O adepto não é bento

Após o jogo com o Basileia, onde ao intervalo o Sporting foi assobiado pelos adeptos, Paulo Bento disse o seguinte:

Não me parece normal. Uma equipa com um troféu conquistado, que está em primeiro lugar no campeonato e que à segunda jornada da Liga dos Campeões não está a jogar mal… não me parece normal aquilo que aconteceu. Valeu-nos, hoje, o carácter e a personalidade dos jogadores para dar a volta a esta situação. Ao contrário de outras situações, em que foi o público que nos levou, hoje penso que foi ao contrário: foram os jogadores que levaram o público.

Paulo Bento tem qualidades de chefia que lhe garantem uma carreira tranquila, e já provou ser um bom táctico. Falta-lhe, agora, levantar os olhos do umbigo. Primeiro, o seu salário é pago pelos adeptos. Segundo, o seu emprego é mantido pelos adeptos. Terceiro, a equipa foi comprada pelos adeptos. Quarto, o estádio existe para os adeptos. Estes pressupostos são indiscutíveis, levando a três corolários:

– Paulo Bento está tonto.
– Paulo Bento está parvo.
– Paulo Bento está tonto e parvo.

Já chega de falar do carácter e da personalidade dos jogadores porque os adeptos não pagam aos jogadores para terem personalidade e carácter. A personalidade falha golos feitos e o carácter é frangueiro. O que verdadeiramente não é normal, e faz do Paulo Bento um anormal, é vir dizer que o público leva (??) os jogadores. Nunca assim foi e nunca assim será, senão ganhavam invariavelmente os da casa. É o emblema e a equipa que puxam pelo público, aqui como na China, hoje como há 100 anos ou daqui a 1000. E é a equipa que leva o público para o estádio, para a rádio, para a televisão, para os jornais, para as lojas e para a rua. Estas declarações de Paulo Bento revelam que ele está a confundir o futebol profissional com os Jogos Sem Fronteiras ou com algum torneio de malha no concelho de Abrantes. Isso faz prever o pior para a sua relação com o Vukcevic, apenas o melhor jogador em Portugal, pois indiciam completa falta de lucidez. Ó Paulo, olha para aqui: o adepto não quer psicologia, quer raça.

Quando um adepto assobia a sua equipa, está a emitir um sinal que o cérebro do jogador assimila como estimulante do instinto de sobrevivência. Isso leva a que o jogador fique concentrado e desenvolva um sentimento de culpa pró-activo que melhora o seu posicionamento defensivo e aumenta a sua capacidade aeróbica em 33% (acabo de inventar; pelo que, mesmo que não esteja certo, tem a vantagem de ser uma informação recente). Vir fazer queixinhas dos assobios devia ser algo proibido pelos estatutos do Sporting. Os únicos assobios ridículos para um adepto que se preze são aqueles contra as equipas contrárias – porque conferem importância ao adversário, denunciam receio. Devia ser questão de honra leonina aplaudir a equipa visitante à chegada e à partida, independentemente do resultado e das voltas da sorte.

Se não queres ouvir assobios, Paulo, trata então de reinventar os treinos. Nem reunindo todo o poder dos deuses se conseguiria que algum adepto assobiasse a sua equipa quando ela está a jogar bem. E para jogar bem, Bento, basta correr na direcção da baliza adversária com a bola nos pés. É tudo tão simples no futebol, ai.

11 thoughts on “O adepto não é bento”

  1. Não aprecio P Bento por aí além… mas este argumento de que os adeptos pagam tudo surpreende. Então aquilo não é uma SAD? E, se é, os adeptos são, necessariamente, accionistas?
    Naturalmente que um adepto pode contestar, manifestar o seu desagrado; mas nunca com o argumento de que ele é que paga. Se assim pudesse ser, então tb poderia deixar de pagar.

  2. Paga sim, paga 12 euros por mês mais 240 euros por ano para ter o cartão e lugar marcado. Com Vukcevic tudo foi diferente os dois golos nasceram de lances iniciados por ele. Sacudiu o jogo e eu vi, apesar de estar atrás da outra baliza, a do lado do Lumiar.

  3. jcfrancisco

    O adepto não paga nada disso. O sócio sim.

