Do nefando e do execrável

São José Almeida tem o duvidoso mérito de ter sido das poucas figuras, quiçá a única, com banca no comentariado a pronunciar-se sobre a entrevista de Sócrates ao La Voz de Galicia. O solitário ponto do seu interesse, entre todas as declarações passíveis de análise e reflexão política ou outra, foi o do relacionamento com Costa.

Aproveitando-se de uma exposição pessoal cujo contexto é de violentação da sua privacidade, bom nome e direitos enquanto arguido, a articulista parte para um exercício de reforço dessa violência. Carimba as declarações de Sócrates como “vitimização”, uma forma usual de se achincalharem as queixas ou lamentos de alguém sem se perder tempo a justificar porquê, e recorre ao cardápio do culto do ódio a Sócrates para compor o texto do princípio ao fim – onde se inclui a utilização de supostas escutas de conversas privadas publicadas pelo Sol, o uso da expressão “aos olhos de uma pessoa normal” que remete para a lógica invocada nos recursos judiciais onde Sócrates viu negadas as suas pretensões, e a convocação de António Barreto:

«Como António Barreto já explicou, melhor que ninguém, a 11 de Junho no Diário de Notícias, “A obra-prima de António Costa” foi precisamente a distanciação que conseguiu não apenas em relação ao processo Operação Marquês, mas também, “sem criticar os seus feitos, sem partilhar os erros de Sócrates, sem assumir responsabilidades relativamente aos piores anos de governo de Portugal, António Costa e seus ministros conseguiram, sem nunca o ter feito explicitamente, distanciar-se daquele nefando governo e daquele execrável período”».

Barreto andou anos a despachar textos de estouvada fúria persecutória contra Sócrates. Não é conhecido por mais nada, por mais nenhum contributo, na cena política nacional dos últimos 20 anos. Mas representa paradigmaticamente uma facção da sociedade portuguesa que encontrou na imagem pública de “Sócrates” um buraco negro onde a sua honestidade intelectual e inteligência se afundam para nunca mais voltarem. São José Almeida cola-se ao senhor para assinar por baixo a denúncia de termos tido com o PS, entre 2005 e 2011, um “nefando governo” num “execrável período”, escusando-se assim a ter de explicar o que tal queira dizer. Nefando, porquê? Execrável, porquê? Não explica, porquê? Falta de tempo ou de caracteres disponíveis?

Se excluirmos a banalidade de o terreno político ser, por excelência, um palco de ódios fulanizados nascidos do medo e da inveja, o que fica é fascinante. Se alguém obrigasse a senhora Almeida a justificar as suas convicções, a que se iria agarrar? Achará nefando o que os Governos de Sócrates fizeram no campo do investimento em ciência e tecnologia, na política de exportações, na simplificação da máquina Estatal, no campo dos direitos das minorias e da população em geral, no apoio aos segmentos mais pobres e desfavorecidos, nos programas de educação e requalificação de adultos, na redução do défice, no acesso ao Interior e entre as suas regiões, na aposta nas energias renováveis, no prestígio do País? Achará execrável ver um Governo a enfrentar danos eleitorais consideráveis por tentar até ao limite das suas forças introduzir um verdadeiro sistema de avaliação de professores em vez da farsa vigente há décadas e décadas? Terá visto como coisa execrável o espectáculo de um Governo minoritário, boicotado pelo Presidente da República, a lutar até ao fim para evitar um resgate de emergência que apenas servia os interesses de Passos, Relvas e Portas, e que causou inaudita devastação económica e social ao serviço de oportunistas traidores e de fanáticos lunáticos? Ou ela só consegue avaliar o período em causa adentro do universo das capas que CM e Sol publicaram a respeito?

Nunca o saberemos. Este tipo de prosa não pretende mais do que espalhar a sua aversão, a sua repulsa, o seu nojo. Por ser “opinião” paira nas páginas do órgão “de referência” como se deixasse de pertencer ao “jornalismo”, ficando como mais um esgoto onde se vai bolçar o prato que não caiu bem. É um estilo, e São José Almeida acha-se no direito de encher o seu espaço no Público com sórdida e básica intriga politiqueira, com o gozo de se imaginar a atingir um alvo da sua predilecção afectiva. Muito provavelmente, o semipasquim para que escreve estará igualmente agradado com o resultado.

