Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Desafio-te a descobrir quantos preconceitos serôdios e primários se encontram neste parágrafo — retirado completamente ao calhas — do editorial do Público de hoje, e onde se fala da Ferreira:

A vantagem de ser mulher é sentir-se que é directa, terra a terra, que sabe quanto custa o pão, o leite ou um quilo de carne numa altura em que a distância entre os políticos que passam no interior de carros de vidros fumados e o cidadão comum se agravou. Ter idade, cabelos brancos, rugas é, até porque ninguém os deseja ter, um factor de autenticidade que aproxima a nova líder do PSD de um eleitorado que não é tão novo como se julga (sobretudo se pensarmos que os mais novos se abstêm mais do que os mais velhos).

___
Sim, estamos em época de exames, também por cá.


  1. 1 tangas

    ná… que isso é tarefa hercúlea e eu hoje sinto-me apenas uma humilde representante do sexo fraco :P

  2. 2 aviador

    E JMF, desta vez, ter-se-á esquecido dos duzentos grama de fiambre.

    Sem tirar nem pôr.

    O que o moverá? MFL nem sequer é liberal nem intelectual a la Espada!

    Serã interesses Belmiricos?

  3. 3 dina

    já chumbei mas diverti-me com o exame!

  4. 4 claudia

    1º preconceito: a mulher, confinada nos afazeres domésticos, é quem entende de compras. (Quem gosta de fazer compras?)
    2do preconceito: a imagem da líder é sobrevalorizada sobretudo por não usar botox! :-)

    P.S.- Se me esqueci de algo, diz ou corrige o já escrito. Quero também saber se passei no exame, Valupi, ou se tenho que ir à repescagem. Thank you very much!

  5. 5 susana

    tendo em conta que toda a questão pressupõe termos comparativos de género, cá vai:

    1. a mulher é terra-a-terra, o homem intelectual;
    2. a mulher preocupa-se com o vizinho do lado, o homem com a humanidade;
    3. assumir uma aparência tida como pouco atraente é sinal de honestidade (quando pode ser um marketing tão eficaz como outro qualquer, precisamente por contar com esse preconceito) – bom, e os gajos quase todos que estão na política porventura são jovens e belos…?;
    4. (decorre do anterior) para a mulher na política conta mais a beleza que para o homem (como se sócrates não tivesse um extenso eleitorado feminino à conta do seu aspecto razoável);
    5. as avós são todas boazinhas;
    6. o político não é um parolo como os outros;
    7. os mais velhos têm mais consciência política que os mais novos (quando é sabido que grosso modo os mais velhos apostam no “cavalo vencedor”);
    8. as características pessoais ficam na retaguarda das características de género (a história da vantagem) como se alguém não pudesse ser assim só porque sim, independentemente de ser mulher ou homem.
    9. ninguém deseja ter rugas ou cabelos brancos (quando há muito careca que se pelaria por umas boas cãs e eu, por exemplo, espero chegar a bem velha e enrugada);
    10. os velhos preferem os seus congéneres;
    11. as mulheres são mais directas (mentira!).

  6. 6 claudia

    Passaste com melhor nota do que eu, susana… ( Onde foste buscar essa cábula?)

  7. 7 Valupi

    tangas, és sábia.
    __

    aviador, ele fará tudo o que for preciso para atacar Sócrates, é básico.
    __

    claudia, tiveste uma boa prestação, precisando só de continuares a vir aos treinos.
    __

    Parabéns, susana. Tens alguns que não iria descobrir, como o de que as avós são todas boazinhas (e não são) ou de que os velhos preferem os congéneres (e não preferem). As avós são malvadas, e isso está bem patente na constante pressão para os que netos comam mais e mais, especialmente guloseimas. E os velhos querem é quem trate deles, não outros jarretas à volta a consumir recursos e atenção.

    E varreste a concorrência, como reconhece a claudia.

    (pssst… onde foste buscar essa cábula?…)

  8. 8 Nik

    Depois do que já foi dito e bem, eu fixar-me-ia numa frase a que ninguém se referiu:

    “numa altura em que a distância entre os políticos que passam no interior de carros de vidros fumados e o cidadão comum se agravou”.

    1. O cliché dos “políticos que passam no interior de carros”. Refere-se obviamente a carros oficiais, logo não se trata aqui de meros políticos, mas de governantes.
    Ilações e insinuações falaciosas:
    1.1. Os políticos (governantes) passam. Não estão, não vêm, não chegam: passam, afastam-se, fogem. 1.2. Os políticos andam no interior de carros, logo não se apercebem dos problemas do cidadão. 1.3. MFLeite não “passa” nem anda “no interior de carros”, embora não se possa excluir que MFLeite ande no exterior de carros, possivelmente sobre o tejadilho. 1.4. MFLeite não é representada como tendo carro, logo talvez nem o tenha. 1.5. MFLeite não é figurada como política, mas como mulher, logo talvez não seja política.

    2. O cliché dos “vidros fumados dos carros dos políticos”. Trata-se de governantes, não de políticos (vide supra).
    Inferências e insinuações falaciosas:
    2.1. Os vidros fumados impedem que se veja a realidade e que se tome consciência dos problemas dos cidadãos. 2.2. O jornalista JMFernandes, atento às duras realidades que atormentam os cidadãos, certamente não tem carro de vidros fumados. 2.3. MFLeite, mulher política terra a terra e conhecedora das dificuldades da vida, não tem carro de vidros fumados. 2.4. O cidadão comum, com ou sem problemas existenciais, não tem carro de vidros fumados e talvez nem tenha carro. 2.5. Carros de vidros fumados são carros caros, logo os governantes andam de carros caros, os cidadãos comuns não. 2.6. Os carros dos governantes gastam muita gasolina paga pelo erário público, enquanto o cidadão comum vê os preços do combustível sempre a subir e o dinheiro a sair do seu bolso.

