Não é vergonha, é espanto

Nem o Ministério Público, nem o Conselho Superior do Ministério Público, nem um Tribunal da Relação consideraram as declarações de Ventinhas merecedoras de qualquer consequência disciplinar ou judicial. O CSMP chega a debochar:

“As declarações foram proferidas num contexto de tensão verbal muito expressiva, como resposta a uma entrevista em que a integridade do Ministério Público foi posta em causa. Mesmo que se possam considerar excessivas não decorre daí relevância disciplinar.”

Temos um critério vago, psicologista e relativista ao serviço da manipulação do mais forte: “contexto de tensão verbal muito expressiva”. Temos a vitimização corporativa e corporativista: “entrevista em que a integridade do Ministério Público foi posta em causa”. Temos o recurso ao oxímoro como exibição de impunidade: “Mesmo que se possam considerar excessivas não decorre daí relevância disciplinar”. Excessivo em relação a quê? E se o que o CSMP considera excessivo não tem relevância disciplinar, o que é que a terá? Só o muito-bué-da-muito-mesmo-muito-excessivo-e-que-já-não-dá-para-esconder-de-ninguém-e-ai-jasus-que-nos-mijamos-a-rir-mas-desta-é-que-temos-mesmo-de-agir-disciplinarmente-mas-é-só-uma-vez-sem-exemplo-desculpem-lá-coleguinhas?

António Manuel Ferreira Ventinhas, dada a sua formação e a sua profissão, e com a agravante de representar como dirigente um órgão colectivo da classe, não tem qualquer atenuante para as calúnias que agravadamente proferiu perante órgãos de comunicação social. É exactamente ao contrário. Exactamente ao contrário. Exactamente ao contrário. Discussão pública deste episódio? Alguém poderá dar nem que seja meio exemplo de um colunista de vão de escada? A elite política, jornalística e social não quer gastar sequer uma caloria com o assunto. [errata]

Episódio congénere, mas num certo plano ainda mais preocupante e vexante, aquele que só o Observador noticiou: Poder político decisivo no arquivamento de investigação a Carlos Alexandre. O meio é a mensagem, escreveu um bacano canadiano, e no caso o meio tem todo o interesse em passar a seguinte mensagem: Costa protegeu Carlos Alexandre de Sócrates. De facto, a notícia relata esta cena inacreditável: Vítor Faria, membro indicado pelo PS para o Conselho Superior da Magistratura e referido como próximo de Costa, não participou na votação à tarde alegando ter de ir para um jantar de Natal fora de Lisboa. O que nos leva a perguntar, terá sido a votação marcada especialmente para essa data e hora tão em cima de jantares de Natal imperdíveis e lá longe como o caraças? Outro membro indicado pelo PS, Serafim Pedro Madeira Froufe, igualmente se baldou, talvez porque tivesse de ir passear o cão e já não dava para voltar a tempo da votação. Resultado: o inquérito disciplinar a Carlos Alexandre foi arquivado por 8 votos a favor e 7 contra. Como teriam votado estas duas figuras? Não sabemos, mas sabemos que a sua ausência se tornou parte decisiva do desfecho.

Esta história não tem só um ponto de muito interesse, tem pelo menos três, um deles o do silêncio da restante comunicação social. O outro é aquele que está consubstanciado no número 7. Sete especialistas, sete responsáveis pela avaliação de juízes, assumiram a necessidade de sancionar disciplinarmente Carlos Alexandre. O mesmo Carlos Alexandre que voltou a recusar a promoção a desembargador em Janeiro, preferindo continuar no DCIAP. Sendo isto lícito, é isto normal? É isto benéfico para os interesses da própria Justiça e do serviço que é suposto prestar aos cidadãos? E a parte em que há uma indústria da calúnia liderada pela Cofina, onde este juiz é tratado como super-herói populista contra certos políticos tratados como corruptos sem sequer haver acusação judicial contra eles, indústria onde se exploram crimes cometidos no seio da própria Justiça, não merecerá um poucochinho de atenção de uma qualquer entidade estatal, judicial, parlamentar ou governamental? Ainda não é óbvio o suficiente que existe uma simbiose entre este juiz e aquele tipo de imprensa, instituindo na prática um tipo de chantagem que leva a esta perversidade de termos Carlos Alexandre há 13 anos no DCIAP? É que a mensagem, diariamente repetida no esgoto a céu aberto, consiste nisto: quem quiser que este juiz dê o lugar a um seu colega no DCIAP torna-se cúmplice dos corruptos que ele tem perseguido e metido na choldra. E, portanto, o juiz que o substituir sem a sua aprovação, quiçá selecção, não passará de um juiz corrupto ali posto para proteger os criminosos de colarinho branco.

