Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



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Fernando Pessoa é um português como nunca houve, nem ele. Viveu pouco, se medirmos o tempo; viveu demais, se conhecermos a obra. Não precisou de viajar para Paris, Londres ou Nova Iorque em ordem a vangloriar-se de ser moderno, de ter conhecido a civilização. Ele foi, nos passeios da Baixa e margem do Tejo, uma civilização oblíqua.

Pessoa não é só o gigante literário que envergonha o falante de língua portuguesa que nunca o leu, nem a personalidade prolixa que trabalhava em escritórios, ilustrava tertúlias, fazia horóscopos, matava-se com aguardente e escrevia cartas de amor absolutamente ridículas. Também foi um publicitário, um supremo criador a fingir de vulgar criativo. E quis a ironia das circunstâncias que trabalhasse a marca mais importante na História das marcas, a Coca-Cola. O Quinto Império ao serviço do novo imperialismo, o consumo.


Correm duas versões sobre o episódio. A mais fidedigna diz que o mítico sloganPrimeiro estranha-se. Depois entranha-se. — chegou a sair à rua. Por sua causa, a Direcção de Saúde encontrou argumentos para proibir a venda do champanhe americano, alegando que era um estupefaciente, efeito descrito na própria frase promocional e consequente com o nome do produto. Se o não fosse, então tratar-se-ia de publicidade enganosa. Em qualquer dos casos, a Coca-Cola estava condenada a ter de esperar pela Revolução dos Cravos para voltar a espalhar o seu perfume. A outra versão é mais curta, e mais incerta. Diz apenas que o cliente chumbou a proposta do poeta. A moral caramelizada destas duas anedotas parece intemporal: uma campanha publicitária pode acabar com um negócio, ou, até um génio pode ver o seu trabalho chumbado pela clientela.

Ainda hoje está por publicar mais de metade dos cerca de 27.000 documentos que o remexido baú de Pessoa contém. Foi só há 20 anos que se deu a conhecer, em edição “completa”, o Livro do Desassossego; o opus sem topos pessoano, o livro que não é, nem nunca poderá ser, um livro. Que há de relevante nesse projecto inacabável, abismo de uma consciência lancinante e impiedosa, matéria de infinitas versões para investigadores, que cative uma audiência de publicitários e designers no ano da graça de 2004? Nada. Mas para aqueles que pensam, tudo. Trata-se, afinal, de uma questão de prioridades: para um criativo, e antes de qualquer execução, ser profissional implica ser intelectual. Os (ai) de nós que cultivem a pose anti-intelectual — por preguiça, incapacidade, más companhias ou infortúnio — estão destinados a trabalhar em fábricas, por falta de escolaridade.

O trecho que segue em transcrição é um fragmento de um fragmento. Aliás, o Livro do Desassossego é uma colecção de fragmentos, sem outro fio condutor que não seja a visão literária de quem fez da lucidez radical o seu ethos. Nesta passagem, escolhida por abordar um tema de comunicação que tem paralelo com a nossa actividade, encontramos um raro e autêntico breviário do processo criativo.

Acrescentar palavras depois da leitura do texto seria um insulto à inteligência dos ilustres leitores. Que fique só esta nota: a maioria da gente com que lidamos nas agências e nos clientes enferma de não saber que a criatividade é uma parte de inspiração para nove de coragem — a coragem que arrisca o estilhaçar dos preconceitos estéreis que se escondem em cada cliente, em cada gestor de agência, em cada criativo; a coragem que ousa confiar na intuição daqueles que se dedicam à dilacerante arte de irrigar o deserto, gajeiros de amorosas ilhas. Nada disto irá mudar, sabemo-lo; mas, pelo menos, há que definir bem a nossa espiral.

117.

