O nosso Zé de laranja Lima

Quando Cavaco escrever as memórias do sua passagem por Belém, talvez relembre com gosto o que sentiu na manhã do dia 25 de Junho de 2009. Até lá, temos os factos vistos de fora: um Presidente da República lançou uma suspeição acerca de um negócio inexistente, deixando no ar a possibilidade de estar em curso uma conspiração governativa para levar uma empresa a comprar parte de outra com o único fim de limitar, ou anular, a liberdade de informação; em especial no que dissesse respeito aos casos danosos para a imagem do Primeiro-Ministro. O alarme social causado foi intencional, procurando diminuir a credibilidade do Governo já cercado por suspeições artificiais de enorme desgaste desde 2007. A possibilidade de manipulação da TVI, entretanto, era em si um absurdo que não teria qualquer possibilidade de acontecer, como se veio a demonstrar de imediato pelo Governo e PT. Ou seja, ao mesmo tempo que exigia ética e transparência, Cavaco agitava o espantalho do Freeport e chafurdava na campanha negra. Hoje, sabemos que tal acto não foi uma excepção, bem ao contrário: obedece a um padrão.

O texto de Fernando Lima, A minha verdade, repete a atitude de soberba irresponsabilidade do actual Presidente da República. O desplante atinge a irracionalidade, mente-se já sem qualquer atenção ao principio de realidade. Quando Lima justifica a notícia do Público apelando à nossa simpatia para com um deslize emocional, o qual teria sido explorado pelos malvados dos jornalistas, estamos perante alguém que perdeu por completo a capacidade de se responsabilizar seja pelo que for que faça ou deixe fazer. Não há deslizes emocionais no trabalho do Lima, muito menos por parte de quem é especialista em comunicação política, e nenhum jornal português ousaria publicar aquela inventona – e daquela forma, com declarações e historietas boçais coladas à escarreta – se não tivesse 300% de apoio da Presidência.

Uma Presidência que se calou bem calada a seguir às notícias que denunciavam, a partir da Casa Civil, a existência de espionagem de Estado dentro do Estado e contra o Estado, como é que deve ser qualificada? Não há suficientes palavrões no universo para despejar em cima desta situação nunca antes testemunhada publicamente, onde a Constituição foi trocada por um favor ao PSD que não se fez rogado, partido de videirinhos em que se tornou. A suprema hipocrisia de referir o facto de Cavaco estar de férias aquando do lançamento da inventona, ou invocar uma inexistente recusa em se envolver na política partidária, e ainda o ódio dirigido contra quem possibilitou o esclarecimento da situação, não surpreendem tanto pela sua malignidade, antes pelo seu primarismo. Esta putativa direita envergonha a vera direita.

Na hora do aperto, a malta que sabe como virar frangos sacrifica amizades quando se trata de tentar não ficar chamuscado, ou esturricado. O Zé Manel cumpriu exemplarmente as funções, tendo sido o aliado preferido da Presidência durante dois anos, mas acabou a levar pontapés de quem já lhe deu muitos abraços. É que a laranja no Governo dá ouro, nas empresas recebe prata e em Belém disparata.

14 thoughts on “O nosso Zé de laranja Lima”

  1. num qualquer país democrático e civilizado o Cavaco estava às voltas com um processo de destituição por ter fabricado um watergate ao contrário.

  2. Afinal sempre há cidadãos de primeira: Os que pagam os seus impostos e são sérios nas suas profissões. Os que não assaltam as finanças públicas nem ameaçam a justiça com processos que só a describilizam.
    E, depois há os outros, os de segunda e terceira categoria: Os que conjuram contra o poder democrático, os que manipuilam as notícias, os que criam factos políticos e se servem deles para a sua auto-promoção.
    Os que assaltam os bancos pela porta da frente.
    Os que criam grupos de pressão para impedir o funcionamento do governo democrático do País.
    Os que chegam a 1ºs ministros sem terem sido eleitos…
    Os que recebem comendas porque sim.
    Os que as dão, explicando que é norma, e o agraciado até já nem está em funções.
    Nisso o Cavaco tem razão:
    A boa razão para condecorar o Santana é ele já não estar a desempenhar qq cargo público.
    Como estas frases têm significado subliminar!

