O “Estado Islâmico” como hipertrofia consumista

O “Estado Islâmico” está à beira de perder Mosul e Raqqa. Quando isso acontecer, e vai acontecer nas próximas semanas, ficarão a dominar apenas uma faixa ao longo do Eufrates e algumas bolsas de terreno dispersas no Iraque e na Síria. O completo aniquilamento do controlo do EI nas cidades e povoações exigirá mais uns meses, mas o seu desfecho é inevitável. Que vai ficar? Uma marca, no sentido capitalista do termo. Uma marca que pode ser utilizada de acordo com o modelo da franquia (franchising), tal como começámos por ver em África, depois no Afeganistão, Paquistão e agora nas Filipinas, fora os casos sem organização militar que somados cobrem 29 países, podendo aparecer em qualquer lugar onde exista mercado para tal.

O marketing, mais do que a religião, é o que melhor permite interpretar a dinâmica do EI enquanto objecto de criação de afectos e simbolismo. O apelo homicida que desperta e alimenta pretende ser de consumo instantâneo, não carecendo de qualquer mediação verbal, temporal ou litúrgica. Um desorientado mental que se arrasta numa vida de marginalidade e pequenos crimes numa qualquer urbe ocidental, o qual nunca entrou numa mesquita nem leu uma linha do Corão, pode saltar directamente para uma fantasia onde se embriaga de um heroísmo alucinado e, por isso mesmo, doador de identidade. Esta nova identidade traz um preço colado à facilidade com que pode ser consumida: um tipo de suicídio através do terrorismo ou de combates militares impossíveis de evitar a mais impiedosa derrota.

Daí o investimento do grupo na sofisticação das suas peças de comunicação, desde as coreografias grotescas das carnificinas cuja principal finalidade é a popularidade mediática até aos códigos estéticos reproduzindo com eficácia profissional as convenções publicitárias de Hollywood e da indústria dos jogos digitais. O efeito é similar ao do consumo da pornografia, gerando uma crescente abstracção que acaba por cortar todos os laços que ainda restassem na capacidade empática e cognitiva das vítimas. Quando os que encontram no EI a fase seguinte da sua alienação existencial partem para os actos de terrorismo, ou de combate, estão invariavelmente encharcados em drogas e reduzidos à espessura mental de um vídeo. Este um retrato típico dos arregimentados ocidentais fora das geografias do Iraque e da Síria, pois aqui os laços tribais e familiares são os que, embrulhados na fratricida religião, explicam o suicídio colectivo. Quanto aos que vêm das comunidades muçulmanas do Leste europeu e do Médio Oriente, os processos de fanatismo terão variegada origem e tipologia, também em muitos casos como consequência de contextos de conflitos anteriores que causam estados psicóticos promotores da adesão à proposta suicidária, psicadélica, do EI.

Donde, o bordão que lemos e ouvimos invariavelmente a cada ataque terrorista nas democracias ocidentais, o de que estes criminosos querem mudar o nosso “modo de vida”, não encontra fundamentação no que conhecemos dos indivíduos envolvidos. Por exemplo, os operacionais que desviaram os aviões no 11 de Setembro estavam perfeitamente adaptados ao nosso “modo de vida” e aproveitaram-no, literalmente, até ao último dia. Num plano lateral, o que sabemos das classes dirigentes árabes ou da classe média iraniana, para dar dois exemplos complementares e anedóticos, revela exactamente o mesmo: o nosso “modo de vida” é aquele que mais os atrai e serve de referência aspiracional. Outra parece ser a lógica, a de que os infelizes que escolhem morrer matando indiscriminadamente quem puderem apanhar na sua violência estão, no fundo, a provar a sua absoluta fidelização ao nosso “modo de vida”, um modo de vida onde celebramos quem faz alguma coisa, seja lá o que for, capaz de dominar as notícias. Capaz de encher os ecrãs.

19 thoughts on “O “Estado Islâmico” como hipertrofia consumista”

  1. Valupi, larga o tinto (e vai bulir).

    ______

    Assim estás tu e as tua série de prosas no Aspirina B, ó Valupi.

    Para o que lhe dá o vinho

    Encontra-se nos calabouços do Torel, X1, que há dias, estando embriagado, se dirigiu ao Governo Civil, onde declarou que agredira a tiro na rua do Passadiço um indivíduo cuja identidade ignorava.

    O preso foi ontem interrogado pelo agente X2 e declarou que não praticara qualquer crime e que se apresentou à prisão em consequência de se encontrar embriagado.

    Não é a primeira vez que se apresenta à prisão, em condições idênticas, a confessar-se autor de crimes que não pratica

    DN, 2.7.1935, p. 5.

  2. E colocar no mesmo plano as classes dirigentes árabes e a classe média iraniana, sem atender às profundas diferenças culturais de uns e outros, e envolvendo isto tudo nos ataques terroristas, é hipertrofia analítica. Faz lembrar os gajos que dizem das populações dos países do extremo oriente: são muitos, são todos amarelos e qualquer dia invadem-nos. Já andam todos a comer hamburguers para fazer o estágio.

