Menezes e a Doxa

Gostava de ser amigo do Menezes. Daqueles amigos que se cruzam, mas não se procuram. Deve ser um fartote estar na rambóia com ele. A sua voz maviosa, o sorriso caloroso, o olhar de menino. Imagino-o simpático, talvez demasiado simpático. E também melancólico. E depois, o desfrute da sua matreirice ingénua, de provinciano a querer impressionar. Após um almoço bem regado, de cigarrilha na mão, os uísques a serem generosamente servidos, vejo-o a olhar para todos os lados da mesa, convocando os presentes. Mal se contendo para largar mais uma das suas chalaças, desta vez sobre os comentadores. Eles deviam era meter o maluco do Alegre na RTP, que esse é com cada bojarda que o Sócrates até se borra todo!… — risos alarves, barulheira na mesa. E depois ir buscar aquele puto, o… o… o Seguro!, e enfiá-lo na Quadratura só para foder o Pacheco! — apoiados, bocas contra o Pacheco, algazarra. Se o Marques Mendes… esse cagataco… os tivesse no sítio era o que estava a exigir às televisões. Mas ele não chega lá… não chega lá… Não chega láaaaaa… Hahahaha!… — gargalhadas monumentais, abraços, palmadas nas costas, brindes, o uísque de volta, generoso.

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Ora, nem eu sou amigo do Menezes nem o próprio é um mero comensal com o grão na asa, algures a discursar num tempo prévio ao seu actual papel. As declarações no encerramento das jornadas parlamentares do PSD têm um estatuto que obriga a lidar com elas dentro da gravidade inerente. Temos, então, que o chefe da oposição se imagina no direito de ser ele a escolher os comentadores do canal televisivo estatal. Ele sabe quem e, pasme-se, quando. Aqui o argumento será, presume-se, que a RTP tem de conceber o jornalismo como continuação, réplica, do quadro parlamentar, mas em versão de duopólio. Isso, escusado será alguém tentar explicar-lhe, anula a própria função jornalística — a qual pressupõe uma independência disciplinar e deontológica, que a expressão 4º Poder sintetiza, e a qual tem a modalidade do comentário como exercício complementar ao do relato e investigação das notícias. É uma disfunção o que Menezes propõe, e o argumento fica ao dispor de quem lhe quiser dar continuidade e retirar as aberrantes e malignas consequências.

Já no que ele disse quanto às televisões privadas testemunhamos um raro fenómeno: a evolução de um enorme disparate para uma inequívoca demência. É raro ver tal façanha, porque os disparates, quando são enormes, têm massa suficiente para rapidamente se imobilizarem sob o efeito das forças gravíticas e da inércia mental que espalham à sua volta. É até comum provocarem um pesado silêncio. Não foi o caso, pois, de rajada, Menezes atreveu-se a protestar contra um programa da autoria, produção e responsabilidade da SIC. E ele tinha já seleccionadas as figuras que queria lá meter: António José Seguro, por o imaginar socialista heterodoxo; e um militante qualquer do PSD, desde que social-democrata ortodoxo. Desta modo, a equidade na comunicação social seria alcançada, sentenciou.

É fácil esquecer este episódio, contributo pícaro para o anedotário da política nacional. Mas isso seria uma manifestação anti-democrática. A situação é grave, porque a chefia do maior partido da oposição está entregue a uma alimária. Alguém que concebe o exercício da política como um compadrio de figurões e figurinhas mediatizados, sem pejo de serem caixas de ressonância e cassetes fanhosas. E a sua vontade de poder não se detém nos limites do jugo estatal, antes avança para os redutos privados onde o tiranete quer impor a lei do mais fraco: do mais fraco pensamento, do mais fraco debate, do mais fraco exercício da cidadania. É uma vergonhosa e confrangedora imagem que julgávamos possível só em caricaturas romanescas de políticos novecentinos.

Está na altura de alguém ir avisar o PSD — será que eles sabem que Menezes é o presidente do partido?

26 thoughts on “Menezes e a Doxa”

  1. Brutal, primo Costa, brutal. Fazia-te uma vénia. Mas – não me perguntes porquê – tenho os joelhos esfolados. Fico-me, então, pelo abraço da ordem. Ou, bem vistas as coisas, da desordem.

  2. eheheh!

