Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Tenho de bater no Pacheco para ver se ele acorda. Talvez já não acorde, o zombinismo onde caiu por empurrão socrático seja irreversível, mas da minha parte não se poderá queixar de falta de interesse na sua recuperação. É o caso com a entrevista da Manela, ontem. A presidente do PSD disse que o Governo geriu brilhantemente a crise dos transportadores. Claro, não o disse assim, mas assado: Não se deve deitar gasolina na fogueira, situação muito complexa, tempo para estar calada. Ora, foi nesse episódio, num misto de oportunismo de feira com alarme pançudo, que Pacheco Pereira avançou com a patife acusação da falta de autoridade do Estado. Depois, assarapantado com a resolução do conflito, não quis perder a face e tomou a pior decisão: fuga para a frente. No encerramento do congresso do PSD, apareceu em registo Portas a largar bacoradas esquizóides sobre o Governo e o País. E continua, semanas depois, a chapinhar no ridículo. Obviamente, vai ficar caladinho quanto a esta posição da nova chefe da velha oposição.

Genial, e de génio, foi a declaração da Manela relativa aos casamentos homossexuais. De génio, porque se limita a exprimir uma opinião pessoal, sem qualquer interesse político. Mas genial, porque a chocante incapacidade de ler a cultura e sociologia do presente é, em paradoxo, uma estratégia vanguardista. Ninguém mais no PSD se lembraria de afirmar que os casamentos têm como finalidade principal a reprodução. E por esta cesária razão: tirando o Menezes, ninguém no PSD se arriscaria a ser gozado até pelos putos do 9º ano de escolaridade. As vantagens de se assumir um fundamentalismo religioso — o qual só existe como abstracção ideológica, atente-se — são, contudo, evidentes: comunicação lateral com o fundo salazarista que confere identidade a dois terços do eleitorado. Tendo em conta o actual estado de desamparo da direita e centro-direita, é alimento para esfomeados. Pois bem, e que dizer agora perante a aberração? Agora, o Pacheco Pereira vai ficar caladinho.

Afinal, para um artista da política-espectáculo, a verdade é um prato que se come frio. E nos bastidores.


  1. 1 susana

    a manela ainda vai a algum lado. há muito quem diga que a mulher é perigosa, mas até à data vou confiando.

  2. 2 Nik

    Bom texto. E o que é uma cesária razão? Tem a ver com César, com a Cesária Évora ou com cesariana?

  3. 3 ana cristina leonardo

    Eu já ouvi o Pacheco Pereira no televisão, aqui há uns anos, afirmar-se contra o casamento entre homossexuais. A justificação era de índole cultural, do género, o casamento serve para regular a paternidade por causa da propriedade, etc e tal. Aliás, esse foi o momento em que percebi que Pacheco Pereira, embora inteligente e culto, não tinha perdido os tiques autoritários. Lembro-me que o que o calou foi o comentário de alguém presente em estúdio que disse simplesmente isto: «Mas se eles se querem casar?!…». Às vezes o bom-senso (não confundir com o senso comum) é uma grande escola…

  4. 4 Valupi

    susana, e para onde achas que ela vai?
    __

    Nik, muito obrigado pela pergunta sobre a “cesária”, pois diverti-me com ela e dás azo a que a brincadeira continue. Foi um desplante displicente típico da (minha) escrita na blogosfera, invenção de neologismo (ou tentativa, ou ilusão, de). Comecei por procurar um sinónimo de “imperial”, onde o referente seria, por analogia e personificação, César. Depois, gostei da coincidência etimológica onde a palavra transmite a acção de cortar (como em “cesariana” ou literalmente como nome de guilhotina para cortar livros). No contexto da sua aplicação supra, aproveito os dois significados.
    __

    ana, bem lembrado. Será que continua a defender essa posição? É que muita coisa mudou nos anos recentes, e não há forma de alguém se opor ao casamento entre homossexuais sem se enredar numa argumentação que rapidamente fica insustentável sem recuo para o castelo religioso.

  5. 5 susana

    já é perguntar muito, pois não faço ideia. mas acho que vai construir alguma coisa sobre o descampado. espero que não seja mais uma feira.

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