Os idos de Março de 2011

Dizer que a discussão, entretanto transformada numa luta sem quartel, sobre a vinda da Troika é algo que não interessa, por ser passado e os eleitores precisarem é de quem lhes fale do futuro, só aproveita a quem receia perder com ela. Durante os últimos 3 anos, PSD e CDS não tiverem outra bandeira a que se agarrarem, causticando diariamente o PS pela sua “culpa” no resgate e no Memorando. Pelos vistos, durante esse tempo fez sentido falar do passado, o tal passado que Passos tinha jurado deixar enterrado em ordem a poder concentrar-se sem distracções na revolução liberal por via do brutal aumento de impostos. Para o cenário ser perfeito, também durante 3 anos existiu um secretário-geral do PS que apreciava ver o seu partido achincalhado de forma tão primária e odienta. Com esse espectáculo obtinha o gozo de se vingar sonsa e cobardemente dos “socráticos”, aqueles que não tinham reconhecido a sua grandeza e que nem uma secretaria de Estado lhe arranjaram (mas ele recusaria, pois tudo o que fosse abaixo de ministro não lhe servia no pé). Ora, bastou Costa, e pela primeira vez, ter respondido à altura da afronta de quem traiu o interesse nacional para que o laranjal entrasse em pânico. Daí a palavra de ordem dada nas hostes para se repetir à maluca a patética fuga às responsabilidades políticas ao tempo e durante o ciclo que assim foi imposto aos portugueses. Hoje, véspera do segundo debate entre Passos e Costa, aparece Portas a agitar o espantalho de umas declarações de Soares e há temor e tremor no seio dos talibãs por causa de mais um documento que documenta a golpada. Acontece que o que essa memória traz é a ilustração da tragédia que Sócrates e o seu Governo viveram depois de esforços homéricos para evitar que Portugal se afundasse na pior das duas únicas soluções possíveis.

Discutir a vinda da Troika, portanto e evidentemente, é discutir questões relativas à responsabilidade patriótica em momentos de crise sistémica e ainda discutir a lealdade dos líderes políticos para com a comunidade. Não foi por acaso que, no discurso da tomada de posse para o seu segundo mandato, o tal discurso que correspondeu ao “Grândola, Vila Morena” para os direitolas, Cavaco nem de passagem refere o contexto europeu – tal como se esqueceu, possuído pelo rancor, de sequer fazer uma referência às Forças Armadas de que é o Comandante Supremo e que tinham operações de risco no estrangeiro. O seu ataque visou lançar no espaço público a ideia de que os problemas então vividos eram da exclusiva responsabilidade de um Governo, de um partido e de um homem. Logo, estava na altura de apeá-lo, e esse derrube devia começar pela rua. Isto foi dito no púlpito do Parlamento, transformando a Assembleia da República, nessa ocasião solene, num pavilhão polidesportivo onde se fez um comício de apoio à super-manifestação que teria lugar no sábado próximo. No dia a seguir a esta ordem dada pelo chefe da direita que nos calhou em desgraça, Sócrates reuniu com Passos, secretamente, para tentar salvar Portugal de uma ruína colossal evitável. O chorrilho de mentiras que se abateu depois na comunicação social não veio de Sócrates, nem do seu Governo, nem do PS. Essas mentiras foram usadas com frieza, calculismo, hipocrisia e cinismo numa escala nunca antes vista no rectângulo. A quem é que interessa deixar sem julgamento, sequer opinião, essa vergonha?

Se o descaramento obsceno dos políticos do PSD e CDS, que apenas cérebros de 5 anos de idade aceitam sem se indignarem, se percebe como o desespero final para evitarem o massacre, o papel dos jornalistas é mais complexo, quiçá intrigante. Veja-se o que escreveu o Pedro Santos Guerreiro – Fui eu que chamei a troika – onde encontramos esse registo típico das vedetas editorialistas do jornalismo “de referência”, uma mistela de factos, factóides, pontos de vista e narcisismo. A pose é a de quem se apresenta como árbitro, por estar acima, ou ao lado, do pugilato entre políticos. Todavia, o resultado não passa de mais um panfleto lançado para o meio da populaça na esperança de influenciar as claques.