    E viste o telejornal Valupi? O dragão anda com chiliques, então ia meia Lisboa ser evacuada à conta dum frasquinho de sulfuroso deitado no jardim, e claro as nossa funcionárias tugas deu-lhe logo um tóxico nos gasganetes que vai de Inem e tudo. Não contentes com isto, andaram uns milhares de coelhos em risco de enfarte por causa de uns F-16. E depois apareceu-me aquele feyo do CDS a tirar um dinossauro da penca.

    adoro esta nação

  3. oh diabos, joelhos esfolados: betadine e cicatrin …

    pois eu também vou para o Infante, que empanco sempre a caminho de Tanger, por causa do D. Fernando que ia de liteira, coitado, não posso dizer porquê, que isto agora é tudo sagrado e secreto

  4. rebentei a rir na primeira parte (agora vou ter que varrer os pedaços). contundente, a segunda, caramba. não tenho o feitio do teu primo confúcio, para fazer vénias; toma lá umas palmadinhas nas costas.

  5. Muito bem, Valupi, nada a arescentar. E a primeira parte, graciosa, queirosiana. Estás de parabéns, mas não te julgues o máximo, que és propenso a essas merdas.

  6. Já agora, estava a ler-te e a pensar: este malandro, às vezes, devia ser lido por um público mais vasto. A Aspirina é praticamente clandestina, mau grado o wishful thinking do FMV, que se contenta com um café de bairro. O problema, provavelmente, é que ninguém com poder no cartel da comunicação social quer ouvir os teus considerandos: Balsemões, Belmiros e quejandos gostam de outra música, mais afinada pelo diapasão dos Pulidos, Pachecos & Barretos, que sabem instintivamente o que pretende a mão que paga. É a puta da vida. Dantes, tínhamos a censura, agora também manda o dinheiro.

  7. Este texto acutilante levanta várias questões sérias, apesar de admitirem esta abordagem inicial mais jocosa.

    Estou em princípio de acordo com o princípio enunciado: a comunicação social, em particular a privada, deve ser livre de escolher os seus conteúdos programáticos e as suas orientações editoriais.

    Em todo o caso, este cândido princípio, que seria claro como água numa Sociedade de homens puros de coração e de mãos, carece de alguma prudência quando aplicado a uma Sociedade como a portuguesa, em que a incultura, a ignorância e a fragilidade intelectual da opinião pública são pasto ressequido para a progressão da propaganda rasteira e da manipulação grosseira por parte de quem decide. Seja na política, seja nos negócios.

    Daí que as baboseiras alarves, mas simultaneamente ingénuas, do líder do PSD careçam de uma análise mais profunda: é que ele sabe, como todos nós, que as “escolhas livres” do tal quarto poder o são apenas em teoria, já que se pautam por interesses concretos que se disputam mais no plano das influências de bastidor, do que no da luta política aberta e leal.

    Só que a classe política bem-pensante e bem-comportada não tem coragem para dizer as verdades que todos conhecem e vem agora um espalha-brasas como Menezes proclamar sem qualquer pudor (nem jeitiera nenhuma, admito).

    Porque, como quase todos nós, está cansado da repetição “ad vomitum” dos “comentários” que retratam apenas as negociatas e as vidinhas instaladas dos corredores do poder, sobretudo social e de casta, em que se tranformou a nossa vida política.

    E sabe que, numa comunicação social verdadeiramente livre e que buscasse a qualidade e o mérito como forma de competir no mercado (o que, obviamente, exigiria outro nível de qualificação por parte do público-alvo), esta geração de comentadores que ainda brota dos tempos “pré-históricos” do final do cavaquismo e da última “glaciação” comunicacional (pré-bloguística) já deveria há muito ter sido substituída por elementos que, independentemente da respectiva côr (ou facção) política, acrescentassem efectivo VALOR, e não apenas peso morto (num ou noutro sentido) à discussão pública.

    Capito?

  8. Valupi,

    Como eu gostaria que ele dissesse umas coisinhas mais acertadas, ou que, pelo menos, tivesse sido aprovado no exame de francês. É que a continuar assim, temos ministro de certeza, que essa é a nossa tradição e temos de honrar os pergaminhos.
    É que esta descrição simpática do homem fez-me lembrar outras letras. Eça, claro. O de Queiroz. E as Farpas que mandava e os políticos que descreveu. Os de então, que são também os de agora.

