Devíamos ir todos para o Panteão

Gostava de jantar no Panteão, esse monumento completamente desprezado na cultura e sociedade do rectângulo peninsular até há dias. Ou almoçar. Lanchar. Qualquer coisa menos tomar o pequeno-almoço, por causa do horário antipático. Fascinam-me espaços com um pé-direito de arrebimbomalho. Há nesse efeito arquitectónico uma estética do sagrado, ou uma consagração da estética, que provoca uma alteração de consciência, uma expansão da sensibilidade e da intuição. Para além desta experiência meramente subjectiva, encontro várias razões objectivas para defender o uso do Panteão, entre outros monumentos, para iniciativas festivas particulares. No caso dos jantares, essa é até uma supina homenagem dada a intimidade e o estatuto de uma refeição com aparato solene. Ir comer ao Panteão é tranquilamente uma das mais poderosas e populares formas de celebrar o seu simbolismo e a sua função cívica. Comemos de preferência onde e com quem nos sentimos melhor, esta é a lei universal. Se for perto de mortos, é porque esse mortos estão a fazer parte da nossa comunidade – e não é outra a intenção de se construir e manter algo como um Panteão. Isto liga-se com outro efeito objectivo, o da promoção do monumento, do seu legado histórico e cultural, da cidade de Lisboa e, por fim, de Portugal, que a realização de eventos particulares gera espontaneamente. Pelo que o único ponto a merecer alguma e distraída discussão é o preçário. Duas posições, antagónicas, aparecem legítimas: a daqueles que gostariam que se pedisse muito mais, de forma a ir ao encontro da especial qualidade do espaço, e a daqueles (grupo de que serei eventualmente o único representante) que aceitariam que se pedisse ainda menos, de forma a democratizar o acesso e permitir a mais pessoas desfrutarem do que ficaria como uma maravilhosa recordação: estar a despachar um cherne grelhado e a virar garrafas de vinho num cenário operático com aquela grandeza. Quem diz cherne grelhado diz bacalhau com broa ou bochechas de porco, não quero ferir susceptibilidades.

O que há de interessante nesta polémica esgota-se na figura de António Costa. O primeiro-ministro dos “nervos de aço” correu em ceroulas para o meio da rua a berrar que o último aluguer do Panteão para uma comezaina era uma cena “absolutamente indigna”. Rapidamente ficámos a saber da volumosa borrada que tinha despejado sobre a própria cabeça. Não só a lei que permitia as tais maiores indignidades tinha sido cumprida com absoluto rigor no episódio em que se alvoroçou como ficava no ar a ideia de não ser assim a modos que muito digno estar a reclamar contra algo que desde finais de 2015 já poderia ter alterado centenas de vezes. E a partir daqui só piorou, tendo de vir alegar desconhecimento do programa oficial do Websummit onde foi um dos principais participantes, e alegando desconhecer um jantar do Turismo de Lisboa realizado em 2013 no mesmo sítio e numa altura em que era Costa o principal responsável pela Câmara e pelo próprio Turismo de Lisboa. Isto para não falar nas restantes nove ocasiões anteriores em que os jantares e eventos particulares no Panteão se fizeram para gáudio dos presentes e absoluta indiferença dos ausentes – governantes, políticos e comentadores que apareceram agora aos gritos.

As reacções do PCP e BE são inanes, não merecem o gasto das calorias a falar delas. As reacções do PSD e CDS são desinteressantes, pois limitam-se a serem coerentes com a decadência onde medram. Essas são as mesmas pessoas que demoliram dois monumentos feitos de tempo, os feriados onde adoramos no calendário a instauração da República e a reconquista da Independência. Fizeram-no como instrumento de violência ideológica. Fizeram-no para mostrarem aos estrangeiros do Norte da Europa que estavam dispostos a tudo para castigar os madraços e estróinas do Sul que na sua existência secular de miseráveis e pobretanas tinham vivido “acima das suas possibilidades”. Fizeram-no a salivar de fúria e gozo. Apenas na figura de António Costa é que topamos com algo interessante. Na dele e na do seu Governo e do seu partido. Que significa este destrambelhamento, esta estupidez política?

Significa que Costa pode ser o que de melhor havia para acontecer na política nacional, como o acordo com a esquerda do PS e os resultados económicos e sociais comprovam, mas que, concomitantemente, ele é um líder com inconsistências estruturais. O espanto, talvez fingido, de alguns comentadores por a sua propalada experiência e habilidade política não o proteger de casos tão facilmente evitáveis, e outros onde se deixou cair sem qualquer laivo de inteligência ou sequer esforço para os evitar, só é possível para quem não quis ver o processo de conquista do PS a Seguro em 2014. Está lá tudo, e esse tudo é a imagem de alguém que daria sempre o melhor dos tenentes, mas que tropeça sob o peso da patente de general.

26 thoughts on “Devíamos ir todos para o Panteão”

  1. Valupi e o seu ódiozinho de estimação.
    Independentemente (ou não) do que já foi permitido até hoje nesta republica das bananinhas da madeira, sabe-me bem ver o meu (nota-se que não é o teu) PM a mijar nos cantos para marcar o NOSSO território.
    Só porque sim, porque ainda podemos.
    Se quiseres, podes oferecer os teus préstimos como motorista ou entertainer no próximo evento. Sempre ganhas mais algum e promoves o Aspirina b. Que tal?

