Deliciosa desgraça

Os mortos de Pedrógão e o aparente assalto em Tancos foram festejados exuberantemente pela actual direita partidária, pela indústria da calúnia e pela classe dos jornalistas vulgares. A uni-los a mesma satisfação na expressão descontrolada da agressividade e da violência verbal. Uma questão de adrenalina, mas também de dopamina e serotonina. A depressão causada pelas boas notícias para o País e para os portugueses foi substituída pela euforia resultante da catástrofe, da tragédia e do pânico. O caudal de acusações, centradas na abstracção do “Estado” e na indefinível “resposta” do actual Governo, permitiu reunir no mesmo festim os pulhas do costume, os fanáticos profissionais e, para surpresa dos incautos, certas vozes que tomamos como ponderadas e activas no acrescento de salubridade para o espaço público. Podemos usar como exemplo paradigmático este texto: Estado de desgraça

Anselmo Crespo recreia-se a colar com cuspo banalidade atrás de banalidade, caricatura atrás de caricatura, numa juliana de vacuidades que foi registando ao longo dos dias nas leituras dos colegas de comentariado. A retórica escolhida, muito provavelmente num automatismo insciente, é um misto de registo coitadinho a rasar o lamechas com o desvario hiperbólico do tabloidismo e da demagogia mais básica. Exemplos:

«E foi quando se começou a perceber que a demissão de um ministro, por si só, não resolvia os problemas, que se começou a aplicar a velha estratégia do "empurra com a barriga"."»

«Aquilo a que assistimos nas últimas semanas, quer no caso de Pedrógão quer no de Tancos, foi a dois ministros completamente desorientados, a cumprir ordens do primeiro-ministro, do Presidente da República e dos assessores de imprensa, sem a menor noção do que fazer.»

«No caso de Pedrógão Grande, continua o jogo do passa-culpas, tocam-se uns requiens com a presença do Presidente da República, mas continua-se sem dar resposta à pergunta mais importante: aquelas 64 pessoas tinham que morrer? Tinham, senhora ministra?»

É a cassete dos “malandros dos políticos”, bando de corruptos e incompetentes que muito aborrecem os santos e geniais jornalistas que têm de relatar as suas actividades e ainda opinar a respeito. Mas é mais. É também a exploração, aqui consciente, do ódio larvar nas audiências a quem estas peças se dirigem, não hesitando em apontar para uma governante e dizer que ela foi responsável pelas mortes do incêndio de Pedrógão. Como é que o valente Anselmo consegue estabelecer esse nexo? É o próprio que o explica ao abrir as cortesias:

«A tragédia de Pedrógão Grande e o assalto aos paióis em Tancos são dois casos completamente diferentes, apenas com uma semelhança: o falhanço do Estado. E não, não é preciso esperar pela investigação da Polícia Judiciária ou pelas conclusões da comissão independente - que nunca mais ata nem desata - para chegar a esta conclusão.»

E não, não, não e não. De facto, não é preciso gastar mais do que meia caloria para concluir que a velocidade a que o autor chega às conclusões que lhe dão jeito tem como consequência o despiste da sua inteligência pela ribanceira do sensacionalismo abaixo. Donde, a questão: qual a finalidade de exercícios como este, neste meio? Sendo o resultado prático da leitura do texto o encontro com a decadência intelectual e cívica a que ele nos conduz feliz da vida, podemos igualmente concluir que estes jornalistas de uma opinião que se contenta em chafurdar na impotência são parte da tal desgraça que os alimenta e embriaga.

6 comentários a “Deliciosa desgraça”

  1. Pensar, racionalizar, associar e ligar logicamente esses acontecimentos ou factos, ainda para mais, quando eles são tão imprevisíveis e complexos como os incêndios na mata quase inacessível e o seu combate feito por homens e meios falíveis, dá muito trabalho e muita perda de tempo.
    O Anselmo está lá no jornal de rabo gordo sentado no cadeirão sob o fresquinho do ar condicionado (fogo, armas, guerra, ora merda o que é isso, o que vale isso!) não tem tempo para perder tempo a pensar nisso, tem mais que fazer, precisa despachar rápido e concluir speedy. Daí vai ao que está mais à mão e os amigos políticos já indicaram como culpados: apontam e dizem Estado, para dizerem governo, apontam e dizem ministros para dizerem primeiro ministro, dramatizam e elevam o mediano e medíocre ao valor e escala e mais elevada: enfim fazem coro contra o Estado que há para a golpe e golpadas impôr o seu, deles Estado infalível.
    Este Anselmo, tal como muitos jornalista, opinadores, comentadores, politólogos, fedorentos governos sombra, Passos Coelho e Pacheco Pereira não são como os outros, são piores.

  2. Eles são os Anselmos; eles são, os Bernardos; eles são os Ricardos (o mano); eles são os Zé Gomes Ferreiras; eles são os Baldaias; eles são os Davides Dinis; eles são os Zé Maneis Fernandes; eles são as Helenas Garrido; eles são os Pedros Marques Lopes; eles são os João Maneis Tavares; eles são os Danieis Oliveira; eles são as Claras Ferreira Alves, etc. etc., eles são a “súcia” da direita e que essa direita arregimentou para poluir toda a comunicação social que por aí anda e que, no fim, só tem como missão tentar derrubar o governo e trazer de volta os seus amigos pafiosos. Só que, a trampa exposta ao ar começa a cheirar mal, e os portugueses já se vão apercebendo desse mau cheiro. Daí, a queda abissal das tiragens dos pasquins e das audiências televisivas, nesses esgotos a céu aberto que são as SicN, as Rtp3 e as TVI24, tudo, tudo ao serviço da direita mais reacionária.

  3. Não esquecer s.f.f o canal 1 rtp pago pelo povo.
    Não vejo nada em directo para poder correr as imagens e escolher o que parece ter algum interesse.
    Hoje era importante verificar :
    – o telejornal da 1 abriu com declarações escolhidas duma direita que levou um arraso dum bem informado e seguro Primeiro Ministro e partidos da coligação.
    Também como cabeça de cartaz o antigo Presidente do Brasil Lula da Silva que claramente mostram como alusão ao Ex. Primeiro Ministro José Sócrates e seus comuns inimigos figadais os juizes justiceiros que almejam o poder político e seguem difamando sem acusação.
    Não se pode ver notícias nacionais.
    Todos os mencionados por “anónimo” falam entre si e fingem opiniões próprias.
    Vale que já vão embirrando entre si como comadres sedentas de atenção especial.
    Desgraça, embrutecimento geral.
    Todos “me too, me too, me too”.
    Deveriam juntar-se num só i.é. em cooperativa “we all” mãnhas .
    As mesmas primeiras páginas, os mesmos alinhamentos, as mesmas palavras condicionadoras e manipuladoras.
    Miséria total.
    Um fim triste para este bando de amigalhaços ditos opinion leaders à la laranjofelicia.
    Um mau serviço afinal para seus amos.

  4. estão numa de voyeurismo para não se preocuparem com cativações , revaliação de activos , empurra com a barriga do contabilista Centeno ?

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *