Interrupção Voluntária do Cavaquismo

Recordo-me do primeiro referendo sobre a despenalização do aborto como se tivesse sido há 12 anos e meio. Fazia parte das mesas eleitorais, tal como acontecia ininterruptamente desde meados dos anos 80, e nunca tinha visto tão pouca gente num acto eleitoral. Aliás, nunca tinha visto o fenómeno de faltarem tantos elementos para as mesas e de não se encontrar ninguém para os substituir, ao ponto de se ter de juntar mais do que uma mesa eleitoral na mesma sala de voto. Isto foi no tempo em que ainda não se pagava nada pela presença, assim que os membros das mesas começaram a receber dinheirinho nunca mais recebi a carta a convocar-me para prestar esse nobre serviço à República e presumo que acabaram as carências em matéria de recursos humanos. Sim, o entusiasmo com a cidadania e a celebração da democracia também têm o seu preço.

Nesse referendo, o calor mandou a esquerda para a praia. Aquela que se dizia ser uma vitória certa, de acordo com as sondagens e a constatação empírica de cada um, resultou numa das maiores surpresas políticas em Portugal. Hoje, o frio poderá fazer o exacto simétrico à direita: não a deixar sair de casa. E sabemos que qualquer aumento da abstenção só penaliza Cavaco, podendo pôr em causa o seu plebiscito.

11 thoughts on “Interrupção Voluntária do Cavaquismo”

  1. Este teu post motivou-me para escrever um também, preocupado com o ar enfadado da democracia.
    A cena dos empregados de mesa é mais um prego no caixão da desgraçada.

  2. “perto do zero seria mais realista”

    Votei agora, são 15.30 do Domingo mais frio que se possa imaginar, olho o sítio da meteorologia na net e esta informa que estamos com 4º de mínima e 10º de máxima nesta capital do Reino, não acredito, estão enganados, perto do zero seria mais realista, deve ser do vento, dizem que parece mais frio, possivelmente verdadeiro.

    Os dados da minha observação na ida e vinda às assembleias de voto são contraditórios, por um lado só jovens na casa dos trinta ou “entradotes” nas franjas dos “sessentas”, onde estão os ditos de meia-idade? As aclamadas forças vivas desta nação que mais tem a perder ou ganhar com isto tudo.

    Nos tempos em que a participação nas mesas era pura militância cívica tinha gosto em participar, hoje não quero ser confundido com os que por falta de convicções e só por necessidade, sempre são mais de setenta euros e a vida está difícil, se mascaram de activos agentes políticos, valha-nos S. Barbara, não vale enganar, a realidade é o que é.

    A baixa participação dos eleitores e o sentido do seu voto vão permitir uma fotografia nítida do país real, se votarem como espero só quatro milhões de portugueses, o que dá uma abstenção nunca vista de sessenta por cento. Assim, teremos seguramente dois em Cavaco, milhão e meio em Alegre, quinhentos mil em Lopes do PC., sendo que não vejo por que raio deve o Nobre ter mais do que o Garcia Pereira nas últimas eleições (30.000), mas mesmo assim, sendo simpático, será um milagre que chegue ao dinheiro, isto é, aos cinco por centos dos votos, ou seja, na casa dos duzentos mil.

    É muito à “pele” nestas minhas contas, teremos uma segunda volta muito interessante, com Alegre a fazer das tripas coração com a meta à vista, se este povo não votar em massa em Cavaco, e porque votaria? Se o resultado for definitivo desde já, não vou imigrar, seguramente será mais agradável ver esta direita reaccionária dar com os “burros” na água dentro de pouco tempo. É o que se diz quando alguém parece que ganha mas na realidade até perde e muito

  3. E não se arranja uma petição para acabar com isso do mercenarismo eleitoral?
    Não acho mal que se pague alguma coisa a quem passa um dia a uma mesa de voto, o equivalente a um prego e uma bebida, por aí.
    Agora ir para lá para arranjar uns cobres, pamordedeus…
    Se a CNE gastasse 30% dos pagamentos aos mercenários numa acção informativa do que é e significa uma eleição, talvez houvesse voluntários suficientes.
    Se calhar sou eu, que sou um romântico incurável, a sonhar alto demais…

  4. Só mesmo na base da petição porque dá mesmo a sensação de que estes cargos remunerados equivalem a pequenos tachinhos-relâmpago, a uns trocos para os partidos poderem chegar a uma faixa mais ampla de militantes, amigos e familiares…

  5. os elementos das mesas ainda têm mais 1 dia de salário à borla, pois faltam na 2º feira sem lhes ser descontado no ordenado.

  6. Sim devem ter sido os jovens e todos os que já tem essa merda do cartão do cidadão.

    O que aconteceu hoje em que milhares de cidadãos foram, efectivamente, impedidos de votar, é uma vergonha!

    E os analfabetos tambem têm de ir á internet? e os idosos?

    Estou fulo com estes gajos!

    Ò valupi, sobre este atentado não escreves nada?

    Bem tentaram…mas nao me impediram de votar no Coelho!!

    miguel

  7. 1 – Votei e, como esperava, o meu voto não serviu para nada. Na minha freguesia houve apenas mais 10 líricos que votaram no mesmo candidato, acho que vou colocar um cartaz a convidá-los para um jantar. Se disser que pago eu devem aparecer uns 100.

    2 – Não se pode extrapolar os resultados de algumas freguesias do Cavaquistão para a generalidade do país, mas estou a assistir a um fenómeno que vai dar que falar nos próximos tempso: o candidato Coelho está a conseguir não só mais votos que Francisco Lopes como mais votos que a soma dos conseguidos há 5 anos pelos candidatos Louçã e Jerónimo Sousa!

  8. Eu tenho a “merda do cartão de cidadão”.
    Já tinha, eu e mais um porradão de gente, nas últimas legislativas, onde tudo correu bem, se não me falha a memória.
    Se o Sr. Miguel tivesse o cartão de cidadão sabia que quando se tira o dito, passado poucos dias se recebe em casa uma cartinha a dizer muito claramente qual o seu número de eleitor e a freguesia onde vota, que por coincidencia é a mesma da morada, conforme uma lei que tem mais de 35 anos.
    Toda essa gente que andava à nora sem saber onde votar, só andava nessas andanças porque perdeu ou cagou para a cartinha, ou perdeu o papel onde tomou nota do número, ou cagou neste trabalhão todo e os outros que o safem.
    Se numa secção de voto não conseguem descobrir qual o numero de leitor de alguém a culpa é do governo, que nunca devia ter desborucratizado nada.
    BI, Cart. Contribuinte, Cartao seg. social, Cartão centro de saude e cartão de eleitor é que é bom e faz crescer, certo?

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