8 comentários a “Do nefando e do execrável”

  1. José Sócrates diz na entrevista, como temos repetido por aqui bastas vezes, o seu processo é tirado a papel químico do processo Lula em curso no Brasil – utilização do poder para combater a corrupção, temperado com maningancias mediático-judiciais, para fins de política partidária. Curiosamente, no Brasil, o apoio incondicional a Lula é a garantia de sobrevivencia do seu partido. Em Portugal, aconteceu ao contrário. Sócrates foi abandonado à sua sorte. Ninguém se preocupou em denunciar a farsa da perseguição a que foi sujeito, nem a narrativa demagógica da bancarrota nem em reconhecer o papel que decisões estruturais tomadas pelo seu governo, da educação, à infraestrutura, à saúde, à energia, à política industrial, aos regadios,… tiveram na actual dinamica de crescimento actual, em ambiente de alívio na conjuntura financeira internacional. A esquerda portuguesa leva a melhor da brasileira na ilustração da cobardia.

  2. A esse “nefando governo” devemos grandes progressos em direitos cívicos (despenalização da IVG, casamento da gayolada e despenalização do consumo de drogas – uma política cuja eficácia é mundialmente reconhecida), uma perspetiva de desenvolvimento económico e energético visionária, investimentos sérios em educação pública, projetos de desenvolvimento infraestruturais aos quais nunca foi permitido que passassem da gaveta mas que seriam fundamentais, por exemplo, para potenciar o atual período de crescimento económico. tudo interrompido abrupta e criminosamente, em tom de traidor golpe de estado, por uma escumalhada que tem, ainda hoje, alguma justiça e a quase toda a imprensa ao serviço dos seus sinistros interesses. lembrar que esta escumalhada não tem propriamente filiação ideológica e tanto milita à esquerda como à direita e tanto se lhe dá que seja pela frente como que lhe tenha chegado por trás. mas não gostam de marmelo e também almoçam aos domingos – como os restantes.

  3. esse governo foi uma festa !!! ja dizia a não sei quê rodrigues . é só pena termos de ser nós a apanhar as canas dos milhoes de foguetes queimados.

  4. A São José sempre procurou ser “his voice master”, pelo aspecto pessoal na última
    aparição na televisão deixou a impressão que não estava de boa saúde o que, pode
    justificar a fixação contra o antigo P. Ministro! Já o Barreto é um verdadeiro trans-
    fuga que veio da extrema esquerda para ao polo oposto, não esquecer que foi es-
    lha de Cavaco para as arengas do dia da Raça, reformou-se da Fundação e, ao que
    dizem anda a beber umas mistelas depois, semanalmente vomita no DN uma es-
    pécie de “crónicas de maldizer” contra tudo o que não seja da sua direita … ele que
    foi um refractário ao serviço militar no tempo da ditadura de direita!!!

  5. Essa senhora que escreve nesse jornal tem de se aparelhar com o patrão (Sonae), caso contrário poderá ver a vidinha em perigo…

  6. Valupi

    A São José Almeida (e o António Barreto) estão enganados !
    A “obra-prima de António Costa” não é essa.
    A “obra-prima” do actual Primeiro_ministro socialista foi cumprida hoje: DEU UMA ENTREVISTA Á CMTV como se o “Esgoto a Céu Aberto” fosse um canal de TV sério. Permitiu que o Octávio Ribeiro passasse por “jornalista” e sentasse a peida nos sofás do palácio de S. bento, sentado ao seu lado, a “entrevista-lo” !

    Foi para irritar o Sócrates ?
    Foi para gozar com a cara de quem votou nele (Costa) ?
    Foi para mostrar como é um saloio ?
    Ou foi um acto de adulação para não ser caçado por eles quando abrir a época da caça ? … se foi, foi reles, foi parvo, e foi inútil.
    Por enquanto é só.

  7. A São José tal como o Barreto assim como tantos e tantos serviçais corruptos ao serviço da inigualável agência de corrupção que foram os governos e presidências de Cavaco andam aterrorizados com o que poderá ser o final desta história que ainda os poderá, um dia, levar a todos a terem de prestar contas pelo seu contributo de corruptos dado à grande corrupção cavaquista.
    Eles precisam, pelo futuro de si mesmos, que a Narrativa da “culpa” de Sócrates se mantenha viva e sempre actuante para desviar as atenções de suas perfídias colaboracionistas acerca desse tempo de corrupção tenebrosa cujos casos exemplares são o BPN e os submarinos de Durão e Portas, casos acoitados e consentidos, precisamente, na mais alta magistratura do Estado.
    O caso Sócrates foi considerado e tomado como o melhor pretexto para branquear a corrupção generalizada do cavaquismo o que obriga a uma permanente celebração de condenação e execução na praça pública com aplauso e gritos histéricos de bacantes como essa de São José.

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