Não existir um partido, com ou sem presença parlamentar, que tenha os problemas da Justiça como sua prioridade é para mim um espantoso monumento à fragilidade cultural e menoridade cívica deste grupo de pessoas num jardim à beira-mar plantadas.

31 comentários a “Não é vergonha, é espanto”

  1. «Não existir um partido, com ou sem presença parlamentar, que tenha os problemas da Justiça como sua prioridade é para mim um espantoso monumento à fragilidade cultural e menoridade cívica deste grupo de pessoas num jardim à beira-mal plantadas.», ui, será que o sôtor Paulo Morais te está a ler? Ou fui eu que não te li bem e ambicionas um típico partido justicialista à portuguesa (à imagem dos caciques do século XIX liderado por José Sócrates arregimentando os cafeteros e os coroneis indígenas à imagem do que acontece na chamada América Latina)?

    Larga o vinho, Valupi.

  2. aeiou
    9 DE FEVEREIRO DE 2017 ÀS 13:26
    O seu comentário aguarda moderação.

    «Não existir um partido, com ou sem presença parlamentar, que tenha os problemas da Justiça como sua prioridade é para mim um espantoso monumento à fragilidade cultural e menoridade cívica deste grupo de pessoas num jardim à beira-mal plantadas.», ui, será que o sôtor Paulo Morais te está a ler? Ou fui eu que não te li bem e ambicionas um típico partido justicialista à portuguesa (à imagem dos caciques do século XIX liderado por José Sócrates arregimentando os cafeteros e os coroneis indígenas à imagem do que acontece na chamada América Latina)?

    Larga o vinho, Valupi.

  3. haja espanto para dar força, e sentido, ao verbo vegetar com significado de nutrir. isto porque o outro significado, o da inércia, é pior – e dói mais – que chibatadas no lombo de gentes plantadas.

  4. Absolutamente de acordo com o texto. E é precisamente pelas questões em aberto que enumeras que temos de ter muito critério na escolha dos nossos alvos prioritários quando nos pronunciamos sobre estas questões no espaço público. Há muito que o ” rei-vai-nu” no mundo da nossa justiça. Veja-se a recente decisão do Supremo sobre o caso Amaral vs MaCann ou as desproporcionadas investidas policiais sobre os cidadãos.
    Há tempos um casal amigo que reside numa pacata vila alentejana, acordou às sete da manhã com uma horda de policias encapuçados a entrar-lhe pela casa dentro. Trataram-nos como criminosos convictos, revistaram-nos a eles e à casa de alto a baixo e apreenderam-lhe computadores ( inclusive aquele em que ele tinha a tese de doutoramento em que anda a trabalhar há quatro anos e que, cinco meses depois, ainda não lhe foi devolvido…). No fim de todo este festival, foi-lhes atribuído o estatuto de testemunhas num processo do qual até hoje apenas sabem que envolve uma empresa onde é sócio o tio dela !!!

  5. “Observador” – tem mais efeito que um café. O “luís rosa” trabalha muito na desinformação e na sábia ignorância.

    Sempre disse que as “unions” só estragavam, sendo impensável que os partidos indiquem quer quer que seja para instâncias disciplinares, com elementos de formação judiciária.
    Sabem, não sabem, que o Costalha foi colega de curso de Carlos Alexandre, não é? Por falar em heróis, o costalha abotoou-se ao poder e…é muito calado, mas ativo no silêncio.

