Original é estar perto da origem

Com os jornais a terem edições digitais – estamos a falar de algo que começou nos anos 90 – as edições em papel tornam-se inúteis do ponto de vista noticioso. Tal como as rádios e as televisões igualmente o tinham feito do ponto de vista informativo, remetendo o jornal em papel para a sua inevitável obsolescência. Só para dar uma ilustração histórica, o incêndio no Chiado de 1988 foi um triunfo jornalístico da rádio, especificamente da TSF, pela mobilidade e imediatez do meio; mas hoje tal feito já não seria possível, pois haveria milhares de fontes de informação à disposição. Num outro território, os canais televisivos especializados em notícias chutam os jornais para uma periferia de impacto e relevância por via das audiências e do poder audiovisual. Com a ubiquidade digital, nesta era da Internet no bolso, os jornais repetem as informações, repetem a maioria das notícias uns dos outros, e apenas podem usar as secções de opinião para se diferenciarem e/ou notabilizarem. Isto porque desistiram de fazer reportagens de profunda investigação, dados os custos ou os constrangimentos políticos impostos pelos accionistas. Daí a hibridização dos jornais nos canais digitais, usando o som e o vídeo para publicarem conteúdos noticiosos e opinativos. Problema: não dá para concorrer com a TV (i) e as secções de opinião não chegam para puxar a carroça (ii). Ou se faz como no Correio da Manhã, Sol e Observador, onde as próprias notícias são formas ostensivas de veicular opiniões, e daí aparecer quem queira pagar para ter essas fontes de influência e propaganda, ou os sistemas mistos que vemos no Expresso e no Público, e em parte no DN – onde as linhas editoriais se preocupam em definir territórios de opinião em vez de salvaguardarem uma independência profissional como missão de serviço público – apenas servirão para ir gastando o tempo até ao fecho da torneira.

Explicitando o que é uma banalidade com anos e anos, havendo excesso de oferta informativa (os factos), e cada vez menos recursos noticiosos (produtores das narrativas sobre os factos), as opiniões (interpretações com ou sem factos) ficarão para sempre reféns da segmentação e aleatoriedade da audiência. Tendo sido durante séculos instrumentos de recolha e divulgação de informações em formato de notícia e embrulhadas em opiniões, os jornais precisam de se transformar em instrumentos de formação cívica e desenvolvimento cognitivo. Ou seja, a promessa de terem novidades não justifica que se queira dar dinheiro por aquilo que se tem à borla, ou que já se paga a outros operadores, por estarmos numa civilização digitalizada. E a promessa de serem o farol da liberdade, um garante da democracia e o quarto poder que denuncia e mantém na ordem os malandros dos políticos e dos ricalhaços é para rir – mas não seria se fôssemos capaz de nomear um, bastava um, órgão de comunicação social que estivesse obsessiva e fanaticamente decidido a cumprir o código deontológico dos jornalistas.

Prometam tornar o cidadão mais inteligente, mais poderoso, e verão o dinheirinho a correr abundante como antigamente. Foi sempre este o modelo do negócio, só que agora é preciso ir além da mama de despachar notícias e opiniões.

9 thoughts on “Original é estar perto da origem”

  1. que riquezinha de texto:-) bem visto, há um toyotismo nos media que é preciso liquidar. mas como(?!) se a têta está cheiinha de leite?

  2. Desde há vários anos, acompanho diariamente o conteúdo dos jornais de maior audiencia nacional de Portugal, Brasil e EUA. Nos três países, estes abandonaram a função jornalística de investigação independente e exposição de contraditórios e se revelaram excessivamente tendenciosos, quando não meros orgãos de propaganda partidária. Três assuntos que percorrem os mainstream media desses países, nos últimos anos, permitem estudar esse comportamento: José Sócrates, em Portugal, Lula, no Brasil, e Rússia, nos EUA.
    Se algum cidadão quer formar opinião consciente, baseada na apreciação de contraste de informação proveniente de diversas fontes, tem que andar a fossar nas redes sociais.

    Dois exemplos desta semana: um texto de opinião e uma entrevista, indispensáveis, que dificilmente se encontram em jornais “institucionais”:
    http://www.jornaltornado.pt/o-obvio-ululante-jurista-italiano-questiona-sistema-juridico-brasileiro/
    http://www.ronpaulinstitute.org/archives/featured-articles/2017/february/04/the-media-coverage-on-syria-is-the-biggest-media-lie-of-our-time-interview-with-flemish-priest-in-syria/

  3. Este Lucas Galuxo nem chega a ser provocador, é um parvinho completo que se arrasta pelo Aspirina B sempre à procura do mais fétido dos assuntos para largar umas frases em que entra à força, saiba-se lá porquê!, a figura de um ex-PM e em que aproveita para exercitar sem ter noção do ridículo que provoca as suas parcas abordagens aos assuntos. Mentalmente doentias, quase sempre, e que de há muito reclamam ajuda profissional. Sugere-se, por isso, o manicómio de Rilhafoles ou o Albergue das Crianças Abandonadas (Lisboa), ou ainda, se lhe der mais jeito, o internamento compulsivo no Conde de Ferreira ou no Asilo das Raparigas Abandonadas (Porto).

    _______
    … «e se revelaram excessivamente tendenciosos», si rêvêlárãm né…?
    G’anda piela com caipirinha despejada ao ritmo do samba, ó Galuxo.

  4. não creio que consigam sair do buraco onde se meteram. não têm independência financeira , nem os “licenciados em comunicação social ” são verdadeiros jornalistas , terão de continuar a prostituir-se e a fingir que são informação da virgem.
    e agora que o drago meteu férias é uma chatice encontrar quem medeie o que vai por aí. o quim jó mais o trumpetas andam a fazer o quê ? o que está a acontecer em angol aé bom ou mau ou antes pelo contrárion? não tenho puta ideia.

  5. «G’anda piela com caipirinha despejada ao ritmo do samba, ó Galuxo.», hum?!
    (o seu justo destino é o caixote do lixo, please)

  6. O Brasil actual é um autêntico laboratório mediático, judicial e político. É tão sinistro o jogo de silencios e ruídos interno como o descaso do resto do mundo com o que ali se passa. Ainda há um par de meses, no Estoril, Moro foi recebido em júbilo, ao lado da sua réplica local, Carlos Alexandre, por embriões de partidos que se revêm no seu modo de actuar e procuram implantar o seu modo de fazer política.
    https://jornalggn.com.br/noticia/sobre-depoimentos-manchetes-e-agenda-da-midia-por-luis-felipe-miguel

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