarial, partidário e mediático contestou uma vírgula às denúncias do Pacheco. António Costa chegou a referir alguns elementos do discurso para concordar com eles. Nos dias seguintes, ninguém se manifestou chocado, sequer incomodado, com este programa por causa destas declarações.

Embora não fosse necessário, vou escrever: o que Pacheco Pereira contou, assumindo ter conhecimento directo, é relativo a situações de violação da legalidade e dos princípios constitucionais. A gravidade do que se disse sem contestação não pode ser maior, posto que implica os próprios partidos e seus dirigentes máximos. É toda a classe política que fica retratada como responsável pela permanente e impune violação do Estado de direito. Acresce, já só como curiosidade, que o tom e linguagem corporal com que Pacheco Pereira fez a partilha biográfica, e respectivas induções genéricas, exibia a postura de puto armado ao pingarelho, ufano por estar a revelar maroscas com o picante do proibido, espertalhão e decadente. Notável contraste com o tom azedo, exaltado, ferido, com que se queixou de 99% dos blogues; naquele que foi um momento patético e imbecil.

Pacheco Pereira é o mais profícuo dos publicistas nacionais, estando há dois anos a liderar uma campanha asinina contra o Governo e contra Sócrates. É um conselheiro político de peso no actual PSD e não lhe faltam meios para expressar a sua opinião com pujante alcance mediático. É também um cidadão que, por exemplo, é capaz de gastar as energias a atacar em fúria um projecto empresarial e educativo chamado Magalhães em vez de denunciar a mínima parte do extenso rol de injustiças e perfídias de que reclama a informação detalhada. Como é óbvio, estar virado de costas para o respeito próprio durante tanto tempo suporta-se melhor com a aplicação generosa de lubrificante.

23 thoughts on “Pacheco Pereira e o lubrificante”

  1. É que não me lembro de ter ouvido o JPP a denunciar a tal corrupção que diz grassar na UE !
    Só agora é que se lembrou dela?
    Porque será?
    O que vejo é a sua companha despudorada contra todas as medidas do governo.
    Agora é o Magalhães.
    Mais uma batalha perdida e uma excelente oportunidade que deixou passar para copiar poesia seu blog.
    Já agora estes cinco países atrasados também vão querer o computador português:
    Bélgica, Luxemburgo, Venezuela, Brasil e Argentina
    http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=1022019
    Quem sou eu para dar crédito a um ex MRPP?
    MFerrer

  2. Val, a cunha é o regime que há mais tempo governa Portugal, desde antes da fundação da nacionalidade. A história de Portugal tem sido uma lenta evolução em que a cunha, o privilégio, o sangue e a casta têm perdido algum terreno a favor de mais justiça e igualdade de oportunidades. Quando não está a meter cunhas, o português típico está a tentar roubar o Estado, mas às vezes acumula.

    Esta tua súbita cruzada de denúncia da “permanente e impune violação do Estado de direito” parece uma campanha contra a imoralidade e pela salvação das almas digna de um Savonarola. Quando é que descobriste que a peste da corrupção estava a gangrenar a sociedade?

    Novamente se dá o caso, como na anterior discussão sobre as casas, de aparentemente perderes a noção da diferença entre o que é imoral e o que é ilegal. Sendo ambos moralmente condenáveis, só o segundo é passível de condenação judicial. Faz uma certa diferença.

    Se bem entendi, achas então que o Pachecão deveria, à sua chegada a Lisboa, ter denunciado as supostas trafulhices dos seus colegas deputados do PE, com nomes e documentos de prova?

  3. Falta-me “insight” do assunto confesso mas como é que um gajo pode ter “insight” no meio dum ataque de riso pergunto provocado por um espectáculo de estupidez de grande calado e sem insight nenhum e que não se estava à espera ainda pergunto é que assim vai-se essa coisa e depois até também se vai a intuição ideia genial visão produnda e poder de apreciação das conversas deslavadas ora as pessoas do PE de quem o PP fala são bacanas e ninguém lhes pode apontar um dedo acusador e fizeram tudo com insight e na legalidade on sight e in sight dos everybodies todos portanto sem falcatruas se houve insight malandro esse insight não é anti-constitucional é legal a única coisa que poderia ser anti-constitucional é a democracia mas como se foram foram os gajos do insight que escreveram esse documento pegunto por favor não se abuse do bagaço.

