Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Metro de Lisboa, 9 da manhã, terça-feira. Pela quantidade de jornais (à borla) a serem lidos, parece que estamos na Finlândia. Jornais e livros. Eu também vou de livro. É o Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben [Cotovia]. Outros não lêem, mas ouvem sons que trouxeram de casa. Têm auriculares, espalham zumbidos. Um destes insectos coloca-se mesmo ao lado do livro que estou a ler, o Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben. Está tão alto o ribombar naquela cabeça que consegue abafar a chiadeira dos carris. Pasmoso. Olho para o espécimen com censura muda, só para ficar preocupado com a sua saúde. Se fico incomodado com os sons que derrama para fora, como estarão os seus tímpanos, na linha da frente daquela carga sonora? Isto no caso de ainda haver tímpanos, feito que não me pareceu fisicamente possível e que acabei por aceitar como resposta. Tento voltar ao Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben, mas sem conseguir. Do lado esquerdo do livro está outro auriculado. E há mais dois nas imediações deste. A pluralidade revela-se maligna, como sabem os teólogos. Porque começa a tocar um telemóvel. Um telemóvel que não se conforma perante a indiferença humana, continuando a pedir atenção com galhardia. Avalio a situação: está definitivamente comprometida a leitura do Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben. O telemóvel é potente, esforça-se, mas não vence a barreira musical que protege o destinatário. Quem? Qual daqueles rostos imóveis, solenes, com olhares que exibem concentrada introspecção, terá encontrado a vacina contra a angústia do seu próprio telemóvel? Impossível saber. Pelo que fechei o Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben. Capitulei perante os vagalhões sonoros, os ruídos das máquinas e as máquinas de ruídos, juntos maquinando contra a minha leitura. E depois desceu sobre mim uma harmonia. Talvez o dessintonizado fosse eu. Talvez estivesse a ler alto demais, mesmo que em silêncio no meu silêncio. Talvez os outros se tenham sentido grosseiramente sobressaltados por causa da voz de fundo do Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben, levando-os a procurar refúgio na surdez. Sim, quem quer escutar o Ser deve fazê-lo em segredo. Desculpem-me.


  1. 1 Cláudio

    No teu lugar lia em voz alta. Não me bastaria o habitual mover de lábios!

  2. 2 py

    pois, isso de estar atento ao ser requer silêncio, isso é verdade

  3. 3 Anónimo

    boa malha, Valupi!

  4. 4 Anónimo
  5. 5 matamoros

    Acontece-me isso durante 45 m no comboio para S. Bento. Vingo-me: leio S. Basílio ou Ésquilo… em grego.

  6. 6 João Pedro da Costa

    Tou aqui cheio de vontade de desmontar este teu texto. Mas, como é óbvio, vou fazê-lo em segredo.

  7. 7 sininho

    Naquele momento, estavas centrado no ruído. Mais tarde, o ruído trouxe-te ao Ser. Escreves-te a tua Ideia da Prosa.

  8. 8 v

    Ena, o Valupi é escritor.

  9. 9 susana

    o silêncio veste muitas roupagens.

  10. 10 Valupi

    Amigos, sois a gentileza em palavras.
    __

    Primo, honras-me com a tua atenção. Se, porventura, vais esbanjar parte do teu segredo com tão humilde material, então brinda-nos a todos com o resultado.

  11. 11 py

    Vai-se à segunda Valupi.

    Já era altura de la France nos surpreender, carago.

    Brincar de Jeanne d’Arc
    ressuscitada em vez de pôr lá no Eliseu as sobrancelhas daquele búlgaro.

    http://www.portugaldiario.iol.pt/noticia.php?id=800542&div_id=291

    Mas está difícil.
    o nível de participação é que é bem bom.

    py

  12. 12 padeiradealjubarrota

    Delirei. Prosa no metro, tarefa difícil.

