O assalto ao bom senso

Tinha, tenho e continuarei a ter o Paulo Tavares na conta de jornalista sensato e útil. Mesmo depois de ele ter publicado isto como “opinião da direção”:

O gabinete do ministro da Defesa enviou ao DN um esclarecimento a propósito da manchete de ontem, Autorização para obra na vedação de Tancos demorou 73 dias. À parte a correção de pormenor nas datas, importa fixarmo-nos no último parágrafo. Aí revela-se muito mais do que uma simples correção de datas. É dito que "o despacho em causa (...) não resulta de nenhuma questão de segurança da infraestrutura; diz respeito estrito a um ato administrativo de autorização de procedimento contratual". Conclui-se, portanto, que ao ler as palavras "cerca", "paiol" e "reparação" todas juntas, num documento do Exército, não passou pela cabeça do ministro - ou de alguém do seu gabinete - questionar as chefias militares sobre as condições de segurança daquele perímetro [...]

Não foi uma "questão de segurança"? A sério?! Mas senhor ministro, que outra razão haveria para o Exército querer uma cerca nova ou instalar um circuito vídeo naquelas instalações? Ter uma vedação mais bonita e de uma cor que combinasse melhor com o mato por cortar dentro do perímetro dos paióis? Passar a ter câmaras mais modernas, a cores e alta definição, para ver ao detalhe a nova cerca? Acaso os pedidos que lhe chegaram à secretária foram para construir canteiros de flores ou fazer melhoramentos na messe dos oficiais? São uns frívolos e vaidosos, estes tipos do Exército...

Querido, mudei a cerca (ao paiol)

A coisa, do princípio ao fim e a começar pelo título, pretende-se sarcástica, mas é apenas parva. De acordo com o raciocínio, sempre que o Ministério da Defesa aprova uma despesa qualquer tem de questionar as chefias militares sobre matérias de segurança. É que tudo se pode relacionar potencialmente com algum risco, num qualquer grau, quando estão em causa as Forças Armadas. O articulista enche o peito com as palavras “cerca”, “paiol” e “reparação” sem perder uma caloria a pensar se o alvo da gozação não acabaria por ser ele próprio. Ter um ministro da Defesa a telefonar para os chefes militares por causa de uma reparação numa cerca de um paiol dá notícia, sem dúvida, só que à pala do ridículo da questão e pelo atestado de incompetência que esse ministro estaria a passar aos militares. Quando os nossos oficiais e praças precisarem da ajuda dos ministros para reconhecerem uma falha de segurança na protecção de um paiol por causa da porcaria de uma cerca essa será uma trombeta a anunciar que o melhor é fecharmos a tropa e confiarmos a defesa da Nação aos discos do Solnado.

17 comentários a “O assalto ao bom senso”

  1. Está tudo doidinho para ver o governo sair queimado dos incêndios e explodido de tancos.

    Mas com piquinhices destas , o Costa nem perde um minuto das suas férias.

  2. mas vamos lá saber : na tropa fandanga não há uma equips de manutenção ? um predeiro ? um electricista ? um mecânico ? que raio fazem aqueles homens todos l á?

  3. yo

    Exactamente !
    Aqueles homens não eram capazes de reparar eles a cerca ?
    E de fazer as rondas necessárias a guardar aquela merda ?
    E já agora, se não há gente suficiente …porque não pedem ao Ex-Ministro da Defesa Paulinho das Feiras que anule o decreto que extinguiu o Serviço Militar Obrigatório ? Alô direitolas … se não há dinheiro porque é que não mandam vender os 2 submarinos, e os Pandurs ?

  4. E na venda há comissão?
    Não mandam vender porque cada reparação dá para construir uma frota de bacalhoeiros, mesmo não havendo bacalhau!

  5. Bom senso ?! Quem escreve o que PT assina ou é estúpido ou tem agenda. Pessoalmente achava preferível que fosse apenas estúpido. Esses ao menos têm garantido o reino dos céus. Já quem escreve aquilo sabendo ao que vem, é simplesmente um refinado FDP que merecia ser regado com alcatrão e recoberto com penas de ganso.

  6. que falta faz o serviço militar ou cívico obrigatório
    esta, além de rasca, é uma geração inútil e mimada

  7. estoua imaginar no meio da guerra o tanque encravar , o avião não pegar , o míssil não rebentar , etc e o sargento meter requerimento para concurso público para reparação :) :) a paz é boa , mas faz muito mal.

  8. Tive ocasião de o interpelar na caixa de comentários desse editorial se,
    estaria em competição com o director P. Baldaia no campeonato de as-
    neiras que escrevem sobre os assuntos que tanto animam a direita!
    O Baldaia chegou ao desplante de seguir a ideia do Nicolau Santos que,
    também acha que a MAI estava procurando protagonismo ao colocar-
    -se junto do Presidente da República, afastando o Secretário de Estado,
    das duas uma ou são maldosos nas insinuações ou são ignorantes sobre
    o protocolo do Estado! Tudo gente que procura passar entre a chuva ora
    dão no cravo ora dão na ferradura … tudo serve para a chicana!!!

