Manuel Carvalho, contador de histórias

A Manuel Carvalho foi dado o papel de carrasco moral dos alvos escolhidos pelo Público na sua continuada vingança contra Sócrates: Uma história que nos empobreceu e nos envergonha. Trata-se de um exercício punitivo, ao seu estilo usual mas em versão condensada, onde não apresenta qualquer informação tangível que permita aferir da objectividade na origem da sua retórica. Uma retórica que, apesar de básica e convencional, merece atenção. Porque este Carvalho está a representar o jornal onde escreve e, por extensão, a posição e intenções do director e do accionista.

As ideias sobre as quais se ergue a pedir fogueiras no Terreiro do Paço são exactamente as mesmas da direita decadente e da indústria da calúnia:

– Há corrupção em Portugal, mas este tipo de crime está circunscrito na sua quase totalidade aos anos de governação de Sócrates, o resto a existir não tem importância comparável.
– Se não fosse pela corrupção de Sócrates, as malfeitorias de Salgado não teriam acontecido no grau em que aconteceram.
– A corrupção de Sócrates não é uma questão de investigação ou opinião, apenas de aplicação da Justiça.
– Misteriosamente, ninguém de ninguém – “Tudo aconteceu sem que os reguladores vissem, sem que altos quadros da PT denunciassem, sem que a imprensa se empenhasse em perceber, sem que as instâncias judiciais fossem capazes de antecipar o que estava em jogo.” – percebeu o que se passava. Não porque fossem estúpidos, muito menos cúmplices, até porque este Carvalho não é nada estúpido, bem pelo contrário, e abomina os tais bandidos que nos está a fazer o grande favor de denunciar. Pelo que temos de recorrer ao conceito de mistério para falar do fenómeno. Algo que ele, pelo menos, consegue nomear: “a tenebrosa era de José Sócrates“. Que é como quem diz, a era do Diabo, o mistério do Mal.

Pois bem, o que temos aqui é o clássico processo da diabolização. O que a retórica pretende alcançar é um efeito cognitivo onde uma dada audiência abdica do seu sentido crítico, da distância racional entre o discurso que se consome e a realidade a que ele alude, levando a que se mergulhe pelo pensamento mágico num universo irracional. Nesse universo deixa de existir um Governo, um Parlamento, o Presidente da República, a Justiça, as instituições públicas, as polícias, a imprensa, os cidadãos e ficamos só com o monstro diabólico em grande plano a encher o ecrã. Como se trata de ficção, do reino da fantasia, não é preciso explicar nada. A nossa imaginação preenche todos os espaços vazios e dá sentido a qualquer aparente absurdo. Os monstros têm poderes sobrenaturais, é dessa forma que conseguem fazer as monstruosidades que nos dizem que eles fizeram, topas? É simples, poderes sobrenaturais, pá. É por isso que tudo aconteceu sem que os reguladores vissem, sem que altos quadros da PT denunciassem, sem que a imprensa se empenhasse em perceber, sem que as instâncias judiciais fossem capazes de antecipar o que estava em jogo, carago!

Este Manuel Carvalho talvez acredite mesmo no que escreve. É possível porque qualquer coisa é possível nos chamados seres humanos. O ódio é um inesgotável combustível para a inspiração moralista. Mas também se pode dar o caso de este bacano ser um pândego. Nesse caso, calhando dar por si obrigado a explicar (mesmo que mal e toscamente) a logística de cumplicidades nos Executivos, Parlamento e Partido Socialista necessária para que Sócrates fosse o responsável pelo que ele lhe atribui, o mais provável seria irromper em pranto. Um choro de alívio, causado pela possibilidade de recuperar alguma salubridade mental na sua relação com a realidade exterior.

10 comentários a “Manuel Carvalho, contador de histórias”

  1. De medíocres como este seco carvalho, nada ficará registado para a posteridade. Não passa dum faminto escriba a trabalhar para o dono.

    HONRA E LOUVOR a Graça Fonseca, pela sua coragem e verticalidade!

  2. Sempre a virar frangos. O Valupi tem, neste pardieiro, como lhe costuma chamar, material que chega e sobra para publicar o livro com a análise mais consistente e completa da comunicação social portuguesa nos últimos 15 anos.