  2. gostei.
    ( é esquisito gostarem de comer em jazigos , mas enfim , hoje em dia também adoram filmes de zombies e caçar gambuzinos)

  3. Acho lastimável esta do Valupi a despromover, depreciativamente, o Costa a subalterno. Só que com os resultados que globalmente tem conseguido, bem iriam muitos exércitos em ter tal comandante. Porque o que verdadeiramente importa a um general é que, mesmo que vá perdendo algumas batalhas, acabe no final por ganhar a guerra. É que, com isso, todos teremos muito a ganhar: o País e, muito mais importante, os Portugueses.

  4. Valupi, acho que o António Costa leu o post e ouvi-o a exclamar como diz o outro:

    – Este gajo é demais!

    […]

    António Costa Peixoto: Da tese, da tese… e foi a partir daí que depois da… depois da… da tese que se criou uma certa maior aproximação comigo e com ele… (…) o engenheiro Sócrates é um bocado desorganizado… eu sou muito desorganizado em muita coisa, mas em termos de trabalho não sou, e fazia-lhe as emendas… as sugestões, não era emendas…, tipo até coisas pequenas, quer dizer, coisas… não se escreve, não se escreve… quando é que “demais” é junto ou quando é “de mais”… lembro-me que foi uma coisa que eu até lhe mandei [para Sócrates], mandei-lhe uma coisa do Ciberdúvidas “veja aqui a diferença entre o ‘demais’ junto e o ‘de mais’ separado” que ele tinha lá na tese (…) tanto é assim que ele no fim disse-me: ‘Eu queria agradecer-lhe, não sei como é como hei-de pagar o trabalho que teve’. E eu disse-lhe: ‘Olhe, nem pense nisso’, isso foi pelo telefone, ‘nem pense nisso, isso foi por consideração por si e por amizade … mais nada’”.

    [Nota. Ai que giro, …!]

  5. Oh, Valupi, desta vez parece-me que ficou sem reacção “à Valupi”, com o primeiro comentário, de Vieira! ….Palavra de honra que gostei mesmo…”sabe-me bem ver o meu (nota-se que não é o teu) PM a mijar nos cantos para marcar o NOSSO território. Só porque sim, porque ainda podemos.”
    …. É isso mesmo – AINDA PODEMOS!….
    E convenhamos, um politico não é um mestre de cerimónias ….nem pode ser permanentemente correcto/coerente….
    Quanto ao badalado uso “indecoroso” do Panteão….enfim…. quanto a mim….os mortos ilustres da Nação, que descansam em belos túmulos, tão bem enquadrados na pesada, mas bela arquitectura do espaço, até talvez gostem de sentir a presença dos vivos, em acções de confraternização, em contraste com as visitas “a seco”….

  6. Desde que cedeu irresponsavelvelmente ao lobby anti-eucalipto, da extrema esquerda e do obscurantismo neo-urbano, António Costa deixou de ser, para mim, o Primeiro Ministro de que o país precisa. Mas neste caso não esteve mal. Sem a solenidade dos simbolos vivemos na selva. Fazer uma patuscada no panteão equivale a abrir um forno crematório no Cais do Sodré. Pode ter reparado tarde e ser um bocado cínico a desculpar-se com a lei do anterior governo mas fez bem em acabar com a palhaçada.

  7. Mas porque o Outro devia ter acabado “as obras de Santa Engrácia”?
    Será que Ele sabia que um dia mudavam o nome e o destino àquela igrejinha?
    Ele sonhava com umas missinhas ao Domingo, mas nunca um panteão, porque esse só podia ser no Vimieiro.

  8. Ganda Valupi! Só discordo da exiguidade das sugestões gastronómicas. O que dizes a umas sandes de courato ou um pratinho de caracóis, regados com umas belas bejecas?

  9. ai que riso! que texto tão bom carregadinho de vida, farpas e arrotos! :-)

    leva-me contigo, por favor, Val, vamos jantar os dois ao Panteão. estou mortinha por ir a um preço jeitoso e pagamos a meias. começamos pelo cherne, depois rojões e acabamos com rabanadinhas com muita canela e chá de camomila. ai que conversas entre as garfadas! ai que estou em pulgas! :-)

  10. Que parvoice e que ignorância, desculpa la. Pode contestar-se a existência de um panteão, agora se existe, por definição, tem um caracter sagrado que so pode excluir este tipo de utilização (de resto, ja basta de rastejar diante de palermas como se isso touxesse investimentos, se é para isso façam uma dança da chuva, ha limites porra).

    Ja viste alguma coisa parecida no de Roma, ou no de Paris ? Costa esteve bem. Mais uma vez, o teu problema não tem nada a ver com o que ele fez, ou com o que ele disse mas com o que ele é. Triste… A bloga no seu pior.

