Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



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Num jantar de Natal do PSD, a 21 de Dezembro, Menezes profetizou o martírio e a insónia de Sócrates, logo a partir do começo do ano. A imolação teria lugar no Parlamento, a vítima cairia pela ferocidade dos deputados sociais-democratas. Antecipando as festividades, dois dias depois Menezes exigia que Cadilhe fosse para a CGD em nome de uma concepção corrupta de democracia, a qual garantiu ter a chancela de Cavaco. 2007 ainda lhe ofereceu uma última ocasião para exibir o perfil de grande estadista, desta vez pretendendo condicionar as eleições no BCP. Estava o baile armado, e ainda nem se tinha aberto champanhe com sabor a 2008.

Janeiro trouxe decisões governamentais de elevada dificuldade política em casos de elevado melindre social, tudo despachado com a habitual eficiência socrática. Mas não só. Menezes foi lesto para a Anadia pedir a suspensão da política de Saúde, reclamou a demissão de Constâncio sem precisar de conhecer as suas declarações, viu fraqueza do Governo na escolha de Alcochete, e antes do mês ter chegado a meio já tinha a sentença assinada: andavam a preparar a sua sucessão, 3 meses depois de ter chegado ao poleiro. Bateu o recorde de Santana Lopes para a mais curta distância entre o estado de graça e a desgraça do estado, façanha que ninguém julgava possível. Isto foi uma boa notícia para os amantes da comédia, tendo Menezes, e quem o aconselha, respondido ao descalabro com a catástrofe. No dia 13, o edil de Gaia afirmou que os portugueses preferem líderes que correm na Avenida dos Aliados em detrimento dos que só correm em Tianamen, no Calçadão do Rio de Janeiro e nas esplanadas de Luanda. Ainda estava a audiência a tentar assimilar o original raciocínio quando lhes despejou com outras verdades: que os frutos da prosperidade são para serem colhidos agora, nada de os deixar para as gerações vindouras; e que dentro de meia dúzia de anos Portugal pode ser um dos países mais desenvolvidos da União Europeia. Sim, meia dúzia de anos e país mais desenvolvido da União Europeia. 6 e UE. Sim. Marques Mendes estava vingado.

Então, quando o mundo descobriu o que o chefe da oposição em Portugal tinha concebido para a linha editorial das televisões, tanto as públicas como as privadas, houve um curioso sentimento misto: perplexidade e apatia. Por um lado, não se julgava possível que um político profissional fosse tão inepto, mesmo lunático. Por outro lado, a figura chamava-se Menezes; isto é, tratava-se daquele gajo que a cada três dias se superava a si próprio na imbecilidade. Ter chegado onde chegou era, afinal, um resultado inevitável. O seu plano de ordenamento dos comentadores televisivos conseguia parecer normal, ou talvez superasse os nossos limites cognitivos, em ambos os casos anulando uma qualquer reacção.

O episódio do comunicado de Santana Lopes relativo à entrada da CV&A no Parlamento corresponde à destituição de Menezes. Porque não há outra explicação para tal afrontamento. Santana cumpriu o seu papel de escorpião e picou a rã, mas na convicção de conseguir nadar. Ou talvez lhe baste apenas conseguir flutuar, por aí. Quanto ao PSD, desapareceu. Quando um dirigente partidário com o estatuto de Mendes Bota se permite comparar a ASAE com a PIDE, sabemos que já não estamos no campo da responsabilidade política, cívica e ética. Este miserável português é tão estúpido que só consegue ofender a memória das vítimas do Estado Novo. E quando temos o chefe da oposição a comparar a ASAE ao FBI, sabemos que Luís Filipe Menezes se transformou na Britney Spears da política portuguesa: faz tanto mal a si próprio que ficamos com vergonha de gozar e começamos a querer protegê-lo.

Janeiro trouxe insónias, mas não para Sócrates. Há quem não durma à procura da solução que irá restituir ao PSD a importância e dignidade perdidas. Porque esse é o maior problema da política nacional, a implosão do PSD — entregue a um grupo de dirigentes que não é só o pior sempre, é também a escória do sistema. Portugal sem o PSD fica frágil, perigoso, pois deixa de haver representação do centro-direita, com isso prejudicando a polaridade política que dinamiza a democracia. É que da última vez que olhei, todos os órgãos de soberania estavam bem e recomendavam-se, dispondo de água, luz, telefone e parque automóvel. O Governo, que tanto mal faz aos coitadinhos dos portugueses, prepara-se para sofrer um correspondente desastre eleitoral aquando do fim da legislatura, sendo substituído em 2009 por um outro Governo, muito mais bonzinho, que conduzirá a Nação para a secular modorra que a tantos convém. O Presidente tem cada vez mais piada e piadas. A Assembleia chama meio Portugal para prestar declarações. O procurador abre inquéritos se alguém abre a boca. Mesmo na comunicação social reina aquilo que se parece muito com a liberdade de expressão. E o Paulo Bento dá sinais de se ir aguentar até ao fim da época. Só no PSD se assiste ao sono da Razão, ao pesadelo dos videirinhos.


  1. 1 susana

    caramba, grande trabalheira fazer recensão política desta envergadura. política? ou será social?

  2. 2 Loopi

    Não sei se percebo muito do que dizes, mas se o tarot foi bem jogado, ao menos fico a saber que o nosso Sport não fica sem o Becas. Obrigado tia Maya.

  3. 3 Pamem

    Começar a rir a esta hora da manhã, só pode indiciar o resto de um bom dia.
    Belo texto valupi… novamente!

    Pela altura das Jornadas Parlamentares do PSD em Loulé/Vilamoura, alguém terá oferecido um livro de quadras de António Aleixo ao LF Menezes, desde ai, ele olha para o PSD de forma diferente, a cada momento dedica uma quadra

    Sei que pareço um ladrão…
    mas há muitos que eu conheço
    que, não parecendo o que são,
    são aquilo que eu pareço.

    Enquanto o homem pensar
    que vale mais que outro homem,
    são como os cães a ladrar,
    não deixam comer, nem comem.

    Uma mosca sem valor
    poisa, c’o a mesma alegria,
    na careca de um doutor
    como em qualquer porcaria.

    Vemos gente bem vestida,
    no aspecto desassombrada;
    são tudo ilusões da vida,
    tudo é miséria dourada.

    São parvos, não rias deles,
    deixa-os ser, que não são sós;
    às vezes rimos daqueles
    que valem mais do que nós

    Quem prende a água que corre
    É por si próprio enganado;
    O ribeirinho não morre,
    Vai correr por outro lado.

  4. 4 rvn

    valupi,
    Análise de categoria, olha se não. Davas um jeitão ao Cunha Vaz, amigo. Para não dizer ao homem, coitado, que bem precisava de quem lhe desse um jeito.

  5. 5 fmv

    Valupi,

    Quem poderá comprar-te, isto é, pagar-te para pensares por eles?

    Não te faziam jeito uns tostões?

  6. 6 Valupi

    susana, trabalheira nenhuma. É um prazer, sem envergadura.
    __

    Loopi, não tens de perceber. Tens de acatar.
    __

    Pamem, muito obrigado pelo Aleixo. A última quadra é preciosa.
    __

    rvn&fmv

    Portantos, vosselências querem-me a soldo do Cunha Vaz. Deve haver coisas piores, presunto.

  7. 7 z

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