Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.




Toca na imagem se a quiseres ver maior ou se não tiveres alguém a quem dar, ou de quem receber, massagens.

Hoje em dia, e mesmo no dia de hoje, é sinal exterior de cultura afirmar em restaurantes, enquanto se encharca o coto de pão no pires de azeite, que foi Al Gore quem inventou a Internet, dando assim o melhor uso ao tempo livre que lhe caia nas mãos nas diversas, e sobejas, ocasiões em que não conseguia reunir-se com Bill Clinton; por estar este na labuta, coitado, deixando uma parte indelevelmente íntima e substancial de si no exercício da presidência, o que o impelia a ficar na Sala Oral até ao mais indisfarçável e pungente definhamento, contando para o efeito apenas com os préstimos de uma jovem estagiária, e recorrendo à duvidosa ajuda de alguns charutos dominicanos, os quais nunca conseguiu acender convenientemente, apesar das sucessivas tentativas, nalguns casos frenéticas, que até lhe pelaram a barriga do polegar como resultado do friccionar intenso da derme não calejada na rodinha dentada (é o nome técnico da peça) de um isqueiro Bic, dos pequenos, em cor azul-marinho. Ora, quem sabe da génese da Internet, sabe igualmente que a sua principal função, estes anos todos depois, ainda se resume à repetição ad nauseam de notícias idiotas tão ao agrado dos imbecis que sobre elas escrevem. É o que vou fazer já de seguida.


O protagonista da história em causa, a qual entra em qualquer blogue como teste de normalidade à sua fauna produtiva, chama-se Reis Ágoas, sendo o actual comandante da Zona Marítima do Sul, ou do Porto de Faro, ou das duas coisas, pelo menos. No ano passado, recebeu a medalha Turismo 2006, Grau Prata, da Região do Turismo do Algarve — a foto em cima não me deixa mentir. Mas um homem do mar sabe, melhor do que ninguém, e muito melhor do que um motorista de camião ou um piloto-aviador, que há mais marés que marinheiros. Aliás, há mais marés que marinheiros, nadadores-salvadores, pescadores de domingo na zona das Docas e exemplares intactos do Fernão Capelo Gaivota, juntos. Isto para que não escape, seja a quem for, a dimensidade (dimensão + imensidade) do fenómeno maré. Pois bem, aquela medalha, recebida sob os auspícios da sugestiva e alegre campanha Algarve com mais prazer, não chegou para acalmar a fogosidade lutadora de um capitão-de-mar-e-guerra. Em 11 Julho do corrente, despacha edital a proibir a prática de windsurf, kitesurf, kitecross e kitelanding na Ria Formosa e na barra de Faro. Questionado sobre o arbítrio e carácter tirânico da decisão, respondeu com singeleza:

Também estupefacto está o windsurfista profissional do Ginásio Clube Naval de Faro, João Catarino, que acusa o comandante de ter decidido sozinho, sem ouvir as pessoas e entidades envolvidas.

“O comandante publicou o edital e tomou uma decisão sem ouvir os envolvidos: Parque Natural da Ria Formosa, câmara – através da divisão de Desporto –, empresas ligadas à formação e praticantes”. “Foi à revelia de todos”, acusa.

Reis Ágoas diz que “em Fevereiro, informalmente” contactou “com alguns praticantes mais conceituados”. “Motivei-os a terem uma conversa comigo para resolver a situação anárquica em que se encontrava esse desporto na ria. Nunca nenhum lá foi ter comigo”.

E nós acreditamos. O senhor, algures numa tarde de Fevereiro, ajuntou-se a um grupo de praticantes mais garridos e terá dito algo como Ó malta!… Ó pá!… Sim, estou a falar com vós… Olhem lá, isto assim é uma anarquia! Vêm para aqui e fazem o que querem, então como é? Pensam que se conseguem organizar sozinhos no meio de uma ria tão larga, tão espaçosa que um gajo até fica tonto só de pensar nisso, como é?… Passem lá pela capitania do porto para termos uma conversinha… E foi-se embora. Em Julho, fartou-se de esperar. Só não entende quem não quiser.

