Pacheco e a ciganice

Pacheco Pereira escreveu um artigo didáctico onde despacha o populismo de Trump e a questão cigana de uma forma não só razoável, não só convincente, mas também interpelante – Trump e os ciganos. A eficácia argumentativa vem da exposição do inegável. É inegável que os ciganos – tomados como etnia – ainda não aceitaram incluir na sua antropologia, ou que fosse só na sua axiologia, essa maravilha civilizacional chamada Estado de direito democrático. O Pacheco compraz-se em registar que tal fenómeno gera silêncios à esquerda e na militância a favor das minorias que são fácticas cumplicidades com as vítimas ciganas e não ciganas daí resultantes, igualmente contribuindo para o aproveitamento populista do Ventura. O texto está destinado a ser aplaudido como consensual.

Porém, como em tudo o que nasce desta impante figura, o viés ganha à lucidez. O seu alvo são os “nossos mais vocais grupos feministas e anti-racistas e muita gente à esquerda que abraça causas de género” com que encerra o exercício. É a partir deste epílogo que começa o nosso pensamento. Duas são as perguntas a fazer:

– A esquerdalhada que abafa a questão cigana faz mal em ocupar o seu tempo com as carências doutras minorias?
– A esquerdalhada que abafa a questão cigana é responsável pelo abafamento geral da questão cigana?

Para responder com honestidade intelectual à primeira pergunta, há que estar munido de um diagnóstico acerca do problema. Serão as questões tratadas pelos “grupos feministas e anti-racistas” da mesma ordem, complexidade e viabilidade legislativa do que aquelas inerentes à questão cigana? O Pacheco simula ser esse o caso, pois só dessa forma pode deixar o seu ferrete persecutório. Mas é mentira. Enquanto se pode facilmente legislar contra as descriminações de género e raciais, e essa legislação passar a ter aplicação universal sem dificuldade de maior, já não se pode legislar contra a identidade cultural de um grupo. Não se pode por limitações também culturais da entidade legisladora, a nossa comunidade política, e não se pode porque a problemática não se resolve pela produção de mais ou melhores leis. São os próprios envolvidos em práticas que rejeitamos que começam por se considerar politicamente separados, indiferentes ao que o Estado decida a seu respeito.

E este contexto leva-nos para a segunda pergunta. Curiosamente, o mesmo Pacheco tropeça na boa resposta quando regista que “alguns professores, alguns militantes católicos e um infelizmente muito pequeno grupo de ciganos” enfrentam heroicamente a adversidade na defesa dos direitos individuais das raparigas ciganas. Ora, neste passo o autor trava a sua análise e salta para a sacanice de apontar o dedo a quem luta social e politicamente para acabar com injustiças, as mais variadas. Mas podia ter optado por questionar antes a indústria onde vai buscar aquilo com que se compram os melões. Por que razão a nossa comunicação social não trata como “heróis” esses que o Pacheco descreve serem heróicos na tentativa de mudarem mentalidades na comunidade cigana? Não está aqui a chave social e política da questão, o silêncio na imprensa e o papel que pode e deve assumir? Por que razão o marmeleiro prefere atacar pessoas que corajosa e altruisticamente têm defendido diversos grupos minoritários prejudicados pelas maiorias em vez de atacar os partidos e sua inércia na questão? Aliás, por que razão o Pacheco não assume pessoalmente o combate e se vai juntar aos heróis que lhe serviram para compor a prosa?

Para que o veneno lançado pelo texto lhe caia em cima, basta soprarmos suavemente na sua direcção.

5 comentários a “Pacheco e a ciganice”

  1. Em todo o caso, os partidos que ganham eleições e supostamente estão na disposição de defender o Estado democrático (excepto quando é preciso enfrentar procuradores e juízes que não cumprem a Lei), farão melhor se meditarem bem no que diz o Pacheco neste texto.
    E mais, façam isso antes que lhes aconteça o mesmo que aconteceu na América. Ou um dia vão ter um “candidato Correio da Manha” a governar o país. Depois não se queixem.

