Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Parece que se instala antes a lei da selva no jornalismo, que acabará por sair prejudicado, pois as fontes confidenciais perderão a confiança nos jornalistas e deixarão de lhes transmitir informação.

Provedor dos Leitores do Público

*

Espectacular sofisma de Joaquim Vieira, o último de quem se esperaria tal erro dada a sua função e correctas tomadas de posição neste imbróglio. Realmente, se tudo se resumisse à categoria informação, o DN teria violado a deontologia ao publicar as tais informações que lhe chegaram por fonte que pretende ficar anónima. É óbvio, não mereceria qualquer discussão. Só que estamos noutro campeonato, o da intensa discussão. Ou seja, o que aconteceu não é óbvio. Melhor, a publicação de emails entre jornalistas do Público, onde se descreve uma conspiração tentada, apresenta uma óbvia antinomia: entre os interesses do Público e os interesses do jornalismo. É que eles não correspondem, e espanta que Vieira não só ignore, como perverta a lógica do caso.

A tese que defende é a que José Manuel Fernandes tem usado desde a publicação das noticias em Agosto – sustentar que as suspeitas de vigilâncias eram reais e que a sua divulgação tinha sido permitida pelas autoridades da própria Casa Civil. Visto assim, o Público tinha feito muito bem em dar à estampa a novidade, pois havia no paranóide clima psicológico uma legítima, relevante e urgente matéria jornalística. Problema fundamental nesta questão toda: há uma contradição insanável entre as responsabilidades da Casa Civil, sob tutela unipessoal do Presidente da República, e a utilização anónima de um órgão de comunicação social para uma sua intervenção institucional. Pura e simplesmente, e logo na origem, a notícia do Público transcendia os códigos jornalísticos e constituía-se como acção política. A neutralidade era impossível, sequer foi tentada. Por um lado, a notícia garantia estar autorizada, por outro lado, impedia uma directa responsabilização ao manter anónima a sua fonte. Em termos institucionais, portanto, estávamos numa esquizofrenia. A notícia era e não era para levar a sério. Dava para todos os gostos e usos, mas só até ao momento em que Cavaco a confirmasse ou desmentisse. Ora, nem uma coisa nem outra ele fez, antes pelo contrário.


Quando Joaquim Vieira discorreu acerca das notícias de Agosto, e para fúria do Zé Manel, apontou com toda a clareza as marcas de uma óbvia manipulação jornalística ao serviço de um propósito político específico. Só faltava saber quem tinha sido o directo mandante, posto que o Presidente da República estava refugiado numa ambiguidade calada e conivente com os efeitos perversos obtidos com a divulgação das suspeitas. Descobrir essa fonte era da maior importância, até para salvaguarda do bom nome da Casa Civil, a qual estava a ser usada de forma irregular e para fins ilícitos em plena campanha eleitoral. Acima de tudo, esclarecer o caso das escutas era um imperativo de justiça jornalística e política, posto que ele tinha sido montado com fins exclusivamente eleitorais e estava a ser uma peça influente na campanha. O que o Público tinha feito em conluio com a Presidência, sem lugar à menor dúvida, estava fora de qualquer deontologia entre jornalistas. É que, ó Joaquim e Zé Manel, antes da Carteira, os jornalistas têm um BI. São cidadãos, passíveis de serem gravemente prejudicados nos seus direitos civis pela existência de conspirações elaboradas por colegas jornalistas.

Aliás, já aquando da entrevista de Cavaco ao Público, 12 de Setembro de 2008 e conduzida a solo pelo Zé Manel, o Provedor dos Leitores assinalou a anomalia. Essa peça tem de ser colada ao caso das escutas e aos emails divulgados e não desmentidos. Comprova que a aliança entre o jornal e Belém era total e remontava ao período da saída de Menezes e entrada de Ferreira Leite, pelo menos. As perguntas que temos para fazer a seguir, uma vez estabelecido o padrão conspirativo, em nome da nossa democracia, da nossa dignidade e do básico respeito pelo Estado de direito, são as seguintes:

- Quando começou o jornal Público a ser usado para fins políticos pelo Presidente da República?

- Quais os recursos oficiais da Presidência que foram alocados aos exercícios conspirativos que dela emanaram?

- Quais os nomes dos envolvidos nas conspirações desenvolvidas na Casa Civil?

- Quando é que Cavaco apresenta a sua resignação?

Estas perguntas serão desadequadas? O caso não justifica mais esclarecimentos? Devem os jornalistas ignorar a política e ficar-se pela discussão do jornalismo? Pode o Presidente da República desempenhar as suas funções depois dos atentados à Constituição que protagonizou ou dos quais é conivente? Será que, como escreve Joaquim Vieira acima, o que mais importa é o discorrer abstracto acerca da informação e suas fontes ou, como assumiu o DN – e é essa a mais nobre missão do jornalismo – o que não se admite é a deformação, especialmente ao nível institucional a que estava a ser feita e nos intentos de favorecimento de um partido, e prejuízo doutro, em período eleitoral?

Providencia lá umas reflexões deste jaez aos leitores, Joaquim.


  1. 1 João Pedro da Costa

    Já nem me lembrava dessa entrevista, primo. E tudo somadinho dá uma evidência cristalina. Mas é preciso somar.

  2. 2 Carlos Esperança

    As perguntas são pertinentes e o silêncio de Belém envenena a saúde da democracia.

  3. 3 z

    portanto o Publico também condena o cavaco, pelos vistos declara que sucumbiu por hara-kiri no dia da comunicação. Realmente sucumbiu porque não desmentiu nem confirmou um cabeçalho ‘fracturante’ de 18 de Agosto, durante todo o tempo da pré&campanha deixando-o a fermentar no ar, como suspeição contra o Governo. Um Presidente não pode fazer isto.

    entretanto o marcello não pára,

  4. 4 z

    nem mais.