Ontem, o dia começou com esta declaração na TSF. Trata-se de um documento notável e oportuno, bondoso como poucos, pois se constitui como libelo contra o marketing, dito apenas servir para aborrecer quem vai para a praia. Certíssimo. Mas vindo de um medalhado em turismo, atinge o paroxismo do absurdo — é quase, ou talvez seja mesmo, uma performance político-artística de remissão a Almada Negreiros. Todavia, é na afirmação inicial que está o meu casus belli. Diz o senhor:

Toda a gente sabe como é que começa uma massagem e ninguém sabe como é que ela acaba.

Mas que raio quer o Ágoas dizer com isto? Fiz um pequeno inquérito, que envolveu a minha pessoa e a da minha mãe, e nenhum de nós estava em condições de assegurar um qualquer protocolo consensual para começo de massagens. O assunto não é nada fácil, pois não chega esticar um braço, e meter a mão não sei onde, para se estar, tecnicamente, em situação de massagem. Considero a afirmação do militar de um optimismo excessivo, quiçá pernicioso. Na verdade, o mais frequente é encontrar quem se queixe de não fazer a menor ideia de como iniciar uma massagem, pese embora todo o manifesto e saliente desejo de a fazer. Este é um problema que aflige milhares ou milhões de portugueses, já para não falar dos também aflitos turistas, e o homem do mar está a meter água pela proa com estes considerandos que passam uma imagem do português que poucos estão em condições de confirmar.

Também bizarra é a ideia de ninguém saber como acabam as massagens. O espanto resulta de se aprender, desde os primeiros beijos na escola, que as massagens acabam sempre cedo demais e a saber a pouco. Neste ponto, vejo um laivo autobiográfico, uma insidiosa promoção pessoal onde se venderia uma imagem de amante imaginativo e libidinoso, senhor de um oceano de sensualidade e de secretos mapas do tesouro. Enfim, um certo marketing para animar chás fardados com vista para formosuras risonhas.


  1. 1 Nik

    Já ouvi falar de umas massagens que acabam em punheta, mas não sei se isto interessa para a discussão.

  2. 2 jcfrancisco

    Ou então pode acabar num «after eight», tudo é possível.

  3. 3 z

    punheta? Para isso não é preciso massagens. Sei muito bem como acabam mas não é para falar, ainda aumenta a procura e faz inflação

  4. 4 z
  5. 5 dina

    Além disso o comentário é muito ofensivo para os massagistas professionais que aprendem a ver no corpo apenas as dores e os musculos que precisam de tratamento, que transformam as suas mãos em forças, e que cuidam das pessoas ao dar-lhes um momento onde outros se preocupam com o seu corpo sem que se tenha que fazer seja o que for a não ser estar deitado. Acho que é por isso que são tão caras.

    Na verdade ele deve estar há anos a precisar de uma boa massagem!

  6. 6 shark

    E é na próstata, Dina…

  7. 7 z

    é isso mesmo, é um invejoso, é como o das Neves, não o abominável que esse deve ser amigo a tirar pelo Tintin, o outro

  8. 8 z

    Valupi, olha deixo aí uma coisa boa para a gente não esquecer, se for preciso,

    http://www.theoi.com/Daimon/Hybris.html

  9. 9 rvn

    (…pergunto a mim próprio se a punheta contará como massagem na Ria Formosa… e se não conta, será pois permitida pelo Comando da Zona Marítima do Sul? e o turismo, sim, que me dizem do turismo? afinal o turismo sempre traz muita punheta ao Algarve, há que pensar no turismo.. no país, no fundo)

  10. 10 rvn

    nik, foi bem visto.

  11. 11 z

    exactamente, no turismo e nos valores culturais, na memória, que desde o Endovélico para cá nos fez espalhar pelo mundo

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