Ganhou um cronista de referência, Ferreira Fernandes. As suas crónicas na TSF foram o feliz abraço entre uma cultura jornalista clássica, hoje em extinção acelerada, e uma elegante e apaixonada coragem de exprimir, a marca de autor. Para além de saber escrever, e de saber pensar, também sabe falar e contar. As rádios e televisões têm ali alguém que agarra audiências pelas melhores razões e com as melhores consequências. É aproveitar, porque desta estirpe não tem aparecido ninguém nas novas fornadas.
Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.
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upi,
sigo na mesma direcção, uma admiração com limites raramente testados em quinze anos de conhecimento (fomos colegas de Tal&Qual em 92/93, para meu privilégio) e alguma amizade (mútua, estou certo). Mas sigo no comboio discordante, como diria um ex-amigo meu, no que respeita à prestação audiovisual que tanto te impressionou. Deixa que explique, verás que faz sentido. Considero o FF um caso ímpar do jornalismo português. FF é o que eu chamo um jornalista de nascença, uma figura humana rica em recursos de análise e tratamento de dados, e uma figura profissional enriquecida pela experiência em recursos de apreensão de dados. Ou seja, sabe onde ir para olhar e sabe, como poucos, como olhar para conseguir ver. Depois deu-lhe Deus o talento de arrumar as ideias em palavras e as palavras em textos que dizem tudo e o mais alguma coisa que faz a diferença do génio. Perante tudo isto, exigir-lhe perfeição compatível e à altura na dicção, colocação de voz e carisma audiovisual, é fasquiar a sua prestação na rádio e televisão muito para além (na minha opinião, apenas) das suas habilidades naturais nesse campo. Há magia escondida nas entrelinhas das imagens literárias das crónicas de FF que a sua voz falha em transmitir e que o seu visual de écran não possui em quantidade suficiente na relação empatia/tempo de antena que todo o comunicador tem que ter. FF é dos que pode dar-se ao luxo de dispensar tal capacidade sem grande prejuízo: tem que sobre de outras e outras e outras. Essa, especifica e lamentavelmente, nem tanto. O que nem por isso o belisca.
Rui, muito obrigado pelo valioso testemunho. De facto, nunca o vi na TV, pelo que não sei como se comportaria. Porém, ouvia as suas crónicas na TSF. E, lá está, o que me impressionou foi a capacidade de contar – ou seja, dar sentido ao significado. Porque isso que dizes de os seus textos terem entrelinhas mágicas não faz justiça ao meio radiofónico. O que tu encontras na leitura é, em parte decisiva, o resultado de um casamento: entre o que fica escrito e o que é acrescentado. Que tu acrescentes ouro ao tesouro, acho inevitável, pois o tens para distribuir. Mas é impossível reproduzir no tempo da crónica radiofónica, e respectivo contexto, o manancial de informação explícita e implícita das suas usuais crónicas. E mais: a palavra escrita comporta-se de forma diferente da palavra oral.
Tens de ser mais amigo do teu amigo.
valupi,
vejo que me expliquei mal, tentemos a versão curta: para FF ler o que escreve com a excelência que escreve para a gente ler tinha que ser João Vilaret, vá lá, Paulo Renato. Pelo menos.
E ainda queres que eu seja mais amigo do meu amigo e da sua arte?
Estás a ser relapso, Rui. O referente são as crónicas para a TSF adentro do Euro, não eventuais crónicas para a TSF “a la” DN. E quem precisa de um actor quando tem o autor tão capaz de encher de vida o verbo a que deu luz?
Na rádio, o que ele fez com o tempo que lhe deram foi especial. Podes comparar com o seu parceiro de crónicas de Euro, ou com os usais cronistas matinais da TSF, que são uns pastelões quase todos eles (Carvalhas, Santana, Joana…).
Mas se preferes insistir que tens mais gozo a ler as suas crónicas do que tiveste, ou terias, a ouvir as mesmas, vou já dar-te a taça para levares contigo. E também umas medalhas, não quero que te sintas maltratado.
upi,
sim, mas e a bicicleta? que me dizes tu da bicicleta?
Rui, bicicleta?!… Homessa, patins!
Já agora, para quebrar o diálogo entre vocês, Valupi e Rui Vasco Neto, acrescento que também eu, como colega e amigo, tenho grande admiração pelo Ferreira Fernandes. Desde há muitos anos. Sim, RVN, desde o tempo do Tal&Qual. Jornalista «dos antigos», é do melhor. Além disso, é também um homem com corajem para publicar certos textos que, a outros, intimidariam. Escreve bem e pensa melhor. Pena que não tenha tido até hoje, pelo menos parece-me, a atenção que merece. Por muito menos outros são louvados. E, note-se, Ferreira Fernandes não necessita, sequer, de escrever muito para mostrar a sua capacidade de excelente jornalista. Bastam-lhe, apenas, meia dúzia de linhas para mostrar que sabe o que diz, sensatamente. Agora, ninguém é perfeito! A ele basta-lhe ser um brilhante jornalista. Acho que chega.
Muito obrigado, My name is…
your name,
Aqui temos o exemplo acabado de uma conversa transversal feita de argumentos paralelos. Ou, em menos palavras: estamos todos basicamente a dizer o mesmo. O que neste caso é um excelente sinal, digo eu.
Recorde-se que esta troca de impressões nasce da minha C.O.(*) e de uma observação com pretensões a acrescento, não a divergência. Porque na essência falamos do mesmo, dizemos igual. FF é o que é, brilhante, imenso daquele material de que são feitos os de excepção. Tudo o que aqui dissemos foi na base do «é bom! não, é melhor! não, é melhor que melhor!», ou seja: palha de conversa, palha da boa, da mais saborosa, devidamente proteínada com olho clínico, respeito, carinho, até, entre outras vitaminas, A’s e B’s. Mas palha, também a divergência. Apenas pinetes, como dizem os amaricanos cuja alma FF lê tão bem e como poucos, porque muito os compreende.
Temos assim que nos une, esta reverência comum, a mim e ao senhor dos patins, perante o talento do jornalista e a estatura do homem. E assim sendo toda esta nossa aparente discordância, minha e do senhor dos patins, cabe inteirinha no tempo exacto de um copo, que se escolhe e se toma à medida do gosto pessoal de cada um, como tudo na vida. Nem mais um segundo para lá da última gota, nesta exclusiva questão de gosto, por assumida falta de munição. Ou seja: no que toca ao assunto eu cá já bebia outro, há já um nadita. Tenho é sede, agora.
(*)C.O. = Compulsão do Opinanço
Rui, também tu és um grande senhor. Já estou a encher os pneus da bicicleta.
(patins?! homessa, carrinho!)
Nada mau! Já não se perdeu tudo!