  4. fado alexandrino, partilho do teu gosto.
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    Ibn, de que esquemas falas?
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    MFerrer, nem mais. Pacheco Pereira está mais preocupado com 99% dos blogues do que com o 1% de corrupção que se poderia evitar caso lutasse por isso. Ele é mais um cúmplice, como tantos outros.
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    Nik, súbita cruzada? Não sei com que calendário te governas, mas não é de agora o louvor a Cravinho. Tu é que me continuas a espantar (not) no desvelo com que atacas as tentativas de atribuir responsabilidade ética aos políticos. Exemplo disso é falares do episódio do Parlamento Europeu, dito pelo Pacheco ser relativo a práticas legais (mas imorais, era o sentido da sua referência). Pois o que eu acho é que o Pacheco deveria preocupar-se mais com o sistema que permite tal baixa qualidade humana em cargos de poder político ou nomeação política. Tenho cá uma impressãozeca de que não preciso de te explicar o que seja a democracia, o Estado de direito e a justiça. Sim, desconfio que tu entendes que quando alguém rouba o Estado em 1 euro isso leva a que o Estado tenha menos 1 euro. Se o roubo for legal, pior, pois nem de tal poderá ser acusado – mas será roubo se o bem foi adquirido sem necessidade, apenas para proveito próprio já sem relação com a função para que foi eleito e para a qual se comprometeu a defender os interesses da comunidade. Enfim, há algo que me faz acreditar que tu percebes que o laxismo que advogas equivale à instauração da lei do mais forte e da lei da bandidagem.
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    Y, é isso.
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    Miguel Mata, pela primeira vez fazes pleno sentido.
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    PiresF, eu também gosto do Pacheco. Apenas se dá o caso de ele estar um bocado baralhado, de resto é um excelente rapaz.

  5. Bem visto. É incrível o receio que estes senhores têm da blogosfera, algo que vem fragilizar o seu poder de “opinadores” institucionais. Pior ainda, quando os autores revelam qualidade e competência que a maioria dos opinion makers não tem.

  6. meus amigos,
    Há aqui uma pequena confusão, parece-me, acerca do que terá dito o Pereira Pacheco a respeito das tais duas ou três mil maneiras de empochar uns trocos. A primeira é esta mesmo, não vi nenhum dos senhores usar este que é o verbo correcto: empochar. Falamos de verbas que não são roubadas ao Estado, antes empochadas, o que faz toda a diferença. No linguajar é que está o ganho, uma vez que uma linguagem técnica tem correspondência directa na postura profissional e as duas reflectem-se na prática pública, ofuscando a malta que olha de frente e sem filtro solar. Ou seja: colegas de poder, os nossos eurodeputados criaram como que um código de honra interno, com base na experiência dos que sabem mais porque andam por lá hà mais tempo, que lhes permite encarar os expedientes que usam para contornar a legalidade como espinhas do ofício, meros ossos da carne tenrinha que somos todos nós. E assim ninguém sai prejudicado e nenhuma sombra de suspeita de suspeita fará algum dia peso na consciência de alguém. Isto para o caso, claro, de algum deles desenvolver uma consciência enquanto no cargo. Altamente improvável, se me perguntarem, que a coisa está bem feita.
    Nesse embalo vai também o gajo amigo que tem uma empresa que não sei quê, e já agora se pudesse, era um grande favor que me fazia, a mim, pessoalmente, muito obrigado, mais o outro que tem um contrato para uma empreitada paga a oiro num país no cu do mundo e que se propõe dividir o investimento em papel higiénico agora, com a promessa de que mais tarde vai dar merda que chegue para todos, enfim, nesse embalo vai tudo ou quase que dê dinheiro a todos ou quase todos que gostam dele e estão na política pelos ideais e assim. E eis como chegamos à tal confusão que me parece que os senhores estarão a fazer.
    O que o PP disse não foi uma denúncia nem, Deus nos livre e guarde, nada que se parecesse com uma. Foi apenas mais um esvoaçar da sua capa de herói, só mais uma fanfarronice de pretendo impoluto que se revela daquela forma arrogante e sem modéstia porque o país precisa de saber o quanto ele é diferente dos outros, maior e melhor. E que por isso pode falar como e quando quiser e dizer o que lhe aprouver porque será sempre verdade e fundamental que seja ouvido, se eu quisesse ficar rico tinha ficado no PE e não o fiz porque não quis, claro que não, ou não vêem, seus nabos?
    O que se passa na política não é corrupção, nem sequer a corrupção é bem corrupção quando é feita por estes homens sérios. É apenas uma maneira, a maneira, de fazer política.

  7. Porque hás-de sempre deturpar o que eu digo, Val? Não advoguei laxismo nenhum. Tento ser rigoroso. Que factos há? Não há factos nenhuns. Apenas uma acusação vaguíssima lançada da sua altaneira capa esvoaçante, como diz rvn. O Pachecão não disse nada de concreto, lançou mais fumaça do que luz, como sempre. Fanfarronices (rvn) de pretenso impoluto (rvn again). E acrescentou o Pachecão – cúmulo de hipocrisia e cobardia! – que só se deu conta da imoralidade nos últimos meses que por lá passou, quando, só então, lhe terá chegado ao nariz o odor fétido do «empochanço» (rvn once more) que alegadamente flui à vista de todos.