  5. 5 Militante do PCP

    É uma leviandade falar na resignação do Presidente da República. Isso é lá assunto que se trate com esta ligeireza? Não gosto do Cavaco, mas não sou capaz de levar tão longe a minha aversão. Também deveríamos ter pedido a resignação do Sampaio quando decidiu nomear o Santana? Este acto, foi bem pior para a súde política do país!

  6. 6 aires bustorff

    Subscrevo vivamente teu paragrafo sobre as “perguntas” de que temos que ter uma resposta cabal, hoje, após eleições legislativas e autarquicas, e dos varios dados vindos a publico :

    “- Quando começou o jornal Público a ser usado para fins políticos pelo Presidente da República?

    - Quais os recursos oficiais da Presidência que foram alocados aos exercícios conspirativos que dela emanaram?

    - Quais os nomes dos envolvidos nas conspirações desenvolvidas na Casa Civil?

    - Quando é que Cavaco apresenta a sua resignação?”

    e já agora acrecento mais uma sobre

    que mais dossiers existem e foram coligidos sobre cidadãos na e pela Presidencia…

    Abraço

  7. 7 Kjung

    Quanto a saber quando resigna o presidente, uma pequena história. Era uma vez Sampaio presidente e promulgou uma lei quando, parece, havia deputados que assinaram o livro de presenças e não estavam na sala no momento da votação. Sampaio, como devia, entre a informação do Presidente da Assembleia da República que lhe confirmava, por escrito, estar a acta correcta e informações jornalísticas que, a posteriori, asseveravam o contrário, promulgou a lei. Por tal facto, na altura, o Dr. Paulo Rangel exigiu publicamente a demissão do Presidente da República.

Leave a Reply





Intervenções cirúrgicas

Toma mensal

Pharmácias

As Ruínas Circulares
afixe (RIP)
BdE I (RIP)
BdE II (RIP)
de vagares...(RIP)
A invenção de Morel
Sociedade Anónima (RIP)

 

Farmácias de Serviço

 

100 nada
31 da Armada
A aba de Heisenberg
Abrupto
O Acidental (RIP)
Adufe.pt
A Gaveta do Paulo
Agridoce
Alexandre Soares Silva
Almocreve das Petas
Amor e Ócio
António Sousa Homem
Arrastão
As Ruínas Circulares
Atlântico
Avatares de um desejo
O Avesso do Avesso
Babilônia
Babugem
Bada Bing!
Bandeira ao Vento
Barnabé (RIP)
a barriga de um arquitecto
Beco das Imagens
Blasfémias
Bomba Inteligente
Bombyx mori
Bonfim
Blogue dos Marretas
Blogo Social Português
Cabra de Serviço
Caderno de Verão
Caixa de Costura
Canhões de Navarone
Cão de Guarda
Casa de Cacela
Casmurro (RIP)
A causa foi modificada
Causa Nossa
O céu sobre Lisboa
Charquinho
Cibertulia
cinco dias
Cocanha
A Coluna Infame (RIP)
Complexidade e Contradição
Confissão do Silêncio
Conta Natura
Contra a Corrente
Coroas de Pinho
Crítico Musical
Crónicas Matinais
Cruzes Canhoto (RIP)
Daedalus
Daily Make-up
Da literatura
Desesperada Esperança
A Destreza das Dúvidas
Diário Ateísta
É a Cultura, Estúpido!
Em Busca da Límpida Medida
Enresinados
Epicentro
A Ervilha Cor de Rosa
Esplanar
Esquerda Republicana
Estado Civil
a.estrada:
Estrangeiros no Momento
Eternuridade
Floresta do Sul
Fora do Mundo (RIP)
FotoBen
Frangos para fora
french kissin'
Fuga para a Vitória
Fumaças
O funcionamento de certas coisas
garedelest
Gato Fedorento
Geração Rasca
Glória Fácil
Grande Loja do Queijo Limiano
Grupo do Pato
Hipatia
Homem a Dias
:Ilhas
O Insurgente
Intermitências da Corte
A Invenção de Morel
Janela Indiscreta (RIP)
Janela Para o Rio
João Pereira Coutinho
Klepsy´dra
A Lâmpada Mágica
Laranja Amarga
Last Tapes
letra minúscula
Letratura
Malfadado
Mar Salgado
Margens de Erro
Mas certamente que sim!
Meditação na Pastelaria
melancómico
A Memória Inventada
Memória Virtual
A Metamorfose
Miniscente
Modus Vivendi
Muro Sem Vergonha (RIP)
A montanha mágica
Nada Niente
A Natureza do Mal
O Observador
Ó Faxavor...
A Origem do Amor
A Origem das Espécies
Palombella rossa
O Pastelinho
Pastoral Portuguesa
Pedro Chagas Freitas
pequeno blogue do Grande Terramoto
Periférica
pesadelo sem ar condicionado
Pólis & Etc.
Ponto e Vírgula (RIP)
Ponto Media
Pópulo
Portal Galego da Língua
A Praia
Quartzo, Feldspato & Mica (RIP)
Quase Famosos
read me very carefully
Renas e Veados
Rimbaud Warrior
Rititi
Rua da Judiaria
Ruialme
seta despedida
Silêncio
Solvstäg
Sound + Vision
Tempo Contado
Os Tempos que Correm
Tomara-que-caia
Três Pastelinhos
True Lies
Um blog sobre Kleist
O verso dos versos
Vício de Forma
Vidro Duplo
Vistalegre
Voz do Deserto
what do you represent
The world as we know it


© 2006/07 Aspirina B | Powered by TubarãoEsquilo | Editado com Wordpress | afinado por Paulo Querido | Topo