Lúcidos e optimistas

Uma das características com maior expressividade na oposição política e social da direita a partir de finais de 2007, o período em que começou a crise do preço do petróleo e onde os bancos BCP, BPN e BPP entraram em queda, foi a do pessimismo. Este sentimento evoluiu rapidamente – fruto dos receios, medos e pânicos originados, sobretudo, com a saída em desgraça de Jardim Gonçalves do panorama bancário, acontecimento que abalou profundamente a alta sociedade e classes médias à direita – para um incontrolado síndrome conspirativo e para uma retórica catastrofista. À medida que as sucessivas crises económicas e financeiras se iam sucedendo sem que Sócrates e PS fossem derrotados, uma neurose generalizada transformou-se em situação psicótica para muitos. Era um desfecho inevitável, pois à fragilidade da condição opositora, agravada pela incompetência das lideranças partidárias na direita, juntava-se a real ameaça de perda de bens e privilégios por via das crises e pelo desabamento de instituições consideradas intocáveis, simbólicas e efectivos pilares do seu modo de vida – como o BCP, invadido por esse desclassificado do Vara e demais matilha socialista, vociferava cega de raiva a oligarquia. Colhe também aqui lembrar que as classes abastadas tendem a ser conservadoras pela mais lógica das razões: pretendem conservar o que têm e o que ambicionam ainda vir a possuir. Esta natural cobiça gera um individualismo que aumenta as inseguranças daqueles que se passam a imaginar rodeados de invejosos e ladrões. Tendem a ficar mais desconfiados, mais agressivos, mais cínicos. E apostam quase tudo nos assassinatos de carácter, como retintos hipócritas que são e pretendem continuar a ser.

Fora deste inferno da abastança, temos um Portugal humilde que está cheio de inteligências e vontades que se querem realizar mais pelo que venham a dar aos outros do que pelo que venham a receber deles, sejam recompensas ou vénias. Estes portugueses, e estrangeiros residentes, estão por todo o lado, têm todas as idades e percursos de vida. Cultivam as diferenças, são curiosidades inesgotáveis, sabem que o saber sabe a ilimitado crescimento. Por isso são fanáticos da democracia. Por isso são lúcidos. Por isso são optimistas. E esperam estoicamente por quem saiba reunir as suas forças e dar-lhes um destino à altura do seu potencial.

Lúcidos, por isso optimistas. Não é outra a história da Humanidade, apesar do coro trágico dos materialistas ricos ou alienados. Quando alguém cai à nossa frente, o pessimista não acredita que valha a pena ajudar e passa ao lado, o optimista alegra-se pela sorte de estar perto e corre em auxílio. É uma analogia básica? É. Sendo só de lamentar que não o seja para todos. Ou para uns poucos mais, diria com algum optimismo e muita lucidez.

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