PSG, sem se ter incomodado a demonstrar, dá como axiomas as seguintes hipóteses:

– “José Sócrates arruinou as contas públicas durante anos.”
– “Foi tudo empurrado para o futuro. Empurrado e agravado. Empurrado, agravado e escondido.”
– “Dizer que foi a Europa que nos mandou arruinar-nos é chamarmo-nos de estúpidos.”
– “Foi assim que, de PEC em PEC, chegámos a 2011.”
– “Muitos concordaram […] que a troika servisse para libertar a economia (e a sociedade) das redes de poder político-empresariais que a consumiam em proveito próprio.”

Aqui temos a continuação da diabolização de Sócrates, apresentado como um lunático. Sócrates “arruinou as contas públicas durante anos”, diz a vedeta, mas em que anos? Nos anos em que investiu em educação, energias renováveis, ciência, tecnologia, apoio à exportação, apoio ao investimento, direitos das minorias, reforma do Estado, reforma da Segurança Social, reformas na Saúde, redução da pobreza, e ainda conseguiu ter um défice abaixo dos 3%? Ou terá sido quando toda a oposição se uniu, com a conivência do Presidente da República, para deixar um Governo minoritário entalado entre a pressão da crise das dívidas soberanas e uma coligação negativa que estava apenas a fazer tempo para novas eleições, tendo passado um ano e meio a boicotar o País, agravando quanto puderam a situação das contas públicas?

Talvez o mais interessante ainda seja a referência às “redes de poder político-empresariais”. Do que se fala? E de quem? Já desapareceram? Continuam? Surgiram outras? Quem são? Que fazem? Cometeram crimes? Cometem? Quais? Como? Algum dia este jornalista, com tanto poder por vida do cargo que ocupa no órgão em causa, irá informar o público do que quer dizer com a expressão que, a ficar sem justificação, não passa de um fantasma agitado para fins de difamação e luta política?

O texto termina com uma referência a si próprio, recordando que tinha dito não sei quê não sei quando. O título concentra e amplifica o foco na sua pessoa. PSG veio dar um raspanete aos políticos que são uns malandros, os malandros. No entanto, apesar dessa sobranceria estilosa, não se consegue identificar em nenhuma linha, sequer no espaço em branco entre as letras, algum incómodo genuíno, sofrido, com a única causa da vinda da Troika: o chumbo do PEC IV. Trata-se da única causa em termos político-partidários, pois quanto a factores económicos nacionais e internacionais as causas remontam às cenas de um filho a bater na mãe para dar origem à fundação de Portugal.

Não faço ideia se Costa irá voltar a pegar no assunto no debate de amanhã. Apenas sei que o transtorno de toda a máquina da Coligação, onde se inclui o seu aparato mediático camuflado, mostra bem como estamos perante uma questão central para captar o voto dos indecisos. As mentiras de Passos e Portas radicam no que fizerem nos idos de Março de 2011. Os meses e anos seguintes foram a continuação dessa lógica inicial: valer tudo, até afundar o País, para ir ao pote o mais cedo que conseguissem.

18 thoughts on “Os idos de Março de 2011”

  1. Pedro Santos Guerreiro é um grande adivinho do futuro. Deve pensar que as pessoas se esquecem dele a dizer que com o BES está tudo bem, o problema são os accionistas, há almofodas financeiras para suportar os prejuízos, podemos passar semanas e meses a fazer manchetes sobre o tema porque isso não assusta ninguém, nem faz levantar depósitos, nem envenena a cotação das acções, nem contribui para o poço sem fundo em que atiraram o maior banco privado português, com os restantes bancos atados a ele por cordas, e só Deus sabe o que mais ainda para lá será arrastado .