  13. 13 py

    sempre gostei do 13

  14. 14 sininho

    Se o Sarkozy ganhar lá se vai a calicracia…

Leave a Reply





Aspirina box

Arquivos mensais

Pharmácias

As Ruínas Circulares
afixe (RIP)
BdE I (RIP)
BdE II (RIP)
de vagares...(RIP)
A invenção de Morel
Sociedade Anónima (RIP)

 

Farmácias de Serviço

 

100 nada
31 da Armada
A aba de Heisenberg
Abrupto
O Acidental (RIP)
Adufe.pt
A Gaveta do Paulo
Agridoce
Alexandre Soares Silva
Almocreve das Petas
Amor e Ócio
António Sousa Homem
Arrastão
As Ruínas Circulares
Atlântico
Avatares de um desejo
O Avesso do Avesso
Babilônia
Babugem
Bada Bing!
Bandeira ao Vento
Barnabé (RIP)
a barriga de um arquitecto
Beco das Imagens
Blasfémias
Bomba Inteligente
Bombyx mori
Bonfim
Blogue dos Marretas
Blogo Social Português
Cabra de Serviço
Caderno de Verão
Caixa de Costura
Canhões de Navarone
Cão de Guarda
Casa de Cacela
Casmurro (RIP)
A causa foi modificada
Causa Nossa
O céu sobre Lisboa
Charquinho
Cibertulia
cinco dias
Cocanha
A Coluna Infame (RIP)
Complexidade e Contradição
Confissão do Silêncio
Conta Natura
Contra a Corrente
Coroas de Pinho
Crítico Musical
Crónicas Matinais
Cruzes Canhoto (RIP)
Daedalus
Daily Make-up
Da literatura
Desesperada Esperança
A Destreza das Dúvidas
Diário Ateísta
É a Cultura, Estúpido!
Em Busca da Límpida Medida
Enresinados
Epicentro
A Ervilha Cor de Rosa
Esplanar
Esquerda Republicana
Estado Civil
a.estrada:
Estrangeiros no Momento
Eternuridade
Floresta do Sul
Fora do Mundo (RIP)
FotoBen
Frangos para fora
french kissin'
Fuga para a Vitória
Fumaças
O funcionamento de certas coisas
garedelest
Gato Fedorento
Geração Rasca
Glória Fácil
Grande Loja do Queijo Limiano
Grupo do Pato
Hipatia
Homem a Dias
:Ilhas
O Insurgente
Intermitências da Corte
A Invenção de Morel
Janela Indiscreta (RIP)
Janela Para o Rio
João Pereira Coutinho
Klepsy´dra
A Lâmpada Mágica
Laranja Amarga
Last Tapes
letra minúscula
Letratura
Malfadado
Mar Salgado
Margens de Erro
Mas certamente que sim!
Meditação na Pastelaria
melancómico
A Memória Inventada
Memória Virtual
A Metamorfose
Miniscente
Modus Vivendi
Muro Sem Vergonha (RIP)
A montanha mágica
Nada Niente
A Natureza do Mal
O Observador
Ó Faxavor...
A Origem do Amor
A Origem das Espécies
Palombella rossa
O Pastelinho
Pastoral Portuguesa
Pedro Chagas Freitas
pequeno blogue do Grande Terramoto
Periférica
pesadelo sem ar condicionado
Pólis & Etc.
Ponto e Vírgula (RIP)
Ponto Media
Pópulo
Portal Galego da Língua
A Praia
Quartzo, Feldspato & Mica (RIP)
Quase Famosos
read me very carefully
Renas e Veados
Rimbaud Warrior
Rititi
Rua da Judiaria
Ruialme
seta despedida
Silêncio
Solvstäg
Sound + Vision
Tempo Contado
Os Tempos que Correm
Tomara-que-caia
Três Pastelinhos
True Lies
Um blog sobre Kleist
O verso dos versos
Vício de Forma
Vidro Duplo
Vistalegre
Voz do Deserto
what do you represent
The world as we know it


© 2006/07 Aspirina B | Powered by TubarãoEsquilo | Editado com Wordpress | afinado por Paulo Querido | Topo