  2. não sei , mas a malta do berloque de esquerda podia aproveitar o Verão para ir pelos bairros sociais explicar às crianças ciganas que existe isto

    https://www.unicef.pt/docs/pdf_publicacoes/convencao_direitos_crianca2004.pdf

    ratificada por Portugal , mas que vivem num Estado de direito tão cobarde que se esconde atrás de especificidades culturais do adultos , dum lado e doutro , de modo que nada do que lá está convencionado se aplica a eles , podendo os seus progenitores dispor deles como se fossem coisas.

    era melhor serem cães ou gatos , que ai a lei já pia mais fino e até levam preso quem parati patata ao bichinho.

  3. “Trump é outra coisa. É um homem dos nossos tempos, compreendendo como ninguém o actual sistema mediático, a conjugação entre a crise da comunicação social “séria” e a invasão do entretenimento, a substituição da vida pelo reality show…”
    …………………………………………………………………………………
    “E Trump compreendeu, e isso é sinal de uma considerável intuição política, que havia uma América “esquecida” e que essa América não era a da lista das minorias que Hillary Clinton enunciava,….”

    Pacheco pode ter como alvo, cá dentro, os “nossos mais vocais grupos feministas e anti-racistas e muita gente à esquerda que abraça causas de género” , mas a sua simpatia e entusiasmo vai toda para Trump e a sua “considerável intuição política”, e partindo deste pressuposto (eventualmente justificado por ter ganho as eleições, mesmo tudo indicar com o inverosímil conluio com os russos), passa a insinuar um paralelismo de intuição política ao André do seu partido.
    Já um caso semelhante houve o ano passado quando Pacheco fez a apologia do “cm” pela sua “considerável intuição jornalística” de ir à procura das notícias que importava para as pessoas “esquecidas” tal como Trump foi à procura, e descobriu visionariamente, a América esquecida e adormecida.
    Pacheco é, cada vez mais, um reaccionário desconfiado do futuro que só olha para o passado que imita um Medina Carreira de forma mais sofisticada ou seja, é uma alma gémea de Lobo Xavier. Pacheco não só é um desconfiado do progresso (tudo que pode correr mal ou bem está SEMPRE mais próximo do que corre mal) como é, filosoficamente, um absoluto não crente nas capacidades racionais dos humanos.
    Ele diz que Trump é um homem dos nossos tempos que, entre várias visões de grande alcance, viu “a substituição da vida pelo reality show”. Mas o que Pacheco, como estudioso histórico-opinador-compulsivo responsável que devia ser, deveria explicar-nos era se realmente os “nossos tempos” são bons ou maus e sobretudo se são para ficar ou, como sempre, são moda passageira e ou, como moda política feita de intrujice, bacoquice e alarves medíocridades não só não vai fazer durar muito “os nossos tempos” como vai servir de vacina e anticorpo aos povos do mundo contra tais antidemocráticas práticas políticas.
    Pelo que diz, Pacheco, parece acreditar que a substituição da “vida pelo reality show” é uma verdade que a história já confirmou e é um dado adquirido dos “nossos tempos”. Pacheco não acredita na racionalidade humana e já pensa que somo todos macacos ou cães de Pavlov: está rotundamente enganado.
    Aliás, está enganado agora que vê no Trump americano como nos trumps à poruguesa uma visão política regenadora, tal como estava enganado quando teve a visão de ter visto armas de destruição maciça juntamente com Bush, Asnar, Blair e o seu amigo Durão Barroso.

  4. Isto é uma satira dos pasteis pedantes e vazios do pacheco pereira – que deviam ser utilizados pela ONU como indicadores de sub-desenvolvimento mental – e do estilo enfatico-grotesco do editoralista português, não é ?

    Gosto particularmente de “são fácticas cumplicidades com as vítimas ciganas e não ciganas daí resultantes”, onde o bombastico “facticas” (existem cumplicidades de jure ?) deixa o autor de tal maneira baboso com o que julga ser brio, que ja nem repara no absurdo completo de falar em cumplices das vitimas…

    Estas em grande forma…

    Boas

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