  2. Acabo de ver o noticiário da RTP 1 .Quem chamou a troika? A televisão pública está bem alinhadinha com a narrativa de Passos/Portas. O PS não vai ter a mínima possibilidade de anular a “verdade” que a comunicação social vai servir ao zé povinho. Nem Costa parece estar muito preocupado com isso. Penso que a poder da comunicação social é imbatível. E o PS já perdeu, não contra a PaF, mas contra a comunicação social. É a vida. No fim, eu teria gostado de ver o PS espernear um pouco contra o sufoco da comunicação social.
    As Tvs também não perdem uma única oportunidade de abrir os microfones ao Jerónimo (sobretudo a este) nas passagens em que ataca sobretudo o PS. Na prática, o PS luta contra Passos, Portas e Jerónimo coligados nos ataques à esquerda democrática, levados ao colo pela comunicação social.

  3. cito robert skidelsky,economista: “o aumento das dividas publicas,foram uma consequencia da recessaõ economica e não a sua causa. não foram os deficites excessivosque provocaram o colapso economicode 2007/2208,mas sim a excessivaconcessaõ de creditos por parte do sector bancario”

  4. quem fez tudo para vir a troika,não foi o governo socrates,mas passos coelho com o pulha do catroga a fazer força,para depois da tomada do poder, aplicarem a sua agenda ultraliberal.

  5. Maria Abril

    Noto também nestes últimos dias um esforço desesperado para provocar José Sócrates !
    É a história de “quem chamou a troika” mas como parece que o Homem não morde esse isco … hoje lançaram outro isco, mais ao estilo Relvas … o cartaz de uma escola brasileira em que supostamente um “aluno” (algum amigo do Relvas) terá feito um photoshop com uma fotografia de José Sócrates colocando-lhe uns óculos e um traje académico para o pôr a fazer propaganda a essa dita escola !
    Alguém acredita que por acaso um brasileiro foi à Net e tirou a fotografia de Sócrates, SEM SABER quem ele era, para fazer AQUILO !
    AQUILO é provocação da malta do RELVAS!

    A minha pergunta é: PORQUÊ ? se a Coligação tem tudo a seu favor e vai à frente porque é que precisa tanto que Sócrates se irrite e venha para a campanha eleitoral ?

  6. O Valupi já tinha chamado a atenção para mais do que quem ainda era Governo – e oficialmente não podia ser outra entidade – neste regresso a 2011 tão enfatizado o que interessa são as verdadeiras causas. Como é óbvio. E bastava que cada um assumisse a suas responsabilidade. Mas parece que está difícil. O que é aliás uma característica muito própria dos mentirosos.

    E já foi aliás também para apanhar quem mente mais – e a par com Teixeira dos Santos sempre ter assumido a sua responsabilidade – que também já coloquei aqui o seu primeiro alerta: – «Inviabilizar o PEC IV “é empurrar o país para a ajuda externa e acho que devemos responsabilizar aqueles que inviabilizarem o PEC porque esse será o resultado inevitável, seremos empurrados para a ajuda externa”.

    Mas podemos sempre recuar mais: – ” Até 2009 havia um consenso não explícito de que o euro enquanto moeda originaria taxas de juros mais ou menos uniformes para todos os membros do Eurogrupo. Assumia-se implicitamente que o BCE funcionaria como almofada. Até que a senhora Merkel à saída de uma reunião, disse claramente ao mundo que cada país deveria responsabilizar-se pela sua dívida e seria o único responsável por ela. A estas declarações não houve qualquer desmentido do BCE – já que, claro, a regra era implícita. A partir daí as diferenças entre taxas de juro por país dispararam e viu-se o que aconteceu. Quatro resgates depois (quatro e meio, se contarmos com Espanha), o BCE faz Quantitative Easing e assume-se como credor de último recurso para tentar estabilizar e uniformizar as taxas de juro dos vários países. Isto depois de profunda recessão nos países intervencionados e de milhões de famílias afectadas, uma década perdida ou mesmo uma geração perdida para esses países.

    E ainda podíamos recuar até à origem da crise, do outro lado do Atlântico. Crise que o actual PM ainda negava em 2011. E hoje continua a jogar o mesmo jogo. Como ainda se pode aliás ouvir muito bem noutro video no You Tube:

    https://www.youtube.com/watch?v=EjGW68YV3yI

    Que talvez valha a pena também recordar. Senão estivessem em causa tantos portugueses até dava vontade de rir ouvir o Coelho a queixar-se dos cortes do Sócrates. Eles não assumem rigorosamente nada! E ainda têm o descaramento de vir para esta Campanha, quatro anos depois e nem uma ideia! Uma! Será que ele ainda pensa que está na Oposição em 2011? Será por isso que ele fala tanto do Sócrates?