  9. O cerne da questão é este : com vídeo-vigilância ou sem vídeo-vigilância, impõe-se sempre a existência de uma força militar de intervenção ( um piquete ) .
    Assim, caso exista vídeo-vigilância ( que implica um custo com o equipamento) custo esse agravado pelo facto de ser necessário pessoal habilitado a lidar com o equipamento ( outro custo adicional, este com o pessoal ) e seja detectado algo de anormal, tem que ser accionado o pessoal de prevenção, o piquete, para intervir e repor a normalidade .
    Na hipótese de não existir equipamento de vigilância, a segurança terá que ser assegurada única e exclusivamente por pessoal, para o efeito devidamente treinado e equipado para intervir .
    Era o que sucedia antes da invenção e existência de câmaras de vigilância.
    O método utilizado, eram as patrulhas, ou rondas . Que evidentemente, têm que ser escalonadas, de modo a que não deiam janelas de tempo para qualquer acção de intrusão do alheio no espaço a proteger .

    Segundo parece, não existem meios humanos, – em linguagem comezinha, militares contratados, em número suficiente .
    Acresce, que, alegadamente, por no passado, se terem, por incúria, andado a ferir ou a matar uns aos outros, foram introduzidas restrições ao uso de munições, prontas a disparar .
    Ou teria sido antes pelo roubo das ditas ( será furto ? Será gamanço ? Desaparecimento não é certamente, e aparecimento não pode ser ).

    Assim sendo, não há força de segurança nem vídeo-vigilância que lhes, – nos -, valha .

    O resto é conversa da treta . De político, e de propagandista de blog ou de pastor de facebook .

  10. Estás a demorar muito a pensar, ó Valupi !

    Enquanto tu pensas no post da “diligência” efectuada (???) ao Ex-ministro Manuel Pinho, o Ministério Público e os Juízes correm de lambreta, pá !
    Ó pra eles a prosseguirem a grande velocidade na sua agenda política. Rolam as cabeças de 3 secretários de Estado. Isto sim, é que é OPOSIÇÃO ao governo.
    E agora até o Coelho salta de tão animado que está com a “greve” dos juízes. Julga que volta ao poder quando o Costa cair. Ainda não percebeu que os senhores juízes e magistrados estão no ponto de dispensar os fantoches como os Coelhos desta vida.
    Tal como na América os ricaços dispensaram os políticos profissionais e se deram ao desplante de ir a jogo com um palhaço dos deles … em Portugal também não faltará muito para que um juiz bafiento, com cheiro a mofo e a naftalina, tenha o desplante de se chegar à frente para o governo do país ou a presidência da República.
    Entretanto o Costa está escondido numa ilha, com medo de ir preso como o Sócrates, e de não aguentar o calor de Évora … !

    A COBARDIA do PS vai sair-lhes tão cara, mas tão cara !
    O pior é que vai sair muitíssimo mais cara ao país !

  11. 1º – Logo à partida, o primeiro assalto ao bom-senso é afirmar que houve um assalto em Tancos. Alguma autoridade judicial (civil, ou militar) já o confirmou? Há algumas provas desse “assalto”? Tenham lá calma e aguardem serenamente pelo final das investigações. O único assalto já comprovado é o continuado assalto das televisões e dos tabloides à nossa inteligência;

    2º – O facto de não nos deixarmos ludibriar pela intensa e maciça propaganda antigovernamental não nos deve, contudo, impedir de pensar e refletir seriamente sobre este problema, que não tem só a ver com a segurança das instalações militares, mas que abrange toda a mentalidade que enforma atualmente não apenas o exercício de cargos políticos, mas todo o nosso funcionalismo público. O facto de um Ministério entender o “despacho” de um concurso para reparação de uma vedação como um “ato administrativo” só pode espantar quem não lide diariamente com a Administração Central, ou Local. Tudo na nossa Administração Pública se “administrativizou” até raiar o absurdo, nos últimos trinta anos, por força do pensamento cultural dominante, onde os Técnicos foram sendo paulatinamente subalternizados por uma nova casta dirigente onde pontificam, acima de tudo, os Juristas e os Gestores, mas onde também os “informáticos”, os “relações públicas” e outros “licenciados” e “mestres” avulsos emergiram como decisores supremos, deixando que o Poder, em geral, se sobreponha definitiva, irresponsavel e arrogantemente ao Saber.

    Não é tanto a presente campanha feroz dos cães raivosos contra o nosso bem-sucedido Governo o que mais me preocupa (depois desta virão sempre outras mais…), mas sim este processo lento e invisível de transformação do exercício de cargos públicos dirigentes, desde os mais básicos aos mais elevados, em meras gestões administrativas, cujos detentores raramente se preocupam com o interesse público e a essência da Administração, só se importando com os seus interesses e procurando evitar “ondas” e criar “sarilhos”, mesmo que em prejuízo da sua missão no cargo.

    Com este tipo de problemas nunca se vê ninguém preocupado. E não pensem que eles se resolvem “de uma penada”, ou com demissões precipitadas. Nada disso irá impedir a lenta e inexorável degradação do papel do Estado social e democrático nas modernas sociedades globalizadas e ultra-mediatizadas, se não percebermos o que estamos a destruír com o caminho que tomámos no sentido de um Mundo hiper-formalista e legalista, mas vazio de conteúdo.

    Desculpem este longo desabafo, mas no meio de tanto lixo efémero, um dia alguém tem de chamar a realidade à conversa.

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