    3. O cliché da distância dos políticos (governantes, vd. supra) em relação ao cidadão comum.
    Inferências e insinuações falaciosas:
    3.1. O político não é cidadão comum nem o cidadão comum é político. 3.2. Entre os políticos e os cidadãos há uma distância que não existe entre os próprios cidadãos ou grupos de cidadãos. 3.2. A “distância” entre os dois é insinuadamente alargada (“agravada”) pelo facto de o político “passar” de carro e o cidadão, como se infere, estar parado.

  9. 9 Valupi

    Nik, muitos parabéns, porque conseguiste superar analiticamente o já excelente trabalho da susana. Essa dos brilhos fumados, da distância, foi uma das referências que mais me interessou, por ser tão caricatural, tão expressiva de uma retórica primária, sul-americanizante e anos 70. Estive para fazer uma piadinha, mas ainda bem que me calei pois vieste com uma soberba desconstrução.

  10. 10 Rui Figueiredo

    Contei 11!!!! Meu bom senhor….como é possivel, estamos no seculo 21, ano de 2008. É por estas e outras razões que o país não anda para a frente, mentalidades mesquinhas e tacanhas.

  11. 11 z

    Não me apetecia ver tv por isso não vi o congresso do psd.

    Espero que não tenham dúvidas que a fleite é o lobo mau que já comeu a avó. Nós somos o capuchinho vermelho. Ela agora vai ser muito boazzzinha, muito preocupada com os novos pobres, com a classe média exaurida, com os valores e a ética na política. Vai estar deitadinha, loura, com muitas olheiras de tanta canseira. Não esquecer que está a caminho de banqueira no Santander Totta e que o outro só foi vice do Barclay’s enquanto o Estado fazia altos negócios com ele, no tempo do tubaroso e do flopes.

    O fumo é um índice do fogo, e o fogo é um índice de políticas e de valores.

    Se há uma coisa que distinguia o PS e o PSD são as áreas ardidas em tempos de um e de outro. São substancialmente maiores, mesmo tremendamente, em tempos de psd, ou pelo menos assim era. O eucaliptal em grandes manchas contínuas é obra do cavaquismo. Tudo começou porque havia um grande projecto para Angola, de uma gigantesca fábrica de pasta, só que Angola foi-se a seguir ao 25 de Abril, e esse projecto, reajustado, chamou-se Soporcel. Juntava-se à estatal Portucel e à sueca Celbi e ainda mais uma ou outra pequenita que já por cá havia.

    A indústria altamente poluente da pasta cá era bom negócio para cloaca, e para a Europa, já que ainda se podia poluir à vontade, a que se juntava mão de obra barata e a amortização dos empréstimos de capital. O papel nem era produzido cá, excepto em quantidades menores na inapa e assim, a pasta refinada ia acrescentar valor lá fora. A Europa financiou.

    E assim veio o ouro verde de miga amagal, a que se juntava outro vértice do sistema, o barreto, álvaro, e um deslandes genro daquele, e outros.

    Para produzir pasta branquinha nada como o eucaliptal. Chupa bem e chupa tudo, e o pouco que ainda podia ficar, de nutrientes incorporáveis no solo, vai-se com os fogos e as chuvadas. Os fogos é porque dá muito jeito, poupa muito trabalho de motosserra e outras máquinas, trabalho especializado e bem pago, o que em Portugal é um mal, e cria condições subjectivas favoráveis a aumentar as margens de lucro na intermediação. Isto é sobre os fogos no eucaliptal, porque depois ainda há os fogos fora do eucaliptal que dantes era para fazer mais eucaliptal – agora já acredito que se façam mosaicos integrados para gerar um fluxo multidimensional de bens e serviços, incluindo a biodiversidade e a fixação de Carbono.

    Quem tutelou a teoria desta coisa, feita em termos de maximizar receitas no mais curto prazo e o resto que se lixe – o resto não existe – foram uns gajos que agora são todos catedráticos – assim se enuncia um expoente máximo da eficiência do capitalismo selvagem: topo de carreira. Completamente inimputáveis creio, excepto pelo tempo longo. Realmente quantas mortes e miséria propulsionaram?

    Quando foi o desastre de 2003, devidamente salvaguardado pela desarticulação de meios que o burroso e a fleite tinham feito entretanto, lá se foi buscar 50 milhões de euros à UE, e já ouvi dizer que ou 2 ou 5 milhões lá foram para esses catedráticos coordenarem um estudo de centenas de páginas onde vinham dizer mais ou menos o que eu tinha escrito em carta ao director do Público, de graça, com o coração em brasa – chamava-se: O Espelho de Portugal.

    Num certo sentido tenho orgulho em ter sido corrido por essa gente da escola que tutelou a doutrina do: eucaliptal->fogo->pasta e muito lucro. Já desde 1991 que eu escrevia contra isso e tentava chamar a soluções equilibradas. Os cavalos também se abatem, mas escouceiam até ao fim. Fiquei no entanto de contas feitas com o meu mestre, que me ensinou biometria e ecologia, e de quem muito gostei. Chamava-se Azevedo Gomes.

  12. 12 z

    e agora que está feita a homenagem ao mestre e o assunto já parece mais tratado, fiquemo-nos por aqui, o diabo vai à água

    já agora: até gosto da Angela Merckel,

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