    ” Quanto mais um homem prova a sua incapacidade, tanto mais apto se torna para governar o seu país! (…) De modo que, se um homem pudesse apresentar-se ao chefe do estado com os seguintes documentos:
    Espírito de tal maneira bronco que nunca pôde aprender a somar;
    Estupidez tão espessa que nunca pôde distinguir as letras do ABC;
    Reprovações sucessivas em todas as matérias de todos os cursos;
    O chefe, do estado tomá-lo-ia pela mão, e dir-lhe-ia, sufocado em júbilo:
    – Tu Marcellus eris! Tu serás presidente do concelho! ”
    ( As Farpas, Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, cord. M.Filomena Mónica, Princípia, pág 70)

    Por este caminho, o Menezes já lá está!

  9. Primo Confúcio, que andaste a fazer para teres os joelhos esfolados? Ok, depois contas no jantar de família.
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    z, estou como tu: adoro esta nação.
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    susana, tu toma cuidado contigo.
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    Nik, que se passa com esse súbito carinho? Estaremos perante uma das trombetas, Apocalipse nas próximas horas? Bom, mas há encanto neste secretismo, nesta pobreza, nesta reunião de três ou quatro gatos pingados. E embora seja suspeito em causa própria, não creio que as minhas facécias façam falta na constelação dos comentadores jornaleiros. Seria, sob qualquer ângulo, bizarro e inverosímil. Aliás, nem na jucunda blogosfera faço falta, havendo tanto bota-palavra por onde escolher (de resto, ninguém faz falta, à excepção dos reforços de Inverno do Sporting).

    Vou, no entanto, recortar o teu comentário e enviá-lo ao Belmiro em correio azul. Nunca se sabe…
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    rui mota, e isso é uma ameaça ou uma esperança?
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    A. Castanho, a corrupção não é característica da nacionalidade, antes fenómeno universal. E muito bem estamos nós na comparação com outros continentes e países. Ora, sendo que o que dizes, as tuas denúncias e protestos, é comum a muitos discursos populares, e até ao de alguns comentadores famosos (que o vão dizendo de formas várias), tenho uma pergunta para ti, a qual me enche de curiosidade: que propões fazer para que os “homens puros de coração e de mãos” possam governar?
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    Ernesta, muito obrigado por esse delicioso naco queirosiano e respectivo acompanhamento.

  10. Não há carinho, caro V., somente aprovação, quando houver. Quando não houver, levas bordoada, se me apetecer, enquanto tiver acesso à caixa. No dia em que me cortares, não volto nem para espreitar. É a lei da blogosfera, reduto da liberdade de expressão nos dias que correm, ainda ao abrigo do cartel intox do triplo Bê (Balsemão, Belmiro, oliBeira).

  11. Não há carinho, mas temos em comum – é um bom começo – o Sporting e a aversão ao J. M. Fernandes e ao Menezes (porra, o gajo tb se diz sportiguista!) Ainda podemos vir a ser muito felizes…

  12. Valupi
    O que tem sido dito aqui do LFM merecia uma boa “velha”, mas isso não é coisa que se consiga todos os dias. Ainda assim fiz o que pude, pensando na próxima noite eleitoral para a AR. Receio é que ele pense que um pentagrama são aquelas quatro linhas onde se escrevia o cantochão.

    Lisboa é uma mulher,
    Não a conquista quem quer,
    Muito menos, tu, Meneses.

    Andaste a cantar-lhe o fado,
    Mas acabaste vaiado,
    Como te acontece às vezes.

    Quiseste brindar-lhe à fama,
    Deixaste o vinho na cave.
    E ela deu-te o pentagrama
    Mas tu não tinhas a clave.

  13. Nik, aqui não se fecha a caixa a ninguém (tirando as aberrações, como os Bigornas, claro). Até o Menezes pode mandar para cá quem quiser. Quanto a sermos felizes, espero que não. Há coisas tão melhores.
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    Daniel, deliciosa “velha”! Muito obrigado. Essa do pentagrama é hilariante.
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    Ernesta, não será o beginning. O beginning começou lá muito atrás.