    “O mesmo Carlos Alexandre que voltou a recusar a promoção a desembargador em Janeiro, preferindo continuar no DCIAP. Sendo isto lícito, é isto normal?” É. Qual é o problema? O tipo é livre ou não de decidir e gerir a sua carreira?

    “É isto benéfico para os interesses da própria Justiça e do serviço que é suposto prestar aos cidadãos?” Segundo o seu raciocínio, é. Prefere ter o magistrado em instância recursiva, decidindo definitivamente, tipo coveiro que enterra?!

    “Ainda não é óbvio o suficiente que existe uma simbiose entre este juiz e aquele tipo de imprensa, instituindo na prática um tipo de chantagem que leva a esta perversidade de termos Carlos Alexandre há 13 anos no DCIAP? ” Não. Qual é o problema de ele estar no DCIAP? É o único a despachar “formalidades de embarque? Que tem feito uma tal “Claúdia Pina”? Ainda não percebeu, que os tempos legais são outros? E esses tempos legais são permitidos pelo Costalha? Já que ele somou a Oposição na AR para roubar o “poiso”….volte a somar novamente.

    “Não existir um partido, com ou sem presença parlamentar, que tenha os problemas da Justiça como sua prioridade é para mim um espantoso monumento à fragilidade cultural e menoridade cívica deste grupo de pessoas num jardim à beira-mar plantadas.” eheheheheheh. Não deviam existir partidos, apenas homens com ideias e propósitos firmes – like Mr. Trump.

  6. jrrc, com quem falo? Alguém balizado, que apresente créditos no assunto e nota jeitosinha condizente?…

    Nota. Sobre o “deles” falas de, dos caciques do século XIX, dos coronéis ou dos cafeteros? Ou dos tipos do Quartel do Carmo por falar em tropas de cano alto, de fantasmas e demónios que parece que se agigantam na sombra de José Sócrates, dos tipos do Cabo Bojador ou mesmo do Valupi quiçá?

  7. Diz um tal “Mrocha”, que concorda com o texto, “Veja-se a recente decisão do Supremo sobre o caso Amaral vs MaCann ou as desproporcionadas investidas policiais sobre os cidadãos.”

    eheheheheh. Então o STJ falou em liberdade, não é? O Carlos Alexandre pode gerir a sua carreira, não é?
    Ele é livre…presume-se.

    A PJ, pois, teem a mania de madrugar…atenção às sete da manhã, é quando os tipos atacam…

  8. Há dois ou três indígenas que não devem fazer mais nada que babarem-se enquanto esperam a saída de um qualquer post deste site. Assim que descobrem que há novo post, aí estão eles de arrazoado em punho a vomitarem o que lhes vai nas almitas desocupadas. E alguns parecem-me ligados à justiça. Daí a ligeireza com que os processos avançam cá na terra…

  9. “E o juiz do Multibanco?” …e vexa, anda ocupado a ceifar o património dos outros, como obediente comuna, politiqueiro de carreira que é, não é verdade? Vai um subsídiozinho, vai? Conte, o que fez para tornal Portugal “great again” para além de votar em costalhas, catarinos e comunas sem nome?
    Se o teu processo avança, ainda vais dentro e depois não podes fazer a defesa do teu idolatrado e injustiçado Sócrates….Limpa a lama que tens no rabo, e depois fala na “baba” dos outros…

  10. Pois, ora bem, noves fora dois…7 e vira a folha ao canivete com que o Brutus do Costa apunhalou o Sócrates. Mas isto não é novidade nenhuma qqer gajo vacinado e criado em Portugal vê q uma ministra da justiça vinda da corporação não podia admitir outra coisa, e na altura todos aceitaram tacitamente a aberração e todos se calaram. Agora todos estranham depois de terem entranhado ” Foda-se isto nao e coca-cola, caralho”
    O Costa do Castelo quer saber lá saber do Processo, é um gajo de ca(f)ca.