  7. P

    Por isso é que António Costa acertou em cheio no mentiroso quando o mandou ir a casa do Sócrates para debater com ele. Foi genial !

    António Costa está agora a “debater” com o camarada Jerónimo na Sic Notícias !

  8. “Em vez de andarmos sempre a discutir o que a Oposição pretendia devemos discutir o que os Governos fazem.”

    “O Eng. Sócrates foi o PM que mais mal fez ao Estado Social. Que mais cortou na função pública, que mais cortou nas prestações sociais…”

    Estou a ver. Obrigada Jasmim.

  9. O que tem graça é que, ao colocarem de novo a tónica da campanha, inesperadamente, na questão de saber quem chamou a troika, tanto a coligação quanto o PS reforçam o que diziam querer evitar, tornam a campanha eleitoral refém de José Sócrates, como não podia deixar de ser, de resto.
    O PEC ou a troika?
    José Sócrates volta de novo a ser o candidato.
    E a coligação só consegue sustentar um discurso eleitoral na presunção de que José Sócrates é o seu adversário.
    O que António Costa não entende, em minha opinião, é que se decidisse ser José Sócrates a coligação desmoronar-se-ia, porque só consegue disputar com um Sócrates ”mudo”.

  10. P

    Essa tirada do camarada Jerónimo é fruto do ódio porque Sócrates roia-lhes os calcanhares como ninguém.
    O Costa tem um estilo sonso, pode ser que consiga o que nenhum socialista até agora conseguiu, nem Mário Soares, ou deverei dizer especialmente Mário Soares …e Sócrates!
    Os comunas não são boas rolhas. Não me parece que o Costa seja anjinho ao ponto de se deixar iludir, foi muito sonso, isso sim. A única coisa que quer com os comunas é comer-lhes uma parte do eleitorado, e para esse efeito o debate correu-lhe muito bem. Eu diria excepcionalmente bem. Dava para ver na cara de preocupação do camarada Jerónimo!
    Outro sinal disso foi aquele fascista do Bagao Félix a comentar logo em cima do fim do debate trazendo à liça o argumento desonesto da Catarina com as pensões, assunto que nem foi mencionado no debate! Sentiu necessidade de agitar um fantasma para tentar desmobilizar os comunas de votarem no Costa!
    A gang do Governo está a postos à espreita por todo o lado! Parecem lapas!

  11. Manuel Castro Nunes

    Compreendo o que diz e talvez o Costa volte a surpreender amanhã.
    Veremos!
    O Passos vai ter de arriscar amanhã veremos se não leva um enxerto de porrada.
    Por outro lado, tenho um pressentimento que estação”mudez” de Sócrates possa acabar num golpe de teatro à beira das urnas.
    Alguém sabe quando é que o Rui Rangel decide o tal recurso ?

  12. Não há dúvida que eu tenho espírito santo de orelha!
    Lá vem hoje o CM com uma notícia na capa a tentar descredibilizar o Juiz Rui Rangel em relação ao caso Sócrates!
    Há mosquitos por cordas, pela certa!

  13. podem dizer o que quiserem. não penso que os portugueses, e falo dos inteligentes, se deixem manipular pelo que se diz quando tiveram oportunidade de vivenciar durantes estes anos de austeridade uma política completamente cúmplice – e só é cúmplice a quem muito agrada. e é por isso que escrever tanto sobre o mesmo se torna redundante. estou enjoada – principalmente porque Costa teve uma epifania. como se não fosse obrigação de toda a oposição garantir a verdade desde sempre.

  14. Para quem gosta de ler outros pontos de vista aconselho a cronica do JMTavares no Publico, sobre a pobre discussão da vinda da troika. Quem criou as condições para que tenha vindo , isso sim é responabilidade governativa, Escutar o que o M.Soares disse na altura sobre a vinda da troika é um pormenor sem grande valor politico. As condições já estavam criadas nos anos do bom governo!!!

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