    Mas mais importante é que saiba distinguir o SCP (Clube) da SAD (sociedade anónima desportiva) e, por isso, o que são receitas de um e da outra. Porque são coisas completamente distintas, mesmo que se diga que (por agora) o clube tem participação importante na SAD, como accionista.

    Mas olhe que recentemente até havia a ameaça de o clube deixar de ter participação tão importante, uma vez que se quereria abrir a porta a investidor capaz de aliviar os problemas financeiros da SAD.

    Mantenho, assim, que é a SAD quem paga ao P Bento, aos atletas. E pode crer que a receita das quotas não é da SAD mas do Clube.

  4. Normalmente o patrão não assobia para o lado… mais: sopra ou bufa.

    E, no caso, tanto se me dá.

    De qq jeito, não estava em causa saber quem pode ou deve assobiar, porque qq um pode, adepto ou não. Mas a “legitimidade” não está no facto de pagar ou de ser patrão, sobretudo quando não paga, nem patrão é.

    Tão simples…

  5. a. moura pinto, tens razão, mas não tens a razão toda. O que se passa num clube, como concordarás, remete sempre para os adeptos. Se estes não existissem, o clube (nos moldes empresariais relativos ao futebol profissional) deixaria de ser viável. É o conjunto dos adeptos – tomados como mercado; ou seja, como conjunto de consumidores de bens e serviços directa ou indirectamente lucrativos para o clube – que justifica a existência de modelos de gestão com ou sem SAD, mas sempre com associados e dirigentes.

    Então, sim, são os adeptos os super-patrões da equipa.
    __

    jcfrancisco, é isso.

  6. Aparte da discussão sobre Clube e SAD, tens toda, mesmo toda a razão neste post!

    Eu estava lá ontem, (costumo lá estar sempre, deu-me pra comprar cativo), e depois de ver aquele jogo(principalmente a primeira parte, mas a segunda foi igualmente fraquinha) e ouvir o Paulo Bento, só posso concluir o mesmo q tu..
    Tá parvo de todo!
    Tá Tonto de todo!

  7. jcfrancisco

    Ainda vai sendo um pouco como dizes. Mas apenas um pouco.
    E eu até gostaria que se pudesse manter a vertente romântica de outrora: um clube suportado pelos seus sócios e adeptos e pouco mais.~

    Mas já não é assim…

    Repara: quantos não vemos hoje com muito interesse jogos das ligas estrangeiras (inglesa, italiana, espanhola…). E, no entanto, não seremos adeptos de nenhum dos clubes que as disputam. Mas estamos interessados num espectáculo de futebol, que ali temos quase como garantido.

    Claro que esses clubes têm também os seus sócios e adeptos locais.

    Mas, num e noutro caso, de que sobrevivem, de facto, os clubes? Sobretudo das receitas televisivas, estas por sua vez condicionadas pelas da publicidade que se consegue meter num espectáculo televisivo.

    No fundo, no fundo, é como consumidores de publicidade que alimentamos o futebol, não através de quotas e muito pouco através dos bilhetes, salvo casos raros.

  8. Pois por isso é que o meu livro «Os guarda-redes morrem ao domingo» é já uma coisa do passado. É uma realidade em vias de desaparecimento. Nem mais.