A maioria da gente enferma de não saber dizer o que vê e o que pensa. Dizem que não há nada mais difícil do que definir em palavras uma espiral: é preciso, dizem, fazer no ar, com a mão sem literatura, o gesto, ascendentemente enrolado em ordem, com que aquela figura abstracta das molas ou de certas escadas se manifesta aos olhos. Mas, desde que nos lembremos que dizer é renovar, definiremos sem dificuldade uma espiral: é um círculo que sobe sem nunca conseguir acabar-se. A maioria da gente, sei bem, não ousaria definir assim, porque supõe que definir é dizer o que os outros querem que se diga, que não o que é preciso dizer para definir. Direi melhor: uma espiral é um círculo virtual que se desdobra a subir sem nunca se realizar. Mas não, a definição ainda é abstracta. Buscarei o concreto, e tudo será visto: uma espiral é uma cobra sem cobra enroscada verticalmente em coisa nenhuma. [...]

in Soares, Bernardo – Livro do Desassossego (Edição e Introdução de Richard Zenith), Assírio e Alvim, Lisboa, 1998, p. 140.

Nota: este texto foi publicado na revista ALICE, do Clube de Criativos de Portugal, sendo aqui vertido com ligeiríssimas alterações formais.


  1. 1 sininho

    Pessoa sabia o que era beber vício. Sabia-o tão bem que reconheceu esse sabor na Coca-Cola
    A minha Mãe disse-me algures no tempo que quando experimentou, pela primeira vez, uma Coca-Cola bem gelada, numa esplanada com vista de mar e um calor abrasador, sentiu as palavras do Pessoa a refrescarem-lhe o corpo e a mente.

    Interessante é que nos múltiplos Desassossegos de Pessoa, ele não só prova como comprova, com palavras.
    Não quer acreditar naquilo em que acredita.

  2. 2 Anónimo

    Valupi,

    Eu que trabalho numa fábrica de colchões de molas não fiquei nada, nada, nada impressionado com as tentativas do Pessoa para definir “espiral”. Uma espiral, em cone, ou parafuso, tem fim, sim senhora, ora essa! E uma cobra não precisa de estar enroscada a nada para formar uma espiral. Se estiver enroscada num cabo de vassoura não alterará a formação da dita mesma. E pode enroscar-se tambem horizontalmente, que não será por isso que vai deixar de ser uma espiral. Mas também pode ser que seja eu que não perceba nada de astrologia (herpetologia é o meu forte) e que queira forçar a minha própria definição.

    Seja como for, espero que o baú não esteja as abarrotar com muitas como essa. Ai, os mitos, os mitos.

    Agora a Coca(ina)Cola, sim, é uma excelente marca. Mas o meu avô sempre preferiu o Vinho Mariano, precursor da dita e até da Coca Bola. Ele, o papa e cardeais desse tempo. Salazar fez muito bem em proibir a mistela, que agora tem outros venenos muito falados na internet das conspiraciones reales. Não queiras entranhar isso nos meninos dos vizinhos. Passa a palavra à agência onde o Pessoa trabalhou, se ela ainda existir.

    TT

  3. 3 py

    já agora para quem quiser, as equações paramétricas da espiral:

    x=a sin (t), y =b cos (t), z=ct,0já agora para quem quiser, as equações paramétricas da espiral:

    x=a sin (t), y =b cos (t), z=ct,0<=t<2 Pi

    Há espirais malucas na net. Paf!

  4. 4 pva

    O termo técnico correcto para aquilo a que Fernando Pessoa chama “espiral” é “hélice”: “espiral” é uma curva PLANA que dá infinitas voltas ao mesmo ponto (aproximando-se indefinidamente dele num sentido, e afastando-se para infinito no sentido oposto). Claro que uma hélice vista em perspectiva acaba por desenhar uma espiral (como aliás ilustra a foto).

  5. 5 susana

    já agora, pva, o nome técnico não é perspectiva, é rebatimento…
    é giro como o «prova e comprova» da sininho se liga ao «estranha-se e depois entranha-se».

  6. 6 susana

    e daí, perspectiva está certo.

  7. 7 Valupi

    Mau… Então, mas querem lá ver que o homem não sabia o que era uma espiral?!… É o fim do mito, a ruína de um “grande português”.

    A agência onde ele trabalhou já não existe, coitadinha.

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