    Tenho a impressão q se pedissem ao Costa que cantarolasse uma cena rock a escolha era o smoke on the water, congelou nos 70 .

  11. tu é que congelaste e foi em preconceitos. há merdas que são intemporais e essa é uma delas, mas para entender isso é preciso saber mais que cantarolar cenas.

  12. jrrc, são 21:113 e queria dizer-te como gostaria de responder-te eu mesmo.
    Antes de acabar o mundo, nunca se sabe.

    aeiou
    9 DE FEVEREIRO DE 2017 ÀS 14:19
    jrrc, com quem falo? Alguém balizado, que apresente créditos no assunto e nota jeitosinha condizente?…

    Nota. Sobre o “deles” falas de, dos caciques do século XIX, dos coronéis ou dos cafeteros? Ou dos tipos do Quartel do Carmo por falar em tropas de cano alto, de fantasmas e demónios que parece que se agigantam na sombra de José Sócrates, dos tipos do Cabo Bojador ou mesmo do Valupi quiçá?

  13. Preconceitos? Ene, principalmente com filhos da puta. Agora foi um tachinho no government para a mulher do director de campanha.

  14. Muito bem, Valupi.
    Sabe bem saber que não fui a única a notar essa espantosa coincidência de os dois juízes nomeados pelo PS se terem “baldado” a essa votação. Certamente ordens do shôr Costa.
    Mas a propósito há um ditado que diz “quem com ferros mata com ferros morre”.
    Um dia esse ditado há-de bater à porta do shôr Costa, e nessa altura a Corporação, como Roma, não vai pagar a traidores.

  15. agora é o costa que dá ordens aos membros do conselho superior de barbearia, não vos passa pela mona que os gajos fazem a barba uns aos outros.

  16. Olha, olha, já não gostam do costalha de s. bento. Surpresos? desde quando é que um partido político nomeia juízes? desde quando é que um partido é imparcial?
    Esperem até o tipo ser corrido do poder…ehehehhhe, não sai. Comunas, teem o que merecem. Bem feito.

  17. Ó trampa

    Se há coisa certa na vida dos políticos (e não só) é que todos eles um dia caem do cavalo.
    É tão certo como a morte.
    Que trampa és tu que ainda não aprendeste isso na vida, pá ?

  18. Jasmim, trampa é você, que não percebeu que o seu idolatrado Sócrates é que caíu do cavalo e ficou …mal…mal parado. Vá chamar “pá” aos seus camaradas, eu não sou comuna nem dissidente.

  19. “Surpresos? desde quando é que um partido político nomeia juízes?”

    os (7) vogais do conselho superior de magistratura nomeados pela assembleia da república (partidos políticos) não são juízes, são professores e advogados.

    “desde quando é que um partido é imparcial?”

    exactamente desde da mesma data em que os juízes podem votar, fazer perseguições políticas, assessorar e fazer broches aos partidos políticos. ah… deixa lá ver, mas os ungidos do cej foram tocados pela luz da verdade, são todos imparciais, só eles é que têm a chave dos códigos e sabem cagar sentenças caríssimas em resmas papel sobre o furto dum parafuso, cuja leitura se resume a culpado ou absolvido.

  20. A defesa do Ex. Primeiro Ministro José Sócrates felizmente não precisa de saber nada deste processo inventado, manipulado e posto na rua pelos pasquins (todos os pasquins que já lavaram a ignomínia solitária do mânhas ).
    Basta falarem com seu Cliente, ouvirem e lerem os ventinhas, alexandres e teixeiras.
    A vergonha dum país onde a mentira, a corrupção (só pode ser gente corrupta) que fala como se a ética e a deontologia fossem conceitos não obrigatórios para quem deve defender os cidadãos que lhes pagam mordomias, bons salários e tranquilas pensões esperando rigor, reserva e dignidade e JUSTIÇA.
    Tomara que a dança sobre nas tumbas comece e o País se livre dos negros véus que o tolhem e embrutecem.

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