  14. ESTÁ A SER MUITO INJUSTO COM O DOUTOR LUIS FILIPE MENEZES. O DOUTOR LUIS FILIPE MENEZES É UM EXCELENTE PRESIDENTE DE CAMARA E SE O SENHOR VIESSE A VILA NOVA DE GAIA O DOUTOR LUIS FILIPE MENEZES TERIA TODO O GOSTO EM MOSTRAR-LHE OBRA FEITA PELO DOUTOR LUIS FILIPE MENEZES À FRENTE DA CAMARA MUNICIPAL DE VILA NOVA DE GAIA. O DOUTOR LUIS FILPE MENEZES MANDOU FAZER UMA ESPLANADA RIBEIRINHA EM VILA NOVA DE GAIA. CONHECE? É UMA OBRA DO DOUTOR LUIS FILIPE MENEZES À FRENTE DA CAMARA MUNICIPAL DE VILA NOVA DE GAIA QUE ENCHE DE ORGULHO OS GAIENSES E TAMBÉM TODO O PAÍS. NÃO CONHECEMOS NENHUMA OBRA FEITA PELO ENGENHEIRO SÓCRATES À FRENTE DE UMA CÂMARA MUNICIPAL COMO A OBRA FEITA PELO DOUTOR LUIS FILIPE MENEZES QUE LIDERA A CAMARA MUNICIPAL DE VILA NOVA DE GAIA. A CAMARA MUNICIPAL DE VILA NOVA DE GAIA LIDERADA PELO DOUTOR LUIS FILIPE MENEZES RESPIRA UMA SAÚDE FINANCEIRA QUE LHE PERMITE APOSTAR EM POLÍTICAS DE INSERÇÃO SOCIAL DE ÂMBITO CAMARÁRIO NO MUNICÍPIO DE VILA NOVA DE GAIA E QUE SÃO CLARAMENTE UM CUNHO PESSOAL DO DOUTOR LUIS FILIPE MENEZES, LÍDER DA CAMARA MUNICIPAL DE VILA NOVA DE GAIA E DO PARTIDO SOCIAL DEMOCRATA. O DR LUIS FILIPE MENEZES POSSUI TODOS OS ATRIBUTOS NECESSÁRIOS PARA PÔR EM PRÁCTICA AS POLÍTICAS QUE ESTE PAÍS NECESSITA. O DR LUIS FILIPE MENEZES AO EXIGIR QUE AS TELEVISÕES PÚBLICAS E PRIVADAS COLOQUEM NOS SEUS ESPAÇOS DE INFORMAÇÃO COMENTADORES COM UM CERTO PERFIL, 4 OU 5 O NÚMERO NÃO É IMPORTANTE PARA O DOUTOR LUIS FILIPE MENEZES, SERVE APENAS PARA QUE O PARTIDO SOCIAL DEMOCRATA COLOQUE OS SEUS COMENTADORES, ATÉ NA QUADRATURA DO CÍRCULO POR EXEMPLO, O DR SEGURO, POR EXEMPLO, UM JOVEM, FOI UM EXEMPLO DADO PELO DOUTOR LUIS FILIPE MENEZES QUE PODERIA SER INCLUÍDO PARA UMA MAIOR VARIEDADE DE OPINIÕES E A OMBREAR A UM NÍVEL IGUAL COM O DR PACHECO PEREIRA, POR EXEMPLO À QUINTA-FEIRA , OU À TERÇA-FEIRA MAIS MEIA HORA COM O SECRETÁRIO-GERAL DO PARTIDO SOCIAL DEMOCRATA OU O DR VITORINO À QUARTA-FEIRA COM O NOSSO COMPANHEIRO MARCELO REBELO DE SOUSA, NÃO QUEREMOS QUE SAIA NINGUÉM ATÉ OS GOSTAMOS DE OS OUVIR, HAVENDO MAIOR EQUIDADE É O DESEJO DO MAIOR PARTIDO DA OPOSIÇÃO QUE É O PARTIDO SOCIAL DEMOCRATA LIDERADO PELO DOUTOR LUIS FILIPE MENEZES

  15. GARGALHADAS. GARGALHADAS.GARGALHADAS.GARGALHADAS.GARGALHADAS.GARGALHADAS. GARGALHADAS. GARGALHADAS. GARGALHADAS.GARGALHADAS.GARGALHADAS.GARGALHADAS……

    E Marco António, seja ele qual fôr, é sempre um clássico, não é Valupi?

  16. Esperemos que não seja Marco António Costa, caro Valupi. É que se assim, um “worst of” prepara-se para concorrer contra José Sócrates, que merece alguém que o desterre. Senão vejamos: Luís Filipe Menezes, Marco António Costa, Santana Lopes e (com uma mais que provável aliança com o CDS-PP) Paulo Portas, todos no Governo. Também lhe dá vómitos?

  17. Caro Rui, seria o delírio essa coligação de pantomineiros. Então é que haveria razão para se vender o rectângulo à Espanha e eles mandaram para cá o alcaide de Badajoz para tomar conta disto.

  18. Vender? Num caso desses, nem dado o conseguiamos despachar. E o mais certo era cerrarem fronteiras e deixarem-nos em salmoura para curar, como se faz às azeitonas.

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