    Roubo legal é uma contradição de termos, porque o roubo, apropriação de bem alheio, é sempre ilegal pela lei portuguesa. Roubo é roubo, não se fazem acusações destas com metáforas. Na célebre frase «A propriedade é o roubo» temos uma metáfora a tentar insinuar-se como verdadeiro e positivo latrocínio. Se há roubo, digam qual é, para eu poder ajuizar. Se há só imoralidade sem roubo, digam qual é, para eu entender. Entre a moralidade e a imoralidade há uma fronteira por vezes muito subjectiva. Entre a legalidade e a ilegalidade também. Por isso é que há Direito, jurisprudência, doutrina, pareceres generosamente remunerados, advogados baratos e caros, recursos para a Relação, Supremo e TC.

    Se o Pachecão quisesse dar-se ao trabalho de desvendar as maroscas e moscambilhas que alegadamente se fazem (não precisando sequer de pôr nomes na denúncia), ganharia eventualmente a minha admiração. Mas ele nunca se dá a esse trabalho. Está mais empenhado na denúncia da propaganda e das maroscas governamentais, que também nunca prova.

  8. Lembro-me de um legalíssimo decreto do saudoso e impoluto ministro cavaquino das Finanças Miguel Cadilhe (agora à frente do impoluto BPN), decreto que lhe permitiu comprar uma casa nas Amoreiras sem pagar sisa, graças a uma isenção malabarista que só durou uns oportunos meses. Legal, mas imoral. Moscambilha, assim lhe chamou o grande Sousa Tavares sénior – homem com tomates naquele sítio onde o Pachecão carece deles.

  9. Falo disto
    “(…) Seis meses antes de me vir embora é que eu vim a saber duas mil ou três mil maneiras de ganhar mais dinheiro no PE, todas legais(…)”

  10. Popelina, é isso. A liberdade sempre foi um grande aborrecimento para quem está no poleiro.
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    Rui, estás em grande forma.
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    Nik, estás a brincar ao toca e foge, só pode. Tu chamas nomes muito feios aos que querem discutir o escândalo da CML, e achas que é uma cruzada reflectir nas declarações do Pacheco. Sinceramente, não te entendo. Então este não é o momento de falar nos assuntos correntes? Se uma vereadora faz uma conferência de imprensa onde confirma situações de privilégio e abuso, temos de nos calar porque tu achas que ela é uma excelente senhora? E se falamos nela, tu saltas solícito a atirar pedras aos perseguidores dos probos com acesso aos favores especiais do poder?… Tem juízo.

    Essas tuas voltas e reviravoltas com a legalidade dos roubos teve o mérito de conduzir ao último parágrafo onde dizes o que há a dizer: o Pacheco é mais um cúmplice. Tal como o Rui bem pintou, o senhor Abrupto sente-se impune, pode dizer qualquer coisa porque nunca nada acontece aos bacanos partidários. E como poderia acontecer? Pois se comem todos da mesma malga.

    Bem lembrado, o Cadilhe.
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    Ibn, ó homem, o Pacheco já disse que são legais. A questão põe-se no plano da sua moralidade. Aliás, até pode acontecer que sejam legais e também ilegais, bastando para isso que haja qualquer forma de fiscalização que os revele processualmente legítimos mas funcionalmente ilegítimos. Estou apenas a supor, pois não conheço a lei respectiva.

  11. Se eu concordo? Depende do contexto. Não se deve ser rápido a concordar seja com o que for, em especial palavras ditas por terceiros. Mas qual é a relação com a nossa conversa?

  12. O Valupi diz que pode não ser uma questão de legalidade mas sim de moralidade. Ao que eu respondi com as palavras do Sr “Cardeal” quando lhe perguntaram se achava moral que tomasse posse de um qualquer cargo numa empresa privada, ao que ele respondeu ” A moral é a lei da republica” Ou seja, se é legal é moral, interpreto eu!

  13. Ibn, não sei o que cada um poderá querer invocar ou justificar com essa frase. A minha leitura, todavia, é oposta à tua: se é moral, pode até ser ilegal.

  14. Eh Lá nunca disse que essa é a minha postura!
    transcrevi a palavras do cardeal, ces’t tout!

    Outra grande e proeminente individualidade do PS disse um dia “Nem tudo que é legal é moral e nem tudo que é ilegal é imoral”.

    Se me pedir com jeitinho poder-lhe-ei dizer quem afirmou tal e em que circunstâncias ;-)

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