  3. interessantíssimo pensar no aplauso colectivo do transtorno de personalidade histriónica que é o terrorismo. o aplauso é o sadismo de que se reveste a propagação. há aqui uma espécie de flakko na relação entre terrorista e aterrorizado: quanto pior, ui! que horror!, melhor. ops.

  4. Pedro, vou dar-te um conselho à borla: se procuras textos onde se atenda “às profundas diferenças culturais entre uns e outros”, de forma a que o teu profundo conhecimento dessas diferenças fique satisfeito sejam lá quem forem esses outros e uns, o melhor será não perderes o teu rico tempo a ler blogues, ou a ler este, ou a ler o que escrevo.

  5. Então, fizeste um texto cheio de very nices, todo pimpão, que te deve ter dado muito trabalho, e vens-me dizer, no fundo, que não vale a pena ler-te, porque não se aprende grande coisa com o que escreves? Catano, os comentadores do correio da manhã pelo menos são mais sintéticos e directos nestas coisas.

  6. Ola,

    Eu acho o texto interessante e concordo no essencial. Não creio que seja sobre o islamismo, muito menos sobre o islão. Trata-se de um texto sobre o terrorismo, aplicavel creio eu aos suscessivos avatares que a coisa conheceu desde, pelo menos, os finais do século XIX. O que diz o post, tanto quanto percebo, é que o terrorismo vai buscar a sua eficacia, senão mesmo a sua consistência, ao crédito que damos aos nossos pesadelos, os quais não passam de um reflexo retorcido daquilo que somos. Infelizmente, é possivel defender que este crédito tem sido cada vez maior. Por isso, de um simples ponto de vista técnico-financeiro, se o terrorismo tivesse cotação na bolsa, seria incontestavlemente um “bom” investimento.

    Boas

  7. É. Faz um sentido do caraças falar de terrorismo contemporâneo sem falar de islamismo. Vê-se logo que são coisas que são coisas que nada têm a ver uma com a outra. A contemporização e complacência com a aberração estratégico-militar ocidental que, atrás do papão vem aí os russos, estilhaçou os países onde a incubação de movimentos terroristas é favorável, já tem na sua conta umas quantas centenas de milhar de mortos e vários milhões de refugiados espalhados Europa fora. Não chega. É preciso entreter a malta com mais blá blá blá até os próprios sentirem o sangue nas goelas.

  8. E os comentarios idiotas do Galuxo, a melhor ilustração de quão certeiro é o post… Ninguém diz que não ha relação entre as duas coisas, oh caramelo, apenas que o post não é sobre ela. Vai tomar os remédios e respira fundo.

    Boas

  9. Pedro, qual é o “trabalho” que imaginas ter tido para escrever os quatro parágrafos acima? Seja lá qual for a resposta a que chegues, posso confirmar-te a inutilidade de me leres se a tua intenção for a de aprender alguma coisa. Remeto-te para a famosa piada marxista (mas do Groucho) : “I don’t care to belong to a club that accepts people like me as members.”

    Isto é um blogue, e estes meus textos não passam de exercícios aparvalhados. Pronto, ficaste informado.

  10. basta esperar umas semanas para verificar que as prognoses do valupi valem menos que um tostão furado. não foi este palerma que deu por terminadas as eleições a favor da escroque hillary logo após o primeiro debate? pois, valerico, pois e tal… não fazes puto ideia de coisa nenhuma

  11. O Islamismo historicamente, sempre teve como principal objetivo a conquista do poder político. Junto com esse objetivo principal traz um código de processo civil e penal (a charia) e um projeto de governo (o califado) e ainda uma religião fixada no livro Alcorão. Nenhum destes objetivos é passível de revisão ou atualização.
    O principal objetivo é a tomada do poder e os outros são instrumentais. No caso do sucesso da tomada do poder, o califado, a charia e a religião são impostas e tem como alternativa o extermínio de quem não os aceitar. No decorrer da História tem sido assim, e na atualidade temos exemplos disto na Síria e no Iraque. Portanto parece-me que tratar o Islamismo como uma religião entre outras religiões é profundamente errado. Parece-me que o Islamismo deve ser tratado como uma organização política que quer conquistar o poder de forma não democrática. Parece-me também que as mesquitas devem ser consideradas como centros partidários do Islão político e não devem ser permitidas. Esta é a minha visão do problema que admito, poder ser pouco consensual.

  12. “Pouco consensual”, é com certeza, mas às vezes é da discussão com pessoas com coragem para defender esse tipo de convicções que podem surgir soluções. Por exemplo, neste caso, se substituirmos as mesquitas, cujas desvantagens estão à vista, por campos de concentração, onde pelo menos poderiamos manter uma vigilância policial eficaz sobre estes individuos perigosos , ja poderia ser ?

    Boas

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