  9. As tuas palavras sobre o treinador que tem nome e apelido de Papa estão certas e estão erradas. Melhor, certas palavras estão erradas. Passo a refutá-las de forma semi-anárquica, como aquelas jogadas de ataque do nosso Sporting (oops, acabei de revelar que, ao contrário da melancia do outro post, o meu coração é vermelho por fora e verde por dentro, sendo que daí não decorra que os sportinguistas sejam melancias invertidas) quando está a jogar em casa, de cabeça perdida, sob as assobiadelas mais ou menos sincronizadas de um público que na sua esmagadora maioria nem sonha o que é jogar futebol ou treinar uma equipa, porque a maior parte das vezes, os profissionais têm talento e arte suficientes para fazerem o que é difícil parecer fácil junto de jogadores, treinadores de bancada, jornalistas e até bloggers.
    Sobre as assobiadelas do público: o público não é a soma de todas as pessoas nem de todas as vontades presentes num estádio, mas sim uma incontrolável manifestação de uma voz desafinada, que desconhece o som que vai produzir em seguida. Sempre preferi as palmas quando a equipa estava a jogar mal, pois são assobiadelas sublimadas, e poderão ter como efeito a transmissão da mensagem: vocês estão a jogar mal, deviam ser assobiados, mas em vez de estarmos do lado do adversário, desmoralizando-vos, aqui vai o nosso voto de confiança. Porque o futebol, em vários sentidos, se joga com a cabeça (leia-se motivação, estratégia adequada, inteligência na leitura de jogo, tanto de jogadores como de treinadores e, atrevo-me a escrevê-lo, dos espectadores activos que constituem o público dos estádios.
    O público paga aos jogadores, mas os jogadores não podem obedecer ao público como autómatos. Isso seria o princípio do fim. Quantas pessoas quereriam ir ver um jogo onde à partida soubessem o que ia acontecer? É certo que os jogadores são profissionais, como os contabilistas, professores ou dentistas (mas porque será que ninguém assobia e acena lenços brancos a um dentista que por engano arranjou o dente do lado ou a um contabilista que não conseguiu duplicar o reembolso do IRS?) mas situam-se numa área onde a razão nunca conseguirá explicar tudo, nem talvez sequer metade de tudo.
    Os treinadores não deviam castigar os jogadores não os convocando. Se é verdade que o treinador precisa dos jogadores, haverá lógica e bom-senso na forma de castigar os jogadores que consiste em não os chamar para jogar? Não será aí o verdadeiro punido o próprio treinador, a equipa, o clube e o emblema que faz os corações bater mais depressa e incondicionalmente, seja qual for o nome de treinadores e jogadores que o representem? Sempre me divertiram os castigos disciplinares aos bons jogadores das equipas adversárias, uma espécie de lesões voluntárias. Muitas vezes, tornam-se pontos a nosso favor.
    É verdade que os jogos de futebol se ganham durante a semana, nas sessões de treino, enquanto o público que assobia porque paga o seu amor – há quem diga que é mais fácil um homem (ou mulher, acrescento) mudar de religião do que de clube – vive o seu quotidiano cinzento longe das emoções do estádio.
    É claro que os jogadores precisam do público, o 12º jogador – expressão que, jornada após jornada, legitima o nosso discurso na primeira pessoa do plural, quando dizemos no café, no emprego e no autocarro: jogámos bem na segunda parte, tivémos azar, falhámos duas de baliza aberta, etc. Mas em nenhuma circunstância poderíamos dizer que as equipas da casa ganhariam invariavelmente, se tivessem todos os adeptos do seu lado, pois isso seria negar a magia de um jogo que, para uma restrita minoria, até é uma profissão. Uma profissão onde o treinador de talentos, egos, músculos e manias ganha muitas vezes menos do que as vedetas que jogam e são sempre os verdadeiros deuses dos estádios, estando por isso nas suas mãos e pés. Se nos empregos dos adeptos, quem desse ordens, instruções, castigos e raspanetes ganhasse regra geral menos do que eles, como seria? Haveria obediência e disciplina?
    Sugiro que um destes dias, apenas durante uma 2ª parte, haja uma revolta pacífica no estádio e o público treine de verdade, os jogadores aplaudam e assobiem à vontade e os treinadores corram e percorram pelo menos 30 vezes o relvado de uma ponta a outra, todos eles esquecidos dos seus umbigos (como aqui ficaram esquecidos os árbitros) e que tu, Valupi, estejas por perto com as tuas sempre inspiradas e inspiradoras palavras. Qual seria o resultado? Atreves-te a um prognóstico antes do final desse jogo? Tenho a certeza que sim.

  10. J de João, inspiradas e inspiradoras palavras são as tuas, que dás a ideia de saber muito mais de futebol do que eu. Aliás, creio que os teus conhecimentos se elevam do relvado até aos holofotes, circundam o estádio e entram nos balneários e no gabinete da direcção. Suspeito que o futebol tem um lugar cativo no teu coração, talvez mesmo um camarote.

    O que escreves está repleto de boas ideias. E foste generosa na expressão, para nosso prazer de leitores. Não me atrevo a fazer o prognóstico para o jogo com que me desafias, mas atrevo-me a recomendar ao Paulo Bento para te contratar como psicóloga, ou motivadora, dos leões. Porque o futebol mais bonito é aquele jogado por equipas cheias de fantasia.

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