  3. Entendo eu que tanto jornal e tanta tinta gasta em novo ressurgir e martelar no Sócrates sugere preocupação e, talvez desespero, de quem quer à pressa um culpado para se esconder da culpa.
    O trabalho da Sonae com tais subprodutos de jornalismo é fazer de bombista e dar pressão às rodas furadas vazias do carro avariado do MP para que este acuse e julgue com as “provas” que os carvalhos e os dâmasos depositam às carradas na secretária do alex & teixeira. Pois, se não há verdadeiras provas para julgar ou julgamento com as “provas” tiradas da convicção avençada de jornalistas com donos, então tudo pode acontecer. Até pode dar-se o caso de gente séria lembrar-se de que se, afinal, coisas graves aconteceram e houve indícios de corrupção então as provas devem estar em algum lado daqueles que estiveram metidos mesmo nos casos.
    Ora se gente a sério começa a remexer nas relações bastamente relatadas de cavaco, durão, portas e tantos com os Salgados, e mesmo na papelada da opa da Sonae sobre a PT e todo o obscuro mundo de negócios entre PSDs do governo com PSDs nas empresas, exemplo BPN e vendas Swaps, então o feitiço pode voltar-se contra o feiticeiro e o diabo pode mesmo aparecer cego de balança e espada na mão.
    Logo é preciso consumar o acto-de-fé antes que seja tarde.

  4. errata: queria dizer “auto-de-fé”.
    Não obstante todo o caso não passe de um amontoado de actos de fé ou (fezadas).

  5. Lucas Galuxo, essa do virar frangos é muito boa.

    Valupi, queres que um amigo meu te arranje um emprego no Continente (ou seja, os tipos da Sonae que é o + parecido com os bacanos que até têm um jornal e sempre podes almejar a entrar nesse universo nos tempos que correm) ou no Pingo Doce? Na secção de Charcutaria, a aviar frangos assados + batatas fritas.

    Nota, novos talentos. Galuxo; quanto a ti pareces não ser um gajo de confiança e, portanto, lamentavelmente não podes concorrer como caixeiro, mas espera-te uma esfregona.

  6. A propósito de contadores de histórias.

    Nos ultimos dias foi-nos contada a história de que a célula terrorista de Barcelona tinha doze membros, dos quais 4 estariam presos. Entretanto 2 foram libertados pelo juiz de instrução, o que sugere que as “provas” de que a célula os incluía não serão tão sólidas quanto isso. Mas há aqui outro ponto: depois de policias e jornalistas terem divulgado por todos os quadrantes imagem e identidade dos ditos, que espécie de futuro lhes está reservado, caso se confirma que são inocentes ? Esta situação ilustra como os “contadores de histórias” funcionam: acham que ” não vem ao caso” aquilo que é basilar num estado de direito. Aliás, só isso explica que nem sequer questionem que os Mossos tenham precisado de 12 tiros (?!) para deter um fugitivo cercado, e nos contem a história de uma execução sumária como o resultado “normal” ( e quiçá desejável…) de uma operação policial. Até ao dia em que seja tarde de mais….

  7. De que tens medo, Valupi? Presumo que do ridículo e seus derivados, mas porquê se os postantes, alter egos e os leitores- pouco-sofisticados do Aspirina B têm sempre a palavra final?

    ______

    Eric
    24 DE AGOSTO DE 2017 ÀS 12:41
    O seu comentário aguarda moderação.

    Lucas Galuxo, essa do virar frangos é muito boa.

    Valupi, queres que um amigo meu te arranje um emprego no Continente (ou seja, os tipos da Sonae que é o + parecido com os bacanos que até têm um jornal e sempre podes almejar a entrar nesse universo nos tempos que correm) ou no Pingo Doce? Na secção de Charcutaria, a aviar frangos assados + batatas fritas.

    Nota, novos talentos. Galuxo; quanto a ti pareces não ser um gajo de confiança e, portanto, lamentavelmente não podes concorrer como caixeiro, mas espera-te uma esfregona.

  8. Por alguma razão Manuel Carvalho deixa de citar factos assaz conhecidos de outros jornalistas e daqueles que lidam ou lidavam com as grandes empresas do pre-Socrates:
    1. A falta de ação do Banco de Portugal em controlar a banca é muito antiga, até antes da era Barroso.
    2.Durão Barroso, para poder ir para Bruxelas teve que, na reunião secreta dos Açores com Bush, Tony Blair,
    etc, oferecer algo em troca, não apenas apoio na invasão do Iraq. Quem sabe o que não pode falar.
    3.Bagão Felix, enquanto Min.Finanças de Santana Lopes começou a investigar irregularidades na grande
    banca e nas que têm a sede fiscal fora de Portugal. Incomodou muita gente, Santana não o retirou da
    posição e acabou sendo ele deposto.
    4.Muitos outros factos ainda não foram documentados para processos jurídicos, mas que muitos mais
    do que uma vintena de pessoas conhecem. Mas não querem arriscar ‘estorvar’.
    Publicar histórias é fácil. Realizar um bom jornalismo investigativo exige muitíssimas horas, contatos,
    coragem e pode resultar na não-publicação. Seria o caso?

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