  3. Parabéns Valupi. Excelente texto e excelente (e contundente) título como refere “shark”. Há que denunciar, sempre, estas tramóias. Como é possível que o dito mais alto representante da nação possa enveredar por este estilo, próprio de guerrinhas de tribos africanos? Só mesmo por querer ter parte activa na governação. Ainda bem que o tiro lhe saiu pela culatra. Caso contrário é que, eu também, dizia: “que falta nos faz o Salgueiro Maia…”

  4. Denuncie-se a tramoia toda! Quiseram tomar o governo à força e com a bençao de quem menos se esperava. Ou talvez não. A democracia apanhou-o sem ele querer. Eu não queria pensar assim daquele que foi eleito para ser o nosso Presidente. Mas o silêncio do Sr Lima e do próprio Presidente depois da cobarde calunia contra o governo legítimo, num jornal de referencia, não podemos deixar de pensar assim. Vem agora o promovido e avalizado, portanto, pelo PR, dizer que o patife foi o Zé Manel e mais os outros jornalistas. Se o PR e este sr Lima estavam de boa-fé, porque não desmentiram a pulhice do jornal de referencia (o Público não é um pasquim qualquer!!!), limpando a lama lançada contra o Primeiro Ministro, que esse sim, há meses que era escandalosa e criminosamente escutado? Espero que na hora da campanha para as presidenciais ninguém esqueça este episódio que envergonha a democracia portuguesa ao mais alto nivel. Que seja lembrado, já que não foi investigada nem punida tão grande afronta ao Estado Democrático. E o Primeiro Ministro é que estava a ser “acusado” de atentar contra o Estado de Direito Democrático, pelos srs magistrados de Aveiro!!!! Vão ver que o seu desempenho nesta «face vergonhosa» ainda há-de merecer-lhes a classificação de MUITO BOM. Quem sabe ainda tenha sobrado alguma condecoração para os escrupulosos magistrados!

  5. Ainda não está bem no ponto, mas a sequência é esssa. É preciso, para alcançar o buraco negro e as exactas proporcões do cambalacho, avançar ainda mais na progressão sem nunca trocar a ordem, tendo em atenção que qualquer número considerado no contexto, é sempre a soma dos dois anteriores, assim;0,1,2,3,5,8,13,21,34,55,89,144,377,610 etc.
    Avance, mas veja bem onde põe os pés! Não se aproxime do marmeleiro, o pinheiro manso é abrigo seguro.

    Fibonacci em “Liber Abaci” (sec.XII)

  6. “Uma Presidência que se calou bem calada a seguir às notícias que denunciavam, a partir da Casa Civil, a existência de espionagem de Estado dentro do Estado e contra o Estado, como é que deve ser qualificada?”

    Uma presidência minúscula, difamatória e provocatória. Pidesca, em suma.

  7. “Quando Cavaco escrever as memórias do sua passagem por Belém”

    Esta deve ser a anedota do dia. Cavaco a escrever? E a escrever memórias? Duas anedotas.

  8. Nik,

    agora há aquelas pessoas que escrevem pelos próprios. É muito utilizado por actores de Hollywood, ex-companheiras de dirigentes desportivos, etc. Porque não Cavaco? Não desmerece…

  9. Prof. Cavaco emigra para a Coreia do Sul

    Os serviços de informação do “faroeomundo” podem adiantar em última hora que o Presidente Cavaco pretende abandonar o país caso sofra uma derrota nas próximas eleições presidenciais.
    Fonte oficiosa da Casa Oficial garantiu-nos que o destino será a Coreia do Sul.
    Caso alguma dúvida ainda subsistisse atentem nas declarações de Cavaco, aquando de uma visita ao hospital Francisco Xavier, que chamam para primeiro plano a importância dos incentivos à natalidade. Hoje os serviços de informação do “faroeomundo” registaram estas declarações onde o Governo Sul Coreano diz às pessoas para irem para casa fazer sexo, mais, vai obrigar os funcionários públicos a saírem mais cedo para terem tempo de procriar.
    O Prof. Cavaco terá confidenciado a um seu assessor (L–a) que se ganhar as eleições reunirá com o Governo e exigirá deste a adopção de semelhante medida.

    FM
    Ps. Já se fabricaram notícias por muito menos que estas “coincidências” de declarações.
    http://www.faroeomundo.blogspot.com

  10. Qual é a estratégia colada a esta atitude, é o que nos falta descobrir.

    Quando soubermos, vamos ter outro ataque de nervos e desejar que CS não saia da travessa do Possolo, lugar donde nunca devia ter saído.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.