Tinhas 15 anos e a mãe na sala. Escrevi que ia gostar de ti para sempre. Azulejos esverdeados. Era mentira, não se pode gostar de alguém cuja mãe esteja na sala. Mas gostei de ti, para sempre, todo. Fui eu que ofereci o gato. Mesmo quando descobri que não gostavas de ninguém. Gostei das tuas bebedeiras, da tua promiscuidade, tuas traições, tua nulidade, misérias, desgraça. Natal? Gostei de nunca teres gostado de ti. Eras um pássaro cego e a mãe na sala.
Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.
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Podes-te gabar, de que fizeste a maior borracheira de que a estupidez lusitana se pode gloriar. Alguns como tu quando contrariados atribuem-no à estupidez e à “incultura” do povo.
Vocês, com a vossa arrogância, pensam que os outros são uns mentecaptos sublimes no meio de vós que vêm o mundo como ele é. Indícios de desequilíbrio mental no Aspirina B.
O comentário anterior confirma que a estupidez é realmente mais interessante que a inteligência. A inteligência tem limites, a estupidez não.
Magnífico, Valupi. E os tempos verbais que utilizas deram-me a volta à cabeça.
Para o anónimo fica o conselho: fica bem, quando se cita alguém colocar aspas, e indicar o autor da frase…
leio aí uns traços de Lobo Antunes
João Pedro, tu estragas-me com mimos, pá! [please, don't stop]
JCV, e os traços estão no sítio certo?
???
Nem sei bem como entrar nas tuas salas. Sinto-me sempre cheio de cotovelos desajeitados, prontos a deitar ao chão a peça de porcelana de maior estimação.
JCV, era só uma tentativa de puxar conversa, que desenvolvesses a alusão.
Luís, entra à vontade e parte o que te der na gana. Trata-se de fancaria.
o teu texto fez-me lembrar Lobo Antunes, só isso.A forma de usar a segunda pessoa do singular, a forma de “evocar” o futuro …
Obrigado, JCV. Fiquei curioso com a referência ao Lobo Antunes, pois não estava a pensar nele quando escrevi. (and just for the record, estava mesmo era a fazer um pseudo-picanço do Eisenstein)
coisa linda. um ano verde celeste para ti, valupi.
Muito obrigado, Cecília. E que os próximos 12 meses te ofereçam dias de todas as cores.
Estás cada vez melhor, amigo. Cada vez melhor!!
Talvez seja esta a história verdadeira…
Tinha 15 anos e o meu pai ausente. Pensei que ia gostar de ti até ao primeiro dia de chuva outonal. No quarto, os lençois por usar contrastavam com os azulejos esverdeados. As cortinas eram brancas e esvoaçavam. O teu rosto iluminava as partes do corpo que não conhecia. Em frente ao muro que se via da janela inventámos um Natal que nunca chegou, porque choveu antes. Passei noites à procura de uma palavra melhor para te dizer “adeus”. Até que um dia desapareceste sem nada dizer, com um livro do Lobo Antunes debaixo do braço. Esquerdo. Nessa altura, sabia tão pouco do teu corpo biográfico.
Já não tenho 15 anos, mas o gato que me deste continua, imóvel, ao meu colo. Há quem diga que ele é cego. Há quem pense que eu sou uma estátua. Tu nem sabes quem eu sou. Sei que é tarde, mas tento mais uma vez o que já não posso e bebo outro copo de absinto. À tua.
Um pouco mais tarde…
Ou esta…
Foi há precisamente 15 anos. A casa estava deserta e jurámos que íamos gostar para sempre um do outro (apesar de termos descoberto que ninguém sabe gostar de alguém, acreditávamos ser a excepção e não será isso o amor???). Em cada sala havia um espelho e era ao espelho que nos olhávamos. Queríamos pensar sem palavras e beijar sem lábios. Convencidos de que para se gostar basta juntar dois corações. Mesmo quando me deste um gato, sabendo que eu queria um cão, gostei. Mesmo quando tiravas mais um zero do bolso do casaco tweed para trazer novas nulidades à nossa história, gostei. Mesmo quando descobri que para ti o amor era uma traição ao teu futuro, gostei. Mesmo quando me mostraste o post que irias dedicar-me quinze anos mais tarde, gostei. Gostava de ti porque não gostava de mim. Foi num Natal que deixámos de nos ver. Estava cansada das tuas promiscuidades e dos azulejos esverdeados. E ainda por cima tinha descoberto que eras daltónico. Também tinha descoberto que não estavas do outro lado do espelho. Afinal, a daltónica era eu.
Não há nada pior do que um pássaro cego que voe errante dentro de casa, sem perceber onde fica a janela por abrir. é como se as suas asas fossem cegas, também.
valupi
nem sei por que motivo gostei tanto deste teu estranho texto.
não tenho quinze anos, sou alérgica a gatos, detesto azulejos e não consumo bebidas alcoólicas. serei o pássaro cego e só eu não quero ver isso?
ou o pássaro cego és tu?
Violetas, sinto-me honrado com os teus dois exercícios. E apreciei, em especial, a intrincada mistura de ironia e lirismo.
Altostratos, precisamente…
Compota, somos dois pássaros cegos. E vemos isso melhor do que ninguém.
e com esse comentário, estás a ser irónico ou lírico?
Estou a ser sincero. O que talvez seja a consumação do enlace entre a ironia e o lirismo.
Bom, como gostei da resposta, aqui fica mais um exercício …
Para tua desgraça, gostei das tuas bebedeiras e dos azulejos esverdeados. No Natal em que tinhas 15 anos e a mãe na sala
ofereci-te o gato com coleira e um pássaro cego sem gaiola. Foi no dia em que me perguntaste se ia gostar de ti para sempre. E isso é lá pergunta que se faça? Escrevi uma mentira e deixei-te as palavras “promiscuidade”, “traições”, “nulidade” e “misérias” na palma da mão. Mas gostei de ti, para sempre, todo. Apesar de nunca ter tido 15 anos. Percebi que era essa a única forma de os ter para sempre. Saltei um ano em segredo e envelheci de uma vez só enquanto a lentidão do mundo escurecia e a tua mãe acendia o candeeiro da sala para não nos sentirmos os três perdidos.
Poderia estar quinze anos a inventar novas histórias para estas palavras que em tempos foram a tua história. mas parece-me cedo.
QUEM ME DERA TER 15 ANOS.
QUEM ME DERA TER 15 ANOS. ADOREI. ANONYMOUS, CALA A BOCA OU DIZ QUEM ÉS.
QUEM ME DERA TER 15 ANOS. ADOREI. ANONYMOUS: CALA A BOCA OU DIZ QUEM ÉS. LUÍS: TAMBÉM ME SENTI UM ELEFANTE NUMA LOJA DE PORCELANAS, POR ISSO ENTREI DE OLHOS FECHADOS E DEIXEI TODOS OS MEUS OSSOS E A MINHA MEMÓRIA LÁ FORA. JOÃO PEDRO: NÃO FORAM OS TEMPOS VERBAIS QUE ME DERAM A VOLTA À CABEÇA, FORAM AS PALAVRAS SEM TEMPO. JCV: TAMBÉM GOSTAVA QUE DESENVOLVESSES A TEMÁTICA DO LOBO, OU NÃO TENS BAGAGEM INTELECTUAL PARA ISSO?
Nota do traidor apressado, seguida da citação.
Os amantes tudo recordam.
Meminerunt omnia amantes.
Violetas, obrigado. Multiplicaste a minha estória por ti. O que faz com que haja uma história nossa.
CAIXA, obrigado pelas tuas palavras.
Nolens, verdade.