    Boas

  11. A bloga no seu pior, esta Viegas?

    Olha, senhor: no Aspirina B de há muito que se censuram os comentários por mais criativos ou simplórios que eles sejam enquanto a ordinarice campeia por aqui livremente e portanto, não, não é verdade que este post seja o pior da blogosfera.

    Ler e dar-se ao trabalho de comentar o Aspirina B por parte dos seus leitores digamos que honestos é, neste momento, fazer figura de urso porque ninguém de fora sabe quais os comentários que estão congelados e porquê, nem os que foram simplesmente censurados.

    E é esse nojo que é o pior em minha opinião, saibam quantos.

  12. Eric,

    Não tenho a certeza de ter percebido o seu comentario. Comentei o post, e não os comentarios. Critiquei pelas razões que menciono : zero argumentos de fundo, nem sequer uma tentativa honesta de perceber que possa haver um problema, post de pura raiva contra o costa porque é costa. Ha pior na blogosfera ? Provavelmente ha. As minhas desculpas pelo excesso retorico.

    Quanto ao resto, nunca fui censurado pelo Valupi até hoje. Não sei se censura outros, mas no meu caso não o faz, o que aprecio.

    E finalmente, uma vez que critico o Valupi por atacar o costa enquanto costa, seria incoerente atacar o Valupi enquanto Valupi, ou mesmo enquanto “blogger”. Julgo não o ter feito, nem hoje nem nunca. Se por acaso o fiz, fiz mal.

    Em conclusão, o meu comentario não é sobre o Valupi, que não conheço, nem sei se existe, nem quero saber. E’ sobre o post. Nada mais.

    Boas

  13. De raspão, Viegas.

    Como eu disse os leitores do Aspirina B fazem figura de urso porque não se conseguem entender sequer a não ser que, cada um de nós e por si, faça um esforço intelectual suplementar e imagine que existem em cada tópico comentários congelados ou censurados.

    Ora, como não se viver aqui no prédio e há coisas + interessantes que fazer… ficamos assim, alerta à navegação.

  14. os Deuses também comem, joão viegas, e daí também eu querer lá ir jantar :-), e as almas gostam de se alimentar. aqui há coerência – ao contrário da diatribe de Costa.

  15. Parvoice, Olinda, desculpa la. Queres comparar as refeições sagradas e os sacrificios rituais com um jantar oferecido a uma corja de nerds que vêm aproveitar uns restos de calor a Lisboa, fingindo que trazem a panaceia do investimento estrangeiros a meia duzia de papalvos embasbacados ? Queres mesmo ?

    Tem juizo e, ja agora, tu que gostas tanto de etimologias, trata de abrir um dicionario na palavra “sagrado”.

    Boas

  16. Senhores/as: eu acho é que deveriam ler as memórias do Esculápio que estão maravilhosamente escritas, não apenas as ditas mas os vários artigos sobre o que era o universo pantagruélico existente pelas tascas da Lisboa de antanho (foneticamente aquilo sugere-me panteão, servos e habitantes seremos no Panteão do Prazer).

    Está por aqui, por exemplo, servido em bocadinhos e com uma homenagem ao povo da Galiza:
    http://asreceitasdaavohelena.blogspot.pt/search/label/Eduardo%20Fernandos%20%28Escul%C3%A1pio%29

  17. Não existe sem o altamente profano, mas também não existe sem separação do altamente profano…

    Continuo à espera de exemplos comparaveis no Panteão de Roma, ou noutro qualquer. E’ verdade que os romanos não têm o culto tão genuinamente português da boçalidade, bem representado neste blogue…

    Boas

  18. “ Não só a lei que permitia as tais maiores indignidades tinha sido cumprida com absoluto rigor no episódio em que se alvoroçou ”

    Conhece a lei ?
    Sabe a diferença entre uma lei e um despacho ?
    E já ouvir falar de “legislação portiana “ ( de Portas ) ?
    Parece que não.
    Quando um texto ( no caso um despacho ) refere que a autorização fica dependente de autorização, e, – aparentemente – salvaguarda eventuais indignidades, mas expressamente contempla o Panteão, como local elegível ( porque no anexo ao despacho, está uma tabela com tarifário para cocktail e almoço no monumento em questão ) estamos perante o quê ?
    Pois é : chuva em Novembro, Natal em Dezembro .
    Quanto às suas aspirações gastronómicas, sugiro-lhe o Restaurante Sardão, a dois passos das Morgue .
    Também não conhece Passos ? Foi o que nomeou o calhau com óculos redondinhos, que assinou o despacho .
    Em boa verdade, o melhor local para sí, é mesmo o chão, onde pode degustar umas migalhas, atiradas por socartes .

  19. estás à espera de exemplos da minha parte, joão viegas? vais ficar desapontado porque nem sequer vou pensar nisso. o que eu sei, e acredito, isso é sagrado, é que são as profanices comuns tratadas de forma incomum que conduzem à excelência na Cidade.

  20. Ola,

    O que eu percebo do teu comentario é que não fazes a mais pequenina ideia do que significa “sagrado” nem do que significa “profano”. Nem queres saber, alias. O que constitui com certeza uma optima base para opinares sobre a questão,…

    Boas

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